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Meninas têm poucas referências em exatas e dificuldade em matemática

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Pesquisa é da Plataforma Força Meninas, lançada hoje


Pub­li­ca­do em 14/02/2023 — 09:18 Por Lety­cia Bond — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Uma pesquisa da platafor­ma educa­ti­va Força Meni­nas, lança­da hoje (14), desta­ca que seis em cada dez meni­nas (62%) de esco­las públi­cas não con­hecem nen­hu­ma pes­soa que atue profis­sion­al­mente em áreas STEM (sigla em inglês para indicar ciên­cias, tec­nolo­gia, engen­haria e matemáti­ca). Entre estu­dantes do gênero mas­culi­no, a por­cent­agem é menor, de 42%. Os resul­ta­dos são um norte para se com­preen­der o impacto da fal­ta de rep­re­sen­ta­tivi­dade fem­i­ni­na.

Quan­do se per­gun­ta a meni­nos e meni­nas se con­hecem uma mul­her que tra­bal­he com STEAM, 57,1% respon­dem que não. Entre os que têm, em seu meio, alguém com esse per­fil, o mais comum são mul­heres matemáti­cas (18,7%). Em segui­da, são men­cionadas mul­heres físi­cas (6%), quími­cas (5,9%) e engen­heiras (4%).

O lev­an­ta­men­to con­soli­dou indi­cadores a par­tir da apli­cação de um ques­tionário entre 1.232 meni­nos e meni­nas de 10 a 17 anos de idade, com amostragem de 37.400 alunos de ensi­no fun­da­men­tal de esco­las públi­cas de qua­tro regiões do país. Foram real­izadas ain­da entre­vis­tas com 230 meni­nas de 10 a 18 anos, vis­i­tas a 17 esco­las -, sendo dez públi­cas e sete par­tic­u­lares -, e entre­vis­tas em pro­fun­di­dade com cin­co meni­nas de alto desem­pen­ho esco­lar das cin­co regiões do Brasil, além de 24 rodas de con­ver­sa. A apu­ração durou um ano e con­tou com a parce­ria das con­sul­to­rias de pesquisa cria­ti­va  65|10 e Stu­dio Ideias.

As equipes respon­sáveis pelo estu­do desco­bri­ram que 44% das meni­nas con­sid­er­am matemáti­ca a matéria mais difí­cil, con­tra ape­nas 28% dos meni­nos. Ape­sar dis­so, a mes­ma dis­ci­plina aparece como a mais impor­tante para as meni­nas entre­vis­tadas. Na sequên­cia, vêm edu­cação finan­ceira, defe­sa pessoal/primeiros socor­ros, por­tuguês e ciên­cias.

Foram con­sid­er­adas, nas respostas, tan­to matérias que com­põem o cur­rícu­lo esco­lar quan­to out­ras que não con­stam dele ou que elas dese­jari­am que fizessem parte. Na esco­la públi­ca de Belém, as estu­dantes dis­ser­am ter von­tade de ter aulas de edu­cação sex­u­al, como for­ma de pre­venir a gravidez na ado­lescên­cia e tam­bém de se pro­te­ger con­tra a vio­lên­cia sex­u­al, em suas difer­entes for­mas.

Con­forme expli­ca a fun­dado­ra da Força Meni­nas e ide­al­izado­ra do estu­do, Déb­o­rah De Mari, o que se obser­vou, ao lon­go do lev­an­ta­men­to, foi que as estu­dantes com mais aptidão para as matérias de exatas têm, de modo ger­al, um bom bole­tim esco­lar e gostam da esco­la. Segun­do ela, há meni­nas que val­orizam mais a edu­cação, por vê-la como um modo de desen­volver seus poten­ci­ais, e out­ras que, “por uma série de questões”, incluin­do o fato de não terem assim­i­la­do con­teú­dos durante a pan­demia e o des­en­co­ra­ja­men­to famil­iar, já não têm tan­to inter­esse em estu­dar.

“As primeiras matérias afe­tadas por esse desin­ter­esse eram essas com que têm menor afinidade, em que veem menor rep­re­sen­ta­tivi­dade fem­i­ni­na, menos futuro. A primeira delas é a própria matemáti­ca, que tem muito esse emble­ma de difi­cul­dade e de ser um ter­ritório pouco fem­i­ni­no”, afir­ma Déb­o­rah, acres­cen­tan­do que, para muitas alu­nas, há “desconexão” entre o que apren­dem e aqui­lo com que se deparam na real­i­dade.

O incen­ti­vo, em muitos casos, pode ser o com­po­nente que fal­ta para que sigam um rumo e cheguem ao ensi­no supe­ri­or. Déb­o­rah con­ta que, na história de Letí­cia, uma jovem do inte­ri­or do Ceará, quem des­per­tou a curiosi­dade por astrono­mia foi a avó. Foi o iní­cio de tudo.

“Hoje é uma meni­na que tem 18 anos, acred­i­to, ela está nos Esta­dos Unidos, é bol­sista 100%. Já gan­hou vários prêmios, é a primeira mul­her da família dela que se for­ma, de uma família rur­al. Uma família que tin­ha lim­i­tações por local­iza­ção, por vul­ner­a­bil­i­dade finan­ceira, sem­pre a incen­tivou a se desen­volver. Depois, quan­do entrou em um insti­tu­to fed­er­al, con­seguiu estu­dar e teve edu­cadores que a incen­ti­varam a se desen­volver na parte da edu­cação e da ini­ci­ação cien­tí­fi­ca”, afir­ma Déb­o­rah. “Mexe com a estru­tu­ra da família inteira.”

Com os relatos das estu­dantes, a equipe pôde cap­tar de que for­ma as alu­nas se rela­cionam com as bases STEM, já que se sabe que é uma esfera onde a par­tic­i­pação de mul­heres é baixa. De acor­do com relatório da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas para a Edu­cação, a Ciên­cia e a Cul­tura (Unesco), feito em parce­ria com o British Coun­cil, esti­ma-se que na Améri­ca Lati­na e Caribe ape­nas uma mul­her para cada qua­tro home­ns con­si­ga um emprego na área de STEM.

Out­ro fator que pesa con­tra as meni­nas é o estereótipo de gênero, no sen­ti­do de que ima­gens asso­ci­adas às mul­heres ain­da influ­en­ci­am nas escol­has das estu­dantes. Segun­do Déb­o­rah, muitas estu­dantes optam por seguir cam­in­hos que, em tese, devem lhes con­ferir mais pop­u­lar­i­dade e menos rejeição de seu cír­cu­lo inter­pes­soal, algo impor­tante, sobre­tu­do, na fase da ado­lescên­cia.

“Acho que existe um temor, de algu­ma for­ma, de con­fir­mar a expec­ta­ti­va de out­ras pes­soas, de que isso não vai dar em nada. É como se elas estivessem esperan­do algo para si que fos­se impos­sív­el de alcançar ou que não é para elas. Um temor de insi­s­tir nis­so e, depois, con­fir­mar a descrença. Out­ra coisa que sin­to é o seguinte: mes­mo meni­nas que têm inter­esse, quan­do mais novas, com uns 13 anos, se des­en­co­ra­jam com o tem­po, para con­tin­uar se encaixan­do nos padrões vigentes. Como acham que gostar daqui­lo não traz nen­hum atrib­u­to no que diz respeito a ser ben­quista, pop­u­lar entre ami­gos, muitas meni­nas que têm tal­en­to desistem no meio do cam­in­ho”, ressalta Déb­o­rah.

Estereótipo da mulher cuidadora

Ain­da que seja somente suposição e não se com­pro­ve na práti­ca, a ideia de que mul­heres têm mais incli­nação para serem cuidado­ras é out­ro ele­men­to que influ­en­cia as per­spec­ti­vas das meni­nas. “Quan­do vamos para os gru­pos de con­ver­sa com as meni­nas, o que a gente percebe é que, sim, há alguns mod­e­los lig­a­dos a cele­bri­dades”, afir­ma Déb­o­rah, quan­do per­gun­ta­da sobre quais as mul­heres que mais apare­ce­r­am como refer­ên­cias.

“Além dis­so, out­ra figu­ra que apare­ceu muito forte — três, na ver­dade -, que têm papel pare­ci­do. A de uma pri­ma ou tia que, ape­sar de todas as difi­cul­dades, con­seguiu se esta­b­ele­cer em uma profis­são e ter inde­pendên­cia, viv­er mel­hor do que naque­le con­tex­to em que está inseri­da. Elas trazem como exem­p­lo essa figu­ra que con­seguiu trans­for­mar a real­i­dade”, desta­ca a fun­dado­ra da platafor­ma.

“E apare­ceu tam­bém muito a figu­ra da mãe solo, prin­ci­pal­mente nas esco­las públi­cas, e a avó que cria, que é essa pes­soa lig­a­da à expressão ‘Ela pas­sa fome, ela tira da boca [para dar ali­men­to aos famil­iares]’. A gente ouviu muito isso, essa mul­her sal­vado­ra, cuidado­ra extrema, que pas­sa por cima de qual­quer esforço pes­soal para man­ter o mín­i­mo para aque­la família se desen­volver”, acres­cen­ta.

Essa car­ac­terís­ti­ca se man­i­fes­ta nas profis­sões citadas pelas estu­dantes. Entre as que estu­dam em colé­gios par­tic­u­lares, o que prevalece na hora de escol­her o futuro profis­sion­al é o esti­lo de vida que pre­ten­dem ter ou uma decisão que envolve os pais, a família. Em primeiro lugar na lista, por isso, aparece a car­reira de médi­ca, lig­a­da a sta­tus social e a um alto salário, mas tam­bém atre­la­da à noção de cuida­do.

Entre as meni­nas de esco­las públi­cas, pon­tos que deter­mi­nam a escol­ha do ofí­cio são as exper­iên­cias de vio­lên­cia já viven­ci­adas, a pos­si­bil­i­dade de ocu­par uma posição de poder e que garan­ta maior pro­teção a si mes­ma e à família. Tam­bém aqui se desta­cam profis­sões lig­adas ao cuida­do. Como resul­ta­do apare­cem, em primeiro, segun­do e ter­ceiro lugar, as profis­sões de médi­ca, policial/delegada e médi­ca vet­er­inária, respec­ti­va­mente.

Para Déb­o­rah, atin­gir um ambi­ente mais igual­itário depende de “com­pro­mis­so em todas as esferas”, com o envolvi­men­to de pais e edu­cadores. “A desigual­dade de gênero, que já é gravís­si­ma, vai se apro­fun­dar mais se a gente não agir rápi­do e não agir no pre­sente”, con­clui.

O relatório “Meni­nas curiosas, mul­heres de futuro. Meni­nas brasileiras e a inserção em STEM: um abis­mo no pre­sente e hor­i­zonte para o futuro” pode ser lido, na ínte­gra, aqui.

Edição: Graça Adju­to

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