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Boate Kiss: “tive minha juventude arrancada”, diz sobrevivente

Repro­dução: © Arqui­vo Pessoal/ Divul­gação

Presidente da associação das vítimas luta por justiça e pelo memorial


Pub­li­ca­do em 27/01/2023 — 07:16 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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O som alto, de repente, ces­sou. “Seria uma briga?”, per­gun­ta­va-se o uni­ver­sitário Gabriel Rova­doschi, com 18 anos de idade. Uma fumaça se aprox­i­ma­va mis­tu­ra­da a gri­tos dis­per­sos. O cheiro forte aumen­ta­va a sus­pei­ta que teria havi­do algu­ma inter­venção dos segu­ranças para dis­si­par a con­fusão. Nada dis­so. Ele foi desco­brindo aos poucos, pas­so a pas­so, que era necessário fugir.

No pub em que esta­va, não via o pal­co. Cobriu o nar­iz e con­seguiu encon­trar a saí­da. “Eu colo­quei a camise­ta na frente da boca e do nar­iz. Ten­tei não res­pi­rar. Foi como se eu tivesse mer­gul­han­do”, recor­dou em entre­vista à Agên­cia Brasil. Era o primeiro final de sem­ana do jovem em uma casa notur­na. Havia sido con­vi­da­do por uma ami­ga para ir à Boate Kiss, na cidade de San­ta Maria (RS), naque­le 26 para 27 de janeiro de 2013.

Faz 10 anos que aque­la noite, os barul­hos, os silên­cios, os cheiros e tan­tas out­ras lem­branças e sen­ti­men­tos estão pre­sentes. O jovem, nasci­do em Cachoeira do Sul (RS),  foi um dos mais de 600 sobre­viventes do incên­dio que matou 242 pes­soas. “Tive min­ha juven­tude arran­ca­da”, diz, sobre os efeitos do trau­ma.


Repro­dução: Par­entes, sobre­viventes e ami­gos fazem vigília em frente à Boate Kiss — Agên­cia Brasil / Arqui­vo

O hoje psicól­o­go Gabriel é o pres­i­dente da Asso­ci­ação dos Famil­iares das Víti­mas e Sobre­viventes da Tragé­dia de San­ta Maria e resolveu se dedicar a unir luto e luta na mes­ma frase. Incon­for­ma­do com a anu­lação do jul­ga­men­to de qua­tro réus, chama a situ­ação de impunidade.

Os sócios da boate Elis­san­dro Spohr e Mau­ro Hoff­mann; o vocal­ista da ban­da Gur­iza­da Fan­dan­gueira, Marce­lo de Jesus dos San­tos; e o aux­il­iar Luciano Bonil­ha Leão foram acu­sa­dos de homicí­dio pelo Min­istério Públi­co do Esta­do. Foram con­de­na­dos à prisão, mas, em agos­to do ano pas­sa­do, o jul­ga­men­to foi anu­la­do e eles ficaram livres.

Para Rova­doschi, não há moti­vo para esmore­cer. Pelo con­trário. Bus­ca faz­er com que mais víti­mas pos­sam falar e tro­car sen­ti­men­tos.

Além de rep­re­sen­tar famílias em bus­ca de justiça, o rapaz defende tam­bém a con­strução de um memo­r­i­al às víti­mas, mais apoio aos famil­iares e todas as man­i­fes­tações pos­síveis para que tragé­dias como essa nun­ca mais acon­teçam.

Confira a entrevista com Gabriel Rovadoschi

Agên­cia Brasil — Qual é, hoje, dez anos depois da tragé­dia, a prin­ci­pal luta dos famil­iares das víti­mas e dos sobre­viventes?

Gabriel Rova­doschi — A luta que inau­gurou o movi­men­to segue sendo a luta por justiça. Por respostas que já dev­e­ri­am ter sido dadas há muito tem­po. A gente segue lutan­do con­tra a impunidade, que está diante de nós. O nos­so movi­men­to surgiu ain­da em 2013 (ano da tragé­dia) e con­tem­pla difer­entes frentes: des­de a luta pela justiça, pela memória, pela pre­venção a novos aci­dentes e tam­bém pela fis­cal­iza­ção (para evi­tar out­ras tragé­dias).

Agên­cia Brasil — Sobre a impunidade, que você cita, a anu­lação do jul­ga­men­to, em agos­to, impactou a luta de vocês?

Gabriel Rova­doschi - Sem a justiça sendo fei­ta, a mobi­liza­ção fica mais difí­cil para con­sol­i­dação da memória, faz­er, por exem­p­lo, com que a cidade abrace essa história como história de cada um. Essa fal­ta de justiça prej­u­di­ca as out­ras frentes. Por isso, se faz tão necessária e inces­sante essa luta pelas respon­s­abi­liza­ções, não somente na esfera crim­i­nal dess­es qua­tro réus, mas tam­bém na nos­sa petição inter­na­cional que está em anda­men­to na Corte Inter­amer­i­cana de Dire­itos Humanos que bus­ca out­ras respon­s­abi­liza­ções.

Ouça tre­cho da entre­vista

Sobre­vivente expli­ca como atua asso­ci­ação das víti­mas da Boate Kiss

Agên­cia Brasil — Nesse sen­ti­do de ger­ar con­sciên­cia e fis­cal­iza­ção, as leis Kiss (estad­ual e fed­er­al) têm sido impor­tantes?

Gabriel Rova­doschi O prob­le­ma é que a leg­is­lação vem sofren­do flex­i­bi­liza­ções ao lon­go do tem­po. Nós fomos na Assem­bleia Leg­isla­ti­va (do Rio Grande do Sul)  para ten­tar frear o proces­so de aprovação dessas alter­ações. A gente entende que essas flex­i­bi­liza­ções aten­dem a inter­ess­es do empre­sari­a­do e tam­bém de ordem econômi­ca, que vão na con­tramão do propósi­to da gente.

Até quan­do mais pes­soas vão ser colo­cadas em risco pela fal­ta da apli­cação das leis? Infe­liz­mente, parece que que se diminuiu a gravi­dade do que acon­te­ceu com o pas­sar do tem­po. E essa gravi­dade só se inten­si­fi­ca e poten­cial­iza. Essa é a nos­sa luta diária. A gente acor­da todos os dias com essa inse­gu­rança de não ter garan­tias de que no futuro pos­sa ser feito algo a respeito.

Agên­cia Brasil  — Depois da anu­lação do jul­ga­men­to, quais são os próx­i­mos pas­sos?

Gabriel Rova­doschi  - A anu­lação mudou abrup­ta­mente o hor­i­zonte que a gente alme­ja­va, o que inclui a con­strução de memo­r­i­al, de dar novos pas­sos na luta por justiça. A anu­lação nos chocou bas­tante. Nós esta­mos com recur­sos espe­ci­ais nos tri­bunais supe­ri­ores. A gente espera que haja a rever­são dessa decisão e que seja respeita­da a decisão do jul­ga­men­to ante­ri­or. 

Agên­cia Brasil — Você espera que o mar­co dos 10 anos ajude nes­sa luta de recor­dar e dar vis­i­bil­i­dade à causa dos famil­iares e sobre­viventes?

Gabriel Rova­doschi - Ess­es 10 anos rep­re­sen­tam uma mar­ca forte. Tra­ta-se de um tem­po cronológi­co bas­tante sig­ni­fica­ti­vo, e que gera novas infor­mações de aces­so ao públi­co, como os doc­u­men­tários que foram lança­dos. Acred­i­to que seja um perío­do de bas­tante vis­i­bil­i­dade e traz vis­i­bil­i­dade a nos­sa luta por justiça, que é incan­sáv­el.

Sabe­mos que a impunidade é uma palavra que não é estran­ha no Brasil. Está no cotid­i­ano do brasileiro e essa não é uma real­i­dade aceitáv­el.


Repro­dução: Par­entes prestam hom­e­nagem às víti­mas da Boate Kiss — Agên­cia Brasil / Arqui­vo

Agên­cia Brasil —  Vocês têm real­iza­do encon­tros na frente do anti­go pré­dio da boate?

Gabriel Rova­doschi - A gente fez ao lon­go dos anos even­tos e algu­ma arte na facha­da. Faze­mos inter­venções na facha­da com cola­gens e grafite. Nesse sen­ti­do, nós temos a ten­da da vigília na praça prin­ci­pal aqui da cidade onde ocor­rem nos­sas vigílias nos dias 27 de cada mês. É um lugar da cidade onde é per­mi­ti­do hom­e­nagear as víti­mas e zelar por essa memória. Isso ocor­reu graças à ocu­pação desse espaço públi­co para tornar per­ma­nente.

Agên­cia Brasil — E o memo­r­i­al?

Gabriel Rova­doschi - Foi feito um con­cur­so em 2017, de um memo­r­i­al que deve ser con­struí­do no local onde fun­ciona­va a boate. A gente tem con­ver­sa­do inter­na­mente na asso­ci­ação nesse últi­mo ano.

Temos avanços sig­ni­fica­tivos ness­es estu­dos sobre como via­bi­lizar essa con­strução e acred­i­ta­mos que esse ano ain­da a gente ten­ha boas notí­cias a respeito dis­so. 

A gente está tra­bal­han­do com bas­tante seriedade nesse sen­ti­do porque não é sim­ples­mente um pré­dio que vai ser demoli­do para con­strução de out­ro. Ao mex­er em um prego, a gente mexe den­tro de cada pes­soa da cidade. Então, isso pre­cisa ser tra­bal­ha­do de for­ma comu­nitária no sen­ti­do da con­strução desse memo­r­i­al, da respon­s­abil­i­dade emo­cional que deve ser dada a uma con­strução. 

A gente pen­sa com a per­spec­ti­va de que a própria demolição do pré­dio só acon­teça com a garan­tia de que todas eta­pas da con­strução do memo­r­i­al.

Santa Maria (RS) - Familiares e amigos das vítimas do incêndio da Boate Kiss fazem vigília em barraca na Praça Saldanha Marinho. A tragédia foi na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Repro­dução: Ima­gens na vigília em bar­ra­ca na Praça Sal­dan­ha Mar­in­ho. A tragé­dia foi na madru­ga­da do dia 27 de janeiro de 2013 — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil/Arquivo

Agên­cia Brasil — Na frente do pré­dio da anti­ga boate, há escritos como “onde você esta­va no dia 27?” Qual a intenção?

Gabriel Rova­doschi - É um ape­lo à con­sci­en­ti­za­ção. Essa frase foi uma inter­venção que acon­te­ceu em out­ubro do ano pas­sa­do por um cole­ti­vo de psi­canálise aqui da cidade que tem feito várias inter­venções com a gente prin­ci­pal­mente nesse final de 2022 para mobi­lizar as pes­soas da cidade a se depararem e se ques­tionarem com essa per­gun­ta. Todas as pes­soas, quan­do a gente insere o assun­to que pela primeira vez, espon­tanea­mente con­tam onde estavam, o que faz, quem ligou…

É jus­ta­mente nes­sa per­spec­ti­va de lidar com o trau­ma cole­ti­vo que essa inter­venção foi pen­sa­da. É uma per­spec­ti­va muito inter­es­sante, boni­ta e potente ao ampli­ar o sen­ti­men­to de per­tenci­men­to de quem pas­sa ali na frente.

Agên­cia Brasil — Hoje você é psicól­o­go. Ness­es últi­mos 10 anos como fez para lidar com essa história pes­soal­mente e tam­bém no âmbito profis­sion­al?

Gabriel Rova­doschi -  Indi­vid­ual­mente o cam­in­ho foi o da ter­apia. Enten­do que é necessário que cada pes­soa ten­ha espaço onde a palavra pos­sa cir­cu­lar e que pos­sa expor a sua dor de difer­entes maneiras. Nes­sa ver­tente, eu ten­ho investi­do bas­tante nos meus esforços entre os gru­pos de sobre­viventes e famil­iares das víti­mas. Por isso, é muito impor­tante pro­mover o diál­o­go e rodas de afe­to. Aqui, nas ações da asso­ci­ação, enten­demos que o afe­to deve ser com­par­til­ha­do. É o abraço, as mãos dadas… Nós pre­cisamos garan­tir nesse movi­men­to cole­ti­vo que exis­tam ess­es espaços. 

Agên­cia Brasil — As reuniões são per­ma­nentes?

Gabriel Rova­doschi — Na ver­dade, as reuniões não têm esse caráter for­mal. Vou dar um exem­p­lo práti­co: na época do jul­ga­men­to, eu me pre­ocu­pei com a for­ma com que a impren­sa abor­daria, e que seria difí­cil se pro­te­ger das notí­cias. Con­ver­samos sobre isso aber­ta­mente. Sei que a relação com as lem­branças e com a memória para cada sobre­vivente e famil­iar varia. Não são todos que con­seguem assi­s­tir às notí­cias. Eu pen­sei em cri­ar uma for­ma da gente se pro­te­ger dis­so e, na época do jul­ga­men­to, eu criei um grupo de men­sagens para con­vi­dar as pes­soas a par­tic­i­parem. Jus­ta­mente para a gente poder comen­tar entre nós o anda­men­to do jul­ga­men­to, os episó­dios que a gente ia expe­ri­en­ciar naque­le perío­do que eu já pre­via que seria muito inten­so. 

Na época do jul­ga­men­to, a gente teve mais de noven­ta sobre­viventes ali e com­par­til­han­do aque­le espaço mes­mo que vir­tu­al mas ten­do um espaço. Muitas pes­soas falaram pela primeira vez com out­ras pes­soas descon­heci­das sobre onde estavam na boate. Foi um momen­to de com­par­til­har exper­iên­cias. Foi muito impor­tante para a gente con­seguir supor­tar aque­le momen­to.

Santa Maria (RS) - Ato ecumênico em homenagem às 242 vítimas do incêndio da Boate Kiss na Praça Saldanha Marinho, pela data de um ano da tragédia (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Repro­dução: Ato ecumêni­co em hom­e­nagem às 242 víti­mas do incên­dio da Boate Kiss na Praça Sal­dan­ha Mar­in­ho, pela data de um ano da tragé­dia — Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Agên­cia Brasil — Você é um rapaz de 28 anos. Como você enx­er­ga aque­le rapaz de 18 anos?

Gabriel Rova­doschi  — Eu estou viven­do o luto ain­da desse Gabriel que eu já fui um dia. Ten­tan­do me recon­hecer. Min­ha juven­tude foi arran­ca­da. Eu ten­to tratar com car­in­ho essa memória de quem um dia eu fui para poder jus­ta­mente acol­her out­ras pes­soas que pas­saram por proces­sos pare­ci­dos.

Agên­cia Brasil — A exper­iên­cia te mar­cou tam­bém como psicól­o­go?

Gabriel Rova­doschi — Há questões na min­ha for­mação que me aux­il­iam, que me amadure­ce­r­am tam­bém e que hoje ten­to prestar serviço tam­bém nesse sen­ti­do de con­sci­en­ti­za­ção.

Ouça abaixo rela­to de como Gabriel con­seguiu sair da boate

Sobre­vivente relem­bra, 10 anos depois, como con­seguiu sair da Boate Kiss

Agên­cia Brasil — No seu doutora­do, você estu­da dis­túr­bios de comu­ni­cação. Há relação com o que você viveu?

Gabriel Rova­doschi - Ain­da estou con­stru­in­do, mas de cer­ta for­ma sim.  A temáti­ca da  afa­sia é do cam­po da fonoau­di­olo­gia e é uma condição neu­rológ­i­ca que afe­ta a lin­guagem. De cer­ta maneira, tem a ver porque eu recon­heço hoje que tem mui­ta relação com a min­ha história, me iden­ti­fiquei com essa condição de alguém com afa­sia onde se tem algo na cabeça, mas sem a capaci­dade de dar uma tradução ver­bal a isso.

Pre­tendo seguir nes­sa lin­ha de relação entre essa espé­cie de afa­sia da cidade de San­ta Maria sobre o assun­to ness­es dez anos.

Edição: Beat­riz Arcoverde — web

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