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Assédio é principal violência a meninas e mulheres em ambiente virtual

Repro­dução: © Madale­na Rodrigues

Dados são do estudo inédito Violência Real do Mundo Virtual


Pub­li­ca­do em 04/12/2021 — 13:00 Por Cristi­na Índio do Brasil — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

A prin­ci­pal vio­lên­cia que mul­heres e meni­nas sofrem em ambi­entes dig­i­tais é o assé­dio nas inter­ações vir­tu­ais (38%) e, na sequên­cia, as ameaças de vaza­men­to de ima­gens ínti­mas (24%). Os dados são da segun­da eta­pa do estu­do inédi­to Além Do Cyber­bulliny: A Vio­lên­cia Real Do Mun­do Vir­tu­al, desen­volvi­do pelo Insti­tu­to Avon em con­jun­to com a Decode, empre­sa espe­cial­iza­da em pesquisa dig­i­tal. O resul­ta­do cor­re­sponde ao perío­do entre jul­ho de 2020 e fevereiro de 2021, quan­do estavam em vig­or as medi­das de iso­la­men­to social e de fechamen­to de espaços. A out­ra eta­pa do estu­do foi real­iza­da antes da pan­demia de covid-19, entre janeiro de 2019 e março de 2020.

Para inves­ti­gar a vio­lên­cia de gênero na inter­net, o estu­do anal­isou mais de 286 mil vídeos, 154 mil menções, comen­tários e reações na for­ma de cur­tidas, com­par­til­hamen­tos e reper­cussões que ocor­reram em ambi­entes dig­i­tais, e mais de 164 mil posta­gens de notí­cias sobre o tema.

Out­ra con­clusão da pesquisa rela­ciona­da ao perío­do de pan­demia é que metade dos casos de assé­dio envolve rece­bi­men­to de men­sagens não con­sen­suais com con­teú­do de cono­tação sex­u­al. Foi relata­do ain­da o envio de fotos ínti­mas e comen­tários de ódio con­tra as mul­heres. Ex-com­pan­heiros são lig­a­dos a 84% dos relatos de stalk­ing, que são casos de perseguição prat­i­ca­da em meios dig­i­tais.

“Boa parte de vaza­men­tos de nudes envolve ex-com­pan­heiros, ex-par­ceiros, pes­soas que rece­ber­am mate­ri­ais envi­a­dos de for­ma con­sen­ti­da, só que não era con­sen­ti­do que eles espal­has­sem a seu bel-praz­er”, disse a coor­de­nado­ra de pesquisa e impacto do Insti­tu­to Avon, Beat­riz Acci­oly, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

O lev­an­ta­men­to iden­ti­fi­cou três for­mas de propa­gação de vio­lên­cia no ambi­ente dig­i­tal. A descen­tral­iza­da, que é a vio­lên­cia cometi­da diari­a­mente con­tra mul­heres e meni­nas. A orde­na­da, que ocorre a par­tir de gru­pos orga­ni­za­dos de ataques, humil­hações e exposições. Além da que resul­ta do ato de com­par­til­har con­teú­dos ínti­mos sem o con­sen­ti­men­to ou a autor­iza­ção dos envolvi­dos. Os pesquisadores obser­varam que as for­mas mais comuns de propa­gação de vio­lên­cias con­tra meni­nas e mul­heres na inter­net são o assé­dio, o vaza­men­to de nudes, a perseguição/stalking e o reg­istro de ima­gens sem con­sen­ti­men­to.

Medo

Con­forme a pesquisa, o resul­ta­do emo­cional e psi­cológi­co das vio­lações vir­tu­ais tem con­se­quên­cias que ultra­pas­sam as bar­reiras dig­i­tais. Elas restringem a liber­dade e o aces­so de mul­heres e meni­nas. O medo de sair de casa foi apon­ta­do por 35% das víti­mas, e mais de 30% relataram efeitos psi­cológi­cos sérios, como adoec­i­men­to psíquico, iso­la­men­to social e pen­sa­men­tos sui­ci­das. O estu­do mostrou ain­da que 21% delas excluíram suas con­tas das redes soci­ais.

O medo pas­sou a faz­er parte da vida de uma estu­dante de 19 anos, que pref­ere não ter o nome e nem o local onde mora iden­ti­fi­ca­dos. No iní­cio de 2020, começou a rece­ber men­sagens de um per­fil fake de homem. Pelo tipo de men­sagem, ela já sabe que é de um ex-cole­ga de esco­la. A perseguição ou stalk­ing ficou tão forte que a estu­dante deixou de sair de casa, reduz­iu o número de con­tatos nas redes soci­ais e começou a ter a pre­ocu­pação de que algo pudesse ocor­rer, tan­to com ela, quan­to com alguém da família. Com a pan­demia, ela, que estu­da­va fora, teve que voltar para a sua cidade, onde tam­bém mora o perseguidor.

“Aí tudo piorou em relação à ansiedade. Eu parei de sair, não só por causa da pan­demia. Não ia nem bus­car o pão na padaria, que é per­to de casa. Parei de sair, fechei as redes soci­ais, me fechei na questão psi­cológ­i­ca emo­cional não só físi­ca, de sair da rua. No fim do ano pas­sa­do, essa pes­soa ten­tou se aprox­i­mar de novo pelo per­fil fake e aí mais crise de ansiedade. Neste ano, essa pes­soa, com o per­fil pes­soal mes­mo, ten­tou chegar per­to dos meus ami­gos, dizen­do ‘pre­ciso falar muito com ela. Gos­to muito dela. Pre­ciso saber como ela está’. Fiquei muito apa­vo­ra­da”, con­tou à Agên­cia Brasil.

O aba­lo emo­cional lev­ou a estu­dante a faz­er trata­men­to com uma psicólo­ga. “Hoje estou mel­hor até para falar sobre isso, mas foi uma fase bem pesa­da. Col­ho os fru­tos dis­so até hoje, porque não me sin­to à von­tade para postar coisas, pen­so trezen­tas vezes antes de postar algo refletindo sobre o caso de alguém print­ar e man­dar para tal pes­soa. Emo­cional­mente, sin­to que ain­da estou muito pre­sa a isso”.

Suicídio

Na primeira fase da pesquisa, cor­re­spon­dente ao perío­do entre janeiro de 2019 e março de 2020, mais de 10% dos casos anal­isa­dos se ref­er­em a relatos de meni­nas e mul­heres, que depois de pas­sarem por situ­ações de vaza­men­tos sem con­sen­ti­men­to, tiver­am algum tipo de pen­sa­men­to sui­ci­da. “Uma em cada dez mul­heres que pas­sam por algum tipo, por exem­p­lo, de vaza­men­to de nudes, chega a pen­sar em tirar a própria vida. Esse é um dado muito grave”, afir­mou.

Além dis­so, quase 15% se sen­ti­ram cul­padas e cer­ca de 36% demon­straram sen­ti­men­to de deses­pero para saber como tirar o con­teú­do do ar ou quais medi­das judi­ci­ais seri­am cabíveis e ráp­i­das.

“A gente con­seguiu traz­er, com essa pesquisa, os impactos reais dessas vio­lên­cias. Eles são muito graves e vão des­de desen­volver medo de sair de casa, sair das redes soci­ais, ou seja, têm grande impacto sobre a liber­dade de expressão e as for­mas de inter­ação. A gente usa a inter­net para procu­rar emprego, para tra­bal­har, para uma série de coisas, não é só para entreten­i­men­to e diver­ti­men­to”.

“As emoções que estão em jogo, com desen­volvi­men­to de ansiedade, estresse crôni­co, medo, angús­tia têm impacto forte nas relações dessas mul­heres com as suas famílias e sua rede de apoio. Para mim, a grande men­sagem da pesquisa é que o impacto do online não é menos real do que a gente acha que é a inter­ação real. O vir­tu­al tam­bém é real”.

Pornografia

Tam­bém durante a pan­demia, o aces­so aos três prin­ci­pais sites de pornografia reg­istrou cresci­men­to de 35%, o que sig­nifi­ca maior fre­quên­cia da procu­ra dos usuários por esse tipo de con­teú­do. As visu­al­iza­ções de vídeos com teor ou alusão à vio­lên­cia e ao assé­dio con­tra meni­nas e mul­heres aumen­taram 55% no perío­do.

Segun­do Beat­riz, a pesquisa mostrou ain­da que vídeos de meni­nas e mul­heres sendo vio­len­tadas, enquan­to estão incon­scientes por estarem dor­min­do, med­icadas, alcoolizadas ou sob efeito de dro­gas, têm vol­ume expres­si­vo de visu­al­iza­ções. Entre janeiro de 2019 e março de 2020 foram cer­ca de 25.9 bil­hões.

A coor­de­nado­ra disse que o aces­so às platafor­mas e o con­sumo de pornografia não são crimes, mas a questão é que ness­es locais há uma quan­ti­dade sig­ni­fica­ti­va de con­teú­do que indicam serem vídeos com atos de vio­lên­cia. “O prob­le­ma não é a pornografia em si, mas os peri­gos ocul­tos dessa pornografia amado­ra que vai parar nes­sas platafor­mas”.

Tam­bém na análise fei­ta no perío­do da pan­demia, foi obser­va­da alta de 44% nos relatos de assé­dios de pro­fes­sores, tutores e edu­cadores, que pas­saram a ter mais con­ta­to com as víti­mas, por meio de aulas remo­tas. Con­forme os dados, hou­ve uma média de 36 relatos men­sais sobre vio­lên­cias de pro­fes­sores con­tra alu­nas no dig­i­tal.

Subnotificação

De acor­do com Beat­riz Acci­oly, a maior parte dos casos não chega ao con­hec­i­men­to de algu­ma autori­dade ou de algum serviço públi­co, seja de saúde ou socioas­sis­ten­cial. “A gente, no Brasil, carece de estatís­ti­cas ofi­ci­ais para mapear o taman­ho desse fenô­meno e saber jus­ta­mente a pro­porção da sub­no­ti­fi­cação, mas percebe, na pesquisa, que há ain­da mais desin­for­mação sobre o que faz­er, como bus­car aju­da e aonde ir, onde é pos­sív­el bus­car infor­mação quan­do a vio­lação acon­tece em meios dig­i­tais.

Legislação

Beat­riz desta­cou, no entan­to, que do pon­to de vista jurídi­co já exis­tem leis que per­mitem crim­i­nalizar a vio­lên­cia no meio vir­tu­al e todas valem tan­to no off-line quan­to no online. Além dis­so, há leg­is­lações especí­fi­cas para a inter­net, como a crim­i­nal­iza­ção da divul­gação não autor­iza­da de ima­gens sex­u­ais e uso de nudez, a crim­i­nal­iza­ção da gravação sem autor­iza­ção, que são dois aspec­tos difer­entes. A coor­de­nado­ra acres­cen­tou que existe a nova tip­i­fi­cação penal para os casos de perseguição ou stalk­ing, que podem ser car­ac­ter­i­za­dos em qual­quer meio físi­co ou dig­i­tal.

“Tem o mar­co civ­il da inter­net, tem out­ras leis especí­fi­cas como a Lei Car­oli­na Dieck­mann, que diz respeito à invasão de dis­pos­i­tivos ou mes­mo a Lei Lola, de inves­ti­gação de crimes que indiquem a desqual­i­fi­cação de mul­heres e dis­cur­sos de ódio. Mas, para gan­har vida, a lei pre­cisa ser manuse­a­da por profis­sion­ais de difer­entes áreas do sis­tema de Justiça, de segu­rança públi­ca. É pre­ciso que haja a mudança de men­tal­i­dade na sociedade e tam­bém dos profis­sion­ais de que o que ocorre em meios dig­i­tais não é menos grave do que acon­tece em ambi­entes físi­cos”, com­ple­tou.

Desafio

Na visão da coor­de­nado­ra, o mais inter­es­sante na pesquisa foi o desafio de iden­ti­ficar os impactos reais do que ocorre na vida das meni­nas e mul­heres que pas­sam por vio­lên­cia nos espaços dig­i­tais “Ain­da há uma per­cepção de que o que acon­tece na inter­net é menos grave do que face a face. ‘Foi só uma humil­hação na inter­net, foi só um can­ce­la­men­to, foi só uma exposição ’ ”, disse Beat­riz, repro­duzin­do comen­tários que cos­tu­mam ser feitos e min­i­mizam os efeitos.

Esti­ma­ti­vas da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU) indicam que 95% de todas as ações agres­si­vas e difamado­ras na inter­net têm as mul­heres como alvos. O Insti­tu­to Avon espera que a par­tir do lev­an­ta­men­to “mul­heres recon­heçam, iden­ti­fiquem e saibam como agir para com­bat­er a vio­lên­cia nas redes, prop­i­cian­do o debate e as denún­cias de abu­sos e vio­lên­cia dig­i­tal”.

Edição: Graça Adju­to

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