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Historiadores explicam disputa de narrativas sobre ditadura militar

Repro­dução: © Agên­cia Brasil/Fernando Frazão

Entenda as divergências em relação ao período


Pub­li­ca­do em 29/03/2023 — 08:32 Por Nel­son Lin — Repórter da Rádio Nacional — São Paulo — São Paulo

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Pas­sa­dos 59 anos do golpe e da ditadu­ra mil­i­tar, ain­da está pre­sente na sociedade a chama­da dis­pu­ta de nar­ra­ti­vas em torno do perío­do.

Uma das questões é qual a real data do golpe: se o dia 31 de março ou 1º de abril. Para o pro­fes­sor de história da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense (UFF), Daniel Aarão Reis, essa é uma polêmi­ca menor. Segun­do ele, o iní­cio do golpe foi de fato no dia 31 de março.

“Na madru­ga­da do dia 31, o gen­er­al Mourão Fil­ho dá iní­cio ao movi­men­to arma­do pela deposição do João Goulart, e as esquer­das, ironi­ca­mente der­ro­tadas, pas­saram a car­ac­teri­zar o golpe como ten­do sido vito­rioso no dia 1º de abril. Como a gente sabe, o 1º de abril é o dia da men­ti­ra”, argu­men­ta.

Out­ra dis­pu­ta pre­sente até hoje é em relação ao ter­mo golpe ou rev­olução. Daniel Reis reit­era que foi um golpe a deposição de João Goulart em 1964, ape­sar de ter havi­do apoio de parce­las da sociedade civ­il a essa deposição, e que par­tidários do golpe renomear­am o movi­men­to como rev­olução por ela estar asso­ci­a­da a coisas pos­i­ti­vas na época.

“Golpe é todo aque­le movi­men­to que pela vio­lên­cia depõe um pres­i­dente da Repúbli­ca. Ora, isso é obje­ti­vo. No Brasil, João Goulart (Jan­go) foi depos­to por um movi­men­to vio­len­to, que não provo­cou der­ra­ma­men­to de sangue notáv­el porque o pres­i­dente e as demais lid­er­anças de esquer­da resolver­am se ren­der sem luta”, expli­ca.

Indo mais pro­fun­da­mente sobre a denom­i­nação do perío­do, o pro­fes­sor tam­bém expli­cou porque o perío­do da ditadu­ra civ­il mil­i­tar não pode ser con­sid­er­a­do um perío­do rev­olu­cionário.

“Essas mod­i­fi­cações pela raiz, essas trans­for­mações des­ig­nam o proces­so como rev­olu­cionário ou não. Hou­ve rev­olução na Rús­sia, em Cuba, hou­ve rev­olução france­sa, amer­i­cana… Porque ali hou­ve trans­for­mações das políti­cas econômi­cas e cul­tur­ais. Isso não hou­ve no Brasil, emb­o­ra o Brasil tivesse pas­sa­do por um proces­so inten­so de mod­ern­iza­ção. Foi uma mod­ern­iza­ção con­ser­vado­ra e autoritária”, opina.

Sociedade dividida

As pesquisas de opinião feitas à época pelo Ibope nas grandes cidades mostravam uma sociedade divi­di­da. Se antes do golpe 42% con­sid­er­avam bom e óti­mo o gov­er­no de João Goulart e 30% reg­u­lar, após a ação dos mil­itares, pesquisa do Ibope em maio de 1964 rev­el­ou que 54% dos entre­vis­ta­dos aprovaram a deposição de Jan­go.

O moti­vo da pop­u­lação ter muda­do de apoio a Jan­go para apoio ao golpe pode ter sido o forte sen­ti­men­to de anti­co­mu­nis­mo asso­ci­a­do a João Goulart e que foi incen­ti­va­do pela grande mídia e por adver­sários políti­cos. Nas pesquisas do Ibope, o comu­nis­mo era vis­to como ameaça por mais de 65% dos entre­vis­ta­dos. Mas o pro­fes­sor de história da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG), Rodri­go Pat­to Sá Mot­ta, reit­era o equívo­co que era asso­ciar João Goulart ao comu­nis­mo ou social­is­mo.

“Muitas pes­soas acred­i­taram que o Brasil esta­va em vias de se tornar um país comu­nista, o que esta­va muito longe de ser ver­dade. O pres­i­dente João Goulart não era um social­ista, nem muito menos um comu­nista. Ele era um políti­co tra­bal­hista a favor de algu­mas refor­mas soci­ais, de salários mel­hores para os tra­bal­hadores. Mas não era social­ista, até porque ele era uma pes­soa muito rica, um dos maiores fazen­deiros do Brasil. Mas ain­da assim, então, hou­ve toda essa agi­tação em torno da ideia de que o Brasil cor­ria um risco sério de se tornar uma nova Cuba na Améri­ca Lati­na”, diz Daniel Reis.

E para quem quis­er enten­der mais as dis­cussões em torno do perío­do, o his­to­ri­ador Rodri­go Pat­to pub­li­cou, em 2021, um livro que estu­da mais a fun­do todas as questões, chama­do de Pas­sa­dos Pre­sentes, o golpe de 1964 e a ditadu­ra mil­i­tar.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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