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Acordo prevê ampliar acervo de objetos de religiões afro-brasileiras

Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Cooperação une Defensoria Pública da União e Museu da República no Rio


Pub­li­ca­do em 20/03/2023 — 19:17 Por Rafael Car­doso — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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O min­istro dos Dire­itos Humanos e Cidada­nia, Sil­vio Almei­da, assi­nou nes­ta segun­da-feira (20), no Rio de Janeiro, um con­vênio de pesquisa sobre obje­tos sagra­dos de religiões de matriz africana. O obje­ti­vo é con­hecer mel­hor o acer­vo que tem 519 obje­tos apreen­di­dos, como roupas, chapéus e atabaques, pela polí­cia do esta­do entre 1890 e 1946, e ampli­ar a coleção com a recu­per­ação de out­ros artefatos.

O acor­do pre­vê um inter­câm­bio de con­hec­i­men­tos e de práti­cas téc­ni­co-cien­tí­fi­cas entre a Defen­so­ria Públi­ca da União e o Museu da Repúbli­ca, que vão anal­is­ar mais de 300 inquéri­tos poli­ci­ais do perío­do.

“As bati­das poli­ci­ais acon­te­ci­am fre­quente­mente durante as cer­imô­nias reli­giosas. Mes­mo depois dos sac­er­dotes e sac­er­do­ti­sas soltos, os obje­tos sagra­dos per­mane­ci­am pre­sos como pro­va doc­u­men­tal de um crime. Que crime o povo de axé come­teu? É crime cul­tu­ar os orixás? Claro que não, mas por cul­tu­ar o sagra­do, o povo de san­to foi persegui­do”, disse o dire­tor do Museu da Repúbli­ca, Mário Cha­gas.

“Os obje­tos sagra­dos que foram guarda­dos como pro­va de um crime que não exis­tiu, hoje teste­munham o crime, esse sim con­cre­to, cometi­do pelo Esta­do con­tra as religiões de matriz afro-brasileira”, acres­cen­tou.

Para o min­istro Sil­vio Almei­da, o acor­do aju­da a apro­fun­dar o proces­so de reparação históri­ca aos can­domblecis­tas e umban­dis­tas.

“Falar de perseguição às religiões de matriz africana, na ver­dade, é a gente falar de racis­mo. Naqui­lo que se clas­si­fi­ca de racis­mo reli­gioso. Essa dis­crim­i­nação sis­temáti­ca con­tra pes­soas que são de religiões africanas é porque estão rela­cionadas ao que rep­re­sen­ta ser negro no Brasil. É uma perseguição artic­u­la­da pelas insti­tu­ições jurídi­cas e políti­cas”, afir­mou o min­istro. “É muito impor­tante nós con­hecer­mos essa dimen­são da memória, da ver­dade e da justiça como pon­to de par­ti­da para que a gente mude a sociedade brasileira”, desta­cou.

Acervo

Em 1938, o então Serviço do Patrimônio Históri­co Artís­ti­co Nacional (SPHAN) tombou parte desse acer­vo, chama­do de “Coleção Museu de Magia Negra”. Os obje­tos ficaram sob respon­s­abil­i­dade do Museu da Polí­cia Civ­il do Rio de Janeiro. Durante décadas, a comu­nidade pediu que as peças fos­sem trans­feri­das para out­ro espaço, que fugisse da lóg­i­ca de crim­i­nal­iza­ção.

Uma cam­pan­ha ofi­cial foi cri­a­da em 2017, lid­er­a­da pela Mãe Meni­naz­in­ha de Oxum e uma das prin­ci­pais refer­ên­cias do can­domblé, chama­da de Lib­erte Nos­so Sagra­do, e teve o apoio de difer­entes movi­men­tos da sociedade civ­il.

O assun­to chegou ao Min­istério Públi­co e à Assem­bleia Leg­isla­ti­va do Esta­do do Rio de Janeiro (Alerj). Depois de uma série de debates, foi assi­na­do um ter­mo de cessão e o acer­vo foi lev­a­do para o Museu da Repúbli­ca, onde se encon­tra des­de 21 de setem­bro de 2020.

Novo nome

O super­in­ten­dente region­al do Iphan no Rio, Paulo Vidal, infor­mou que uma por­taria será pub­li­ca­da nes­ta terça-feira (21) para mudar ofi­cial­mente o nome do acer­vo, que no livro de tombo etno­grá­fi­co ain­da con­s­ta como “Magia Negra”, e ago­ra vai ser ofi­cial­mente recon­heci­do como “Nos­so Sagra­do”. Para quem lutou tan­to tem­po para pro­te­ger e repa­tri­ar os artefatos, o even­to trouxe vitórias impor­tantes.

“Muito feliz pelo nos­so tra­bal­ho ter sido recon­heci­do. Do Nos­so Sagra­do ser recon­heci­do como sagra­do. É o primeiro pas­so de muitas out­ras coisas. O cam­in­ho é muito grande, mas vamos chegar lá com a benção dos orixás”, cele­brou Mãe Meni­naz­in­ha de Oxum.

Catálogo Moda de Terreiro

O min­istro Sil­vio de Almei­da tam­bém par­ticipou do lança­men­to do catál­o­go impres­so “Moda de Ter­reiro” no Museu da Repúbli­ca. O pro­je­to é coor­de­na­do por Mãe Meni­naz­in­ha de Oxum, no Ilê Omolu Oxum, de São João de Mer­i­ti, na região met­ro­pol­i­tana do Rio.

A pub­li­cação, de 40 pági­nas, reúne de ves­ti­men­tas sagradas, que foram con­fec­cionadas por mul­heres do Ateliê Obir­im Odara, do Ilê Omolu Oxum, coor­de­na­do por Mãe Nilce de Ian­sã. O catál­o­go é patroci­na­do pelo Fun­do de Inves­ti­men­to Social (ELAS) e pela Fun­do de Pop­u­lação das Nações Unidas (UNFPA Brasil).

As ves­ti­men­tas fazem parte de uma tradição da Bahia, trazi­da por Iyá Davina (1880–1964), mãe de san­to e avó mater­na de Mãe Meni­naz­in­ha de Oxum, matri­ar­ca do Ilê Omolu Oxum.

O Ateliê Obir­im Odara surgiu a par­tir do pro­gra­ma de com­bate à mis­oginia e à vio­lên­cia domés­ti­ca, do Ilê Omolu Oxum, que acol­he mul­heres víti­mas dess­es crimes.

Edição: Car­oli­na Pimentel

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