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Proibição de celular na escola é bem-vinda, mas não é suficiente

Escola também deve discutir desafios relacionados a novas tecnologias

Gilber­to Cos­ta
Pub­li­ca­do em 16/02/2025 — 10:43
Brasília
Brasília (DF) 14/02/2025 - Proibição do uso de celulares nas escolas. Alunos do colégio Galois seguram celulares. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: © Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­ci

A vida esco­lar de cer­ca de 47 mil­hões de estu­dantes do ensi­no fun­da­men­tal e do ensi­no médio mudou rad­i­cal­mente no ano leti­vo que acabou de ini­ciar. Con­forme a Lei nº 15.100/2025, eles estão proibidos de usar “apar­el­hos eletrôni­cos portáteis pes­soais durante a aula, o recreio ou inter­va­l­os entre as aulas, para todas as eta­pas da edu­cação bási­ca”.

Para Dani­lo Cabral, 16 anos, estu­dante do 2º ano do ensi­no médio do Colé­gio Galois em Brasília, a medi­da exige mudança de com­por­ta­men­to. Vai alter­ar, por exem­p­lo, a comu­ni­cação com a mãe ou com o pai. “Às vezes, no meio da man­hã, eu deci­do que vou almoçar na esco­la, e fica um pouco mais difí­cil avis­ar aos meus pais.”

Ape­sar do empecil­ho, Dani­lo acha que “é só uma questão de adap­tação mes­mo” e que vai ser “muito bené­fi­co”, porque “para prestar atenção nas aulas, a gente não pode mex­er no celu­lar”, admite cer­ca de dez dias depois da vol­ta às aulas.

Brasília (DF) 14/02/2025 - Proibição do uso de celulares nas escolas. A aluna do colégio Galois, Joana Chiaretto. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução: Brasília (DF) 14/02/2025 — Proibição do uso de celu­lares nas esco­las. A alu­na do colé­gio Galois, Joana Chiaret­to. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil — Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

Joana Chiaret­to, da mes­ma tur­ma que Dani­lo e tam­bém com 16 anos, percebe “mudanças muito pos­i­ti­vas” no pátio da esco­la. “Antes, a gente via todo mun­do no próprio celu­lar. Sem con­ver­sar, nem nada, os grupin­hos sep­a­ra­dos. Ago­ra a gente vê um grupão de meni­nas jogan­do car­ta. A gente vê as pes­soas con­ver­san­do mais. Aqui na esco­la todo mun­do está trazen­do jogos”, con­ta com entu­si­as­mo.

Para ela, “as pes­soas são muito vici­adas no celu­lar.” E, entre os mais jovens, “é muito difí­cil. Chega a dar aque­la angús­tia, de quer­er pegar o celu­lar, de lig­ar pra alguém ou man­dar uma men­sagem.”

Sem fotos do quadro

A visão críti­ca dos dois ado­les­centes sobre o uso de celu­lar no colé­gio e os bene­fí­cios da proibição são com­par­til­ha­dos por seus pro­fes­sores. “Mel­horou muito no que­si­to entrosa­men­to dos alunos. Eles têm que con­viv­er jun­tos de novo”, ressalta Vic­tor Maciel, pro­fes­sor de biolo­gia do ensi­no médio.

O pro­fes­sor obser­va que, sem o celu­lar, “os alunos não tiram mais fotos do quadro” e, mais aten­tos, per­gun­tam mais, tiram dúvi­das e apren­dem mais. “Eles têm que estar mais foca­dos ago­ra. A aula fica mais inter­es­sante para eles. Porque sabem que não vão ter tan­ta facil­i­dade depois para con­seguir aque­le con­teú­do.”

Patrí­cia Belezia, coor­de­nado­ra do ensi­no médio no Galois, tam­bém apoia a decisão. Ela se recor­da de que, em ano ante­ri­or, a esco­la fla­grou alunos jogan­do no celu­lar inclu­sive em platafor­ma de apos­tas, “muitos vici­a­dos no jogo do tigrin­ho e em pôquer eletrôni­co. Eles fazi­am apos­tas entre eles.” Como o exem­p­lo é uma for­ma de edu­car, a coor­de­nado­ra desta­ca que a restrição aos celu­lares na esco­la é para todos. Se estende aos fun­cionários e aos pro­fes­sores.

Brasília (DF) 14/02/2025 - Proibição do uso de celulares nas escolas. A diretora do colégio Galois, Dulcinéia Marques. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Repro­dução:  A dire­to­ra do colé­gio Galois, Dul­cinéia Mar­ques. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/Agên­cia Brasil

Dul­cineia Mar­ques, sócia fun­dado­ra do colé­gio, acha que “gan­hou um pre­sen­tão” com a lei aprova­da no Con­gres­so Nacional e san­ciona­da pelo pres­i­dente da Repúbli­ca. Para ela, o apar­el­ho celu­lar pode ser um mar­cador de desigual­dades soci­ais em função do mod­e­lo e do pacote de dados.

Ao seu ver, essas dis­tinções dis­torcem o espíri­to das esco­las que exigem o uso de uni­forme igual para todos, que tem um propósi­to. “É o jeito de edu­car ess­es meni­nos. É assim para igualar as cri­anças e ado­les­centes. Para não traz­er para den­tro da esco­la o poder aquis­i­ti­vo que os difer­en­ci­am pelos tênis e mar­cas de roupa.”

Projeto pedagógico

A esco­la de Dul­cineia Mar­ques, no Plano Pilo­to, atende a 1.198 meni­nos e meni­nas das qua­tro séries finais do ensi­no fun­da­men­tal e dos três anos do ensi­no médio. A 32 quilômet­ros dali, em Ceilân­dia, no Cen­tro Edu­ca­cional n° 11, o dire­tor Fran­cis­co Gadel­ha atende a 1.512 estu­dantes dessas séries e tam­bém home­ns e mul­heres de 18 a 60 anos do ensi­no de jovens e adul­tos (EJA). O dire­tor tam­bém faz elo­gios à proibição dos celu­lares.

“No começo, eu era con­trário à lei, por enten­der que o celu­lar é uma fer­ra­men­ta tec­nológ­i­ca. Mas ago­ra estou obser­van­do em poucos dias como está sendo bené­fi­co inclu­sive no com­por­ta­men­to. A gente está ten­do menos brigas, menos situ­ações de bul­ly­ing.”

Gadel­ha está aprovei­tan­do a entra­da em vig­or da Lei nº 15.100/2025 para provo­car a reflexão dos alunos e dos pro­fes­sores. Na preparação do ano leti­vo, a esco­la ado­tou o livro “A ger­ação ansiosa: como a infân­cia hiper­conec­ta­da está cau­san­do uma epi­demia de transtornos men­tais”, do psicól­o­go social Jonathan Haidt, como refer­ên­cia para a cri­ação de um pro­je­to pedagógi­co em anda­men­to.

Segun­do ele, os três primeiros dias de aula no perío­do diurno foram “cansativos” porque teve de guardar na esco­la 15 celu­lares que os alunos troux­er­am de casa. Os apar­el­hos foram devolvi­dos aos respon­sáveis pelos estu­dantes. Ape­sar da esco­la reti­rar o tele­fone dos alunos, ape­nas um pai reclam­ou. “Em regra, os pais estão gostan­do muito”, avalia o dire­tor.

Além da direção da esco­la durante o dia, Fran­cis­co Gadel­ha ain­da leciona para adul­tos no perío­do noturno. De acor­do com ele, a proibição do celu­lar “é mais difí­cil no EJA, porque os adul­tos estão mais vici­a­dos do que as cri­anças.” Com eles, a esco­la propõe um ter­mo colab­o­ra­ti­vo para man­ter os apar­el­hos longe das salas de aula.”

Uso consciente

Para Luiz Fer­nan­do Dimarzio, anal­ista pedagógi­co da Ctrl+Play, uma esco­la de tec­nolo­gia para cri­anças e ado­les­centes em cidades do Esta­do de São Paulo, a lei que proíbe celu­lares é “polêmi­ca”, pois “a questão do per­mi­tir ou proibir é acabar indo muito nos extremos.”

Dimarzio opina que é pre­ciso bus­car “como que a gente pode uti­lizar isso de for­ma saudáv­el, e ensi­nar o uso con­sciente da coisa. Eu fico pen­san­do, será que, de repente, definir momen­tos especí­fi­cos para uso? Para uma pesquisa, tem inúmeros aplica­tivos edu­ca­cionais, né? Será que, de repente, definir momen­tos especí­fi­cos para o uso não seria mais inter­es­sante?”,

Em suas inda­gações, o anal­ista pedagógi­co lem­bra que a lei fac­ul­ta o uso de apar­el­hos eletrôni­cos em sala de aula “para fins estri­ta­mente pedagógi­cos ou didáti­cos, con­forme ori­en­tação dos profis­sion­ais de edu­cação”.

Vic­tor Fre­itas Vicente, coor­de­nador de edu­cação do Insti­tu­to Felipe Neto, avalia que havia um clam­or no país pela adoção da lei con­tra os celu­lares nas esco­las “e que a proibição pode ser um pas­so impor­tante no con­tex­to de ambi­entes dig­i­tais cada vez mais tóx­i­cos.”

Ele, no entan­to, pon­dera que “a esco­la não é um jardim mura­do. Ela é um polo conec­ta­do com os desafios da sociedade” e, nesse sen­ti­do, “pre­cisa preparar as novas ger­ações para os desafios que as tec­nolo­gias dig­i­tais estão colo­can­do, não só em relação ao com­por­ta­men­to, mas em relação a uma nova ordem econômi­ca, a inteligên­cia arti­fi­cial.”

O coor­de­nador tam­bém defende os resul­ta­dos da proibição do celu­lar sejam avali­a­dos em pesquisas sobre apren­diza­gem, e que seja implan­ta­da a Políti­ca Nacional de Atenção Psi­cos­so­cial nas comu­nidades esco­lares, que ain­da não têm reg­u­la­men­tação definin­do as regras práti­cas para adoção nos difer­entes sis­temas de edu­cação brasileiros. Além dis­so, ele é a favor de que o Con­gres­so Nacional retome a elab­o­ração da lei sobre fun­ciona­men­to das redes soci­ais.

Redes sociais

Thes­sa Guimarães, pres­i­den­ta do Con­sel­ho Region­al de Psi­colo­gia do Dis­tri­to Fed­er­al (CRP-DF) con­sid­era “fun­da­men­tal tirar da gave­ta pro­je­tos de lei que con­tribuam para a reg­u­lação das redes soci­ais, com­preen­den­do que hoje a nos­sa vida atrav­es­sa as redes soci­ais”. Ela ressalta que, por causa das redes soci­ais, “um dis­pos­i­ti­vo eletrôni­co é uma por­ta aber­ta a toda a pro­dução humana que existe, inclu­sive a pro­dução de dis­cur­sos de ódio, a pro­dução de difusão de méto­dos de auto-lesão e de suicí­dio.”

Raquel Guz­zo, pesquisado­ra e pro­fes­so­ra tit­u­lar de Psi­colo­gia na PUC de Camp­inas, con­sid­era que as redes soci­ais, aces­sadas prin­ci­pal­mente por meio de celu­lares, “têm um impacto sig­ni­fica­ti­vo na autoes­ti­ma e na per­cepção de si mes­mos entre ado­les­centes, que podem se sen­tir pres­sion­a­dos a cor­re­spon­der a padrões irreais de com­por­ta­men­to e estéti­ca.”

Ela lem­bra que as redes soci­ais “são pro­je­tadas para max­i­mizar o tem­po que os usuários pas­sam nelas, uti­lizan­do algo­rit­mos que pro­movem o enga­ja­men­to con­tín­uo.” No entan­to, “out­ros recur­sos do celu­lar, como jogos e aplica­tivos, tam­bém podem con­tribuir para a dependên­cia, espe­cial­mente quan­do usa­dos exces­si­va­mente.”

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Linguagem comprometida

A psi­cope­d­a­goga Gabriela de Mar­tin, espe­cial­ista em saúde men­tal pela UFRJ, avalia que a lin­guagem uti­liza­da pelos mais jovens e os recur­sos para a escri­ta nos celu­lares tam­bém são com­pro­m­ete­dores da lin­guagem e podem ger­ar bar­reiras quan­do forem bus­car tra­bal­ho.

Gabriela de Mar­tin tem exper­iên­cia com a colo­cação profis­sion­al de jovens apren­dizes (14 a 18 anos) no mer­ca­do de tra­bal­ho, mas enfrenta, no entan­to, “imen­sa difi­cul­dade, porque os meni­nos nes­sa faixa etária estão anal­fa­betos.”

“Temos uma lin­guagem usa­da nos aplica­tivos de men­sagem que não têm palavras por inteiro, cheia de erros de pon­tu­ação. Muitas vezes é o próprio tecla­do que vai crian­do o tex­to. Eu já vi mui­ta gente que chega com 16, 17 anos sem capaci­dade de for­mu­lar uma respos­ta”, lamen­ta Gabriela.

Total­mente favoráv­el à proibição dos celu­lares nas esco­las, a pres­i­den­ta do CRP-DF, Thes­sa Guimarães, aler­ta para os riscos de crise de abstinên­cia pela ausên­cia do celu­lar, com efeitos físi­cos e psíquicos, que pode acon­te­cer “na ausên­cia de qual­quer dro­ga, líci­ta ou ilíci­ta, na ausên­cia de um com­pan­heiro ama­do a par­tir de uma sep­a­ração, ou na ausên­cia de um dis­pos­i­ti­vo que se tornou a cen­tral­i­dade da vida daque­la cri­ança e daque­le ado­les­cente.”

Em caso de sín­drome, Thes­sa Guimarães recomen­da apoio famil­iar e bus­ca de profis­sion­al qual­i­fi­ca­do para atendi­men­to psi­cológi­co e “nat­u­ral­mente, a sub­sti­tu­ição pro­gres­si­va da cen­tral­i­dade daque­le dis­pos­i­ti­vo por mais comunhão famil­iar e par­tic­i­pação em ativi­dades para­didáti­cas, extracur­ric­u­lares.”

“É pre­ciso povoar a vida dessa cri­ança e desse ado­les­cente de novos inter­ess­es e de novas aber­turas, para que ela pos­sa se recu­per­ar do vício e explo­rar out­ras poten­cial­i­dades.”

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