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7 de Setembro: a princesa que foi decisiva para a Independência

Repro­dução: © Reprodução/D. Leopold­ina; a história não contada/ Paulo Rez­zu­ti

Leopoldina atuou nos bastidores políticos e entrou para a história


Pub­li­ca­do em 07/09/2022 — 06:38 Por Luiz Clau­dio Fer­reira, repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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“Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1.822

Pedro,

O Brasil está como um vulcão”.

Mais dire­ta, impos­sív­el. Era mais do que uma cor­re­spondên­cia de amor. O iní­cio da car­ta de Maria Leopold­ina da Áus­tria, então com 25 anos de idade, para o mari­do, o imper­ador D.Pedro I, man­i­fes­ta­va angús­tia e um chama­do para uma trans­for­mação do Brasil. Na ver­dade, uma sep­a­ração (de Por­tu­gal).

“Meu coração de mul­her e de esposa pre­vê des­graças se par­tir­mos ago­ra para Lis­boa. (…) O Brasil será em vos­sas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monar­ca. Com vos­so apoio ou sem vos­so apoio, ele fará sua sep­a­ração”

Para ela, o fru­to (a inde­pendên­cia) esta­va maduro.

“O pomo está maduro, colheio‑o já, senão apo­drecerá. Já diss­es­tes aqui o que ireis faz­er em São Paulo. Fazei, pois”.

Para três bió­grafos e pesquisadores da vida de Leopold­ina, con­sul­ta­dos pela Agên­cia Brasil,  a prince­sa atu­ou de difer­entes for­mas que foram pri­mor­diais para que ocor­resse a Inde­pendên­cia do Brasil.

Os his­to­ri­adores Mary Del Pri­ore, Clóvis Bul­cão e Paulo Rez­zut­ti enten­dem que ações de basti­dores, com autori­dade int­elec­tu­al difer­en­ci­a­da, e sen­ti­men­to de preser­vação do trono, resul­taram para que o dia 7 de setem­bro tivesse entra­do para a história.

Estudo_para_o_desembarque_de_Dona_Leopoldina
7 de Setem­bro — Estudo_para_o_desembarque_de_Dona_Leopoldina — Reprodução/D. Leopold­ina; a história não contada/ Paulo Rez­zu­ti

Para a pro­fes­so­ra Mary Del Pri­ore, a prince­sa regente foi cer­ta­mente uma das per­son­agens “mais cati­vantes desse grande momen­to”, afir­ma a auto­ra do livro A Carne e o Sangue: A Imper­a­triz D. Leopold­ina, D. Pedro I e Domi­ti­la, a Mar­que­sa de San­tos.

Para o escritor Clóvis Bul­cão, autor de Leopold­ina: a Prince­sa do Brasil, o “Sete de Setem­bro” ocorre por con­ta das car­tas que vêm do Rio de Janeiro, tan­to encam­in­hadas por José Bonifá­cio como pela prince­sa. Davam sinal verde para o que pare­cia inimag­ináv­el naque­le reino: uma inde­pendên­cia.

Con­fi­ra abaixo o Momen­tos da Inde­pendên­cia, da TV Brasil

Constrangimentos e sagacidade

A pesquisado­ra Mary Del Pri­ore entende que há influên­cia das relações pes­soais e famil­iares de Leopold­ina no con­tex­to políti­co. A esposa do imper­ador foi con­strangi­da pela exposição fre­quente públi­ca da amante, Domi­ti­la de Cas­tro, a Mar­que­sa De San­tos, em com­pro­mis­sos da família que gov­er­na­va o Brasil.

“A Leopold­ina, que está no papel, rep­re­sen­tou uma criatu­ra muito sofre­do­ra e extrema­mente vilipen­di­a­da e humil­ha­da pelo mari­do. Mas teve uma atu­ação muito impor­tante em todo o proces­so ”, afir­ma Mary Del Pri­ore.

A pesquisado­ra con­tex­tu­al­iza que, até a  Rev­olução France­sa (1789), a sex­u­al­i­dade dos príncipes e dos reis era algo asso­ci­a­do à vir­il­i­dade de quem ocu­paria o trono. “O rei seria con­sid­er­a­do poderoso se ele tivesse muitas amantes e fil­hos  Depois, no final do sécu­lo 18, e no iní­cio do sécu­lo 19, com todos os ideais ilu­min­istas e repub­li­canos, ter uma amante sig­nifi­caria que o homem era fra­co”.

O escritor Clóvis Bul­cão entende que as relações extra­con­ju­gais do mari­do vão ser o cam­in­ho da “des­graça” dela.

Leopoldina
7 de Setem­bro — Reprodução/D. Leopold­ina; a história não contada/ Paulo Rez­zu­ti

No Poder

O escritor e pesquisador Paulo Rez­zu­ti expli­ca que as car­tas são as pis­tas que tor­nam pos­sív­el decifrar os pen­sa­men­tos da Regente, tan­to o seu olhar políti­co como os sen­ti­men­tos con­fli­tu­osos para a família. Segun­do o pesquisador, é pos­sív­el ver­i­ficar que Leopold­ina encon­tra nas car­tas uma for­ma de se abrir com pes­soas que ela con­fi­a­va. “Então se percebe uma mul­her que esta­va acos­tu­ma­da a gov­ernar e a reinar. Ela foi cri­a­da pra isso”, esclarece o autor de D. Leopold­ina, a história não con­ta­da: A mul­her que arquite­tou a Inde­pendên­cia do Brasil.​

Pedro, segun­do os bió­grafos, com­preende que Leopold­ina é uma ali­a­da. “Se não enten­desse que ela era uma ali­a­da, jamais o imper­ador teria colo­ca­do ela como regente do Brasil enquan­to ele fazia a viagem para São Paulo”, apon­ta o pesquisador.

“No dia 13 de agos­to, Pedro saiu do Rio de Janeiro e colo­cou ela como prince­sa no Brasil. Ele chegou em São Paulo no dia 25 de agos­to e voltaria ao Rio de Janeiro um mês depois, no dia 14 de de setem­bro”, expli­ca Rez­zut­ti. Quan­do o Brasil ficou Inde­pen­dente, a regente era a esposa. Tor­na­va-se, então, a primeira mul­her que ocupou o mais alto car­go o Brasil. E em um perío­do de extrema ten­são. Havia con­fli­tos na Bahia des­de fevereiro.

Um dos aspec­tos da força de Leopold­ina esta­va lig­a­do ao momen­to do Con­sel­ho dos Min­istros, quan­do Dom Pedro esta­va em São Paulo, e foi ela, na situ­ação de prince­sa regente, que esta­va reuni­da com José Bonifá­cio de Andra­da e Sil­va (pres­i­dente da jun­ta gov­er­na­ti­va de São Paulo e asses­sor de Dom Pedro) quan­do rece­beu a cor­re­spondên­cia do reino com uma série de imposições ao Brasil. Ela, então, aju­dou a artic­u­lar o desen­ro­lar dos acon­tec­i­men­tos que cul­mi­naram com a Inde­pendên­cia.

Retrata a sessão de 2 de setembro de 1822 do Conselho de Estado do Brasil, que precedeu a declaração da Independência do Brasil.
Repro­dução: 7 de Setem­bro — Retra­to da sessão de 2 de setem­bro de 1822 do Con­sel­ho de Esta­do do Brasil, que pre­cedeu a declar­ação da Inde­pendên­cia do Brasil. — Georgina de Albu­querque, 1922 / Acer­vo da FBN

Leopold­ina, então, sinal­i­zou de for­ma enfáti­ca para a toma­da de decisão do mari­do sobre a sep­a­ração de Por­tu­gal.  A car­ta com a metá­fo­ra de que o “fru­to (da Inde­pendên­cia)” estaria “maduro” era a indi­cação de que Pedro pre­cis­aria. Mary Del Pri­ore expli­ca que o fato de a prince­sa ter se tor­na­do regente era fato comum da época. Ape­sar das humil­hações no cenário de foro ínti­mo, Leopold­ina tin­ha a con­fi­ança do mari­do para as decisões políti­cas.

Poliglota

Os pesquisadores enfa­ti­zam que ela perce­beu que os fil­hos iri­am ficar sem trono. Por isso, pen­sou em res­guardar o cam­in­ho para os herdeiros. “É espetac­u­lar o devota­men­to da Leopold­ina ao Brasil e ao pro­je­to dela de uma coroa (pen­san­do no país) para os fil­hos”, afir­ma Mary Del Pri­ore.

Como o imper­ador não era flu­ente em out­ros idiomas, Leopold­ina incumbiu-se da tare­fa de rece­ber mar­in­heiros mer­cenários  para com­por as forças de resistên­cia brasileiras. Segun­do os estu­diosos, ela fala­va inglês, francês, alemão e rece­beu os mil­itares.

Leopold­ina escreveu para as lid­er­anças na Europa pedin­do recon­hec­i­men­to do Brasil e de Dom Pedro, como alguém acla­ma­do pelo povo. “Ela foi uma pre­sença muito proa­t­i­va”, diz Del Pri­ore.

Um exem­p­lo dis­so é que, mes­mo depois da dor de perder o fil­ho (no dia 2 de fevereiro de 1822), João Car­los (que ela esper­a­va que seria o futuro imper­ador do Brasil,), essa mul­her vence essa dor e todas as difi­cul­dades. “Ela esta­va grávi­da nova­mente e foi de bar­rigão no Arse­nal da Mar­in­ha falar com os mil­itares”.

Não seria a primeira vez que Leopold­ina usa­va a sagaci­dade para resolver dúvi­das impor­tantes para o país, em uma mis­tu­ra de questões famil­iares e políti­cas. Em janeiro de 1822, por exem­p­lo, quan­do ocorre o Dia do Fico (mar­co, em 9 de janeiro, tam­bém para a Inde­pendên­cia do Brasil que ocor­re­ria naque­le ano), Leopold­ina, grávi­da, usa como pre­tex­to a ges­tação para não voltar a Por­tu­gal.

Os his­to­ri­adores anal­isam que Leopold­ina perce­beu que a ausên­cia do imper­ador pode­ria enfrentar revoltas que gerassem divisões do ter­ritório. “Ain­da não se tin­ha essa ideia de sen­ti­men­to de nacional­i­dade. Isso vai ser o proces­so da inde­pendên­cia que vai traz­er essa ideia de unidade nacional”, afir­ma o escritor Paulo Rez­zut­ti.

Segun­do out­ro bió­grafo de dona Leopold­ina, o escritor Clóvis Bul­cão, a prince­sa foi lenta­mente sendo envolvi­da por aque­le ambi­ente de dis­pu­ta, de rad­i­cal­iza­ção entre brasileiros e por­tugue­ses. “Ela vai toman­do clara­mente o lado do Brasil”. “É impor­tante lem­brar que o pai dela, o imper­ador da Áus­tria, quan­do fez o casa­men­to com a família Bra­gança deixa bem claro que não era pra se meter em aven­tu­ra rev­olu­cionária”, con­tex­tu­al­iza Bul­cão.

Essa des­obe­diên­cia rompeu com a tradição do império aus­tría­co. Bul­cão avalia que, no final, ela vai ter um papel impor­tante naque­les últi­mos dias que ante­ce­dem o 7 de Setem­bro. O cli­ma vai fican­do cada vez mais tumul­tua­do e ten­so. Dom Pedro, quan­do foi pra São Paulo e proclam­ou a Inde­pendên­cia, deixa Leopold­ina como regente no Rio . “Então, na ver­dade, o Brasil, quan­do nasce em 7 de setem­bro, tem uma mul­her como a gov­er­nante”.

A aliada

“Após a Inde­pendên­cia, ela tam­bém mostra o seu val­or”, afir­ma Mary Del Pri­ore. Em vez de ficar  no Palá­cio, recol­hi­da e humil­ha­da, para chorar o fil­ho mor­to ou cuidar das fil­has, ela assume esse lugar de nego­ci­ado­ra diplomáti­ca entre Brasil e Áus­tria. As cor­re­spondên­cias dela para o pai (o monar­ca Fran­cis­co Car­los) pedem que o Brasil seja recon­heci­do como Império”, afir­ma a pesquisado­ra.

Os pesquisadores expli­cam que as car­tas deix­adas por dona Leopold­ina são fun­da­men­tais para enten­der aque­le momen­to. “A maio­r­ia das car­tas encon­tradas foram as que ela deixou para a irmã [Maria Luiza, esposa de Napoleão, ído­lo de Dom Pedro].”

O com­por­ta­men­to de Dom Pedro, com várias amantes e fil­hos das relações extra­con­ju­gais, tem relevân­cia políti­ca porque as histórias da família pas­sam a se tornar públi­cas, e são jul­gadas pelos que leem os pan­fle­tos. “É na casa da Mar­que­sa dos San­tos que Dom Pedro reúne tam­bém a corte brasileira”. Por out­ro lado, na casa de Leopold­ina, tam­bém ocor­ri­am encon­tros políti­cos. Nesse momen­to, fol­hetos pas­sam a cir­cu­lar para criticar o autori­taris­mo de Dom Pedro e seu com­por­ta­men­to que aten­taria con­tra a imagem das famílias brasileiras.

“Ess­es fol­hetos vão fican­do cada vez mais áci­dos e isso desem­bo­caria, depois, na decadên­cia da figu­ra políti­ca de Dom Pedro. Uma decadên­cia que vai resul­tar em 1831 na vol­ta dele pra Por­tu­gal onde ele está real­mente muito desmor­al­iza­do”.

Admiração pelo Brasil

A viagem da comi­ti­va de Leopold­ina, da Europa até o Brasil, demor­ou 84 dias. Era o cam­in­ho para o casa­men­to de con­veniên­cia, como era cos­tumeiro na época. Em car­ta escri­ta em 1817, ela rev­el­ou-se encan­ta­da pela visão da Baía de Gua­n­abara.

 A prince­sa aus­tría­ca teve sól­i­da for­mação cien­tí­fi­ca e estu­dou detal­h­es sobre o Brasil antes de se mudar. Depois da chega­da, se apaixo­nou.  Ela tin­ha espe­cial atenção por assun­tos de botâni­ca, de min­er­alo­gia e pelo meio ambi­ente brasileiro.

Johann Baptist von Spix
Repro­dução: 7 de setem­bro — Johann Bap­tist von Spix — Johann Bap­tist von Spix — Domínio públi­co

“É um país mag­ní­fi­co e ameno, ter­ra abençoa­da que tem habi­tantes hon­estos e bon­dosos; além dis­so lou­vasse toda a família, têm muito sen­so e nobres qual­i­dades. Logo a Europa estará insu­portáv­el e daqui dois anos pos­so viv­er aqui nova­mente, mas este­ja con­vic­ta de que meu maior empen­ho será cor­re­spon­der à con­fi­ança que toda a família e meu futuro esposo em mim deposi­tam, através de meu amor por ele e meu com­por­ta­men­to”, escreveu à irmã.

Mãe e morte

Em nove anos, Leopold­ina teve nove ges­tações. Sete fil­hos sobre­viver­am, entre eles Pedro, que iria se tornar o herdeiro do trono. Mes­mo com a vida de mãe e os tra­bal­hos políti­cos, Leopold­ina enfren­tou depressão. Ela pas­sou a engor­dar muito.

Um momen­to de ten­são no país ocor­reu com a morte dela, com ape­nas 29 anos de idade, em novem­bro de 1826. “A Mar­que­sa de San­tos teve que fugir pelos fun­dos da casa dela porque a  pop­u­lação a acusa­va de ter enve­ne­na­do a imper­a­triz”, diz a pro­fes­so­ra. Os pesquisadores enten­dem que a frag­ili­dade físi­ca dela cau­sou obesi­dade mór­bi­da.

Cortejo fúnebre da Imperatriz Leopoldina.
Repro­dução: 7 de Setem­bro — Corte­jo fúne­bre da Imper­a­triz Leopold­ina. — Jean Bap­tiste Debret

Mer­cenários estrangeiros tam­bém se revoltam com a morte de Leopold­ina. Na Europa, há tam­bém per­plex­i­dade. Nos jor­nais, os relatos médi­cos nos jor­nais da época. “Ela pode ter tido uma febre resul­tante de uma infecção do últi­mo abor­to. Ela esta­va já bas­tante enfer­ma por causa dos par­tos”, afir­ma Mary Del Pri­ore.  A pesquisado­ra expli­ca que ela se des­pediu dos fil­hos e dos fun­cionários antes de mor­rer. A morte cau­sou comoção nacional.

Invisibilidade

O escritor Paulo Rez­zut­ti entende que a per­son­agem foi apa­ga­da da história de for­ma injus­ta e por machis­mo, já que ela age nos basti­dores políti­cos, além do que se esper­aria dela. Uma mudança de olhar da história ocorre só no sécu­lo seguinte. Clóvis Bul­cão con­sid­era uma ação de machis­mo em relação a his­to­ri­adores que dimin­uíram o papel de Leopold­ina.

Para Mary Del Pri­ore, até o final do sécu­lo 20, era inco­mum que as histórias de mul­heres gan­has­sem maior reper­cussão. “A his­to­ri­ografia vem desco­brindo pro­tag­o­nistas fem­i­ni­nos. Está se fazen­do justiça a uma mul­her que tra­bal­hou pela inde­pendên­cia do Brasil com todas as forças e com muito amor”.

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Edição: Alessan­dra Esteves

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