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Ativistas preparam “missão maior” à Faixa de Gaza, diz Thiago Ávila

“Violência não vai nos parar”, diz brasileiro em entrevista exclusiva

Cami­la Boehm — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 17/06/2025 — 08:02
São Paulo
São Paulo (SP), 13/06/2025. O ativista Thiago Ávila durante a sua chegada no aeroporto de Guarulhos, após ser preso e deportado pelo exército israelense ao tentar desembarcar em Gaza. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Repro­dução: © Paulo Pinto/Agência Brasil

Inte­grante da Flotil­ha da Liber­dade, que lev­a­va aju­da human­itária à Faixa de Gaza quan­do foi inter­cep­ta­da pelas forças de segu­rança israe­lens­es há cer­ca de uma sem­ana, o brasileiro Thi­a­go Ávi­la infor­mou que o grupo de ativis­tas prepara uma nova mis­são para assistên­cia aos palesti­nos da região.  

“Vamos con­tin­uar ten­tan­do romper o cer­co ile­gal de Israel sobre Gaza, levar ali­men­tos e medica­men­tos e abrir um corre­dor human­itário dos povos. Para nós, enquan­to tiv­er cri­anças mor­ren­do de fome em Gaza, essa é a mis­são fun­da­men­tal. Já temos um novo bar­co chama­do Han­dala, ele está quase pron­to para ir”, disse o ativista em entre­vista exclu­si­va à Agên­cia Brasil.

“Esta­mos ten­tan­do arru­mar novos bar­cos para uma mis­são maior des­ta vez. Quer­e­mos que seja sem­pre assim: se Israel atacar uma mis­são nos­sa, que sai­ba que a próx­i­ma mis­são será maior. E que eles enten­dam que a vio­lên­cia não vai nos parar”, com­ple­tou.

Na entre­vista, ele falou sobre a tru­culên­cia das forças israe­lens­es des­de a inter­cep­tação do bar­co em águas inter­na­cionais até o que clas­si­fi­cou de seque­stro dos 12 ativis­tas estrangeiros que estavam a bor­do. Ele denun­ciou ain­da situ­ações de vio­lên­cia e abu­so de poder às quais a pop­u­lação da Faixa de Gaza é sub­meti­da de for­ma con­stante.

“Tudo o que a gente que­ria era não ser assas­si­na­do naque­le momen­to. Nos man­tiver­am por mais de 20 horas sequestra­dos den­tro do nos­so próprio navio, eles estavam forte­mente arma­dos”, con­tou.

A embar­cação, que foi inter­cep­ta­da em 9 de jun­ho, par­tiu da Itália levan­do ali­men­tos e medica­men­tos, com o obje­ti­vo de furar um blo­queio impos­to por Israel ao ter­ritório palesti­no, que há mais de três meses impõe fome a quase 2 mil­hões de pes­soas. Thi­a­go chegou ao Brasil na man­hã da últi­ma sex­ta-feira (13) e foi rece­bido por famil­iares e apoiadores no Aero­por­to Inter­na­cional de São Paulo, após sua prisão em Israel.

Segun­do os relatos, alguns ativis­tas, incluin­do o brasileiro, foram man­ti­dos em um ambi­ente com ratos, baratas e perceve­jos, além de rece­berem uma água tur­va e com mau odor para beber. Até a unidade pri­sion­al, foram lev­a­dos em veícu­los com vidros cober­tos e no escuro. “As pes­soas estavam amon­toadas, não tin­ham aces­so a ban­heiro, uma delas uri­nou no veícu­lo. Foi um proces­so degradante de trans­porte, com con­stantes ameaças e vio­lên­cia psi­cológ­i­ca”, lem­brou Thi­a­go.

“Era noite. Tin­ha ape­nas alguns buraquin­hos de fal­ha na tin­ta da janela que fica­va atrás de nós. Então dava para perce­ber que tin­ha algu­ma luz ou um sol­da­do se aprox­i­man­do, por exem­p­lo, mas a gente não con­seguia ver detal­h­es a pon­to de se localizar”, con­tou. Em protesto con­tra a detenção, que denun­ciou ser um seque­stro, Thi­a­go ficou em greve de fome. Como punição, foi lev­a­do a uma cela solitária, além de sofr­er ameaças de que não voltaria ao Brasil nem sairia dali caso não inter­rompesse a greve.

São Paulo (SP), 13/06/2025. O ativista Thiago Ávila durante a sua chegada no aeroporto de Guarulhos, após ser preso e deportado pelo exército israelense ao tentar desembarcar em Gaza. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Repro­dução: O ativista Thi­a­go Ávi­la chega a São Paulo, após ser pre­so e depor­ta­do pelo exérci­to israe­lense — Foto: Paulo Pinto/Arquivo/Agência Brasil

Ele avalia que a mis­são da Flotil­ha da Liber­dade aju­dou a dar vis­i­bil­i­dade às prisões ile­gais e tor­turas cometi­das con­tra os palesti­nos, a quem clas­si­fi­cou de reféns. Segun­do a Asso­ci­ação de Apoio a Pri­sioneiros e Dire­itos Humanos (Addameer), atual­mente Israel man­tém 10,4 mil pri­sioneiros palesti­nos.

No mês de março deste ano, o brasileiro-palesti­no Walid Khaled Abdal­lah, de 17 anos, mor­reu em uma prisão israe­lense após maus-tratos. Segun­do infor­mações da Fed­er­ação Árabe Palesti­na do Brasil (Fepal), a morte foi cau­sa­da por fome e desidratação pro­lon­gadas, além da fal­ta de cuida­dos médi­cos. A Fepal rela­tou que a prisão onde o jovem esta­va é con­heci­da pelo uso de tor­tu­ra com choques elétri­cos, espan­ca­men­tos e pri­vação de comi­da.

O Mon­i­tor Euro-Med de Dire­itos Humanos, orga­ni­za­ção inde­pen­dente basea­da na Suíça, recon­heceu a tor­tu­ra sis­temáti­ca e as atro­ci­dades sofridas pelos palesti­nos nas prisões israe­lens­es. Diante dis­so, a enti­dade avalia que há fla­grante vio­lação das nor­mas imper­a­ti­vas do dire­ito inter­na­cional. “Essa políti­ca faz parte do crime de genocí­dio de Israel, que visa destru­ir o povo palesti­no na Faixa de Gaza, total ou par­cial­mente, enfraque­cen­do os fun­da­men­tos de sua sobre­vivên­cia e levando‑o à sub­mis­são ou à extinção”, divul­gou a orga­ni­za­ção em nota.

A prisão de Thi­a­go Ávi­la é trata­da como crime de guer­ra pelo Con­sel­ho Nacional de Dire­itos Humanos (CNDH) do Brasil, que pediu ao gov­er­no brasileiro a sus­pen­são das relações diplomáti­cas e com­er­ci­ais com Tel Aviv. O Ita­ma­raty con­sider­ou que hou­ve vio­lação do dire­ito inter­na­cional e pediu, na ocasião, a lib­er­tação do ativista.

Con­fi­ra abaixo os prin­ci­pais tre­chos da entre­vista:

Agên­cia Brasil: Quais as ile­gal­i­dades cometi­das por Israel con­tra os ativis­tas que estavam na embar­cação da Flotil­ha da Liber­dade?
Thi­a­go Ávi­la: A maior vio­lação que acon­te­ceu, neste momen­to do seque­stro, foi pelo fato de nós estar­mos a mais de 100 mil­has náu­ti­cas de Gaza, por­tan­to em águas inter­na­cionais. Israel não tem juris­dição para inter­cep­tar qual­quer embar­cação em águas inter­na­cionais. Mes­mo que a gente já estivesse em Gaza, tam­bém não teria juris­dição porque é o ter­ritório marí­ti­mo palesti­no. Hou­ve tam­bém uma vio­lação das decisões lim­inares da Corte Inter­na­cional de Justiça [CIJ], no proces­so que a África do Sul abriu con­tra Israel pelo crime de genocí­dio, que proib­i­am Israel ou qual­quer out­ro país de deter aju­da human­itária que ten­tasse chegar a Gaza. Ao inter­cep­tar nos­sa mis­são, Israel não ape­nas vio­lou acor­dos inter­na­cionais de leg­is­lação marí­ti­ma e de nave­g­ação, como tam­bém uma decisão da CIJ, a maior instân­cia jurídi­ca do mun­do, do sis­tema das Nações Unidas.

Uma mis­são human­itária – car­regan­do ali­men­tos, medica­men­tos, próte­ses para cri­anças amputadas, mule­tas, fil­tros de água –, não vio­len­ta no seu princí­pio e na sua for­ma de agir ao lon­go de toda mis­são, foi ata­ca­da vio­len­ta­mente por Israel. Primeiro por drones, em um proces­so de guer­ra cibernéti­ca, que inter­cep­tou o sis­tema de nave­g­ação e inter­cep­tou par­cial­mente nos­sa comu­ni­cação com o mun­do exte­ri­or. Depois os drones começaram a jog­ar ele­men­tos quími­cos sobre nós, tin­tas e um pó pre­to que até hoje a gente não con­seguiu iden­ti­ficar. Depois a abor­dagem vio­len­ta e a chega­da para toma­da do nos­so bar­co, o seque­stro em águas inter­na­cionais.

Nos man­tiver­am por mais de 20 horas sequestra­dos den­tro do nos­so próprio navio, sendo lev­a­dos para um des­ti­no difer­ente de onde iríamos: o Por­to de Ash­dod em Israel. Nos­sos per­tences, equipa­men­tos eletrôni­cos e o próprio bar­co foram todos toma­dos por eles, sem nen­hu­ma expli­cação, sem dire­ito de defe­sa. Coa­gi­ram as pes­soas a assi­nar um doc­u­men­to onde elas con­fes­savam a cul­pa pelo crime de entrar ile­gal­mente em Israel, sendo que nun­ca foi nos­so obje­ti­vo entrar em Israel. Segun­do os advo­ga­dos de dire­itos humanos que nos acom­pan­havam, aqui­lo foi tan­to uma inter­cep­tação ile­gal, um crime de guer­ra, como uma prisão ile­gal e uma depor­tação ile­gal tam­bém. Então que era o nos­so dire­ito não assi­nar uma uma assunção de cul­pa sobre aqui­lo. A gente man­teve a decisão de não assi­nar, exce­to qua­tro pes­soas que a gente avaliou que era impor­tante que saíssem primeiro para con­tar a história ao mun­do.

São Paulo (SP), 13/06/2025. O ativista Thiago Ávila durante a sua chegada no aeroporto de Guarulhos, após ser preso e deportado pelo exército israelense ao tentar desembarcar em Gaza. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Repro­dução: Ativista Thi­a­go Ávi­la é rece­bido por famil­iares e apoiadores no Aero­por­to Inter­na­cional de São Paulo — Foto: Paulo Pinto/Arquivo/Agência Brasil

Agên­cia Brasil: No momen­to da inter­cep­tação, quan­do as forças de Israel entraram na embar­cação, como vocês se sen­ti­ram e como rea­gi­ram?
Thi­a­go Ávi­la: A toma­da do bar­co foi um momen­to de ten­são, porque numa situ­ação assim, 15 anos atrás, eles assas­si­naram dez dos nos­sos par­tic­i­pantes. Eu treinei aque­las pes­soas em relação à mel­hor chance que a gente teria de sair vivo de uma situ­ação de inter­cep­tação. Den­tro do bar­co, eu era o respon­sáv­el por garan­tir que as pes­soas tomassem todas as medi­das emer­gen­ci­ais em caso de ataque e de man­ter todo mun­do nesse foco de que não impor­ta o taman­ho da cru­el­dade da vio­lên­cia que eles usem, a gente vai se man­ter com uma mis­são não vio­len­ta. E a gente con­seguiu faz­er isso com suces­so.

Eles [forças israe­lens­es] são muito vio­len­tos. Como a gente desescala uma situ­ação assim, como não faz­er nen­hum movi­men­to brus­co, como não ten­tar impedir a toma­da deles do bar­co? Nós éramos um bar­co human­itário de 12 pes­soas. Aque­la força, a S13 [Shayetet 13] das forças espe­ci­ais de Israel, é uma unidade que esta­va ali com pelo menos 80 sol­da­dos forte­mente arma­dos, com equipe de apoio e equipa­men­to mil­i­tar. Não tin­ha [pos­si­bil­i­dade de] vitória mil­i­tar para a gente, nem era a nos­sa intenção. Tudo o que a gente que­ria era não ser assas­si­na­do naque­le momen­to.

Eles aproveitaram essa opor­tu­nidade para fil­mar e diz­er que estavam sendo cor­diais com a gente. Quan­do estavam gra­van­do, eles de fato falavam palavras cor­diais. Na hora em que entre­gavam água e comi­da, fil­mavam para pare­cer que estavam cuidan­do daque­las pes­soas, que na ver­dade estavam sendo sequestradas. Mas, logo atrás de quem esta­va fil­man­do, estavam os fuzis. Era uma manobra pub­lic­itária que pode enga­nar quem vê as ima­gens, mas quem esta­va viven­do a situ­ação sabe muito bem o que é a coerção de um seque­stro por uma unidade de forças espe­ci­ais que é recon­heci­da por crime de guer­ra.

Agên­cia Brasil: Como foi o perío­do em que você esta­va deti­do, como era trata­do nas dependên­cias da prisão?
Thi­a­go Ávi­la: Na unidade pri­sion­al de Ayalon, onde eu esta­va na solitária, era uma equipe mais vio­len­ta, eles me jogavam na parede e falavam: ‘Bem-vin­do a Israel’, quan­do eu cheguei. Eles usavam alge­mas nas mãos e nos pés e fechavam o máx­i­mo para travar a min­ha cir­cu­lação proposi­tal­mente. A con­dução den­tro da unidade pri­sion­al era aos empurrões e pon­tapés. Mas isso é pouco per­to do que o povo palesti­no pas­sa nas prisões. Tem mais de 10 mil pre­sos palesti­nos na região da Palesti­na históri­ca ocu­pa­da, entre eles mais de 400 cri­anças, muitos deles pas­san­do por tor­turas e vio­lên­cias ter­ríveis.

A água era imprópria para o con­sumo, as camas e o ambi­ente das celas estavam infes­ta­dos de inse­tos e perceve­jos, que deix­am mar­ca nos cor­pos das pes­soas, poli­ci­ais e agentes carcerários a todo instante entravam para pri­var as pes­soas de sono e para que não con­seguis­sem des­cansar. Bati­am por­tas, fazi­am muito barul­ho, ten­tavam intim­i­dar e praticar vio­lên­cia psi­cológ­i­ca para que as pes­soas entrassem em crise naque­le proces­so, diziam que a gente ia ficar por sem­anas lá, diziam que a gente não ia sair mais. Foi uma sen­sação hor­rív­el estar naque­la situ­ação.

Agên­cia Brasil: O que você fazia durante o tem­po na cela solitária?
Thi­a­go Ávi­la: O tem­po pas­sa difer­ente em um con­fi­na­men­to total. Eu can­ta­va, eu asso­vi­a­va e con­ver­sa­va com as pes­soas que estavam no corre­dor. Eu esta­va na cela oito, tin­ha out­ras sete celas ao meu lado, naque­le corre­dor escuro em que eu fica­va ouvin­do gri­tos e barul­hos de agressões, não con­seguia iden­ti­ficar exata­mente o que que era. Duas daque­las sete pes­soas falavam inglês e as demais falavam árabe. Come­cei a con­ver­sar com elas grada­ti­va­mente, e as pes­soas ficaram encan­tadas com a história da viagem e com a mis­são. No meio daque­le ambi­ente hor­rív­el, a gente vê que tem vida. E que o povo palesti­no é essa fonte de vida.

Teve um que per­gun­tou de que cidade eu era, eu falei que era de Brasília e eu per­gun­tei ‘e você?’. Ele falou: ‘Sou da Etiópia’. Eu per­gun­tei: ‘Mas você é de qual cidade? De Adis Abe­ba?’. E ele ficou super­fe­liz, ele falou: ‘Ninguém sabe a cap­i­tal do meu país’. Eu falei que admi­ra­va muito o país dele, porque a história da Etiópia é lin­da no sen­ti­do da resistên­cia con­tra o colo­nial­is­mo, con­tra a opressão. Os agentes carcerários dessa unidade pri­sion­al da solitária eram muito vio­len­tos, mas teve um jovem negro que, depois que teve essa con­ver­sa sobre a Etiópia, ele foi na min­ha cela falan­do baixo e me agrade­cen­do. Falou ‘a min­ha família tam­bém veio da Etiópia, eu sou judeu sefardi­ta e sofro mui­ta opressão e pre­con­ceito aqui em Israel, sou trata­do como um sujeito de segun­da cat­e­go­ria aqui, mes­mo sendo judeu’.

Agên­cia Brasil: Fora da mídia e das redes soci­ais, há mil­hares de prisões de palesti­nos, como você comen­tou. Como a mis­são pode aju­dar em relação à situ­ação de palesti­nos pre­sos injus­ta­mente em Israel?
Thi­a­go Ávi­la: Nesse pon­to, a mis­são foi bem-suce­di­da por traz­er con­sciên­cia às pes­soas sobre vio­lações que o povo palesti­no sofre, essa situ­ação dos pre­sos políti­cos palesti­nos é muito impor­tante. O que a gente pas­sou é uma peque­na fração do risco, do dano, das vio­lações que o povo palesti­no pas­sa. O povo palesti­no denun­cia há décadas que Israel prat­i­ca vio­lações de dire­itos humanos diver­sas com as pes­soas nas cadeias, exis­tem cen­tros de tor­tu­ra com vio­lên­cia sex­u­al, com assas­si­natos extra­ju­di­ci­ais. É um esta­do colo­nial que se estru­tur­ou em um [regime de] apartheid, que uti­liza leis dita­to­ri­ais, de seg­re­gação, onde jovens palesti­nos são jul­ga­dos por cortes mil­itares e cri­anças com menos de 14 anos podem sofr­er detenções admin­is­tra­ti­vas sem dire­ito à defe­sa, sem ter sequer uma acusação for­mal.

Esse esta­do comete uma série de vio­lações e uma mis­são como essa joga luz a essa real­i­dade. Infe­liz­mente, é uma real­i­dade de prati­ca­mente qual­quer família palesti­na já ter tido alguém encar­cer­a­do ou em prisão admin­is­tra­ti­va ou jul­ga­do por cortes mil­itares e con­de­na­do. É um povo que vive sob uma ter­rív­el e cru­el ditadu­ra que ain­da se fan­ta­sia de uma democ­ra­cia naque­la região. Ali é um exérci­to de ocu­pação que se tra­ta enquan­to esta­do, mas uti­liza as mes­mas regras de qual­quer exérci­to de ocu­pação no mun­do em proces­so de saque e pil­hagem colo­nial, de genocí­dio e limpeza étni­ca. O povo palesti­no, infe­liz­mente, enfrenta isso com o seu próprio cor­po, com a sua resistên­cia. Muitos palesti­nos fazem greve de fome, ten­tam denun­ciar ao mun­do, mas têm pouco alcance, poucos ouvi­dos dis­pos­tos a ouvir.

Brasília (DF), 07/06/2025 - Embarcação Madeleine, da Coalizão Flotilha da Liberdade. Foto: gazafreedomflotilla/Instagram
Repro­dução: Embar­cação Madeleine, da Coal­izão Flotil­ha da Liber­dade — Foto: gazafreedomflotilla/Instagram

Agên­cia Brasil: Você denun­cia­ram que a Flotil­ha da Liber­dade sofreu um seque­stro e eram reféns de Israel. Você avalia que ess­es pre­sos da Palesti­na tam­bém podem ser con­sid­er­a­dos reféns?
Thi­a­go Ávi­la: Sem dúvi­da nen­hu­ma, a gente tra­ta como reféns e avalia que o que acon­tece na Palesti­na é um genocí­dio, não é pro­pri­a­mente uma guer­ra. Israel não ape­nas nega o mais bási­co das relações mil­itares, como exe­cu­ta essas pes­soas nas prisões e nega o aces­so das famílias aos seus cor­pos. Eles negam qual­quer tipo de aces­so a essas pes­soas. Então, sim, a gente tra­ta como reféns e a gente tra­ta como pes­soas que têm todo o seu dire­ito à dig­nidade vio­la­do e que mere­cem ser reti­radas daque­la situ­ação.

Para nós, todo sujeito, povo orig­inário de um país, que está den­tro de um cárcere de uma força colo­nial é um pre­so políti­co. Porque a col­o­niza­ção é um crime políti­co, sobre­tu­do. É uma decisão de um império ou de uma enti­dade colo­nial de se achar supe­ri­or a um out­ro povo e ten­tar dom­i­nar aque­le povo. O povo palesti­no, como um todo, sofre há oito décadas um genocí­dio e uma limpeza étni­ca, são 18 anos de um blo­queio ile­gal sobre Gaza e um ano e nove meses de um genocí­dio que escalou vio­lações inimag­ináveis, em que cri­anças estão sendo mor­tas de fome todos os dias, em que hos­pi­tais, esco­las, abri­gos, bair­ros res­i­den­ci­ais inteiros estão sendo var­ri­dos do mapa, sendo explo­di­dos.

Agên­cia Brasil: Gostaria que você con­tasse um pouco sobre sua moti­vação em par­tir nes­sa mis­são human­itária e da sua história em relação à Palesti­na.
Thi­a­go Ávi­la: Eu ten­ho 38 anos, dos quais 20 eu dedi­co ao ativis­mo. Eu acom­pan­ho a causa Palesti­na há 20 anos e ten­to ser um bom ali­a­do, levar infor­mação, colab­o­rar em mobi­liza­ções, faz­er artic­u­lações entre pes­soas para que mais gente se una a essa causa. Eu já estive em todos os país­es da região, já ten­tei entrar em Gaza por todas as regiões, já estive na Palesti­na históri­ca ocu­pa­da em 2019. Vi de per­to que é o esta­do colo­nial de apartheid, vi a vio­lên­cia na Cisjordâ­nia ocu­pa­da, vi a vio­lên­cia nos ter­ritórios ocu­pa­dos em 1948, as vilas apa­gadas do mapa, onde só tem as ruí­nas hoje. Eu vi as mar­cas de fuzis, eu vi a nar­ra­ti­va e a edu­cação colo­nial que ten­ta desumanizar o povo palesti­no, apa­gar a história deles do mapa.

Eu me tornei coor­de­nador da Flotil­ha por acred­i­tar que é uma das ações mais boni­tas e inspi­rado­ras que eu já vi na vida. Lem­bra o proces­so de inde­pendên­cia da Índia, onde táti­cas não vio­len­tas são usadas con­tra uma força opres­so­ra ter­rív­el e, mes­mo assim, são bem-suce­di­das. Mes­mo quan­do não alcançam o obje­ti­vo exata­mente, elas mobi­lizam um setor total­mente novo da sociedade, que nun­ca pen­sou que estaria se movi­men­tan­do politi­ca­mente e se movi­men­tan­do em sol­i­dariedade a um povo. A Flotil­ha fez exata­mente isso: pes­soas do mun­do inteiro que nun­ca pen­saram que iri­am para a rua num protesto, sim­ples­mente não aguen­tam mais ver cri­anças sendo mor­tas de fome, hos­pi­tais, esco­las e abri­gos sendo bom­bardea­d­os, cri­anças sendo queimadas vivas, decap­i­tadas por bom­bas. A Flotil­ha foi um um chama­riz para as pes­soas verem que tem saí­da, tem solução, se a gente se unir. Foi assim que o apartheid da África do Sul foi der­ro­ta­do tam­bém.

Eu deci­di ser parte da Flotil­ha, como um ali­a­do da causa palesti­na, por enten­der que o des­ti­no do povo palesti­no muito provavel­mente vai ser o des­ti­no de toda humanidade. Nós, que esta­mos no Sul glob­al, no Brasil, tam­bém somos alvo da ganân­cia de quem quer tomar a ter­ra e os bens comuns da natureza. O Brasil tem um séti­mo da água potáv­el disponív­el em for­ma líqui­da do mun­do. O Brasil tem a maior flo­res­ta do mun­do, o maior rio do mun­do. A gente tem tan­ta riqueza sob o nos­so solo e na nos­sa bio­di­ver­si­dade que já é alvo do impe­ri­al­is­mo de diver­sas maneiras. A gente pre­cisa esper­ar o genocí­dio acon­te­cer aqui para a gente agir?

Agên­cia Brasil: Vocês pre­ten­dem faz­er novas mis­sões human­itárias com des­ti­no à Faixa de Gaza?
Thi­a­go Ávi­la: A Flotil­ha tem o lema “Quan­do os gov­er­nos fal­ham, nós naveg­amos”, e nós nave­g­are­mos enquan­to a Palesti­na não for livre. Sim, temos uma nova mis­são, vamos con­tin­uar ten­tan­do romper o cer­co ile­gal de Israel sobre Gaza, levar ali­men­tos e medica­men­tos e abrir um corre­dor human­itário dos povos. Para nós, enquan­to tiv­er cri­anças mor­ren­do de fome em Gaza, essa é a mis­são fun­da­men­tal. Já temos um novo bar­co chama­do Han­dala, ele está quase pron­to para ir.

Esta­mos ten­tan­do arru­mar novos bar­cos para uma mis­são maior dessa vez. Quer­e­mos que seja sem­pre assim: se Israel atacar uma mis­são nos­sa, que sai­ba que a próx­i­ma mis­são será maior. E que eles enten­dam que a vio­lên­cia não vai nos parar.

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