...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Cultura / Crianças e adolescentes de Brumadinho abraçam música após desastre

Crianças e adolescentes de Brumadinho abraçam música após desastre

Projeto de música em Brumadinho
Repro­dução: © Divulgação/Orquestra Ouro Pre­to

Projeto é conduzido pela Orquestra Ouro Preto


Pub­li­ca­do em 15/08/2021 — 09:30 Por Leo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Aos nove anos, Sara Pra­do Teix­eira já sabe tocar Bate o Sino e uma das sin­fo­nias de Beethoven. Por meio de um pro­je­to de musi­cal­iza­ção con­duzi­do pela  Orques­tra Ouro Pre­to, ela encon­trou na flau­ta uma par­ceira para o seu desen­volvi­men­to, meses após viven­ciar a tragé­dia de 2019. A comu­nidade onde ela mora, em Bru­mad­in­ho (MG), ain­da sente os impactos dire­tos e indi­re­tos do rompi­men­to da bar­ragem da min­er­ado­ra Vale na mina Cór­rego do Fei­jão.

“São sinais e mar­cas que vão ficar na nos­sa vida. Vejo o pro­je­to como uma for­ma de alívio para as cri­anças, porque traz novas per­spec­ti­vas e mui­ta ale­gria. A Sara se sente muito feliz tocan­do flau­ta, fica ansiosa quan­do vai ter os encon­tros. Quan­do aprende uma nota nova, uma músi­ca nova, ela fica super moti­va­da. Está fazen­do muito bem para ela”, diz a mãe de Sara, Giselle Pra­do Camp­is Teix­eira.

A tragé­dia ocor­reu no dia 25 de janeiro de 2019. Uma bar­ragem da min­er­ado­ra Vale, situ­a­da na Mina Cór­rego do Fei­jão, na zona rur­al de Bru­mad­in­ho, se rompeu e liber­ou uma avalanche de rejeitos que destru­iu imóveis, dev­as­tou o meio ambi­ente e alcançou o Rio Paraope­ba. No episó­dio, 270 pes­soas mor­reram.

“Moramos na comu­nidade de Cór­rego do Fei­jão onde ocor­reu tudo e está­va­mos em casa. Tive­mos todo aque­le pâni­co de não saber o que esta­va acon­te­cen­do. Tam­bém per­di min­ha mel­hor ami­ga. E tive­mos todos os transtornos de ter que mudar nos­sa rota para chegar ao cen­tro de Bru­mad­in­ho. Fiquei alguns dias sem poder ir para a esco­la”, lem­bra Lívia Almei­da Sil­va, que hoje tem 17 anos.

Meses depois, ela começou a apren­der a tocar clar­inete. “Aju­da a traz­er uma cul­tura nova, para que as pes­soas não fiquem pen­san­do que Bru­mad­in­ho é só a lama. É impor­tante tam­bém porque são novas ativi­dades para que as cri­anças não fiquem sem o que faz­er”, obser­va a jovem.

Projeto de música em Brumadinho
Repro­dução: Pro­je­to de músi­ca em Bru­mad­in­ho — Divulgação/Orquestra Ouro Pre­to

O pon­tapé ini­cial dessa história envolve um anún­cio na Estação Con­hec­i­men­to de Bru­mad­in­ho, espaço cri­a­do em 2011 pela Fun­dação Vale, braço social da min­er­ado­ra. No local, já eram desen­volvi­das out­ras ações de cun­ho socioe­d­uca­ti­vo, sobre­tu­do com foco no esporte. Segun­do Rodri­go Tof­fo­lo, mae­stro da Orques­tra Ouro Pre­to, um acor­do foi fir­ma­do para desen­volver ativi­dades de musi­cal­iza­ção por meio do Pro­gra­ma Vale Músi­ca.

Ele con­ta que a ideia já vin­ha sendo desen­volvi­da antes da tragé­dia e, assim como toda a cidade, tam­bém foi afe­ta­da. “O iní­cio teve que ser um pouquin­ho depois. Só foi colo­ca­do para fun­cionar em setem­bro, prati­ca­mente oito meses após o rompi­men­to”.

Tof­fo­lo obser­va que cada cri­ança e jovem que par­tic­i­pa do pro­je­to car­rega suas próprias histórias em relação ao rompi­men­to da bar­ragem. “Estar jun­to deles, levan­do a músi­ca como esper­ança e como fer­ra­men­ta de social­iza­ção, é muito enrique­ce­dor. O inte­ri­or mineiro tem uma musi­cal­i­dade forte. E uma ban­da de músi­ca caiu super bem na comu­nidade de Bru­mad­in­ho. É um pro­je­to que começou do zero e atual­mente reúne em torno de 120 alunos divi­di­dos entre o coral e a ban­da de músi­ca”.

Uma pre­ocu­pação da Orques­tra Ouro Pre­to foi de ofer­e­cer opor­tu­nidade a todos, sendo o mais inclu­si­vo pos­sív­el. “O mel­hor é que não hou­ve um proces­so de seleção. Foi uma opção dos alunos. Nós demon­stramos aos inter­es­sa­dos todos os instru­men­tos: flau­ta, trom­bone, trompete, clar­ine­ta. Eles mes­mo foram escol­hen­do o que que­ri­am tocar. Não hou­ve avali­ação de aptidão musi­cal ou de tal­en­to. Ninguém foi cor­ta­do por causa dis­so. Colo­camos todo mun­do. Claro que daí pode sur­gir o son­ho de se tornar músi­co profis­sion­al. Mas isso é lá na frente”, diz Tof­fo­lo.

Sara traz na pon­ta da lín­gua as razões de sua escol­ha. “Eu tin­ha mui­ta von­tade de apren­der a tocar um instru­men­to. Escol­hi a flau­ta porque ela era peque­na, leve e tin­ha o som bem boni­to”, diz a meni­na.

A pan­demia de covid-19 chegou a afe­tar o pro­je­to, mas hou­ve um esforço para não inter­rompê-lo. Antes, havia três encon­tros sem­anais. Lívia con­ta que ago­ra as ativi­dades ocor­rem de for­ma vir­tu­al uma vez por sem­ana. “No pres­en­cial era mel­hor, porque as aulas eram mais fre­quentes. Mas deu ara evoluir de for­ma online”, afir­ma.

De acor­do com a Vale, foi reser­va­do um orça­men­to de R$ 650 mil para o pro­je­to em Bru­mad­in­ho. A min­er­ado­ra esclarece que o Pro­gra­ma Vale Músi­ca, que tam­bém envolve ativi­dades em out­ros esta­dos a par­tir de uma rede de parce­rias, não é custea­do com recur­sos do acor­do de reparação dos danos cole­tivos da tragé­dia. Tra­ta-se de uma ini­cia­ti­va para­lela.

acor­do de reparação dos danos cole­tivos foi fir­ma­do em fevereiro deste ano entre a min­er­ado­ra, o gov­er­no de Minas Gerais, o Min­istério Públi­co de Minas Gerais (MPMG), o Min­istério Públi­co Fed­er­al (MPF) e a Defen­so­ria Públi­ca. Dev­erão ser des­ti­na­dos R$ 37,68 bil­hões para um con­jun­to de medi­das de caráter reparatório e com­pen­satório.

Há ações que serão real­izadas dire­ta­mente pela Vale, bem como aque­las que serão deci­di­das pelas comu­nidades atingi­das e as que cabem ao Exec­u­ti­vo estad­ual. O acor­do não englo­ba as ind­eniza­ções indi­vid­u­ais e tra­bal­his­tas que devem ser pagas aos atingi­dos, as quais são tratadas sep­a­rada­mente em proces­sos judi­ci­ais e extra­ju­di­ci­ais especí­fi­cos.

Diálogo

Com 21 anos de existên­cia, a Orques­tra Ouro Pre­to foi fun­da­da por pro­fes­sores na Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Ouro Pre­to (Ufop) e é con­heci­da por repertórios que vão muito além da músi­ca clás­si­ca, incluin­do ver­sões para suces­sos do rockjazz, de rit­mos brasileiros e de músi­cas que ficaram famosas no cin­e­ma. Essa diver­si­dade faz com que, entre seus prin­ci­pais tra­bal­hos, este­jam adap­tações de com­posições de Vival­di, Bea­t­les e Mil­ton Nasci­men­to. Ao lon­go de sua tra­jetória, foram pro­duzi­dos 11 CDs e sete DVDs. Um dess­es DVDs, bati­za­do de Valen­cianas, foi grava­do ao vivo jun­to com o can­tor Alceu Valença e acabou receben­do o Prêmio da Músi­ca Brasileira de 2015.

Projeto de música em Brumadinho
Repro­dução: Pro­je­to de músi­ca em Bru­mad­in­ho — Divulgação/Orquestra Ouro Pre­to

O pro­je­to desen­volvi­do em Bru­mad­in­ho está asso­ci­a­do a out­ro mais amp­lo, toca­do pelo Núcleo de Apoio a Ban­das da Orques­tra Ouro Pre­to. Tra­ta-se de uma ini­cia­ti­va que já capac­i­tou mais de 800 músi­cos e atua em cin­co esta­dos brasileiros: Minas Gerais, Espíri­to San­to, Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás. O obje­ti­vo é esta­b­ele­cer o diál­o­go, a tro­ca de exper­iên­cias e dis­cussão sobre os cam­in­hos para preser­vação da tradição de ban­das. São real­izadas gra­tuita­mente ativi­dades de capac­i­tação, incluin­do con­sul­to­rias, palestras, ofic­i­nas e aulas práti­cas.

Parte do con­teú­do téc­ni­co e pedagógi­co, prepara­do pelo Núcleo de Apoio a Ban­das da Orques­tra Ouro Pre­to, é uti­liza­do na musi­cal­iza­ção das cri­anças e jovens de Bru­mad­in­ho. “Usamos os méto­dos de ensi­no cole­ti­vo, de musi­cal­iza­ção em con­jun­to. A músi­ca é muito mais que tocar, é apren­der a viv­er cole­ti­va­mente, desen­volver um tra­bal­ho comum e uma lig­ação com o out­ro. Numa ban­da, você pre­cisa ouvir o out­ro, às vezes tocar mais baixo para o out­ro sobres­sair. É um pro­je­to muito boni­to”, diz Tof­fo­lo.

Os tra­bal­hos do Núcleo de Apoio a Ban­das chegaram a ser par­al­isa­dos no ano pas­sa­do dev­i­do à pan­demia de covid-19, mas foram retoma­dos em maio deste ano com encon­tros vir­tu­ais: regentes de mais de 20 ban­das estão par­tic­i­pan­do de aulas sem­anais. Algu­mas novi­dades foram incluí­das no pro­gra­ma de 2021: a par­tir da deman­da das próprias ban­das, está sendo prepara­do um Cur­so de Luh­te­ria Bási­ca, onde serão ensi­nadas téc­ni­cas de reparo de instru­men­tos.

Tam­bém será min­istra­do, pela primeira vez, o cur­so Músi­ca e História na Tradição Brasileira. “Apoiamos ban­das com uma história de mais de 150 anos. Ban­das com uma inserção gigante na comu­nidade”, diz Tof­fo­lo, acres­cen­tan­do que o pro­je­to de Bru­mad­in­ho pode ser o embrião de uma nova história como essa.

Edição: Graça Adju­to

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d