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Com cerca de 500 mil pessoas, Marcha das Mulheres Negras toma Brasília

Organizadoras cobram Estado: é “dever e direito olhar para povo negro”

Daniel­la Almei­da — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 26/11/2025 — 07:17
Brasília
Brasília (DF), 25/11/2025 – Cineasta Flora Egécia, Francyelle Souza Lima, Dione Oliveira Moura (mãe da Flora), Daniele Felix e Lourdes Quintero na Marcha de Mulheres Negras 2025. Foto: Flora Egécia/Arquivo Pessoal
Repro­dução: © Flo­ra Egécia/Arquivo Pes­soal

Uma enorme mul­her negra infláv­el, de 14 met­ros, com uma faixa pres­i­den­cial onde se lê “Mul­heres Negras Deci­dem” foi o pon­to de par­ti­da de cen­te­nas de car­a­vanas que inte­graram a 2ª Mar­cha Nacional das Mul­heres Negras por Reparação e Bem-Viv­er, nes­sa quin­ta-feira (25), rumo à Esplana­da dos Min­istérios. A esti­ma­ti­va é de que cer­ca de 500 mil pes­soas ocu­param as lat­erais do gra­ma­do da área cen­tral de Brasília.

Cláu­dia Vieira, rep­re­sen­tante do Comitê Nacional da Mar­cha das Mul­heres Negras, respon­sáv­el pela orga­ni­za­ção do movi­men­to, expli­cou que não foi fácil chegar até esse dia e quer que a mar­cha deixe um lega­do. “A par­tir desse mosaico, a gente apre­sen­ta para o país, para o mun­do e para o Esta­do brasileiro, para que enten­dam, de uma vez por todas, que é impor­tante, necessário, é dev­er e dire­ito olhar para a pop­u­lação negra.”

Brasília (DF) 25/11/2025 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver na Esplanada dos Ministérios. Participam mulheres negras de todo o Brasil de diferentes gerações, territórios e contextos sociais, e também mulheres afrodescendentes de mais de 40 países. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Reprodução: Segunda Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver reúne cerca de 500 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios — Foto Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

“Nós, mul­heres negras, não mere­ce­mos ficar o tem­po inteiro no final da fila e ser­mos tratadas, nes­sa sociedade, como seg­men­to que pode esper­ar, que tudo para a gente fique para depois. Temos pres­sa, temos urgên­cia!”

Pelo gov­er­no fed­er­al, a min­is­tra da Igual­dade Racial (MIR), Anielle Fran­co, chegou à mar­cha cer­ca­da, de um lado, pela dep­uta­da fed­er­al Talíria Petrone (PSOL-RJ), do out­ro pela tam­bém dep­uta­da Benedi­ta da Sil­va (PT-RJ), exal­ta­da por ser a primeira mul­her negra a se tornar dep­uta­da fed­er­al (1987) e tam­bém senado­ra (1995) no Brasil.

Brasília -DF 25/11/2025 - Sessão solene em Homenagem à Marcha das Mulheres Negras 2025. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.
Reprodução: A deputada Benedita da Silva, durante sessão solene em homenagem à Marcha das Mulheres Negras — Foto Lula Marques/ Agência Brasil

Do alto de um dos car­ros de som, a min­is­tra da Igual­dade Racial, Anielle Fran­co, declar­ou que a pre­sença do min­istério sim­boliza­va uma ponte entre movi­men­to e Esta­do.

“Per­manecer­e­mos avançan­do, marchan­do por bem-viv­er e por reparação. Por todas as mães que perder­am seus fil­hos e por todas aque­las que vier­am antes de nós. Seguimos jun­tas em mar­cha, na pos­i­tivi­dade, hoje e sem­pre.”

Do luto à luta

Durante o ato, a min­is­tra lem­brou da irmã, a vereado­ra do Rio de Janeiro Marielle Fran­co, assas­si­na­da em 2000 jun­to com o motorista dela, Ander­son Gomes. Uma das palavras de ordem era “Marielle, pre­sente. Marielle vive.”

O Insti­tu­to Marielle Fran­co esteve pre­sente na Mar­cha Nacional das Mul­heres Negras. A fil­ha de Marielle, Luyara Fran­co, dire­to­ra exec­u­ti­va do insti­tu­to, reafir­mou que não há democ­ra­cia sem mul­heres negras.

“Cada pas­so que damos aqui car­rega a força de todas as mul­heres negras que nos ante­ced­er­am. Essa mar­cha é o nos­so gri­to cole­ti­vo por justiça e dig­nidade, a pro­va viva de que a memória da min­ha mãe segue flo­rescen­do em cada uma de nós.”

A mãe de Anielle e Marielle, avó de Luyara e cofun­dado­ra do Insti­tu­to Marielle Fran­co, a advo­ga­da Marinete Sil­va, afir­mou que mar­char hoje é diz­er ao Brasil que esse seg­men­to não acei­ta mais ser silen­ci­a­do.

 “Cada mul­her negra aqui reivin­di­ca o dire­ito de viv­er sem medo, de ter seu luto respeita­do e sua voz recon­heci­da. Democ­ra­cia só existe quan­do nos­sas vidas impor­tam.

Violência de corpos negros

A dor das mul­heres dessa família é com­par­til­ha­da por out­ras mul­heres negras. Um tapete, com incon­táveis fotos de víti­mas da vio­lên­cia em fave­las do Rio de Janeiro nos últi­mos anos, ocupou met­ros do chão da con­cen­tração da mar­cha. Cada ros­to uma história, um caso de vio­lên­cia.

Brasília (DF), 25/11/2025 – Boneco inflável na Marcha da Mulheres Negras, realizado na Esplanada dos Ministérios. Foto: Daniella Almeida/Agência Brasil
Reprodução: Boneco inflável na Marcha da Mulheres Negras, realizada na Esplanada dos Ministérios — Foto Daniella Almeida/Agência Brasil

Out­ra par­tic­i­pante da mar­cha, Daniela Augus­to, rep­re­sen­ta o Movi­men­to Mães de Maio na Baix­a­da San­tista, em São Paulo. O grupo foi cri­a­do a par­tir de uma série de chaci­nas e assas­si­natos, em 2006.

As víti­mas eram, em sua maio­r­ia, jovens negros, pobres e moradores de per­ife­rias. Esti­ma-se que entre 450 e 600 pes­soas ten­ham sido mor­tas.

Para Daniela, o Esta­do brasileiro é o primeiro vio­lador dos jovens negros.

“His­tori­ca­mente, no Brasil, a her­ança do proces­so de escrav­iza­ção é a perseguição, o con­t­role e a elim­i­nação de cor­pos negros.”

Ela pediu o fim da exe­cução dos fil­hos que as mul­heres negras amam. Para a mil­i­tante, a vio­lên­cia e, pior, o fem­i­nicí­dio são ain­da em maior número con­tra as mul­heres negras, porque é agre­ga­do a esse con­tex­to o machis­mo estru­tur­al.

“Home­ns negros, indí­ge­nas, bran­cos, his­tori­ca­mente, enten­dem que o cor­po da mul­her é uma pro­priedade. Então, o machis­mo é muito intro­je­ta­do a par­tir dessa lóg­i­ca eurocên­tri­ca de que a mul­her deve servir, de que é um obje­to.

“Aqui na mar­cha, em todos os espaços que a gente ocu­pa, luta­mos con­tra a ideia de que nos­sos cor­pos são ren­táveis, são uti­lizáveis ou são obje­tos de vio­lên­cia, do Esta­do, ou seja, do machis­mo, per­pe­tra­do espe­cial­mente pelos home­ns”, afir­ma Daniela Augus­to, do Movi­men­to Mães de Maio na Baix­a­da San­tista.  Isso se apli­ca muito à juven­tude negra e à lóg­i­ca machista para as mul­heres negras.

Negras em espaços de poder

A alguns quilômet­ros, era pos­sív­el ver uma grande ban­deira do Brasil lev­a­da pelas par­tic­i­pantes da mar­cha pedin­do a indi­cação de uma mul­her negra para a vaga de min­is­tra do Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF) deix­a­da pela aposen­ta­do­ria ante­ci­pa­da do ex-min­istro Luís Rober­to Bar­roso. Porém, a sabati­na do advo­ga­do-ger­al da União (AGU), Jorge Mes­sias, indi­ca­do à vaga pelo pres­i­dente Luiz Iná­cio Lula da Sil­va, está mar­ca­da para o dia 10 de dezem­bro, no Sena­do.

Brasília (DF), 25/11/2025 - Marcha das Mulheres Negras, realizada na Esplanada dos Ministérios. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Reprodução: Mulheres negras levam uma Bandeira do Brasil durante marcha em Brasília — Foto Bruno Peres/Agência Brasil

A dep­uta­da Eri­ka Kokay (PT-DF) rela­tou que esteve na primeira Mar­cha Nacional das Mul­heres Negras, em 2015.

“Ela veio como lufa­da dos ven­tos dos quilom­bos, porque se esse país é de casas grandes, sen­za­las, é tam­bém de quilom­bos”.

Dez anos depois, a par­la­men­tar vê a neces­si­dade de políti­cas públi­cas para esse impor­tante seg­men­to da pop­u­lação brasileira e a ocu­pação de espaços de poder pelas mul­heres.

“É uma mar­cha que deixará as suas mar­cas na Esplana­da dos Min­istérios e que traz a voz, o can­to, a dança, a con­sciên­cia negra para a cap­i­tal da Repúbli­ca.”

Docentes negras

A pro­fes­so­ra Maria Edna Bez­er­ra da Sil­va, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Alagoas, recon­hece o val­or das cotas nas uni­ver­si­dades e dos con­cur­sos públi­cos, mas par­ticipou da mar­cha para reivin­dicar o aumen­to da docên­cia negra em insti­tu­ições de ensi­no supe­ri­or.

“Emb­o­ra ten­hamos avança­do em uma políti­ca de cota para estu­dantes, para docentes, eles ain­da são muito poucos den­tro das uni­ver­si­dades. Ain­da não temos, de fato, uma igual­dade, uma pari­dade em número de pro­fes­sores e docentes negros nas insti­tu­ições.

Homens na marcha

Entre os cer­ca de 500 mil par­tic­i­pantes da mar­cha, havia home­ns que apoiam ati­va­mente as causas das mul­heres, por enten­der que a bus­ca pela igual­dade de gênero é uma respon­s­abil­i­dade de toda a sociedade.

Leno Farias, de povoa­do de ter­reiro do Ceará, é um dess­es home­ns. Ele disse que é fru­to do matri­ar­ca­do e que as mul­heres ocu­pam posições de lid­er­ança em sua vida.

“Min­ha descendên­cia é toda regi­da por mul­heres. Então estar na mar­cha é uma coisa muito nor­mal. Elas são as líderes. Den­tro da tradição, da min­ha per­spec­ti­va de cos­mo­visão, para mim, Deus é uma mul­her”, resum­iu.

Leno entende que a vio­lên­cia con­tra as mul­heres é cau­sa­da pela incom­preen­são mas­culi­na sobre a potên­cia fem­i­ni­na. “Eles têm medo do poder que elas têm. Não con­seguem con­viv­er com isso.”

Resistência

Cen­te­nas de mul­heres quilom­bo­las se man­i­fes­taram na mar­cha para ir além do aspec­to históri­co de resistên­cia dess­es espaços. Elas se con­sid­er­am guardiãs de ter­ritório e da bio­di­ver­si­dade.

Para essa comu­nidade, é impor­tante que haja o recon­hec­i­men­to e a  val­oriza­ção dos quilom­bo­las e seja dado apoio para que per­maneçam em seus ter­ritórios. .

Apare­ci­da Mendes, do ter­ritório quilom­bo­la Con­ceição das Crioulas, no segun­do dis­tri­to de Salgueiro (Per­nam­bu­co), expli­cou que sua comu­nidade con­tribui para a preser­vação cul­tur­al, con­ser­vação ambi­en­tal e segu­rança ali­men­tar. E que luta por dire­itos ter­ri­to­ri­ais e com­bate ao racis­mo estru­tur­al.

“É impor­tante a gente mostrar para o mun­do a nos­sa pre­sença, a nos­sa existên­cia, diz­er para o Esta­do brasileiro, para os demais país­es que, na medi­da em que a gente dá vis­i­bil­i­dade à nos­sa luta, está dizen­do: ‘Exis­ti­mos, somos deman­dantes de dire­itos, tam­bém cuidadores dess­es ter­ritórios, da riqueza do Brasil. Por­tan­to, a dívi­da que os esta­dos têm com o povo quilom­bo­la pre­cisa ser lev­a­da em con­sid­er­ação.”, reivin­di­ca Apare­ci­da.

Fim da marcha

Brasília (DF), 25/11/2025 – Afro-latinas participam da marcha da mulheres negra na esplanada dos ministérios. Foto: Daniella Almeida/Agência Brasil
Reprodução: Afro-latinas participam da Marcha das Mulheres Negra na Esplanada dos Ministérios — Foto Daniella Almeida/Agência Brasil

O encer­ra­men­to da 2ª Mar­cha Nacional das Mul­heres Negras reforçou a orga­ni­za­ção das mul­heres afro-brasileiras, afro-lati­nas e afro-cariben­has. Elas reafir­maram, em Brasília, a luta pela vida sem vio­lên­cia, pela igual­dade ple­na de dire­itos e opor­tu­nidades. E deixaram claro que as pau­tas são inego­ciáveis para a con­strução de um futuro mais jus­to e democráti­co.

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