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Pesquisadores da USP planejam testes para usar rim suíno em humanos

Repro­dução: © Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil

Primeira etapa é de edição genética dos animais


Pub­li­ca­do em 26/10/2021 — 06:33 Por Cami­la Boehm – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo 

Pesquisadores brasileiros realizaram edição genéti­ca em por­cos como parte de estu­do que tem como obje­ti­vo o xeno­trans­plante – téc­ni­ca que per­mi­tiria trans­plan­tar órgãos e teci­dos de suínos para seres humanos – no futuro. O grupo está em bus­ca de recur­sos e plane­jam testes em humanos daqui a dois anos. Os estu­dos são con­duzi­dos pela Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP).

No Brasil, o pesquisador do Cen­tro de Estu­dos do Geno­ma Humano e Célu­las-Tron­co da USP, Ernesto Goulart, disse que, neste momen­to da pesquisa, estão sendo pro­duzi­dos os primeiros embriões de por­cos a par­tir das célu­las geneti­ca­mente mod­i­fi­cadas, que são os primeiros exper­i­men­tos de clon­agem deste estu­do.

“A primeira eta­pa para pro­duzir um suíno geneti­ca­mente mod­i­fi­ca­do, para que os órgãos desse ani­mais sejam uti­liza­dos para trans­plante em humanos, é a eta­pa de edição genéti­ca. Nós já con­cluí­mos essa eta­pa”, disse. Até ago­ra, nes­sa primeira eta­pa, ele expli­cou que os pesquisadores con­cluíram a edição do DNA das célu­las de suínos, para que aque­les genes que causam a rejeição agu­da fos­sem ina­ti­va­dos.

O obje­ti­vo é que, no futuro, quan­do essas célu­las derem origem a um ani­mal, os órgãos a serem trans­plan­ta­dos não causem rejeição no paciente humano. “A gente pega aque­la célu­la que pro­duz­iu no lab­o­ratório, que mod­i­fi­cou o geno­ma, e ago­ra vamos faz­er uma téc­ni­ca de clon­agem. A par­tir daque­la célu­la, eu con­si­go ger­ar um embrião que vai se desen­volver [na bar­ri­ga] do ani­mal e a gente espera que os órgãos sejam então com­patíveis com o trans­plante em humano.”

Ao se mostrarem viáveis no lab­o­ratório, os embriões serão trans­feri­dos para a bar­ri­ga de aluguel até o nasci­men­to dos fil­hotes suínos. “Se tudo der cer­to, em poucos meses, em questão de 6 a 8 meses, nós ter­e­mos nos­sos primeiros porquin­hos nascen­do. A expec­ta­ti­va do nos­so grupo é de, em até dois anos, começar os primeiros estu­dos em humanos, com trans­plantes em humanos. E, em até cin­co anos, há expec­ta­ti­va de ini­ciar os estu­dos clíni­cos [aprova­dos pela Agên­cia Nacional de Vig­ilân­cia San­itária — Anvisa]”, disse Goulart.

Experimento nos Estados Unidos

O assun­to dos xeno­trans­plantes gan­hou espaço após divul­gação na impren­sa de um exper­i­men­to, real­iza­do nos Esta­dos Unidos, em que um rim suíno foi lig­a­do ao sis­tema vas­cu­lar de um paciente humano, mas man­ti­do fora do seu cor­po, e não provo­cou rejeição pelo seu sis­tema imunológi­co. O pro­ced­i­men­to uti­li­zou um por­co cujos genes havi­am sido edi­ta­dos geneti­ca­mente para que seus teci­dos não causassem rejeição em humanos.

Ape­sar de ain­da não haver uma pub­li­cação cien­tí­fi­ca a respeito desse exper­i­men­to, o pesquisador brasileiro afir­ma que ele já con­tribuiu muito com o desen­volvi­men­to dessa abor­dagem no mun­do todo. “É uma pro­va de con­ceito muito impor­tante. A edição genéti­ca, um dos prin­ci­pais obje­tivos, é fugir dessa rejeição hiper­agu­da [do órgão]. E qual que é exce­lente notí­cia que esse tra­bal­ho nos traz? Esse órgão ficou três dias no paciente e não rejeitou, não teve nen­hum indí­cio de rejeição. Muito pelo con­trário, ele esta­va fun­cio­nan­do”, comem­o­rou.

Procedimento no Brasil

O cirurgião e pro­fes­sor eméri­to da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da USP Sil­vano Raia, líder dos estu­dos de xeno­trans­plante na USP, disse em entre­vista à Agên­cia Brasil que um pro­ced­i­men­to anál­o­go ao que foi feito nos Esta­dos Unidos deve ser real­iza­do pela equipe no Brasil daqui a aprox­i­mada­mente seis meses.

Ele descreveu que os rins suínos serão usa­dos, pelos pesquisadores brasileiros, em exper­i­men­to de per­fusão iso­la­da, ou seja, um sis­tema que per­mite estu­dar o órgão fora do cor­po do ani­mal e do ser humano, por meio de uma máquina.

“Se a per­fusão do rim mod­i­fi­ca­do no nos­so lab­o­ratório, per­fun­di­do com sangue humano durante 12 horas, que é a oper­ação pro­gra­ma­da, não demon­strar nen­hum sinal de rejeição, pro­va que os nos­sos rins são ade­qua­dos para ten­tar o pas­so seguinte, que é o trans­plante no homem”, disse o médi­co, de 91 anos, que real­i­zou o primeiro trans­plante de fíga­do com doador fale­ci­do da Améri­ca Lati­na, em 1985. Em 1988, ele foi o primeiro no mun­do a realizar o pro­ced­i­men­to com um doador vivo.

“É muito prováv­el que, den­tro de um ano, nos Esta­dos Unidos ou na Chi­na, que tam­bém está muito avança­da nis­so, ou na Ale­man­ha, se faça o xeno­trans­plante efe­ti­vo no ser humano, que não foi feito ain­da”, avalia o líder dos estu­dos no país. Ele acred­i­ta tam­bém que, daqui a dois anos, o xeno­trans­plante em humanos acon­teça no Brasil, já em pacientes que pre­cisem de um rim.

Estrutura esterilizada

Para os pas­sos futur­os da pesquisa, é necessária ain­da a con­strução de um biotério especí­fi­co, um espaço com condições san­itárias ade­quadas para a cri­ação dos ani­mais, que prop­icie um alto nív­el de biosse­gu­rança. Neste momen­to, não há ver­ba para via­bi­lizar a obra.

Enquan­to isso, os ani­mais usa­dos nos estu­dos serão cri­a­dos sem ess­es cuida­dos especí­fi­cos de ester­il­iza­ção. Eles não poderão ser trans­plan­ta­dos para humanos, mas servirão de teste de con­ceito para tudo que os pesquisadores realizaram até o momen­to.

“Ess­es ani­mais que vão ser ger­a­dos e cri­a­dos para essa final­i­dade não são man­ti­dos e cri­a­dos nas mes­mas condições que é um ani­mal para a uti­liza­ção para abate, para [pro­dução de] carne. Então pre­cisa ter uma estru­tu­ra de com­plex­i­dade que aten­da às neces­si­dades especí­fi­cas desse pro­je­to, essa infraestru­tu­ra não é bara­ta, e a gente pre­cisa con­seguir apoio e finan­cia­men­to para con­stru­ir e man­ter essa estru­tu­ra”, disse Ernesto Goulart.

Segun­do Ernesto, é pre­ciso garan­tir que aque­le órgão ou teci­do do ani­mal este­ja em um grau de segu­rança com­patív­el com sua uti­liza­ção final, ou seja, trans­plante em seres humanos. Por isso, o espaço deve garan­tir o con­t­role de qual­i­dade, a fim de evi­tar con­t­a­m­i­nações que pos­sam causar doenças nos pacientes. “Ess­es ani­mais, logo após o nasci­men­to, seri­am man­ti­dos den­tro dessa estru­tu­ra que nós chamamos de limpa até alcançarem o peso ide­al para cole­ta do mate­r­i­al a ser estu­da­do.”

Falta de órgãos

O Brasil tem o maior sis­tema públi­co de trans­plantes do mun­do, em número abso­lu­to, o país fica atrás dos Esta­dos Unidos, segun­do infor­mações do Min­istério da Saúde. Cer­ca de 90% dos trans­plantes de órgãos (coração, pul­mão, fíga­do, rim e pân­creas), real­iza­dos no país, são finan­cia­dos pelo Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS). No caso dos trans­plantes de medu­la óssea, essa por­cent­agem fica em torno de 71% e no de córneas em 60%.

O val­or gas­to para trans­plantes, em 2020, foi de R$ 912,6 mil­hões. Em 2019, ultra­pas­sou R$ 1 bil­hão. Ain­da assim, o Min­istério da Saúde infor­mou que, em relação à lista de espera, 53.783 pes­soas aguardam atual­mente na fila por um órgão no Brasil.

O líder da pesquisa na USP, Sil­vano Raia, expli­cou que há um cresci­men­to na despro­porção entre o número de pes­soas que pre­cisam de trans­plante e a quan­ti­dade de órgãos disponív­el. Para suprir a fal­ta de órgãos e teci­dos, pesquisadores de diver­sos país­es têm estu­da­do alter­na­ti­vas.

“A fal­ta de órgãos foi o fator lim­i­tante que impediu que mais doentes fos­sem aten­di­dos. Esse fenô­meno de fal­ta de órgãos é uni­ver­sal por duas razões: uma, porque a indi­cação dos trans­plantes tem aumen­ta­do graças aos bons resul­ta­dos que o pro­ced­i­men­to tem obti­do e, out­ra, em decor­rên­cia do fato que a idade média da pop­u­lação aumen­tou, então existe maior incidên­cia de doenças crôni­cas”, disse o médi­co. Já o número de órgãos não aumen­ta na mes­ma pro­porção.

Para con­tornar essa difi­cul­dade, Raia afir­ma que pesquisadores têm procu­ra­do os chama­dos órgãos adi­cionais. “São órgãos que não vem de cadáver humano, nem even­tu­ais doadores vivos humanos, mas sim de out­ra fonte. Entre os méto­dos que estão sendo tes­ta­dos e procu­ra­dos, o que mel­hor resul­ta­do tem tido são os xeno­trans­plantes [trans­plante entre duas espé­cies difer­entes].”

Fisiologia parecida

Como os por­cos têm a fisi­olo­gia mais pare­ci­da com a dos humanos, eles são con­sid­er­a­dos uma opção promis­so­ra como doadores, além de terem repro­dução fácil, perío­do de gravidez cur­to e nin­hadas numerosas. No entan­to, os suínos são difer­entes dos humanos em aspec­tos imunológi­cos e, por isso, hou­ve a neces­si­dade de mod­i­ficar os genes dos ani­mais para evi­tar uma rejeição agu­da nos xeno­trans­plantes, con­forme reforçou Raia.

De acor­do com o cirurgião, a pre­visão é que haja testes em pes­soas com morte cere­bral e, depois, o trans­plante de rim suíno pos­sa ser feito em pacientes que este­jam fazen­do hemod­iálise e que não ten­ham pos­si­bil­i­dade se rece­ber o órgão de doador humano vivo com­patív­el. Além dis­so, o tem­po pre­vis­to para este paciente rece­ber o órgão pela fila de trans­plantes dev­erá ser maior do que sua expec­ta­ti­va de vida em hemod­iálise.

“Então eles depen­dem exclu­si­va­mente de uma solução nova. Eles, [sendo] infor­ma­dos, se con­cor­darem, rece­berão um trans­plante de suíno. Ago­ra, se esse trans­plante de suíno não evoluir bem, nós reti­ramos o enx­er­to, devolve­mos o paciente para hemod­iálise e ele fica esperan­do um trans­plante clás­si­co, o trans­plante humano-humano, porém com pri­or­i­dade [na fila] que ele não tin­ha antes”, expli­cou Raia sobre os critérios definidos até o momen­to para o anda­men­to dos estu­dos.

Edição: Fábio Mas­sal­li

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