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Conquista do primeiro ouro olímpico do vôlei completa 30 anos

Repro­dução: © Sesi/Divulgação

Em 1992, Brasil foi soberano em quadra, vencendo todos os jogos


Pub­li­ca­do em 09/08/2022 — 07:23 Por Elaine Patri­cia Cruz e Lin­coln Chaves – Repórteres da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Há 30 anos, o camisa 1 da seleção brasileira mas­culi­na de vôlei se preparou para sacar. Ele foi à lin­ha de fun­do e bateu a bola no chão por qua­tro vezes. Depois a segurou entre as mãos, arremes­sou para o alto e saltou, bem alto, fazen­do com que sua mão dire­i­ta tocasse na bola.

A bati­da foi certeira. A bola chegou à quadra adver­sária com taman­ha força e veloci­dade que foi impos­sív­el à Holan­da defendê-la. Com o ace (pon­to de saque) mar­ca­do por Marce­lo Negrão, o Brasil chegou ao 15º pon­to no ter­ceiro set (àquela época, as par­ci­ais do vôlei ter­mi­navam em 15) e gan­hou a par­ti­da por 15x12, 15x8 e 15x5. A vitória, que mar­cou uma cam­pan­ha de oito jogos com vitórias em Barcelona (Espan­ha), deu ao país a con­quista da primeira medal­ha de ouro olímpi­ca na modal­i­dade.

“Negrão. Acabou. Acabou. O Brasil gan­hou. O Brasil é medal­ha de ouro no volei­bol. O mel­hor volei­bol do mun­do”, gri­tou o nar­rador, emo­ciona­do, ao fim da par­ti­da.

ace de Negrão foi comem­o­ra­do por mil­hares de torce­dores que lig­aram a TV naque­le dia 9 de agos­to de 1992. Foi a primeira vez que os brasileiros pud­er­am cel­e­brar a con­quista de uma medal­ha de ouro olímpi­ca em um esporte cole­ti­vo. Depois desse títu­lo, vier­am out­ros. O próprio volei­bol ain­da trouxe mais qua­tro medal­has de ouro para o país: em 2004 e 2016, no mas­culi­no, e um bicam­pe­ona­to em 2008 e 2012, no fem­i­ni­no.

Invicto

Em 1992, o Brasil foi sober­a­no em quadra. Venceu todos os jogos, per­den­do ape­nas três sets: para a Equipe Unifi­ca­da (nome usa­do por atle­tas e times desportivos que for­mavam a Comu­nidade dos Esta­dos Inde­pen­dentes e que incluía a Rús­sia) e para as difí­ceis seleções de Cuba e dos Esta­dos Unidos. O elen­co, coman­da­do por José Rober­to Guimarães, teve Amau­ri, Car­lão, Dou­glas, Gio­vane Gávio, Janel­son, Jorge Edson, Marce­lo Negrão, Mau­rí­cio, Pam­pa, Paulão, Tal­mo e Tande.

“Lem­bro de tudo como se fos­se hoje. Lem­bro de todos os treina­men­tos, de tudo daque­la época. Era uma equipe muito jovem, muito nova. Eu tin­ha 19 anos. Imag­ine: ago­ra estou com quase 50”, brin­cou Marce­lo Negrão, em entre­vista à Agên­cia Brasil e à Rádio Nacional. “Foi um feito históri­co, que mar­cou o nos­so esporte e o país. E parece que foi ontem”. Para Tal­mo, lev­an­ta­dor reser­va de Mau­rí­cio, a equipe mar­cou época e con­tin­ua sendo grande refer­ên­cia.

Há pouco tem­po, Negrão, que recen­te­mente treinou a equipe do Mogi-SP, teve a chance de rev­er as par­tidas pela TV jun­to com os com­pan­heiros de seleção. E diz que gos­tou do que viu. “Assisti. E gostei demais. Sen­tá­va­mos [cada um em sua casa], fazíamos videochama­da e aí todo mun­do assis­tia ao jogo baten­do papo, comen­tan­do e dan­do risa­da. O Mau­rí­cio falou comi­go: ‘Marce­lo, não é por nada não, mas você joga­va bem’ [ele ri]. O Mau­rí­cio era um cara impres­sio­n­ante. Era cada lev­an­ta­da! Foi o maior lev­an­ta­dor que já tive”.

Emb­o­ra a seleção ten­ha joga­do de for­ma a encan­tar o mun­do, o ouro chegou de for­ma ines­per­a­da. Negrão con­ta que a equipe esta­va sendo prepara­da para a Olimpía­da seguinte, em Atlanta (Esta­dos Unidos). Quan­do eles chegaram a Barcelona, em 1992, estavam sem mui­ta expec­ta­ti­va. “Era a min­ha primeira Olimpía­da. Tudo muito novo”, obser­vou.

O descrédi­to ini­cial, no entan­to, trans­for­mou-se na mel­hor cam­pan­ha do vôlei brasileiro em uma Olimpía­da, com incrív­el vitória nas semi­fi­nais sobre os Esta­dos Unidos, então bicam­peão olímpi­co. Para Negrão, foi o jogo mais difí­cil daque­la con­quista. “A esco­la amer­i­cana é muito difí­cil de ser enfrenta­da. Eles ado­tam o princí­pio de estu­dar muito o adver­sário. Os out­ros times estu­dam, mas eles são fiéis àqui­lo que com­bi­na­ram, do começo ao fim. Se você mudou algu­ma coisa, eles não mudarão. Vão se adap­tar e vai demor­ar muito para mudarem. Os Esta­dos Unidos fazem doer a cabeça”, brin­cou.

Família

Sob a batu­ta de José Rober­to Guimarães, a seleção brasileira, que fez história, uniu-se em torno de um obje­ti­vo e criou uma família. “Os reser­vas apoiavam os tit­u­lares. Eles sabi­am que não iam jog­ar; como não jog­a­ram, não entraram nos prin­ci­pais jogos. Mas estavam apoian­do o time, torcendo o tem­po inteiro. Estar num grupo em que você sabe que o cara quer der­rubar o out­ro é muito des­gas­tante, muito ruim, a ener­gia pos­i­ti­va aca­ba, não fica um cli­ma bom. Mas con­seguimos tirar isso da seleção brasileira e aí se criou real­mente uma família”, disse Negrão.

Mes­mo com os holo­fotes sobre a equipe tit­u­lar – o que muitas vezes sig­nifi­ca tam­bém menos patrocínio e vis­i­bil­i­dade para os reser­vas -, Tal­mo diz que, naque­le momen­to, o pen­sa­men­to era con­cen­tra­do em estar sem­pre bem prepara­do para a even­tu­al­i­dade de ter que sub­sti­tuir Mau­rí­cio, que chegou a ser con­sid­er­a­do o mel­hor lev­an­ta­dor do mun­do. “Na min­ha cabeça, eu tin­ha que estar sem­pre muito bem prepara­do para suprir uma ausên­cia dele. Mas, em nen­hum momen­to, eu tor­cia para estar no lugar dele’. Então, esse foi o grande difer­en­cial de toda a equipe, tit­u­lares e reser­vas: vibrá­va­mos com a vitória dos caras den­tro de quadra. Batíamos pal­mas para que eles pudessem jog­ar o mel­hor mas, ao mes­mo tem­po, tín­hamos que nos qual­i­ficar cada vez mais. Era pre­ciso nos preparar e o treina­men­to era muito pux­a­do. Nos dedicá­va­mos para estar todos no mes­mo nív­el. E, se pre­cisas­se, a gente entraria e con­seguiria faz­er um bom jogo, com vitória. Se não pre­cisas­se, aplaudíamos e íamos até o final. Acho que está aí a mel­hor cam­pan­ha de todos os tem­pos do volei­bol mas­culi­no, per­den­do só três sets”, afir­mou.

Além da família uni­da, a seleção inovou no modo de jog­ar volei­bol no mun­do. “Tín­hamos liber­dade muito grande para cri­ar. Eu sem­pre fica­va ata­can­do muitas bolas com o Mau­rí­cio e, quan­do começamos a faz­er as bolas um pouco mais ráp­i­das, o Gio­vane veio com uma joga­da muito ráp­i­da na pon­ta, que não exis­tia no mun­do. Eu vin­ha com uma bola ráp­i­da do fun­do, ata­can­do na lin­ha dos três met­ros, o que tam­bém não exis­tia”, con­tou Negrão.

Algu­mas dessas jogadas ele guar­da no celu­lar para mostrar aos jogadores dos clubes que treina — ino­vações que foram cri­adas naque­la época e que hoje seus jogadores acham difí­cil realizar. “Era uma bola ráp­i­da, de dois tem­pos atrás, jogadas que fazíamos — e eu fiz em jogo, ten­ho grava­do — e dava cer­to”, lem­brou. “O nos­so modo de jogo, dois ata­cantes vin­do na mes­ma bola ao mes­mo tem­po, era uma coisa que não exis­tia e hoje tem isso tam­bém. Con­seguimos dar uma rev­olu­ciona­da no volei­bol mundi­al”, acres­cen­tou.

Ex-lev­an­ta­dor reser­va da seleção, Tal­mo, que foi treinador do Al Hilal (Arábia Sau­di­ta) e hoje se ded­i­ca ao Ati­ba­ia-SP e tam­bém ao doutora­do, lem­bra ain­da que o volei­bol mudou muito nos últi­mos 30 anos. “Acred­i­to que o esporte mudou e mudou numa veloci­dade ráp­i­da. Tín­hamos um primeiro com­po­nente que era a van­tagem — o vôlei ain­da não tin­ha o pon­to cor­ri­do -, não havia líbero e os jogadores de meio de rede, que hoje saem para a entra­da de um líbero, tin­ham que faz­er parte den­tro de quadra. Os atle­tas pre­cisavam de condição téc­ni­ca e táti­ca muito maior na nos­sa época. Todo mun­do tin­ha que faz­er tudo. O esque­ma táti­co que o Zé arru­mou para o time favore­ceu a que jogásse­mos difer­ente de todas as Olimpíadas, de todas as equipes, até hoje. Nen­hu­ma equipe jogou com a veloci­dade que jogá­va­mos na época, puxan­do duas bolas ráp­i­das, aceleran­do o jogo o tem­po inteiro”, disse.

É esse espíri­to cria­ti­vo, essa capaci­dade que tin­ham de jog­ar em várias funções, que os dois atle­tas veem como respos­ta às atu­ais seleções brasileiras. “Com essa mudança do líbero [jogador que atua com camise­ta difer­ente dos out­ros do mes­mo time, com função pri­or­i­tari­a­mente defen­si­va], os atle­tas estão se espe­cial­izan­do muito mais pre­co­ce­mente e deixan­do de ter uma exper­iên­cia téc­ni­ca que os favoreça em seu desen­volvi­men­to em lon­go pra­zo. Acho que esse é um pon­to que temos de pen­sar, repen­sar e encon­trar maneiras de tra­bal­har com os atle­tas jovens para que pos­sam ter a exper­iên­cia de vari­ação de movi­men­tos. Isso dará qual­i­dade a eles em médio e lon­go pra­zo”, disse Tal­mo.

Futuro

Trin­ta anos depois, o vôlei brasileiro se con­sagrou em quadra e na pra­ia. De equipes vito­riosas coman­dadas por Zé Rober­to e Bernardinho, a duplas como Ricardo/Emanuel e Jaqueline/Sandra na pra­ia, o Brasil con­quis­tou muitas medal­has e inspirou o mun­do. Ago­ra pas­sa por momen­to de ren­o­vação.

Após um ciclo vito­rioso, Bernardinho, por exem­p­lo, foi sub­sti­tuí­do por Renan dal Zot­to no coman­do téc­ni­co da equipe mas­culi­na. Zé Rober­to segue como téc­ni­co da seleção fem­i­ni­na, a úni­ca a con­quis­tar uma medal­ha o vôlei na últi­ma Olimpía­da: a pra­ta em Tóquio (Japão). O vôlei de pra­ia, que sem­pre ren­deu pódios ao Brasil des­de que começou a faz­er parte dos jogos, em 1996, pas­sou em bran­co pela primeira vez.

Para Negrão, o que anda fal­tan­do no volei­bol brasileiro é ino­vação, a mes­ma car­ac­terís­ti­ca que o fez con­quis­tar o primeiro ouro brasileiro na modal­i­dade. “Está fal­tan­do ino­var. Não em ter­mos de jogadores, mas no modo de jogo. Acho que pre­cisa soltar mais o jogador para ter a cria­tivi­dade e imple­men­tar o fator sur­pre­sa que a gente sem­pre teve. Hoje, esta­mos jogan­do de igual para igual com todo o mun­do. E aí vai depen­der muito do dia, como o cara está, como o cara do out­ro time está. O jogo fica igual, muito pare­ci­do. Acho que essa ino­vação é necessária”.

Para o atle­ta, não é fal­ta de apoio, nem fal­ta de treino. É tem­po, é maturi­dade para poder mel­hor nas olimpíadas”, afir­mou o ex-opos­to.

“No fem­i­ni­no, eu tra­bal­hei com algu­mas atle­tas que têm poten­cial e pre­cisam de tem­po de mat­u­ração e, assim como no mas­culi­no, o fem­i­ni­no pas­sa por ren­o­vação. Esse proces­so às vezes dói um pouco, às vezes não está pron­to, pre­cisa ser con­struí­do. Pre­cisamos paciên­cia com essa recon­strução. Temos pes­soas extrema­mente com­pe­tentes dirigin­do as seleções. O Zé Rober­to e o Renan, com as suas equipes, cer­ta­mente têm qual­i­dade ímpar, úni­ca e respeita­da no mun­do inteiro. Acho que nós, no Brasil, temos que respeitar e enten­der esse proces­so”, acres­cen­tou Tal­mo.

Na opinião do autor do últi­mo pon­to brasileiro em 1992, as seleções mas­culi­na e fem­i­ni­na de quadra e de pra­ia chegarão bem a Paris (França), próx­i­mo des­ti­no olímpi­co, em 2024. “Até uma semi­fi­nal o Brasil vai, seja de vôlei de quadra ou de pra­ia, mas­culi­no ou fem­i­ni­no”.

Em jun­ho deste ano, Marce­lo Negrão con­cedeu entre­vista ao pro­gra­ma Sem Cen­sura, da TV Brasil, sobre a con­quista do ouro olímpi­co. O pro­gra­ma pode ser assis­ti­do no site do pro­gra­ma.

Edição: Graça Adju­to

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