...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Direitos Humanos / No Rio, “fila da fome” reúne pessoas sem teto em busca de comida

No Rio, “fila da fome” reúne pessoas sem teto em busca de comida

Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Insegurança alimentar afeta milhões nas grandes cidades do país


Pub­li­ca­do em 20/03/2023 — 06:30 Por Vitor Abdala – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

ouvir:

Prato vazio: um retrato da fome no Brasil

A cena se repete todos os dias, de segun­da a sex­ta-feira. Por vol­ta das 11h, há um alvoroço num tre­cho da rua do Sena­do, no cen­tro da cidade do Rio de Janeiro. Dezenas de pes­soas, sen­tadas ou deitadas na calça­da, pro­te­gi­das por árvores e um abri­go de ônibus, cor­rem para for­mar uma fila quan­do veem vol­un­tários saírem do número 50.

A con­fusão é inevitáv­el. Aque­les que chegaram mais tarde ten­tam se posi­cionar à frente de quem esta­va ali des­de cedo e se orga­ni­zar, mes­mo que de for­ma precária. Enquan­to isso, os vol­un­tários do número 50 ano­tam os nomes dos que cor­reram para a fila.

Ape­nas 100 dos muitos sem teto que vivem em situ­ação de rua serão sele­ciona­dos naque­le dia e con­tem­pla­dos com um almoço, ofer­e­ci­do gra­tuita­mente pela orga­ni­za­ção não gov­er­na­men­tal Frater­nidade sem Fron­teiras. A ONG fun­ciona ali, no número 50, há quase dois anos.

Para alguns deles, aque­la será a úni­ca refeição do dia, se tiverem sorte. Marce­lo, de 41 anos, era um dos primeiros na “fila da fome” na man­hã da primeira quin­ta-feira de março (2). Desem­pre­ga­do des­de que deixou a cadeia em 2019, em liber­dade condi­cional, ele depende da boa von­tade de out­ras pes­soas para com­er.

À noite, con­segue jan­tar em um abri­go da prefeitu­ra, mas, durante o dia, tem que batal­har por sua refeição. “Briguei com meus irmãos e tive que sair de casa. Estou na rua há um ano e seis meses. É uma situ­ação com­pli­ca­da, porque nós não temos din­heiro. Então tem que cor­rer onde tem comi­da”, disse Marce­lo à Agên­cia Brasil.

Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2023 - Pessoas se organizam em fila para se cadastrarem para almoço gratuito no centro de acolhimento do projeto Fraternidade na Rua, na Lapa, região central da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2023 — Pes­soas se orga­ni­zam em fila para se cadas­trarem para almoço gra­tu­ito no cen­tro de acol­hi­men­to do pro­je­to Frater­nidade na Rua, na Lapa, região cen­tral da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tam­bém na fila, Már­cio, de 39 anos, teve que deixar a casa onde vivia com a mul­her e cin­co fil­hos, há três meses, por ser usuário de dro­gas. Ele diz que está “livre do vício”, mas, desem­pre­ga­do e moran­do na rua, tra­va uma luta diária para poder se ali­men­tar. “Às vezes a gente con­segue com­er nos abri­gos, às vezes algu­mas igre­jas tam­bém dão. A gente vai sobre­viven­do com a aju­da de out­ras pes­soas”.

Paulo César, de 27 anos, três deles viven­do na rua depois de ser expul­so de sua comu­nidade por crim­i­nosos, tam­bém con­seguiu seu almoço na últi­ma quin­ta-feira. Mas nem sem­pre é assim. Sába­do domin­go não tem almoço na ONG. E, às vezes, mes­mo durante a sem­ana, não tem sorte de estar entre os sele­ciona­dos.

“Estou todo dia nes­sa rota aqui. Às vezes quan­do fal­ta aqui, tem que cor­rer atrás. Aí vai na Cen­tral, às vezes arru­ma lá. Quan­do lá não tem, degringo­la tudo. Tem que ficar garim­pan­do em mer­ca­do, quan­do sobra, ou então nas lojin­has de sal­ga­do, quan­do joga na lix­eira, a gente vai lá e pega. Já fiquei dois dias sem com­er”, lem­brou.

A ideia de ofer­e­cer almoço para a pop­u­lação de rua surgiu durante a pan­demia de covid-19, segun­do a coor­de­nado­ra do pro­je­to, Isabel Sil­veira.

Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2023 — A coor­de­nado­ra do pro­je­to, Isabel Sil­veira, con­ver­sa enquan­to pes­soas se orga­ni­zam em fila para se cadas­trarem para almoço gra­tu­ito no cen­tro de acol­hi­men­to do pro­je­to Frater­nidade na Rua, na Lapa, região cen­tral da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Como é que você con­segue faz­er qual­quer coisa de bar­ri­ga vazia? A ali­men­tação é uma pos­si­bil­i­dade de garan­tir a primeira neces­si­dade bási­ca do ser humano. A par­tir do momen­to que eles estão se ali­men­tan­do, podemos con­stru­ir out­ras questões”.

A “fila da fome” é ape­nas um exem­p­lo do prob­le­ma da inse­gu­rança ali­men­tar nas grandes cidades brasileiras.

Insegurança alimentar

Segun­do pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Sobera­nia e Segu­rança Ali­men­tar e Nutri­cional (Penssan) fei­ta com 35 mil entre­vis­ta­dos e divul­ga­da em 2022, 57,8% da pop­u­lação urbana do país enfrentam algum grau de inse­gu­rança ali­men­tar, ou seja, não se ali­men­tam da for­ma como dev­e­ri­am. Pelo menos 15% estão na situ­ação de inse­gu­rança grave, o que sig­nifi­ca que mil­hões de pes­soas pas­sam fome no Brasil.

A secretária de segurança alimentar e nutricional do MDS, Lilian Rahal, durante entrevista à Agência Brasil
Repro­dução: A secretária de segu­rança ali­men­tar e nutri­cional do MDS, Lil­ian Rahal, durante entre­vista à Agên­cia Brasil — Anto­nio Cruz/ Agên­cia Brasil

A secretária nacional de Segu­rança Ali­men­tar e Nutri­cional, Lil­ian Rahal, desta­ca que a cidade é onde se con­cen­tra a maior parte da pop­u­lação que enfrenta a fome. “Os dados da Rede Penssan mostram que, per­centual­mente, há mais fome no [espaço] rur­al do que no urbano. Mas numeri­ca­mente tem muito mais gente nas cidades pas­san­do fome do que no rur­al”.

Por­tan­to, não são ape­nas os moradores de rua que pre­cisam lidar com o prob­le­ma. Estu­do feito pela Cen­tral Úni­ca das Fave­las (Cufa) e pelo Insti­tu­to Loco­mo­ti­va, em fevereiro de 2021, com 2.087 moradores de 76 fave­las brasileiras, mostrou que 68% dos entre­vis­ta­dos não tin­ham din­heiro para com­prar comi­da em pelo menos um dia nas duas sem­anas ante­ri­ores à pesquisa

“As pes­soas em situ­ação de rua são o lado mais extremo, ina­ceitáv­el e desumano da fome. Mas tam­bém há situ­ações de pes­soas [que têm casa] que comem menos do que dev­e­ri­am com­er por difi­cul­dade de aces­so ao ali­men­to. Tem pes­soas que restringem a ali­men­tação em alguns dias para que essa ali­men­tação pos­sa durar o mês inteiro, até um próx­i­mo momen­to em que seja pos­sív­el adquirir esse ali­men­to nova­mente. São situ­ações que refletem a fome de algu­ma for­ma”, afir­mou a pesquisado­ra do Insti­tu­to de Nutrição da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ) Juliana Lig­nani.

Segun­do ela, a inse­gu­rança ali­men­tar tem origem nas desigual­dades, sejam de ren­da, de mora­dia, de gênero ou racial. “São situ­ações que vão levar a difi­cul­dade de aces­so ao ali­men­to. Pode ser uma difi­cul­dade de aces­so finan­ceiro. São pes­soas que não con­seguem ter um rendi­men­to sufi­ciente para adquirir essa ali­men­tação de maneira ade­qua­da. Tam­bém pode haver uma difi­cul­dade de aces­so físi­co. São pes­soas que moram em deter­mi­nadas regiões que difi­cul­tam o aces­so ao ali­men­to”, expli­cou.

A pesquisado­ra afir­ma que fatores como empre­gos precários e o tipo de arran­jo famil­iar tam­bém podem ser prob­le­mas para uma ali­men­tação ade­qua­da. Famílias com muitas cri­anças ou ado­les­centes, por exem­p­lo, encon­tram mais difi­cul­dade.

“São moradores que deman­dam ren­da e, na maio­r­ia das vezes, não con­tribuem com a ren­da. E a gente até espera que isso acon­teça, já que as cri­anças não devem tra­bal­har.”

Juliana Lig­nani expli­ca que resolver a questão da fome não é sim­ples e exige políti­cas além dos pro­gra­mas gov­er­na­men­tais de trans­fer­ên­cia de ren­da.

Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2023 - Pessoas se organizam em fila para se cadastrarem para almoço gratuito no centro de acolhimento do projeto Fraternidade na Rua, na Lapa, região central da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2023 — Pes­soas se orga­ni­zam em fila para se cadas­trarem para almoço gra­tu­ito no cen­tro de acol­hi­men­to do pro­je­to Frater­nidade na Rua, na Lapa, região cen­tral da cidade. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil — Tânia Rêgo/Agência Brasil

“A gente pre­cisa tra­bal­har nas questões estru­tu­rais que lev­am a esse cenário. Ao mes­mo tem­po dev­e­ri­am ocor­rer as políti­cas emer­gen­ci­ais, como as de trans­fer­ên­cia de ren­da, que vão sanar no momen­to, mas a gente tam­bém pre­cisa das políti­cas estru­tu­rais que vão resolver as causas desse prob­le­ma, como o aumen­to de empre­gos for­mais e de abastec­i­men­to das grandes cidades para que esse ali­men­to chegue de maneira mais fácil à pop­u­lação.”

A secretária de Segu­rança Ali­men­tar, Lil­ian Rahal, afir­ma que as estraté­gias do gov­er­no fed­er­al incluem “políti­cas públi­cas amplas”, como o aumen­to da pro­dução de ali­men­tos bási­cos, ações de disponi­bi­liza­ção de refeição pelos municí­pios, a garan­tia da chega­da de ali­men­tos a locais com maiores índices de desnu­trição, o cresci­men­to da ren­da das famílias, a recu­per­ação do poder de com­pra do salário mín­i­mo, a ger­ação de empre­gos e o for­t­alec­i­men­to do Pro­gra­ma Nacional de Ali­men­tação Esco­lar (Pnae).

Além dis­so, segun­do ela, o gov­er­no quer reforçar o Pro­gra­ma de Aquisição de Ali­men­tos (PAA), que estim­u­la a com­pra de comi­da pro­duzi­da por pequenos pro­du­tores e agricul­tores famil­iares, através da recu­per­ação do orça­men­to e de uma refor­mu­lação, fazen­do com que os ali­men­tos cheguem nas famílias mais vul­neráveis, inclu­sive nas cidades.

“Que a dis­tribuição [dess­es ali­men­tos] chegue cada vez mais para quem está pas­san­do mais fome, para as famílias e regiões com maiores indi­cadores de desnu­trição e para equipa­men­tos que ofer­tem refeições para quem está pas­san­do fome nas per­ife­rias ou nas grandes cidades”, desta­cou.

Edição: Lílian Beral­do

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d