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Especialistas defendem espaços de expressão de sentimentos em escolas

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

É preciso desenvolver cultura do diálogo, dizem educadores


Pub­li­ca­do em 07/04/2023 — 07:50 Por Léo Rodrigues – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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A cul­tura de diál­o­go que for­t­aleça os val­ores democráti­cos nas esco­las é um dos cam­in­hos apon­ta­dos por edu­cadores para frear o aumen­to de ataques em esco­las do país. Antes inco­mum, os crimes têm exigi­do atenção das autori­dades e ger­a­do aler­ta entre famílias e estu­dantes.

Cata­ri­na de Almei­da, pro­fes­so­ra e pesquisado­ra da Fac­ul­dade de Edu­cação da Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB), vê as insti­tu­ições de ensi­no mais vul­neráveis por motivos que não estão lig­a­dos à fal­ta de instru­men­tos de segu­rança.

“As esco­las têm sido perseguidas quan­do tratam de temas como edu­cação sex­u­al, questões de gênero, racis­mo, mis­oginia. Temos inclu­sive muitos par­la­mentares que expõem a figu­ra do pro­fes­sor ou da pro­fes­so­ra. E isso é uma questão mui­ta séria para a saúde psíquica dess­es pro­fes­sores. Ain­da pas­sam para a sociedade a ideia de que qual­quer pes­soa pode entrar numa esco­la e diz­er o que ela deve ou não faz­er “, avalia.

Segun­do Cata­ri­na, a redução de com­po­nentes cur­ric­u­lares de ciên­cias humanas e soci­ais apli­cadas — história, filosofia, soci­olo­gia e geografia — no ensi­no médio fazem com que estu­dantes ten­ham difi­cul­dades de com­preen­der noções de justiça, sol­i­dariedade, respeito aos dire­itos humanos e com­bate aos pre­con­ceitos de qual­quer natureza. Ao mes­mo tem­po, Cata­ri­na defende a cri­ação de políti­cas públi­cas para capac­i­tar as comu­nidades esco­lares e famil­iares a iden­ti­ficar alter­ações com­por­ta­men­tais nos jovens e obser­varem o con­teú­do dig­i­tal con­sum­i­do por cri­anças e ado­les­centes.

Para a edu­cado­ra Tel­ma Vin­ha, coor­de­nado­ra de pesquisa real­iza­da pela Uni­camp sobre casos de ataques em esco­las por alunos ou ex-alunos, é pre­ciso desen­volver, por meio de políti­cas públi­cas, uma cul­tura de diál­o­go nas esco­las que for­t­aleçam os val­ores democráti­cos. Ela defende a cri­ação espaços de expressão de sen­ti­men­to, volta­dos para fomen­tar um cli­ma pos­i­ti­vo na con­vivên­cia, e tam­bém espaços de medi­ação de con­fli­tos que podem envolver assem­bleias cole­ti­vas e reuniões pri­vadas onde os estu­dantes apren­dem a usar o diál­o­go em sub­sti­tu­ição à vio­lên­cia.

“Hoje os profis­sion­ais da edu­cação atu­am como bombeiro. Só atu­am depois que os con­fli­tos entre alunos já estão ocor­ren­do na esco­la. É pre­ciso cri­ar um cli­ma pos­i­ti­vo de con­vivên­cia capaz de evi­tar que eles sur­jam. Mas só é pos­sív­el cap­i­tanea­do pelo Min­istério da Edu­cação, por sec­re­tarias estad­u­ais de edu­cação. Não dá para respon­s­abi­lizar indi­vid­ual­mente cada esco­la”.

Ain­da segun­do ela, quan­do ocor­rem ess­es episó­dios, muitas das soluções apre­sen­tadas se baseiam ape­nas em medi­das de segu­rança. “Nos Esta­dos Unidos, o exces­so de apara­to de segu­rança nas esco­las não resolve. Lá tem detec­tor de met­al, câmeras 3D, e os casos con­tin­u­am ocor­ren­do”, aler­tou.

Para­le­la­mente aos pro­je­tos que envolvem a esco­la, a ampli­ação do tra­bal­ho de inteligên­cia é con­sid­er­a­da fun­da­men­tal. Na sem­ana pas­sa­da, men­sagens con­tendo ameaças de ataque a uma esco­la do Rio de Janeiro foram encon­tradas pelo Min­istério da Justiça e Segu­rança Públi­ca durante mon­i­tora­men­to na inter­net. O con­teú­do foi encam­in­hado à Polí­cia Civ­il, que apreen­deu uma ado­les­cente de 12 anos, órfã de mãe e, segun­do as inves­ti­gações, com prob­le­mas de rela­ciona­men­to na insti­tu­ição de ensi­no, onde seria víti­ma de bul­ly­ing. De acor­do com os poli­ci­ais, ela admi­tiu ser a auto­ra das men­sagens.

Em 2021, um jovem de 16 anos tam­bém foi apreen­di­do em Goiâ­nia após a iden­ti­fi­cação de con­ver­sas onde ele anun­ci­a­va admi­tia ser fã do nazis­mo e afir­ma­va estar pron­to para come­ter algum ataque em esco­la, pois teria facil­i­dade em aces­sar mate­r­i­al béli­co. Tel­ma obser­va que hoje não há uma platafor­ma cen­tral­iza­da de denún­cia, onde estu­dantes pos­sam ir quan­do veem algo na inter­net ou em gru­pos pri­va­dos.

“Às vezes con­tam para o dire­tor, que não sabe o que faz­er e faz um bole­tim na del­e­ga­cia do bair­ro”, rela­ta. Ela avalia que a cri­ação de um canal unifi­ca­do facil­i­tará com que as denún­cias sejam feitas e per­mi­tirá que elas sejam lev­adas mais à sério e sejam inves­ti­gadas com inteligên­cia.

Armas de fogo

Nem todos os episó­dios de vio­lên­cia em ambi­ente esco­lar estão rela­ciona­dos com armas de fogo. Ain­da assim, de acor­do com o lev­an­ta­men­to da Uni­ver­si­dade Estad­ual de Camp­inas (Uni­camp), as armas de fogo foram usadas em mais da metade dos casos: 12 dos 22 ataques. Em seis episó­dios, o jovem teve aces­so ao arma­men­to em casa.

O doc­u­men­to pro­duzi­do pelo grupo mobi­liza­do pelo pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Edu­cação da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), Daniel Cara, com­pi­lou dados do Anuário Brasileiro de Segu­rança Públi­ca para apon­tar os efeitos das políti­cas de flex­i­bi­liza­ção das nor­mas para com­pra de armas ado­tadas durante o gov­er­no de Jair Bol­sonaro, entre 2018 e 2022.  No perío­do, o número de reg­istros de armas em mãos de caçadores, ati­radores e cole­cionadores quase sex­tu­pli­cou alcançan­do a mar­ca de 673.818.

“Ess­es dados são fun­da­men­tais para a descon­strução da nar­ra­ti­va que colo­ca essa vio­lên­cia na con­ta das esco­las, que apon­tam soluções fáceis, que geral­mente, cul­pa­bi­lizam as insti­tu­ições esco­lares”, apon­tam os pesquisadores. Eles cobram alter­ações nor­ma­ti­vas e legais que rever­tam esse quadro.

Mudanças na legislação

No doc­u­men­to, edu­cadores defen­d­em atu­al­iza­ções no Códi­go Penal para tip­i­ficar con­du­tas rela­cionadas à coop­tação e recru­ta­men­to de cri­anças e ado­les­centes por gru­pos e ide­olo­gias de extrem­is­tas de dire­i­ta. Tam­bém advogam pela tip­i­fi­cação da fab­ri­cação, com­er­cial­iza­ção, dis­tribuição e veic­u­lação de sím­bo­los, emble­mas, dis­tin­tivos ou pro­pa­gan­da de teor supremacista que façam ou não uso da cruz suás­ti­ca.

Uma out­ra mudança fun­da­men­tal na óti­ca dos pesquisadores é a adoção de um novo mar­co reg­u­latório para a inter­net que seja capaz de ofer­e­cer mecan­is­mos con­tra a cir­cu­lação de dis­cur­sos de ódio e desin­for­mação pro­movi­dos não ape­nas por gru­pos neon­azis­tas, mas tam­bém por lid­er­anças públi­cas políti­cas e soci­ais que gan­haram vis­i­bil­i­dade em diver­sos lugares do mun­do onde a extrema-dire­i­ta cresceu nos últi­mos anos. Fóruns vir­tu­ais, chats, redes soci­ais e aplica­tivos como Telegram, What­sapp e Dis­cord se tornaram espaços de dis­sem­i­nação dess­es con­teú­dos.

A respon­s­abi­liza­ção das platafor­mas pelas pub­li­cações dos usuários exige alter­ações no Mar­co Civ­il da Inter­net e é um assun­to con­tro­ver­so que vem geran­do debates insti­tu­cionais. O tema esteve em pau­ta no mês pas­sa­do em uma audiên­cia públi­ca real­iza­da pelo Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF). Tel­ma Vin­ha obser­va que fóruns de gru­pos neon­azis­tas se encon­travam ante­ri­or­mente na chama­da Deep Web, que não é index­a­da em sis­temas de bus­ca e é de aces­so mais restri­to, deman­dan­do nave­g­adores especí­fi­cos. “Nos últi­mos anos, eles pas­saram para a super­fí­cie da inter­net. É de fácil aces­so através das redes soci­ais”, afir­ma.

Os pesquisadores da Uni­camp pos­suem prints de men­sagens ameaçado­ras encon­tradas em redes soci­ais. Uma dessas posta­gens, em que o autor afir­ma já ter armas, ves­ti­men­tas e um par­ceiro na esco­la que topou exe­cu­tar seu plano, con­tin­ha 43 cur­tidas. A pub­li­cação ficou cer­ca de um mês no Twit­ter.

A for­ma de fun­ciona­men­to dos algo­rit­mos das redes soci­ais tam­bém gera pre­ocu­pação: ao cur­tir uma men­sagem desse teor ou assi­s­tir um vídeo con­tendo dis­cur­so de ódio, out­ros per­fis e pub­li­cações sim­i­lares são recomen­da­dos. E além de facil­i­tar o aces­so a ess­es con­teú­dos, muitos deles são mon­e­ti­za­dos a par­tir de pub­li­ci­dade dire­ciona­da pela própria platafor­ma.

Abordagem jornalística

Cuida­dos que a mídia deve ter ao repor­tar um ataque foram dis­cu­ti­dos em webinário pro­movi­do pela Jed­u­ca, uma asso­ci­ação for­ma­da por jor­nal­is­tas que cobrem edu­cação.

Pesquisadores con­sid­er­am que deter­mi­na­dos tipos de cober­tu­ra podem influ­en­ciar novos episó­dios. Segun­do Cata­ri­na, é pre­ciso uma abor­dagem jor­nalís­ti­ca que evite dar noto­riedade ao autor do ataque, uma vez que este é exata­mente o seu obje­ti­vo e a atenção da mídia é perce­bi­da como rec­om­pen­sa. Ela con­sid­era inad­e­qua­do mostrar ima­gens da ação e dar relevân­cia à história de vida do autor. “A exposição aumen­ta o sta­tus social daque­le que provo­cou o ataque, geran­do uma noto­riedade que é dese­ja­da por out­ros”, obser­va.

Em sua visão, o detal­hamen­to da história de vida do autor aca­ba por indi­vid­u­alizar o caso poden­do, por exem­p­lo, pas­sar a ideia equiv­o­ca­da de que ele está uni­ca­mente rela­ciona­do com um quadro de depressão. Ela reit­era que se tra­ta de um fenô­meno mais com­plexo. “Ficar dizen­do que o autor esta­va se vin­gan­do por ter sofri­do bul­ly­ing e falar das ori­gens do ati­rador pode faz­er com out­ros jovens se iden­ti­fiquem”, acres­cen­ta a pesquisado­ra.

Além dis­so, as exten­sas cober­turas com o rela­to min­u­cioso, que rev­e­lam o pas­so a pas­so do plano de ataque, podem pro­por­cionar dis­sem­i­nação de infor­mação inde­se­ja­da. “Os autores bus­cam obser­var aqui­lo que out­ros já fiz­er­am. Como eles não se con­hecem, onde eles bus­cam obter essas infor­mações? Na mídia. Então a mídia pode influ­en­ciar na pro­lif­er­ação dess­es ataques real­iza­dos por jovens em esco­las”, avalia Cata­ri­na.

A pesquisado­ra afir­ma que há pro­je­tos de lei em trami­tação no Con­gres­so inspi­ra­dos em medi­das ado­tadas na Nova Zelân­dia, onde é proibido noti­ciar infor­mações sobre o autor do ataque e sobre os pro­ced­i­men­tos uti­liza­dos. Ela tam­bém obser­va que dire­trizes já elab­o­radas pela Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS) para cober­tu­ra de casos de suicí­dio tam­bém podem ser vál­i­das para reporta­gens sobre ocor­rên­cias de ataques em esco­las. A enti­dade recomen­da evi­tar o sen­sa­cional­is­mo, não mostrar vídeos e fotografias da ação, não fornecer descrição pas­so a pas­so dos méto­dos.

Para Cata­ri­na, é pre­ciso reduzir o tem­po de cober­tu­ra midiáti­ca sobre os ataques. De out­ro lado, ele acred­i­ta que a impren­sa pode con­tribuir para o enfrenta­men­to da situ­ação se focar nas punições, se retratar a ação como algo ver­gonhoso e se, pas­sa­do o calor do momen­to, acom­pan­har e cobrar a imple­men­tação de pro­postas.

Edição: Heloisa Cristal­do

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