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Condição de trabalho interfere na duração de aleitamento materno

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Pesquisa foi feita com 5,1 mil mães em São Luís, no Maranhão


Pub­li­ca­do em 06/08/2022 — 10:33 Por Luciano Nasci­men­to — Repórter da Agên­cia Brasil — São Luís

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Uma pesquisa pub­li­ca­da hoje (5) rev­ela que mães em ocu­pações man­u­ais semi­espe­cial­izadas (man­i­cures, sap­ateiras, padeiras, aux­il­iares de lab­o­ratórios, feirantes, entre out­ros) e com jor­nadas de tra­bal­ho de 8 ou mais horas diárias deix­am com mais fre­quên­cia de ali­men­tar seus fil­hos exclu­si­va­mente com o leite mater­no durante os qua­tro ou seis meses após o par­to. A pesquisa, pub­li­ca­da na Revista Cader­nos de Saúde Públi­ca, recol­heu dados de 5.166 mães de nasci­dos vivos em 2010 na cap­i­tal do esta­do do Maran­hão, São Luís.

De acor­do com os dados da pesquisa, entre as mul­heres que não têm nen­hum tipo de tra­bal­ho remu­ner­a­do (que, em tese, têm mel­hores condições para man­ter o aleita­men­to mater­no exclu­si­vo), 46% man­tiver­am o leite mater­no como úni­co ali­men­to de seus bebês até o quar­to mês de vida.

Já entre as mães que estão em ocu­pações man­u­ais semi­espe­cial­izadas o per­centu­al caiu para 34%, mes­mo índice das mães com jor­nadas de tra­bal­ho de 8 ou mais horas diárias.

O estu­do tam­bém mostrou que as mães com ocu­pações em funções de escritório, que tra­bal­havam 4–5 dias ou 6–7 dias/semana e por 5–7 horas tam­bém praticaram menos o aleita­men­to mater­no exclu­si­vo até o sex­to mês.

Diver­sos estu­dos sobre o tema já indicam que o tra­bal­ho mater­no remu­ner­a­do como um dos fatores para a inter­rupção do aleita­men­to mater­no exclu­si­vo (só leite do peito, sem chá, água, out­ros leites, out­ras bebidas ou ali­men­tos) antes de a cri­ança com­ple­tar seis meses.

A pedi­atra, pesquisado­ra e pro­fes­so­ra do depar­ta­men­to de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Maran­hão (UFMA) Marizélia Ribeiro obser­va que um dos prin­ci­pais efeitos neg­a­tivos do retorno das mul­heres para o tra­bal­ho antes de a cri­ança com­ple­tar seis meses é a diminuição da pro­dução do leite mater­no, o que aca­ba con­tribuin­do para a redução do aleita­men­to mater­no exclu­si­vo, em espe­cial, quan­do a jor­na­da é inte­gral.

Uma das autoras da pesquisa e de out­ros tra­bal­hos com foco em saúde mater­no-infan­til, Marizélia disse à Agên­cia Brasil que, geral­mente, os estu­dos sobre o tema acabam se restringin­do a ape­nas reg­is­trar se a mãe tem ou não algum tipo de tra­bal­ho remu­ner­a­do e que sen­tiu a neces­si­dade de apro­fun­dar a hipótese sobre como as ativi­dade de tra­bal­ho inter­fer­em na inter­rupção do aleita­men­to mater­no exclu­si­vo.

Segun­do ela, a ideia foi moti­va­da pelo acom­pan­hamen­to e obser­vação de mães em uma unidade de saúde da cap­i­tal maran­hense que já começavam a demon­strar uma forte apreen­são sobre como faz­er para não inter­romper o aleita­men­to mater­no exclu­si­vo.

“Essas mães são mães pobres que, quan­do chega­va ali per­to do ter­ceiro mês de vida dos bebês, começavam a ter uma inqui­etação muito grande sobre como faz­er para não inter­romper o aleita­men­to mater­no dessas cri­anças”, disse.

A Con­sti­tu­ição Fed­er­al esta­b­elece como obri­gatória a licença mater­nidade por 120 dias, poden­do ser ini­ci­a­da até 28 dias antes do par­to. Já o Min­istério da Saúde recomen­da o aleita­men­to mater­no exclu­si­vo (AME) até o sex­to mês de vida da cri­ança.

A pesquisado­ra obser­va, entre­tan­to, que a real­i­dade apon­ta para um cenário difer­ente, uma vez que muitas dessas mães estão no mer­ca­do infor­mal, por­tan­to, sem a pos­si­bil­i­dade de usufruir da licença. Além dis­so, ela obser­va que o mer­ca­do aca­ba pres­sio­n­an­do as mul­heres para um retorno pre­coce ao tra­bal­ho.

“Na maio­r­ia das vezes é uma jor­na­da de tra­bal­ho inte­gral. Elas devem ter uma licença mater­nidade só até o quar­to mês. As condições de tra­bal­ho inse­guras, pois estão em profis­sões onde não é exigi­do ter capac­i­tação e por não ter a capac­i­tação, ela acei­ta e se sub­mete a condições de tra­bal­ho mais insalu­bres”, argu­men­tou.

Aleitamento em público

Marizélia desta­ca ain­da a existên­cia de um pre­con­ceito social prat­i­ca­do con­tra as mul­heres que ama­men­tam em públi­co e que, ape­sar de alguns avanços nos últi­mos anos, isso tam­bém é muito pre­sente no ambi­ente de tra­bal­ho.

“As pes­soas não percebem que quan­do a cri­ança está sendo ama­men­ta­da está se fazen­do um inves­ti­men­to na mãe e naque­la cri­ança que vai ser uma cri­ança mais saudáv­el, com mais pos­si­bil­i­dade de atin­gir a sua poten­cial­i­dade, porque já se sabe que morre menos, tem menos doenças crôni­cas, tem maior pos­si­bil­i­dade de ser uma pes­soa com um mel­hor desem­pen­ho cog­ni­ti­vo”, argu­men­tou. “O aleita­men­to mater­no é mais ade­qua­do para esse cére­bro que está se desen­vol­ven­do e as pes­soas não con­seguem perce­ber que isso é um inves­ti­men­to a lon­go pra­zo de uma saúde glob­al”, reit­er­ou.

Tripla jornada

Além do retorno mais cedo para o tra­bal­ho, out­ro pon­to obser­va­do na pesquisa para jus­ti­ficar a inter­rupção do aleita­men­to mater­no exclu­si­vo é a dupla ou tripla jor­na­da de tra­bal­ho a que essas mães são sub­meti­das. Isso, inclu­sive, difi­cul­ta a pos­si­bil­i­dade de reti­ra­da e armazena­men­to do leite mater­no. Os dados do estu­do mostraram que 54% das entre­vis­tadas real­izavam soz­in­has os tra­bal­hos de casa.

“Difi­cil­mente, com a jor­na­da de tra­bal­ho inte­gral, ela con­segue man­ter o aleita­men­to exclu­si­vo. Porque ela tem a jor­na­da fora de casa de 8 horas, ela demo­ra duas horas ou mais no trân­si­to e, quan­do chega em casa, ain­da tem o tra­bal­ho de casa”, disse. “Como é que ela vai tirar leite? Tirar leite não é fácil, porque ela chega cansa­da em casa, tem que faz­er comi­da, tem que ver as out­ras cri­anças, tem as coisas para lavar, arru­mar a casa, tem que faz­er tudo isso para, no out­ro dia, estar tra­bal­han­do”, disse.

Marizélia defende a adoção de uma licença mater­nidade inte­gral de seis meses para todas as mul­heres, como uma das medi­das para revert­er esse quadro.

“Não é só uma licença, mas uma licença com todas as out­ras condições de for­mação, de opor­tu­nidade de tra­bal­ho, de mudança cul­tur­al do que sig­nifi­ca o aleita­men­to mater­no e do que sig­nifi­ca uma cri­ança ama­men­tar na vida”, defend­eu.

Edição: Lílian Beral­do

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