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Psicanalista diz que mundo de tsunami digital requer nova educação

Repro­dução: © Fer­nan­do Siqueira/Divulgação

Tantas transformações fazem com que cidadãos se sintam perdidos


Pub­li­ca­do em 22/06/2023 — 09:11 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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A rev­olução tec­nológ­i­ca é um tsuna­mi que tornou o nos­so mun­do tão novo, que pode­ria ser chama­do de “Ter­ra Dois”. O “Ter­ra Um”, que con­hecíamos, não existe mais. Esse é o con­ceito do médi­co psiquia­tra e psi­canal­ista brasileiro Jorge Forbes, pesquisador da pós-mod­ernidade e dire­tor da Clíni­ca de Psi­canálise do Cen­tro do Geno­ma Humano da USP. 

Ele diz que tan­tas trans­for­mações fiz­er­am com que os cidadãos se sin­tam “des­bus­so­la­dos” e per­di­dos. “Nós não estare­mos per­di­dos se começar­mos ‘ontem’ um pro­je­to de edu­cação para evi­tar os anal­fa­betos dig­i­tais que esta­mos crian­do”. Para Forbes, o anal­fa­betismo dig­i­tal vai provo­car difer­enças entre gru­pos maiores do que entre class­es soci­ais.

O pesquisador con­quis­tou, há dez anos, o Prêmio Jabu­ti pelo livro Incon­sciente e Respon­s­abil­i­dade – Psi­canálise do Sécu­lo XXI e lançou, no mês pas­sa­do, o títu­lo Pílu­las da Psi­canálise – Aforis­mos e Sen­tenças de Jorge Forbes. Para ele, as profis­sões pas­sarão por trans­for­mações, mas car­ac­terís­ti­cas sin­gu­lares fazem com que pes­soas não sejam sub­sti­tuíveis por máquinas.

Con­fi­ra abaixo entre­vista que o médi­co Jorge Forbes con­cedeu à Agên­cia Brasil:

Agên­cia Brasil — A rev­olução tec­nológ­i­ca é um tsuna­mi. O sen­hor pode explicar a expressão “Ter­ra Dois”?

Jorge Forbes — O tsuna­mi tec­nológi­co é um colos­sal avanço neste momen­to, como a nan­otec­nolo­gia, a biotec­nolo­gia e a infor­máti­ca que estão fazen­do uma rev­olução na for­ma de viver­mos. Um avanço que faz com que a gente se sin­ta des­bus­so­la­do, sem cam­in­ho. As pes­soas não se enten­dem mais na vida. Nós não nasce­mos da mes­ma maneira. Nem edu­camos, nem namoramos, nem tra­bal­hamos, nem aposen­ta­mos. Nem mor­re­mos da maneira que a gente fazia até há pouco tem­po.

Eu acred­i­to que nós esta­mos viven­do um tsuna­mi dessa mudança do lado social, da maneira humana de ser. Difer­ente­mente dos ani­mais, nós humanos vari­amos com o nos­so ambi­ente. Uma abel­ha não varia, uma vaca não varia, um cav­a­lo não varia. São sem­pre iguais inde­pen­den­te­mente de onde estiverem. Nós, não. A gente pro­duz difer­ente­mente.

São peque­nas mudanças que ocor­rem na nos­sa vida o tem­po inteiro. Mas uma mudança maciça como essa, que a gente está viven­do, ocorre de sécu­los em sécu­los. Durante 28 sécu­los, nós tín­hamos uma maneira de com­por­ta­men­to que era lin­ear, ver­ti­cal, hierárquica, padroniza­da e, de repente, a gente pas­sou para um mun­do hor­i­zon­tal, múlti­p­lo, cria­ti­vo, var­iáv­el. Essa mudança de val­or é tão imen­sa que jus­ti­fi­cou, ao meu ver, eu chamar de “Ter­ra Dois”.

Agên­cia Brasil — Como assim, Ter­ra Dois?

Jorge Forbes — A gente fez um plan­e­ta chama­do Ter­ra. Ter­ra Um. Nós esta­mos em out­ro plan­e­ta que nos con­funde porque geografi­ca­mente é igual ao ante­ri­or, mas que nós habita­mos de maneira com­ple­ta­mente dis­tin­ta. Só que essa maneira ain­da não dom­i­namos. A gente não entende ain­da. Então esta­mos todos em bus­ca de novas chaves de leitu­ra de um mun­do, a meu ver, até muito mais inter­es­sante do que o ante­ri­or, por ser muito mais cria­ti­vo e mais vari­a­do. Por out­ro lado, essas mudanças tec­nológ­i­cas reper­cutem nos cam­pos profis­sion­ais.

Agên­cia Brasil — De que for­ma deve­mos estar prepara­dos para o tsuna­mi?

Jorge Forbes - As pes­soas se sen­tem pro­fun­da­mente inse­guras e angus­ti­adas com essa época atu­al. Falam­os de tsuna­mi de for­ma neg­a­ti­va porque, no primeiro momen­to, nos ame­dronta. É até a gente trans­for­mar o tsuna­mi que pode nos afog­ar em uma onda em que pos­samos sur­far.

É necessário traz­er esclarec­i­men­to, traz­er pas­s­aporte para o lado de cima da onda que faça com que a gente surfe em vez de se afog­ar.

Agên­cia Brasil — É pre­ciso mais preparo e cria­tivi­dade?

Jorge Forbes — Nós temos ativi­dades na nos­sa vida que podem ser sin­gu­lares ou genéri­c­as. As sin­gu­lares são aque­las que só a gente pode faz­er. Pelo tal­en­to, pelo gos­to, pelo dese­jo, pela opor­tu­nidade, pelo momen­to. Várias razões fazem com que sejamos insub­sti­tuíveis. Ago­ra, quem sub­sti­tui um datiló­grafo é out­ro datiló­grafo. Quem sub­sti­tui um motorista é out­ro motorista.

Há ativi­dades sin­gu­lares que não são genéri­c­as. A inteligên­cia arti­fi­cial e toda a tec­nolo­gia que estão nos ‘tsunamizan­do’ (para cri­ar uma palavra) podem faz­er mel­hor que o humano aqui­lo que for genéri­co.

Vai diri­gir, por exem­p­lo mel­hor do que nós. Por quê? Porque em vez de você ter um cam­in­honeiro, você vai ter uma máquina que não vai faz­er cer­tas ati­tudes por demais humanas.

Na min­ha área, que é a med­i­c­i­na, por exem­p­lo, eu sou psiquia­tra, mas meus cole­gas radi­ol­o­gis­tas que se dedicam a ler Raio X podem ser facil­mente ultra­pas­sa­dos pela inteligên­cia arti­fi­cial.

Agên­cia Brasil — Esta­mos per­di­dos? 

Jorge Forbes — Não. Nós não esta­mos per­di­dos se começar­mos ‘ontem’ um pro­je­to de edu­cação para evi­tar os anal­fa­betos dig­i­tais que nós esta­mos crian­do.

Na medi­da que se perde o tra­bal­ho genéri­co, a pes­soa tem que ser edu­ca­da para uma nova real­i­dade e para o novo mun­do. Isso está sendo feito? Não. Isso não está sendo feito.

Esta­mos pen­san­do ain­da muito dis­tante de um novo mun­do que é tec­nológi­co e não responde mais às fer­ra­men­tas do mun­do ante­ri­or.

Agên­cia Brasil — O sen­hor entende que a chave dessa mudança é pela edu­cação que forme cidadãos mais cria­tivos e mais humanos?

Jorge Forbes — Sim. Ao não dar­mos atenção à rev­olução dig­i­tal, esta­mos crian­do anal­fa­betos dig­i­tais. A dis­tân­cia entre os alfa­bet­i­za­dos dig­i­tais e os anal­fa­betos dig­i­tais está pre­vista como sendo muito maior do que entre, por exem­p­lo, a classe A e a classe D ou E de um país.

Se não der­mos atenção à tec­nolo­gia, haverá prob­le­mas soci­ais piores do que os prob­le­mas econômi­cos atu­ais. Porque uma parte impor­tan­tís­si­ma da pop­u­lação sim­ples­mente vai ser pos­ta ao relen­to, vai ser pos­ta em situ­ação de inutil­i­dade total. 

Agên­cia Brasil — Mas como faz­er para que isso não ocor­ra?

Jorge Forbes — Para que isso não ocor­ra, temos que avançar muito rap­i­da­mente com os proces­sos edu­ca­cionais para diminuir o anal­fa­betismo dig­i­tal que se anun­cia.

Agên­cia Brasil — É pos­sív­el esta­b­ele­cer um mar­co dessa mudança?

Jorge Forbes — Não há um dia especí­fi­co da mudança. Mas há ele­men­tos impor­tantes que a gente pode datar. Enten­demos que a mudança é, sobre­tu­do, da ver­ti­cal­i­dade para a hor­i­zon­tal­i­dade. Eu diria que em 1992 hou­ve o surg­i­men­to da web, que é o prin­ci­pal ele­men­to hor­i­zon­tal­izador das nos­sas relações

Agên­cia Brasil — Quan­do a gente fala da hor­i­zon­tal­i­dade, há out­ro olhar pre­ocu­pa­do não só no âmbito profis­sion­al, mas tam­bém nas hier­ar­quias e relações de poder. O sen­hor acha que isso abala a sociedade tal e qual a gente con­hece hoje?

Jorge Forbes —  Para­doxal­mente, o que a gente mais dese­ja no mun­do é o que a gente mais teme. É liber­dade. Liber­dade sex­u­al, de cul­to, de expressão, de amor, de via­jar, de pen­sar.

O mun­do ante­ri­or deter­mi­na­va fatores de escol­ha deter­mi­na­dos. Era cer­to ou erra­do. A ou B. Esse mun­do ago­ra é de múlti­plas opções.

Em um segun­do momen­to, há quem adore ter alguém para diz­er o que se deve faz­er. É o que expli­ca curiosa­mente que, nesse mun­do, onde a liber­dade é muito maior do que antes, sur­jam líderes tirâni­cos que se ofer­e­cem como segu­rança para quem está com saudade de algo mais estáv­el.

Não tem jeito. A glob­al­iza­ção é instáv­el, múlti­pla e cria­ti­va. Quem quer que a vida seja muito estáv­el é aque­le que quer que a vida seja um pilo­to automáti­co. Nós temos que inven­tar cada pas­so e ir cor­rigin­do a rota.

Agên­cia Brasil — Nes­sas relações hor­i­zon­tais, há quem se queixe das que­bras de hier­ar­quia e até de com­por­ta­men­to dos mais jovens, deses­per­ança­dos ou pouco dis­pos­tos a ouvir. Isso é um prob­le­ma tam­bém, cer­to?

Jorge Forbes — O fato de ter novo mun­do não quer diz­er que seja um paraí­so. São novas soluções e novos prob­le­mas. É ver­dade que há 30 ou 40 anos os ado­les­centes eram “mais bem edu­ca­dos”, respeitavam os mais vel­hos, os horários, os pro­fes­sores. Enfim, era uma out­ra real­i­dade, total­mente dis­tin­ta de hoje, que tem algu­mas coisas muito desagradáveis.

Mas você tem, por out­ro lado, essa mes­ma moça­da desco­brindo coisas mar­avil­hosas. Eu fiz um tra­bal­ho, ao meu ver inter­es­sante, sobre o que é essa nova ger­ação mutante e o que faz com a músi­ca eletrôni­ca.

Eu acho que ela é exem­p­lo incrív­el de um novo tipo de lado social humano, onde as pes­soas estão jun­tas sem neces­si­dade de se com­preen­der.

Eu me debru­cei sobre algo que é um fenô­meno que pas­sa às vezes des­perce­bido, mas é muito impor­tante. Eles con­seguem jun­tar 2 mil­hões de pes­soas para ouvir músi­ca que não tem letra. Isso é impen­sáv­el para a ger­ação dos pais deles.

Edição: Graça Adju­to

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