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Escola inclusiva deve considerar experiência de vida, diz professora

Repro­dução: © Arqui­vo pes­soal

Para ela, distância entre conteúdo e cotidiano dificulta aprendizado


Pub­li­ca­do em 09/03/2023 — 07:18 Por Heloisa Cristal­do — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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A dis­tinção entre esco­la reg­u­lar e espe­cial não existe para Tere­sa Man­toan. Pro­fes­so­ra há mais de seis décadas, ela tra­bal­ha para sen­si­bi­lizar a sociedade sobre a importân­cia da con­strução de uma esco­la que inclua todos os alunos, com defi­ciên­cias ou não. Em entre­vista exclu­si­va à Agên­cia Brasil, para mar­car o Dia Inter­na­cional da Mul­her, comem­o­ra­do nes­sa quar­ta-feira (8), a docente mostra como é pos­sív­el pen­sar a edu­cação inclu­si­va no país.

“Sou pro­fes­so­ra des­de 1961 e ocorre que o meu jeito de ensi­nar é muito próprio, não me alin­ho a nen­hum méto­do edu­ca­cional, nen­hu­ma didáti­ca especí­fi­ca. Eu acred­i­to que as pes­soas ten­dem para o con­hec­i­men­to porque todos nós pre­cisamos resolver prob­le­mas des­de pequenos. O con­hec­i­men­to é uma for­ma de a gente poder se ver cada vez mel­hor e cri­ar situ­ações que lev­em avanços ao con­hec­i­men­to de todos”, afir­mou a pro­fes­so­ra.

Criança nota zero

Segun­do Man­toan, sua própria história de vida como uma alu­na desin­ter­es­sa­da na infân­cia a motivou a bus­car cam­in­hos difer­entes da metodolo­gia de ensi­no con­ven­cional.

“Eu sem­pre tive essa ideia porque des­de cri­ança fui alu­na nota zero. Eu nun­ca con­segui, na esco­la, ter um bom aproveita­men­to, como eles diziam, porque não via util­i­dade naqui­lo que era ensi­na­do. Quan­do eu per­gun­ta­va [sobre] algu­ma coisa em que tin­ha inter­esse, que dizia respeito às dis­ci­plinas, eu era poda­da. Em matemáti­ca, lín­gua por­tugue­sa, história, os pro­fes­sores diziam: ‘olha, você pre­cisa saber isso ago­ra’, e eu me sen­tia despres­ti­gia­da e sem von­tade de con­tin­uar estu­dan­do uma coisa que já sabia. Como pro­fes­so­ra, fui a mes­ma coisa”, con­tou.

Para Tere­sa Man­toan, a dis­tân­cia entre os con­teú­dos e o cotid­i­ano dos alunos tor­na mais difí­cil o apren­diza­do das cri­anças. Segun­do a pro­fes­so­ra, o sis­tema atu­al é basea­do na sim­ples repro­dução de um mod­e­lo e impede a capaci­dade reflex­i­va do estu­dante.

“Quan­do me formei como nor­mal­ista, em 1960, fui, no ano seguinte, tra­bal­har em uma esco­la seri­a­da, e as cri­anças já pre­cisavam ter habil­i­dades e com­petên­cias para cur­sar deter­mi­na­do ano ou dis­ci­plina. Mas isso não vale. O que vale é aqui­lo que as cri­anças já viver­am de exper­iên­cias, e elas querem saber mais do que está pre­vis­to nas ativi­dades cur­ric­u­lares. Todos somos curiosos, mas deix­am­os de ser porque a esco­la nos impinge con­hec­i­men­to que – a meu ver – destrói a capaci­dade de con­hecer, de recri­ar o con­hec­i­men­to”, acres­cen­tou.

Inclusão

Por lei, pelo Plano Nacional de Edu­cação (PNE), o Brasil deve incluir todos os estu­dantes de 4 a 17 anos na esco­la. Os estu­dantes com neces­si­dades espe­ci­ais devem ser matric­u­la­dos pref­er­en­cial­mente em class­es comuns. Para isso, o Brasil deve garan­tir todo o sis­tema edu­ca­cional inclu­si­vo, salas de recur­sos mul­ti­fun­cionais, class­es, esco­las ou serviços espe­cial­iza­dos, públi­cos ou con­ve­ni­a­dos.

Colniza, MT, Brasil: Crianças na escola da comunidade de ribeirinhos de São Lourenço. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Repro­dução: Col­niza, MT, Brasil: Cri­anças na esco­la da comu­nidade de ribeir­in­hos de São Lourenço — Marce­lo Camargo/Agência Brasil

“O Brasil, pela Con­sti­tu­ição Fed­er­al e pela Lei de Dire­trizes e Bases da Edu­cação (LDB), é um país gen­uina­mente inclu­si­vo e, no entan­to, a edu­cação inclu­si­va não con­sid­er­a­va tudo isso e man­tinha cer­tos alunos em esco­las espe­ci­ais e insti­tu­ições espe­ci­ais”, criti­cou.

“Estar com”

No iní­cio de janeiro, o pres­i­dente Luiz Iná­cio Lula da Sil­va revo­gou decre­to do ex-pres­i­dente Jair Bol­sonaro que incen­tivou, em 2020, a cri­ação de class­es espe­cial­izadas em esco­las reg­u­lares e esco­las próprias para pes­soas com defi­ciên­cia. Na práti­ca, o dis­pos­i­ti­vo abria cam­in­ho para a cri­ação de esco­las espe­ci­ais para alunos com defi­ciên­cia e aulas sep­a­radas, sem con­vivên­cia com as out­ras cri­anças. A medi­da já havia sido sus­pen­sa pelo Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF) no mes­mo ano, após ques­tion­a­men­to da ação.

“Temos uma clareza muito grande do que é inclusão. Inclusão é ‘estar com’, não é estar jun­to. Jun­to a gente pode estar em toda parte, mas ‘estar com’ sig­nifi­ca com­par­til­har, colab­o­rar, coop­er­ar, prin­ci­pal­mente con­viv­er. A inclusão não é estar do lado, à frente do out­ro. É estar com o out­ro e isso é muito difí­cil nas esco­las do jeito como o gov­er­no tem agi­do, a par­tir de toda essa dis­cussão fei­ta de 2010 até 2022. Os pro­fes­sores e as redes de ensi­no fazi­am inter­pre­tações, e ain­da fazem, muito difer­entes do tex­to da políti­ca”, disse.

Escola melhora desenvolvimento de crianças com deficiência
Repro­dução: Esco­la mel­ho­ra desen­volvi­men­to de cri­anças com defi­ciên­cia — Tomaz Silva/Agência Brasil

Na avali­ação da pro­fes­so­ra, ain­da há um entendi­men­to dis­tor­ci­do sobre o que é inclusão den­tro da própria esco­la.

“A inclusão impli­ca mudança do modo como con­ce­ber, realizar e avaliar o ensi­no. Na con­cepção atu­al, a inclusão dos alunos da edu­cação espe­cial é muito com­pli­ca­da porque eles fogem do mod­e­lo [padrão]. Por out­ro lado, os pais das pes­soas com defi­ciên­cia se veem numa situ­ação muito difí­cil, de faz­er com que os pro­fes­sores ten­ham uma visão do fil­ho deles como pes­soas que não se encaix­am em um mod­e­lo”, obser­vou. “Os pais querem que seus fil­hos sejam vis­tos como pes­soas e não [ape­nas] como ‘pes­soas com defi­ciên­cia’”.

Formação deficiente

Atual­mente, Tere­sa Man­toan lid­era o Lab­o­ratório de Estu­dos e Pesquisas em Ensi­no e Difer­ença (Lep­ed) da Uni­ver­si­dade Estad­ual de Camp­inas (Uni­camp), cri­a­do em 1996 para ampli­ar as pesquisas na área de edu­cação inclu­si­va. Para a pro­fes­so­ra, a for­mação atu­al ain­da não capaci­ta ade­quada­mente docentes para uma edu­cação de fato inclu­si­va.

“A própria for­mação das uni­ver­si­dades deixa muito a dese­jar, o ped­a­gogo é mal­for­ma­do. Ao ped­a­gogo se ensi­na a didáti­ca da matemáti­ca, da lín­gua por­tugue­sa, e isso não existe. Esta­mos em uma edu­cação pós-mod­er­na, o mun­do é out­ro”, disse. “Ensi­nar não é sim­ples­mente trans­mi­tir con­teú­dos, con­hec­i­men­tos que não ten­ham gan­cho ante­ri­or na exper­iên­cia da cri­ança, que não ten­ham sen­ti­do para ela. Os con­teú­dos não fun­cionam como fim da apren­diza­gem. O con­teú­do tem que ser um meio para que o aluno pos­sa enten­der mel­hor o que o con­teú­do quer diz­er”, com­ple­tou.

Auto­ra do livro A esco­la que quer­e­mos para todos, a pro­fes­so­ra defende que a edu­cação não seja ape­nas repro­dução de con­teú­dos pro­gramáti­cos, dividin­do alunos por con­hec­i­men­tos dec­o­ra­dos.

“[A esco­la que defen­do] é aque­la em que alunos e pro­fes­sores vão exper­i­men­tar o mun­do a par­tir de con­teú­dos dos cur­rícu­los, mas sem uma pre­ocu­pação de que todos apren­dam e ten­ham as mes­mas capaci­dades de respostas e inter­ess­es. A esco­la difí­cil é essa [atu­al] que dribla para o que ela mes­ma quer, não o que é de inter­esse do aluno. Na práti­ca, é faz­er com que os pro­fes­sores e, prin­ci­pal­mente, quem coor­de­na as políti­cas edu­ca­cionais enten­dam que estu­dar não é dec­o­rar con­teú­do, muito menos ter as mes­mas capaci­dades, pois elas vari­am entre as pes­soas”, argu­men­tou.

Edição: Graça Adju­to

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