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Adolescentes não têm apoio para lidar com redes sociais, diz pesquisa

Entrevistados querem psicólogos nas escolas para mudar cenário

Luciano Nasci­men­to – Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 11/05/2025 — 09:47
São Luís
Ver­são em áudio
como vídeos e comentários postados na internet podem influenciar os interesses e comportamentos individuais
Repro­dução: © Arquivo/EBC

Uma pesquisa real­iza­da em abril mostrou que 90% dos brasileiros maiores de 18 anos que têm aces­so à inter­net acred­i­tam que ado­les­centes não recebem o apoio emo­cional e social necessário para lidar com o ambi­ente dig­i­tal, em espe­cial as redes soci­ais. Foram ouvi­dos no lev­an­ta­men­to mil brasileiros conec­ta­dos de todas as regiões e class­es soci­ais, com 18 anos ou mais.

A margem de erro é de 3 pon­tos per­centu­ais para o total da amostra, con­sideran­do um inter­va­lo de con­fi­ança de 95%.

Segun­do a pesquisa, 9 em cada 10 brasileiros acred­i­tam que os jovens não têm apoio emo­cional e social sufi­ciente, enquan­to 70% defen­d­em a pre­sença de psicól­o­gos nas esco­las como cam­in­ho essen­cial para mudar esse cenário.

O lev­an­ta­men­to foi real­iza­do pelo Por­to Dig­i­tal, em parce­ria com a Offer­wise, empre­sa espe­cial­iza­da em estu­dos de mer­ca­do na Améri­ca Lati­na e no uni­ver­so his­pâni­co, a par­tir da reper­cussão de um seri­ado que abor­dou o lado som­brio da juven­tude imer­sa no mun­do dig­i­tal e o abis­mo entre pais e fil­hos.

Para 57% dos entre­vis­ta­dos, o bul­ly­ing (agressão inten­cional e repet­i­ti­va, que pode ser ver­bal, físi­ca, psi­cológ­i­ca ou social, para intim­i­dar uma pes­soa) e vio­lên­cia esco­lar são um dos prin­ci­pais desafios de saúde men­tal. Tam­bém estão entre os prin­ci­pais desafios atual­mente enfrenta­dos pelos jovens a depressão e a ansiedade (48%) e a pressão estéti­ca (32%).

Brasília (DF) 09/05/2025 - 90% dos brasileiros acima de 18 anos, que acessam a internet, acreditam que os adolescentes não recebem o apoio emocional. ( Pierre Lucena) Foto Porto Digital divulgação
Repro­dução: Ado­lescên­cia, série apre­sen­ta­da pela Net­flix evi­den­ciou neces­si­dade de colo­car a questão em debate, diz Pierre Luce­na — Divul­gação: Por­to Dig­i­tal

Na avali­ação do pres­i­dente do Por­to Dig­i­tal, Pierre Luce­na, a série Ado­lescên­cia, apre­sen­ta­da pela rede de stream­ing Net­flix, colo­cou em evidên­cia a neces­si­dade de se debater a questão.

“O cuida­do com a juven­tude deve ser um com­pro­mis­so com­par­til­ha­do, que envolve esco­las, famílias, empre­sas e gov­er­nos. Essa pesquisa evi­den­cia que não bas­ta dis­cu­tir ino­vação tec­nológ­i­ca – é pre­ciso human­izá-la e colocá-la a serviço da sociedade”, disse. “O futuro da ino­vação está dire­ta­mente lig­a­do à for­ma como cuidamos dos nos­sos jovens. Não bas­ta impul­sion­ar avanços tec­nológi­cos — é fun­da­men­tal cri­ar pontes entre a tec­nolo­gia e a trans­for­mação social real”, afir­mou.

A pesquisa mostra que uma das fer­ra­men­tas usadas pelos pais é o con­t­role do tem­po de nave­g­ação na inter­net. Segun­do o estu­do, entre cri­anças de até 12 anos, o con­t­role tende a ser mais rígi­do e con­stante, inclu­sive com o uso de mecan­is­mos de mon­i­tora­men­to. No entan­to, ape­nas 20% dos pais respon­der­am que pre­ten­dem usar futu­ra­mente algu­ma fer­ra­men­ta de con­t­role.

Já entre os ado­les­centes de 13 a 17 anos, a super­visão tende a diminuir. Os pais ain­da acom­pan­ham, mas de for­ma mais flexív­el, per­mitin­do maior autono­mia.

Para o dire­tor-ger­al da Offer­wise, Julio Calil, o cenário mostra a neces­si­dade de desen­volvi­men­to de espaços de acol­hi­men­to e ori­en­tação, tan­to para os pais quan­to para os fil­hos, como alter­na­ti­vas para pro­teção no ambi­ente dig­i­tal.

“Os resul­ta­dos da pesquisa nos mostram que a pop­u­lação enx­er­ga a neces­si­dade de um esforço con­jun­to para cri­ar espaços mais seguros e de apoio nas esco­las, espe­cial­mente diante do uso pre­coce e inten­so das redes soci­ais”, apon­tou.

Plataformas

Recen­te­mente, as prin­ci­pais platafor­mas dig­i­tais mod­i­ficaram suas regras para restringir ou excluir a mod­er­ação de con­teú­dos pub­li­ca­dos na inter­net, difi­cul­tan­do a iden­ti­fi­cação de con­tas ou pub­li­cações com con­teú­dos con­sid­er­a­dos crim­i­nosos.

Brasília (DF) 09/05/2025 - 90% dos brasileiros acima de 18 anos, que acessam a internet, acreditam que os adolescentes não recebem o apoio emocional. ( Luciano Meira) Foto Arquivo pessoal
Repro­dução: Pro­fes­sor Luciano Meira defende reg­u­lação de platafor­mas para man­ter espaço social online saudáv­el para jovens e cri­anças — Foto: Arqui­vo pes­soal

Para o pro­fes­sor adjun­to de psi­colo­gia da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Per­nam­bu­co, Luciano Meira, tal decisão parece pri­orizar inter­ess­es com­er­ci­ais e políti­cos dos pro­pri­etários das redes.

“Essa decisão diminui a respon­s­abil­i­dade social das big techs, das cor­po­rações, das orga­ni­za­ções con­tro­lado­ras das platafor­mas. Isso tem um impacto dire­to na pro­lif­er­ação de ódio, desin­for­mação, con­teú­dos prej­u­di­ci­ais em diver­sas camadas,  espe­cial­mente, entre pop­u­lações vul­neráveis. Muito jovens ficam mais expos­tos a con­teú­dos inad­e­qua­dos sem essa mod­er­ação e, claro, quan­do se tra­ta de desin­for­mação, isso ata­ca insti­tu­ições e a própria democ­ra­cia”, avaliou.

Na out­ra pon­ta, o Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF) está jul­gan­do a con­sti­tu­cional­i­dade do Arti­go 19 do Mar­co Civ­il da Inter­net (Lei 12.965/2014), segun­do o qual, prove­dores, web­sites e redes soci­ais só podem ser respon­s­abi­liza­dos por con­teú­do ofen­si­vo ou danoso posta­do por usuários caso des­cumpram uma ordem judi­cial de remoção.

Ph.D. em edu­cação matemáti­ca pela Uni­ver­si­dade da Cal­ifór­nia e mestre em psi­colo­gia cog­ni­ti­va, Meira pon­tua que a ausên­cia de uma decisão sobre o tema pode levar a uma poten­cial sobre­car­ga judi­cial.

“Pode haver um aumen­to con­sid­eráv­el de casos judi­ci­ais jus­ta­mente pela fal­ta dessas ações pre­ven­ti­vas. Então, é pos­sív­el preser­var a liber­dade de expressão com mod­er­ação respon­sáv­el. A meu ver, o posi­ciona­men­to é uma redis­cussão do Arti­go 19 do Mar­co Civ­il da Inter­net para for­t­ale­cer o que seria a pro­teção social, não só de cri­anças e jovens, mas de avaliar o que se faz com o grupo de idosos hoje, vul­ner­a­bi­liza­dos por todo um con­jun­to de ataques, de coop­tação a deter­mi­na­dos tipos de ide­olo­gia”, acres­cen­tou.

Além dis­so, trami­ta no Con­gres­so Nacional o Pro­je­to de Lei 2.630 de 2020, con­heci­do como PL das Fake News, prin­ci­pal pro­pos­ta de reg­u­lação das platafor­mas dig­i­tais. O tex­to já foi aprova­do pelo Sena­do e está trava­do na Câmara dos Dep­uta­dos. A pro­pos­ta tra­ta da respon­s­abil­i­dade civ­il das platafor­mas e tam­bém tem ele­men­tos de pre­venção à dis­sem­i­nação de con­teú­dos ile­gais e danosos a indi­ví­du­os ou a cole­tivi­dades.

“Reg­u­lar essas platafor­mas é vital para que ten­hamos a manutenção de um espaço social online, pro­du­ti­vo e saudáv­el para todas as pes­soas — prin­ci­pal­mente jovens e cri­anças que têm menos mecan­is­mos indi­vid­u­ais de pro­teção”, afir­mou. “Aque­les que defen­d­em a desreg­u­la­men­tação total das redes cer­ta­mente têm uma uma ideia frágil e incon­sis­tente do que é liber­dade. Uma liber­dade restri­ta sem con­t­role social destrói, degen­era as bases da nos­sa capaci­dade de con­stru­ir e de faz­er evoluir uma civ­i­liza­ção. Então, clara­mente, a autor­reg­u­lação é insu­fi­ciente, espe­cial­mente em se tratan­do de empre­sas que bus­cam lucro através, por exem­p­lo, da pub­li­ci­dade, do comér­cio, enfim, as grandes platafor­mas, as big techs”, aler­tou.

Enquan­to não há uma decisão sobre o tema, o pro­fes­sor con­sid­era necessário con­stru­ir um ambi­ente de con­fi­ança, na esco­la, na família e nos demais espaços onde cri­anças e jovens são acol­hi­dos para evi­tar que cri­anças e ado­les­centes acabem sendo sub­meti­dos a situ­ações de dis­sem­i­nação de ódio e bul­ly­ing, entre out­ras.

“O prin­ci­pal é a con­strução da con­fi­ança entre as pes­soas. Sem a con­strução dess­es laços, desse rela­ciona­men­to basea­do na con­fi­ança, qual­quer dessas estraté­gias não terá os efeitos dese­ja­dos. A primeira ori­en­tação é esta­b­ele­cer um diál­o­go aber­to. Então, pais, mães, fil­hos e fil­has, eles têm que, de algu­ma for­ma, esta­b­ele­cer, man­ter, ou evoluir essa inter­locução con­fi­ante.

De acor­do com Meira, esse ambi­ente prop­i­cia a real­iza­ção de con­ver­sas sobre os riscos online e tam­bém sobre a for­ma como se dão os rela­ciona­men­tos com e nas redes soci­ais. “Eu enten­do que essas são con­ver­sas ínti­mas que, baseadas na con­fi­ança, podem pro­gredir de for­ma saudáv­el”, afir­mou.

Out­ro pon­to defen­di­do pelo pro­fes­sor é o esta­b­elec­i­men­to de lim­ites claros sobre o uso da inter­net e de redes soci­ais como, por exem­p­lo, de tem­po e de tipos de rela­ciona­men­to.

“Isso não vai ser real­iza­do, não vai ser cumpri­do se não exi­s­tir um diál­o­go aber­to em que cri­anças e ado­les­centes enten­dam que exis­tem con­teú­dos inad­e­qua­dos e que pre­cisam ter sen­so críti­co, ter seu pen­sa­men­to e for­mas de raciocínio. No entan­to, nes­sa faixa etária, eles sim­ples­mente ain­da não con­seguem cap­turar os riscos. Por isso, pre­cisam de um adul­to que ten­ha pelo menos uma intu­ição mais apu­ra­da para iden­ti­ficar for­mas de cyber­bul­ly­ing, de exposição exces­si­va, de con­teú­dos inad­e­qua­dos, de con­ta­to com estran­hos entre out­ros tipos de rela­ciona­men­tos”, disse.

Luciano Meira ressalta que pais e respon­sáveis ten­dem a sim­ples­mente restringir ou proibir o uso de redes soci­ais, sem um diál­o­go con­sis­tente sobre o porquê da decisão.

“Sin­to diz­er que os respon­sáveis o proíbem de uma for­ma muito autocráti­ca e que talvez não sur­ta efeito, porque não se tem con­t­role abso­lu­to sobre o que acon­tece na vida de abso­lu­ta­mente ninguém. Você pode esta­b­ele­cer uma for­ma de mon­i­tora­men­to par­tic­i­pa­ti­vo, em que bus­ca con­hecer, e esse mon­i­tora­men­to pode ser apoia­do, do pon­to de vista téc­ni­co, inclu­sive por soft­wares, com apli­cações com­puta­cionais que você insta­la no note­book, no com­puta­dor de mesa ou no dis­pos­i­ti­vo móv­el dessa cri­ança ou jovem para ter aces­so ao que está acon­te­cen­do ness­es dis­pos­i­tivos”, sug­eriu.

Por fim, o pro­fes­sor afir­ma  defende que não se deve deixar de lado o mun­do real e exem­pli­fi­ca com a leg­is­lação que proíbe o uso de celu­lares nas esco­las.

“Mais recen­te­mente, as esco­las têm vis­to algu­ma movi­men­tação em torno das cri­anças voltarem a con­stru­ir relações no mun­do físi­co. Por exem­p­lo, ao proibir o uso de dis­pos­i­tivos nas esco­las, con­vi­dam as cri­anças para uma existên­cia que é tam­bém offline. No final das con­tas, um equi­líbrio é necessário entre ess­es mun­dos para que no final a gente ten­ha a con­strução de rela­ciona­men­tos soci­ais mais duradouros e que gan­he sus­ten­tação na con­fi­ança entre as pes­soas e não ape­nas em algo­rit­mos”, con­cluiu.

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