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Estudo mostra que 4 milhões de pessoas estão sob domínio armado no Rio

Fragilidade do Estado e desigualdades sociais ampliam poder de facções

Rafael Car­doso — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 04/12/2025 — 15:53
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 30/10/2025 – Pessoas passam em moto na praça da Vila Cruzeiro ao lado de barricadas que foram colocadas para conter avanço de policiais durante a Operação Contenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

A Região Met­ro­pol­i­tana do Rio de Janeiro tin­ha, em 2024, cer­ca de 4 mil­hões de pes­soas viven­do sob con­t­role ou influên­cia de gru­pos arma­dos, número que cor­re­sponde a 34,9% da pop­u­lação e 18,1% da super­fí­cie urban­iza­da habita­da. 

Os dados são da nova edição do Mapa Históri­co dos Gru­pos Arma­dos, elab­o­ra­do pelo Grupo de Estu­dos dos Novos Ile­gal­is­mos (GENI/UFF) e pelo Insti­tu­to Fogo Cruza­do.

Entre 2007 e 2024, essa área cresceu 130,4% e a pop­u­lação atingi­da aumen­tou 59,4%.

Para os orga­ni­zadores do estu­do, é um sinal de que o domínio arma­do se orga­ni­za como parte estru­tur­al da cidade e responde dire­ta­mente às frag­ili­dades do Esta­do.

Os pesquisadores fazem a dis­tinção entre “con­t­role” – quan­do há extração de recur­sos, imposição de nor­mas e sus­ten­tação pela força – e “influên­cia”, situ­ação de domínio par­cial ou inter­mi­tente.

Em 2024, 14% da área urban­iza­da e 29,7% da pop­u­lação da região met­ro­pol­i­tana vivi­am sob con­t­role dire­to dos gru­pos arma­dos. Out­ros 4,1% do ter­ritório e 5,3% dos moradores estavam sob influên­cia. O cresci­men­to acu­mu­la­do des­de 2007 é de 98,4% em áreas con­tro­ladas e 420,1% em áreas sob influên­cia.

A série iden­ti­fi­ca dois grandes cic­los. A “grande expan­são” entre 2016 e 2020 coin­cid­iu com a falên­cia fis­cal do Esta­do, o desmonte das Unidade de Polí­cia Paci­fi­cado­ras (UPPs) e a inter­venção fed­er­al, quan­do a super­fí­cie dom­i­na­da cresceu 31,6% (acrésci­mo de 105,36 km²).

A par­tir de 2020, o estu­do reg­is­tra “retração grad­ual”, pux­a­da sobre­tu­do pelo enfraque­c­i­men­to das milí­cias depois de oper­ações do Min­istério Públi­co (MP), dis­putas inter­nas e per­da de lid­er­anças. O recuo, porém, é modesto: 7,1% de redução da super­fí­cie sob con­t­role ou influên­cia.

Estratégias de poder

O relatório tam­bém anal­isa duas estraté­gias dis­tin­tas: a col­o­niza­ção, que é a ocu­pação de áreas ain­da não dom­i­nadas, típi­ca da expan­são mili­ciana; e a con­quista, car­ac­ter­i­za­da pela toma­da vio­len­ta de ter­ritórios já con­tro­la­dos, dinâmi­ca mais fre­quente entre facções.

Áreas de urban­iza­ção recente ten­dem a ser col­o­nizadas. Regiões den­sas e con­sol­i­dadas são locais de dis­putas.

“Essa é uma vira­da de chave na segu­rança públi­ca do Rio. Durante quase duas décadas, a prin­ci­pal for­ma de os gru­pos arma­dos crescerem foi a col­o­niza­ção. O Mapa mostra o aumen­to das dis­putas que resul­tam em ‘con­quista’. O cus­to social dessa mudança de ‘col­o­nizar’ para ‘con­quis­tar’ é cobra­do dire­ta­mente na roti­na e na segu­rança de quem vive nes­sas áreas mais povoadas. A pop­u­lação pas­sa a con­viv­er com mais tiroteios, mais inse­gu­rança e mais medo”, diz a dire­to­ra exec­u­ti­va do Insti­tu­to Fogo Cruza­do, Cecília Olliveira.

Em 2024, as milí­cias lid­er­avam em exten­são ter­ri­to­r­i­al, com 49,4% da área sob domínio arma­do (201 km²), enquan­to a facção crim­i­nosa Coman­do Ver­mel­ho (CV) domi­na­va mais pes­soas: 1,607 mil­hão, equiv­a­lente a 47,2% da pop­u­lação sob con­t­role.

O CV tam­bém man­tém hege­mo­nia no Leste Flu­mi­nense (98%) e avança na cap­i­tal, sobre­tu­do após con­quis­tas sobre ter­ritórios antes con­tro­la­dos pela facção Ami­gos dos Ami­gos (ADA), como Rocin­ha e Vidi­gal. A Baix­a­da Flu­mi­nense reg­is­tra cresci­men­to acel­er­a­do simultâ­neo de milí­cias, CV e Ter­ceiro Coman­do Puro (TCP), tor­nan­do-se área de dis­pu­ta inten­sa.

A cap­i­tal sin­te­ti­za a “cidade par­ti­da”: 31,6% da área urban­iza­da e 42,4% dos moradores estão sob con­t­role ou influên­cia, com pre­dom­inân­cia mili­ciana na Zona Oeste — que con­cen­tra cer­ca de 65% do ter­ritório urban­iza­do da cidade. A par­tir de 2020, porém, o estu­do reg­is­tra per­da de ter­ritório pelas milí­cias na região, abrindo cam­in­ho para CV, TCP e remanes­centes do ADA.

Na Zona Norte, milí­cias e CV alternaram posições na hege­mo­nia ter­ri­to­r­i­al, com leve van­tagem do CV em ter­mos pop­u­la­cionais. Nos últi­mos anos, o TCP gan­hou força na região e a região é uma das mais dis­puta­dos da cidade.

“Con­seguimos iden­ti­ficar padrões muito mais pre­cisos, definidos e robus­tos de atu­ação de cada grupo arma­do e em difer­entes cir­cun­scrições geográ­fi­cas. Isto sig­nifi­ca que podemos lev­an­tar hipóte­ses mel­hores sobre a expan­são de cada grupo, no tem­po e no espaço, tam­bém de como isso foi feito em cada momen­to e em cada lugar”, diz Daniel Hira­ta, coor­de­nador do GENI/UFF.

Con­fi­ra as infor­mações na reportagem do Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil

Desigualdades

A desigual­dade estru­tur­al aparece como eixo do relatório. A ren­da média per capi­ta em áreas con­tro­ladas da região met­ro­pol­i­tana é de R$ 1.121, con­tra R$ 1.658 nas áreas livres. A difer­ença é maior na cap­i­tal: ren­da média de R$ 1.267 nas áreas con­tro­ladas, con­tra R$ 3.521 nas áreas livres.

Na região met­ro­pol­i­tana, a pro­porção de moradores não bran­cos (pre­tos, par­dos e indí­ge­nas) chega a 69,1% nos ter­ritórios dom­i­na­dos, em com­para­ção com 55,2% nas regiões não con­tro­ladas. Na Zona Sul e no Cen­tro da cap­i­tal, con­traste ain­da maior: 68,3% de não bran­cos nas áreas sob domínio, con­tra 25,9% nas demais.

Políticas públicas

O Mapa 2025 sus­ten­ta que o domínio arma­do não é uma anom­alia iso­la­da, mas parte do modo de fun­ciona­men­to e orga­ni­za­ção da metró­pole. A esta­bil­i­dade do CV e o poder econômi­co das milí­cias mostram que oper­ações poli­ci­ais têm alcance lim­i­ta­do quan­do não são acom­pan­hadas de políti­cas con­tínuas de redução de desigual­dades, reg­u­lação dos mer­ca­dos urbanos e for­t­alec­i­men­to insti­tu­cional.

Segun­do os autores, enfrentar o prob­le­ma exige mais do que ações emer­gen­ci­ais: requer políti­cas que ataquem simul­tane­a­mente ren­da, ter­ritório, racis­mo estru­tur­al, mer­ca­dos urbanos e as próprias insti­tu­ições encar­regadas de garan­tir dire­itos — e que muitas vezes apro­fun­dam, por omis­são ou conivên­cia, as desigual­dades que sus­ten­tam o domínio arma­do.

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