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UFMG: pesquisa mostra aprofundamento de desigualdades na infância

Boa Vista - Refugiados venezuelanos se preparam para deixar Roraima com destino a São Paulo e Cuiabá (Antônio Cruz/Agência Brasil)
Repro­dução: © Anto­nio Cruz/Agência Brasil

Relatos de crianças poderão servir de base para políticas e ações


Pub­li­ca­do em 08/05/2021 — 16:30 Por Cami­la Maciel — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

“A doença que aprox­i­ma e afas­ta as pes­soas”. Foi assim que uma meni­na de 10 anos, da região met­ro­pol­i­tana de Belo Hor­i­zonte, rev­el­ou o que sente com a pan­demia. Ela faz parte da pesquisa da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG) que anal­isa as exper­iên­cias de cri­anças em tem­pos de pan­demia do novo coro­n­avírus. Foram 2.200 par­tic­i­pantes de 8 a 12 anos. Entre os resul­ta­dos dos estu­dos, per­cepções sobre a vivên­cia famil­iar, mas, sobre­tu­do, a evidên­cia de que as desigual­dades se apro­fun­dam, deixan­do cri­anças ain­da mais vul­neráveis.

“As cri­anças estão sofren­do, sofren­do pela ausên­cia de esco­la, pela mudança do seu cotid­i­ano, pela mudança no seu con­tex­to de relações, pela exper­iên­cia sub­je­ti­va de lidar com a incerteza, com o medo de adoec­i­men­to, mas a gente obser­va que há uma desigual­dade na for­ma de viven­ciar essa exper­iên­cia. Esse é um ele­men­to muito impor­tante”, expli­ca Isabel de Oliveira, pro­fes­so­ra da Fac­ul­dade de Edu­cação da UFMG e pesquisado­ra do  Núcleo de Estu­dos e Pesquisa sobre Infân­cia e Edu­cação Infan­til (Nepei).

Ela cita como exem­p­lo o aces­so à esco­lar­iza­ção. Ao anal­is­ar o uso de com­puta­dor, tablet, celu­lar ou inter­net em casa, viu-se que mais cri­anças que se autode­clararam bran­cas afir­maram ter aces­so a essas fer­ra­men­tas do que as par­das e as pre­tas. Entre as que não têm aces­so à inter­net, 11,1% moram em ter­ritórios de alta vul­ner­a­bil­i­dade. O mes­mo ocorre com o aces­so ao celu­lar: 11,6%.

A pesquisa foi desen­volvi­da por meio de um ques­tionário online entre os dias 11 de jun­ho e 15 de jul­ho de 2020, com per­gun­tas aber­tas e fechadas. Além dis­so, as cri­anças pud­er­am enviar desen­hos, fotografias e men­sagens. Na segun­da fase, entre agos­to e dezem­bro, foram feitas entre­vis­tas com 33 dos vol­un­tários que par­tic­i­param na primeira eta­pa.

Isabel expli­ca que é fun­da­men­tal ouvir as cri­anças, inclu­sive, para for­mu­lação de políti­cas que respon­dam a essas vivên­cias. A práti­ca é comum no Nepei e parte do recon­hec­i­men­to de que elas podem e devem se posi­cionar, mas tam­bém o recon­hec­i­men­to de um dire­ito. “Já está pre­vis­to legal­mente. Então enten­demos que era nos­so papel bus­car ouvir”, apon­ta. O estu­do, a par­tir da escu­ta das cri­anças, definiu recomen­dações para o Poder Públi­co e a sociedade no atendi­men­to desse públi­co na pan­demia. Uma delas é, jus­ta­mente, ouvi-las.

Outros achados

O tra­bal­ho rev­el­ou que as cri­anças têm um con­hec­i­men­to apu­ra­do sobre os sig­nifi­ca­dos da pan­demia, demon­stran­do, por exem­p­lo, saber sobre a importân­cia do iso­la­men­to. A sol­i­dariedade interg­era­cional tam­bém foi uma mar­ca encon­tra­da. “Em ger­al, elas tin­ham essa com­preen­são de que o maior risco era para as ger­ações mais vel­has e elas diziam então que elas tin­ham o dev­er, a respon­s­abil­i­dade de aderir ao iso­la­men­to social em função da pro­teção dessas pes­soas mais vel­has”, apon­ta a pesquisado­ra.

A vivên­cia de angús­tias e medos tam­bém apare­ce­r­am entre as respostas. “Elas se viram mais con­frontadas com temas que não nec­es­sari­a­mente fazi­am parte dos assun­tos com os quais elas se envolvi­am, como o tema da morte, o tema do adoec­i­men­to, o medo da morte de pes­soas próx­i­mas, medo de ficarem soz­in­has”, expli­ca Isabel. Em con­trapon­to, as cri­anças demon­straram a capaci­dade de desen­volver estraté­gias de apren­diza­dos e a val­oriza­ção da con­vivên­cia famil­iar.

Recomendações

Entre as recomen­dações, além do exer­cí­cio de escu­tar as cri­anças para desen­volver políti­cas públi­cas e pedagóg­i­cas, Isabel desta­ca a neces­si­dade de con­sid­er­ar as desigual­dades rev­e­ladas. “É pre­ciso con­sid­er­ar que as mudanças na exper­iên­cia cotid­i­ana acon­te­ce­r­am para todas as cri­anças, mas a for­ma como isso acon­tece é muito difer­ente con­sideran­do a condição social e que há entre as cri­anças situ­ações de ain­da maior vul­ner­a­bil­i­dade do que aque­la que já exis­tia.”

A pro­fes­so­ra reforça ain­da a importân­cia de que essas vivên­cias na pan­demia sejam obser­vadas no retorno às aulas. “Pre­cisa olhar essa cri­ança e não o con­teú­do even­tual­mente per­di­do. Que cri­ança é essa que vol­ta ago­ra e com a qual a gente vai voltar a tra­bal­har?”, ques­tiona. Ela cita como exem­p­lo as pos­síveis per­das de famil­iares e adoec­i­men­tos. Ain­da nos casos em que per­manece o ensi­no remo­to, a pesquisado­ra apon­ta que não se deve bus­car uma repro­dução do mod­e­lo pres­en­cial.

Significado da escola

Mais de 80% das cri­anças ouvi­das estavam pre­ocu­padas com a ausên­cia na esco­la. “A fal­ta da esco­la rev­el­ou o quan­to esse espaço é impor­tante para as cri­anças. Nós tive­mos um número baixís­si­mo de cri­anças que falaram: ‘Mel­hor é não ir pra esco­la’.” Além do local de ensi­no, a esco­la é relata­da como o espaço e socia­bil­i­dade, do encon­tro com os ami­gos e da apren­diza­gem con­jun­ta.

“Não é um fun­ciona­men­to que sep­a­ra o cog­ni­ti­vo do restante. A gente já sabe dis­so teori­ca­mente, mas foi inter­es­sante ouvir isso das próprias cri­anças. A condição delas de apren­diza­gem do con­teú­do pre­cisa ser de for­ma inte­gral, con­sideran­do saúde físi­ca, emo­cional, suas condições e relações soci­ais”.

Edição: Pedro Ivo de Oliveira

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