...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Direitos Humanos / Festas de fim de ano devem unir gerações e incluir idosos

Festas de fim de ano devem unir gerações e incluir idosos

Mais velhos devem sentir que participam e são importantes

Alana Gan­dra — repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 24/12/2025 — 12:20
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 17/12/2025 – Tania Santana Madalena - Festas de Natal devem reunir várias gerações, favorecendo a inclusão. Foto: Tania Santana Madalena/arquivo pessoal
Repro­dução: © Tania San­tana Madalena/arquivo pes­soal

Olin­da Castil­ho Escobal, de São Paulo, tem 81 anos e não vê a hora de chegar a fes­ta de Natal, para comem­o­rar com a família.

“A gente é bem entrosa­do, eu com meus fil­hos”, con­tou à Agên­cia Brasil. “A gente sem­pre faz fes­ta, comem­o­ra aniver­sários, sai e vai para restau­rantes. A gente é bem ani­ma­do”.

Para o Natal 2025, ela vai faz­er uma “piz­za­ia­da” na véspera e um chur­ras­co no dia 25. “Meu fil­ho mon­tou a chur­rasqueira para chur­ras­co e piz­za. Ele fez uma cober­tu­ra e nós vamos pas­sar todos aqui na min­ha casa”.

Soman­do os três fil­hos, dois netos, a bis­net­inha de 2 anos, nora e gen­ros, serão ao todo dez pes­soas, incluin­do a própria anfitriã.

 

Rio de Janeiro (RJ), 17/12/2025 – Olinda Castilho Escobal - Festas de Natal devem reunir várias gerações, favorecendo a inclusão. Foto: Olinda Castilho Escobal/Arquivo pessoal 
Repro­dução: Família de Dona Olin­da se reúne sem­pre para comem­o­rações. Olin­da Castil­ho Escobal/Arquivo pes­soal

Tania San­tana Madale­na, de 80 anos, morado­ra do Rio de Janeiro, tam­bém reúne fil­hos, gen­ros, nora e netos para todas as fes­tivi­dades, repetindo um hábito que começou ain­da jovem, quan­do ela e as cun­hadas lev­avam os fil­hos pequenos na casa da sogra aos domin­gos.

“Os nos­sos fil­hos foram cri­a­dos como irmãos e foram se acos­tu­man­do, jun­to aos mais vel­hos tam­bém. Sem­pre foi assim”, disse à Agên­cia Brasil. Na véspera do Natal, as famílias pas­savam as fes­tas na casa da mãe dela e, no dia do Natal, com a sogra. O mes­mo cos­tume se man­tém até hoje, reunin­do pes­soas de todas as ger­ações.

As fes­tas de fim de ano devem ser momen­tos de inte­gração e tro­ca entre ger­ações, ressaltou à Agên­cia Brasil a psicólo­ga e mem­bro da Comis­são de For­mação Geron­tológ­i­ca da Sociedade Brasileira de Geri­a­tria e Geron­tolo­gia (SBGG), Val­mari Cristi­na Aran­ha Toscano.

“Na ver­dade, essa época é cheia de sig­nifi­ca­dos afe­tivos para todas as pes­soas, prin­ci­pal­mente para as mais vel­has, porque tan­to é uma época de encon­trar famil­iares, de poder retomar e con­stru­ir memórias, como é um momen­to em que as famílias se reen­con­tram. Mes­mo as pes­soas que não têm mui­ta fre­quên­cia no dia a dia, ao menos uma vez ao ano, nas fes­tas, elas se encon­tram”.

A psicólo­ga desta­ca que, além das questões pos­i­ti­vas, esse é um momen­to em que tam­bém as ausên­cias ficam mais latentes.

“As pes­soas se lem­bram dos que não estão pre­sentes, seja pela questão real de uma per­da por morte ou por rup­tura, por viagem. E as pes­soas idosas par­tic­i­parem é muito impor­tante, não só como con­vi­dadas ou como fig­u­rantes, mas tam­bém como par­tic­i­pantes ati­vas e pro­tag­o­nistas desse even­to”, sug­eriu.

Val­mari Toscano argu­men­tou ain­da que, emb­o­ra, nat­u­ral­mente, os mais jovens assumam as respon­s­abil­i­dades de com­prar pre­sentes ou preparar deter­mi­na­do pra­to, “é de extrema importân­cia que as pes­soas idosas, prin­ci­pal­mente as mais longevas, sejam incluí­das e se sin­tam per­ten­centes ao grupo famil­iar”.

“O con­ta­to com a família é sem­pre impor­tante mas, nes­ta época, é essen­cial, pois é tem­po de encon­tro de ger­ações, retoma­da de tradições famil­iares e con­strução de novas memórias”.

Rio de Janeiro (RJ), 17/12/2025 – Tania Santana Madalena - Festas de Natal devem reunir várias gerações, favorecendo a inclusão.Foto:Tania Santana Madalena/Arquivo pessoal 
Repro­dução: Fes­ta de Natal de Dona Tânia reúne várias ger­ações Tania San­tana Madalena/Arquivo pes­soal

Reminiscências

Ain­da que o idoso não ten­ha mais a mes­ma condição de tomar as rédeas da coz­in­ha ou da dec­o­ração, é impor­tante que pos­sa opinar, que pos­sa faz­er um pra­to espe­cial, para que algo da sua auto­ria fique mar­ca­do.

“A gente ouve muito ‘min­ha avó fazia o pudim x, hoje ela não con­segue faz­er, mas vai ditan­do’. Ela fica jun­to quan­do nós faze­mos e é um momen­to de inte­gração. É o momen­to das pes­soas estarem próx­i­mas e cri­arem ali algu­mas exper­iên­cias de tro­ca, prin­ci­pal­mente para as ger­ações mais novas que têm a opor­tu­nidade de con­viv­er com essa memória”, acen­tu­ou Val­mari.

Mes­mo que nos dias de hoje, em que se obtém a recei­ta que se quer a um sim­ples toque de dedos, a espe­cial­ista ressalta que que é espe­cial o “pudim da min­ha vó” ou “o peru com o mol­ho que a min­ha mãe fazia”. E essas rem­i­nis­cên­cias, essas biografias, vêm à tona nas exper­iên­cias con­jun­tas entre as ger­ações.

Com todo mun­do pre­so nos celu­lares e na inter­net, há um dis­tan­ci­a­men­to muito grande entre as pes­soas da própria família. As fes­tas de Natal e Réveil­lon, mes­mo ocor­ren­do ape­nas uma vez ao ano, são opor­tu­nidades de as famílias con­viverem mais prox­i­ma­mente.

“Ou seja, terem um con­ta­to físi­co mais próx­i­mo. Porque a gente tem a ideia, pelo uso da tec­nolo­gia, que você sabe da pes­soa, que você fala com ela, porque tem aces­so muito rápi­do. Mas não tem a pre­sença, o con­ta­to físi­co e esse é um con­ta­to efe­ti­vo. Porque não adi­anta estar todo mun­do no mes­mo espaço, mas cada um no seu ‘smart­phone’”.

Daí, a importân­cia da con­strução da ceia, do almoço, dos rit­u­ais que são próprios de cada família, disse a psicólo­ga.

“Ess­es dias, eu escutei no con­sultório uma família de ascendên­cia ital­iana que se reúne uma sem­ana antes para começar a preparar os pães que vão ser con­sum­i­dos, tem­per­ar a alca­chofra que vai ser fei­ta em con­ser­va no dia. Ess­es rit­u­ais de preparação devem ser man­ti­dos porque preser­vam os laços famil­iares”.

Quebrando o gelo

Val­mari apon­tou que a con­strução das ceias, dess­es rit­u­ais, tira as pes­soas dos seus espaços indi­vid­u­ais, dos seus mun­dos pri­va­dos. A real­iza­ção de uma fes­ta de ami­go secre­to, por exem­p­lo, “que­bra o gelo” entre pes­soas e provo­ca sua inter­ação umas com as out­ras.

Emb­o­ra seja tam­bém uma ten­tação de “lavação de roupa suja”, o impor­tante é faz­er dessa reunião um momen­to de as pes­soas serem mais tol­er­antes, pacientes. “Acho que a gente brin­ca até um pouco com isso, mas não é o momen­to de você resolver pendên­cias de uma vida toda, de ressen­ti­men­tos”, afir­mou.

Para a espe­cial­ista, deve-se evi­tar que ess­es ressen­ti­men­tos, ou que acer­tos de con­tas, sejam feitos ness­es rit­u­ais.

“Acho que dev­e­ria haver muito mais um incen­ti­vo para que exista um pro­je­to de futuro, como o dia do perdão dos judeus”.

A psicólo­ga da SBGG acred­i­ta que o cor­re­to seria as pes­soas faz­erem um bal­anço do ano que está fin­d­an­do, uma lista de per­spec­ti­vas para o futuro.

“A ideia é não cri­ar lis­tas para o out­ro, mas suas próprias lis­tas, o que você quer que se trans­forme e o que você faz para isso”.

Ela recomen­dou tam­bém que se deve ter em mente que, em uma reunião desse tipo, em que várias pes­soas estão jun­tas, con­vém evi­tar alguns assun­tos como políti­ca e religião, para evi­tar brigas, dis­cussões e acabar trans­for­man­do o encon­tro em um cam­po de batal­ha.

Relembrando histórias

Val­mari sub­lin­hou a importân­cia de se usar esse encon­tro de fim de ano para cel­e­brar o que se tem em comum, relem­brar histórias, rit­u­ais, traz­er à tona a exper­iên­cia daque­le con­tex­to famil­iar, daque­las pes­soas, lem­brar o que já foi engraça­do, o que já foi super­a­do.

E não usar esse espaço para cri­ar expec­ta­ti­va de res­olução como, às vezes, se vê muitas pes­soas faz­erem “Ah, mas meu fil­ho nun­ca vem, na hora que ele vier, ele vai ver. Isso está fora de cog­i­tação, porque afas­ta as pes­soas”, afir­mou.

A ideia é que essas reuniões sejam práti­cas e con­sti­tu­am opor­tu­nidades de aprox­i­mação, de perdão, de rec­on­cil­i­ação.

“É um momen­to de brin­car, usar o espíri­to natal­i­no, acal­mar os âni­mos. Faça aí uma exper­iên­cia muito mais de autor­reflexão do que de cobrança do out­ro. Mui­ta gente usa, às vezes, ess­es espaços para essas dis­putas”.

Saúde mental

A psicólo­ga garante que a inte­gração de ger­ações faz bem à saúde men­tal de todos. Val­mari lem­brou tam­bém que, nas fes­tas de final de ano, as pes­soas não devem ficar soz­in­has.

“Nem todo mun­do tem família ou vín­cu­los preser­va­dos com a família. Mas família não é só quem tem o mes­mo sangue da gente. Exis­tem gru­pos famil­iares e soci­ais. Quan­tas vezes você vê pes­soas que se agregam para pas­sar as fes­tas jun­tos? É um momen­to de con­frat­er­niza­ção. Às vezes, você mes­mo não tem família, mas tem um grupo de ami­gos muito ativos”.

Ela acres­cen­tou que, no caso de pes­soas mais longevas, difi­cil­mente uma com 80 e poucos anos vai ter um grupo de ami­gos octo­genários ou nona­genários, mas há pes­soas com as quais con­vive, afil­ha­dos, viz­in­hos.

“A gente vê exper­iên­cias das pes­soas que comem­o­ram no mes­mo andar, que vão com o grupo da acad­e­mia, da igre­ja, do tra­bal­ho vol­un­tário. O impor­tante é não estar soz­in­ho, porque é uma época que remete muito a essa ideia da con­frat­er­niza­ção, do agre­gar pes­soas. Então, para quem é solitário, essa é uma época muito difí­cil, muito triste”.

Quan­do perce­ber que tem alguém do seu cír­cu­lo que está soz­in­ho que vai pas­sar a data soz­in­ho, con­vide, propôs a psicólo­ga.

“Tra­ga para o seu seio, porque, às vezes, até dilui as polar­i­dades famil­iares. Se tiv­er alguém de fora, a família segu­ra a onda. Fun­ciona tam­bém para traz­er uma exper­iên­cia difer­ente, uma ener­gia difer­ente”.

A ideia da sol­i­dariedade é muito boa tam­bém para o nos­so psíquico, desta­cou. “É você poder ofer­e­cer algu­ma coisa boa a alguém e sem esper­ar rece­ber dessa mes­ma pes­soa, em tro­ca”.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d