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LGBTI celebram avanços em 10 anos de uniões homoafetivas no Brasil

DIA DO ORGULHO LGBT

Repro­dução: © Arqui­vo pes­soal

Uniões foram reconhecidas pelo STF em 2011 como entidades familiares


Pub­li­ca­do em 28/06/2021 — 07:00 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

O “sim” unân­ime dos 11 min­istros do Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF) recon­heceu, em 2011, as uniões homoafe­ti­vas como enti­dades famil­iares, abrindo cam­in­ho a uma déca­da de avanços para a pop­u­lação de lés­bi­cas, gays, bis­sex­u­ais, tran­sex­u­ais, trav­es­tis e inter­sex­u­ais (LGBTI) brasileiros. Recon­heci­da pelo Comitê Nacional do Brasil, do Pro­gra­ma Memória do Mun­do da Unesco, como patrimônio doc­u­men­tal da humanidade, a decisão com­ple­tou dez anos em 5 de maio de 2021, assim como já fazem bodas casais que se uni­ram a par­tir dela e cel­e­bram, neste Dia Inter­na­cional do Orgul­ho LGBTI (28), dire­itos con­quis­ta­dos em décadas de luta por igual­dade e dig­nidade.

As advo­gadas Patrí­cia Fari­na, de 35 anos, e Fer­nan­da Mar­ques, de 49 anos, já namoravam há seis anos quan­do o Supre­mo abriu as por­tas para que, anos mais tarde, elas se casassem em um cartório no bair­ro da Liber­dade, em São Paulo. A real­iza­ção de casa­men­tos homoafe­tivos em qual­quer cartório do Brasil foi garan­ti­da em 2013 pelo Con­sel­ho Nacional de Justiça (CNJ) e, em 2015, as duas decidi­ram assi­nar os papéis por um moti­vo prag­máti­co, lem­bra Patrí­cia, que, até então, não tin­ha o casa­men­to como um son­ho.

“Quan­do a gente pen­sou em ir para os Esta­dos Unidos (EUA), vimos que não ia rolar de con­seguir o vis­to se não estivésse­mos casadas. Ela não tin­ha imóv­el nen­hum e era autôno­ma, então era muito fácil negarem o vis­to dela”, lem­bra Patrí­cia, que foi sur­preen­di­da pela emoção que o casa­men­to trouxe. “Deu tudo erra­do, a gente acabou não indo para os Esta­dos Unidos, mas foi tão impor­tante. A min­ha chav­in­ha virou exata­mente na hora em que ela colo­cou a aliança no meu dedo. Fiquei muito emo­ciona­da. Ali, come­cei a achar que era o meu son­ho e eu não sabia. Foi muito espe­cial para mim”.

Patrí­cia lem­bra que nun­ca havia ido a um casa­men­to homoafe­ti­vo como con­vi­da­da, mas, depois do seu, muitos vier­am. “A gente se casou e, nos seis meses seguintes, foi uma galera. No dia, foi tão emo­cio­nante, as meni­nas e os meni­nos ficaram tão emo­ciona­dos, que começaram a falar que estavam loucos para se casar. Na hora em que jog­amos o buquê, os que pegaram já foram os próx­i­mos mes­mo”, con­ta a advo­ga­da, que acred­i­ta que o casa­men­to fez com que tivesse ain­da mais cor­agem de se posi­cionar como mul­her lés­bi­ca. “Eu nun­ca me escon­di, mas tam­bém não me joga­va para o mun­do. A par­tir daí, foi um proces­so de começar a me jog­ar para o mun­do. De me per­guntarem: ‘O que ela é sua?’, e eu respon­der: ‘é min­ha esposa’. Muda muito e te dá uma segu­rança maior”.

Ape­sar de o STF ter recon­heci­do a união estáv­el homoafe­ti­va em 2011 com os mes­mos dire­itos da het­eroafe­ti­va, a con­ver­são dessa união em casa­men­to ain­da depen­dia de uma sen­tença judi­cial, o que só mudou em todo o país em 2013, com a res­olução do CNJ que deter­mi­nou que nen­hum cartório pode­ria rejeitar a real­iza­ção de casa­men­tos homoafe­tivos. Antes dis­so, a neces­si­dade de entrar na Justiça ou a pos­si­bil­i­dade de casar dire­ta­mente no cartório depen­dia de onde o casal mora­va.

As primeiras uniões estáveis homoafe­ti­vas con­ver­tidas em casa­men­to pela via judi­cial ocor­reram no país em jun­ho de 2011. Em out­ubro, o primeiro casal de mul­heres con­seguiu decisão favoráv­el para realizar um casa­men­to sem que hou­vesse união estáv­el ante­ri­or e, em dezem­bro daque­le ano, ocor­reu o primeiro casa­men­to homoafe­ti­vo do Brasil, fir­ma­do dire­ta­mente em cartório, sem sen­tença judi­cial, em Por­to Ale­gre. Ao tomarem con­hec­i­men­to dessa pos­si­bil­i­dade, o cien­tista políti­co Lucas Rezende, de 38 anos, e o empresário Felipe Matos, tam­bém de 38 anos, foram a esse cartório gaú­cho em jul­ho de 2012. A incerteza se con­seguiri­am ou não for­malizar a união fez com que nem mar­cassem uma fes­ta para cele­brá-la, con­ta Lucas, que chegou ao cartório ain­da inse­guro sobre o que acon­te­ceria.

“Quan­do nos casamos, a gente não sabia se o casa­men­to ia acon­te­cer mes­mo, se seria sus­pen­so, se seria can­ce­la­do pela Justiça ou qual­quer coisa do tipo” lem­bra ele, que não deixou de comem­o­rar a união com uma fes­ta meses depois, com ami­gos como cel­e­brantes. “Foi a primeira [fes­ta de casa­men­to homoafe­ti­vo] de todos ali. Muitos dos ami­gos que estavam lá tomaram cor­agem para se casar depois do nos­so casa­men­to. Isso foi muito legal”.

Além do orgul­ho de poder cel­e­brar seu rela­ciona­men­to como qual­quer casal, Lucas con­ta que a for­mal­iza­ção foi um pas­so fun­da­men­tal para muitos out­ros na vida a dois. “Fize­mos plano de saúde jun­tos, que foi a primeira coisa, uma con­ta bancária jun­tos, depois com­pramos uma casa jun­tos, e, por fim, ado­ta­mos uma cri­ança. Foram questões que só se tornaram pos­síveis depois da for­mal­iza­ção do nos­so casa­men­to”, con­ta ele, que acred­i­ta que as decisões do STF e do CNJ impul­sion­aram tam­bém a vis­i­bil­i­dade dos casais LGBTI na impren­sa e na pub­li­ci­dade. “A pre­sença dos casais homoafe­tivos na cul­tura e na sociedade, na mídia e na pro­pa­gan­da ain­da é peque­na, porque há muito mais pes­soas que são casais homoafe­tivos. Mas o avanço que hou­ve é impor­tan­tís­si­mo, sig­ni­fica­ti­vo, e indi­ca o pro­gres­so e a inclusão, por mais que haja ondas de retro­ces­so”.

DIA DO ORGULHO LGBT
Repro­dução: DIA DO ORGULHO LGBT — Arqui­vo pes­soal

Primeiro passo

O Dia do Orgul­ho LGBTI é cel­e­bra­do em 28 de jun­ho para lem­brar a data em que gays, lés­bi­cas, bis­sex­u­ais tran­sex­u­ais e trav­es­tis que fre­quen­tavam o bar Stonewall Inn, em Nova York, se rebe­laram con­tra a repressão pre­con­ceitu­osa da polí­cia e reivin­dicaram dire­itos civis, em uma mar­cha nas ruas da cidade amer­i­cana. Des­de então, mais de 50 anos se pas­saram, e as  uniões civis entre homos­sex­u­ais pas­saram a ser garan­ti­das em 34 país­es, segun­do a Asso­ci­ação Inter­na­cional LGBTI (Ilga), e, em 28, pes­soas do mes­mo sexo pud­er­am se casar. No Brasil, de acor­do com as Estatís­ti­cas de Reg­istro Civ­il reunidas pelo IBGE, cer­ca de 28 mil casais homoafe­tivos ofi­cializaram casa­men­tos entre 2013 e 2019.

Os dire­itos esten­di­dos à pop­u­lação LGBTI, a par­tir de suces­si­vas decisões do Judi­ciário des­de 2011, devem ser comem­o­ra­dos, mas a fal­ta de leis sobre o tema tam­bém pre­ocu­pa, na opinião do pres­i­dente da Asso­ci­ação Brasileira de Famílias Homo­transafe­ti­vas (ABRAFH), Saulo Amor­im. Ele lamen­ta que a decisão foi um primeiro pas­so que não foi segui­do por leis que con­sol­i­dam esse dire­ito.

“A decisão de 2011 abriu espaço para todas as out­ras, porque quan­do enten­do a união LGBTI como uma enti­dade famil­iar, enten­do que aque­las pes­soas podem ado­tar, podem deixar sucessão, podem ter os bene­fí­cios fis­cais, prev­i­den­ciários e de saúde que todas as out­ras têm. Por isso, foi um mar­co históri­co. Mas, a par­tir daí, nada em ter­mos de lei foi feito para con­sol­i­dar essa decisão jurispru­den­cial. Dez anos se pas­saram, e o Leg­isla­ti­vo não foi capaz de trans­for­mar uma jurisprudên­cia em lei”, cobra Amor­im, acres­cen­tan­do que muitas vezes pro­je­tos de lei cri­a­dos para con­ced­er dire­itos a essa pop­u­lação são descar­ac­ter­i­za­dos ou engave­ta­dos.

O pres­i­dente da asso­ci­ação de famílias expli­ca a importân­cia do casa­men­to, inde­pen­den­te­mente de ser um son­ho ou uma decisão prag­máti­ca para suprir neces­si­dades da vida de casal. “É uma questão de orgul­ho no sen­ti­do de que não impor­ta min­ha ori­en­tação sex­u­al, não impor­ta min­ha iden­ti­dade de gênero, nem a con­for­mação biológ­i­ca do meu cor­po. Impor­ta que sou brasileiro e quero ter aces­so a todos os dire­itos, como todo cidadão deve ter”.

Na déca­da que se seguiu à decisão que recon­heceu uniões homoafe­ti­vas, tam­bém hou­ve avanços para a pop­u­lação trans­gênero. Entre as con­quis­tas, a pres­i­dente da Asso­ci­ação Nacional de Trav­es­tis e Tran­sex­u­ais (Antra), Keila Simp­son, desta­ca o dire­ito de cor­ri­gir o nome e o gênero nos doc­u­men­tos dire­ta­mente em cartório, sem a neces­si­dade de proces­sos judi­ci­ais ou cirur­gias de redes­ig­nação sex­u­al, segun­do decisão do STF de 2018.

“Essa decisão não veio somente por um lam­pe­jo de bon­dade dos min­istros do Supre­mo, veio de uma lon­ga batal­ha nas décadas de 80 e 90, prin­ci­pal­mente das trav­es­tis, que estavam na rua se pros­ti­tuin­do, em que o nome social era chama­do de nome de guer­ra. Quan­do o Supre­mo per­mite faz­er pela via admin­is­tra­ti­va, para nós é uma grande con­quista”, comem­o­ra ela, que com­para que a via judi­cial chega­va a demor­ar de seis meses a um ano e depen­dia da com­preen­são de cada juiz sobre a tran­sex­u­al­i­dade.

Ain­da que os avanços sejam impor­tantes, Keila Simp­son lem­bra que o cenário de vio­lên­cia e dis­crim­i­nação ain­da é bas­tante pre­sente. “Não estou descar­tan­do esse avanço, mas con­tin­uo falan­do que essa pop­u­lação ain­da está sendo assas­si­na­da. Então, em alguns aspec­tos, a vida está a mes­ma de sem­pre, na questão da exclusão, da vio­lên­cia e do estig­ma”, afir­ma. “Nesse dia 28 de jun­ho de 2021, a gente quer uma com­preen­são maior da sociedade, uma com­preen­são mel­hor de quem somos e reivin­dicar o respeito que mere­ce­mos como cidadãs desse país”.

Bodas de zinco

Os dez anos da decisão do STF mar­cam tam­bém os dez anos de recon­hec­i­men­to do Esta­do brasileiro à união de Toni Reis e David Har­rad, que for­malizaram união estáv­el ape­nas cin­co dias depois da decisão do Supre­mo. Dire­tor-pres­i­dente da Aliança Nacional LGBTI, Toni lem­bra que se sen­tiu um cidadão pleno com a garan­tia con­quis­ta­da.

“Sen­ti que acabou o suplí­cio, o calvário. Ago­ra eu sou família, queiram ou não os fun­da­men­tal­is­tas e esse pes­soal que pre­ga a het­ero­nor­ma­tivi­dade com­pul­sória. Nos sen­ti­mos plenos”, lem­bra ele, que con­ver­teu a união em casa­men­to em 2018. “Me sen­ti brasileiro”.

Toni e David estão jun­tos des­de 1990 e enfrentaram uma série de obstácu­los jurídi­cos para garan­tir o recon­hec­i­men­to à sua união, já que a per­manên­cia no Brasil de David, que é estrangeiro, depen­dia dis­so. Com mais de 40 anos de ativis­mo, o dire­tor-pres­i­dente da Aliança Nacional LGBTI vê com otimis­mo os avanços obti­dos.

“Nós não podíamos falar que éramos gays, porque éramos pecadores, doentes ou crim­i­nosos fora da nor­ma, e, hoje, nós podemos casar, com­por nos­sas famílias, esta­mos na pub­li­ci­dade, esta­mos nas empre­sas”, argu­men­ta Toni Reis. “Em 2011, não podíamos casar, não podíamos ado­tar, não podíamos doar sangue, não podíamos mudar de gênero nos doc­u­men­tos. Em 2021 temos muito mais dig­nidade que em 2011”.

Ape­sar dis­so, ele lem­bra que a vio­lên­cia, a dis­crim­i­nação e a difi­cul­dade de aces­so a dire­itos bási­cos, como o emprego e a edu­cação, per­manecem como desafios que pre­cisam ser enfrenta­dos, fazen­do valer decisões como a que equiparou a LGBT­fo­bia ao crime de racis­mo, em 2019. “Temos muitos desafios, temos que faz­er cumprir todas as decisões do Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al, toda a Con­sti­tu­ição Fed­er­al e as con­venções inter­na­cionais em todos os municí­pios e esta­dos brasileiros”.

Edição: Graça Adju­to

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