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Saiba mais sobre o simbolismo da Sexta-Feira Santa

Data retoma últimos passos de Jesus até a sua morte

Fabío­la Sin­im­bú — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 18/04/2025 — 08:15
Brasília
Goiás - Encenação da via sacra de Jesus Cristo, durante a Procissão do Fogaréu na cidade de Goiás (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal jr/Agência Brasil

A Sex­ta-Feira San­ta é parte do trí­duo pas­cal, cel­e­bração da Igre­ja Católi­ca que retoma a paixão, morte e ressur­reição de Jesus Cristo. A data varia a cada ano porque tem como refer­ên­cia o perío­do da Fes­ta de Pes­sach (pás­coa judaica), cita­do nos evan­gel­hos cristãos.

“Quan­do a gente vis­lum­bra o perío­do de preparação para a pás­coa, isso vai acon­te­cer por uma tradição que vem des­de antes do perío­do cristão, e já era prat­i­ca­da pelo judaís­mo”, expli­ca Ana Beat­riz Dias Pin­to, douto­ra em Teolo­gia da Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca do Paraná.

Segun­do a espe­cial­ista, os escritos relatam que, para os judeus, a fes­tivi­dade ocor­ria no sába­do e domin­go de lua cheia após o iní­cio da pri­mav­era no hem­is­fério norte (out­ono no hem­is­fério sul).

“Quan­do Jesus foi sen­ten­ci­a­do à morte, eles pre­cis­aram ante­ci­par o momen­to de cru­ci­fi­cação dele — que foi o cas­ti­go impos­to na época — para que não atra­pal­has­se as fes­tivi­dades dos judeus. Então, acabou sendo numa sex­ta-feira”, diz.

Na cel­e­bração judaica, a data em que Jesus Cristo foi mor­to coin­cid­iu com os prepar­a­tivos da Fes­ta de Pes­sach. Tradi­cional­mente um cordeiro é mor­to em sac­ri­fí­cio para a pro­teção das mora­dias sujeitas à déci­ma pra­ga no Egi­to, que pre­via a desci­da do anjo da morte, quan­do todos os pri­mogêni­tos seri­am mor­tos em razão da escrav­iza­ção do povo judeu.

Evangelhos

“A inter­pre­tação teológ­i­ca desse even­to é fun­da­men­ta­da nos evan­gel­hos, prin­ci­pal­mente o Evan­gel­ho de João e tam­bém nas Car­tas de São Paulo, quan­do ele vai falar que Cristo era a ver­dadeira Pás­coa e que foi imo­la­do [mor­to em sac­ri­fí­cio]”, expli­ca Ana Beat­riz.

A rup­tura históri­ca e cul­tur­al pro­movi­da pelo sofri­men­to de Jesus Cristo, pos­to em sac­ri­fí­cio, impul­sio­nou a cri­ação de uma nova religião, desta­ca a teólo­ga.

“Um homem de carne e osso, que aca­ba sendo mor­to e, pela espir­i­tu­al­i­dade, se com­preende que ele veio para cumprir as escrit­uras. Então, ele vai demon­strar que não existe mais só a neces­si­dade de se sair da escravidão para a liber­dade, mas que havia a neces­si­dade desse povo sair do con­tex­to de peca­do para um con­tex­to de amor”, reforça Ana Beat­riz.

A sex­ta-feira retoma exata­mente os últi­mos pas­sos de Jesus até a sua morte, no dia em que foi sen­ten­ci­a­do e pen­i­ten­ci­a­do a car­regar a cruz na qual viria a ser pre­ga­do até perder a vida. Para católi­cos, na litur­gia da Sex­ta-Feira San­ta não acon­tece o momen­to da eucaris­tia, que é uma ação que dá graças à pre­sença de Jesus Cristo. “Den­tro dessa dinâmi­ca do sim­bolis­mo, a ausên­cia da cel­e­bração eucarís­ti­ca está lig­a­da a um caráter de luto. Os católi­cos entram em luto na quin­ta-feira à noite”, frisa Ana Beat­riz.

A mis­sa cel­e­bra­da na data tam­bém reser­va um momen­to de ado­ração da cruz para destacar o sac­ri­fí­cio de Jesus Cristo para red­imir o mun­do dos peca­dos, detal­ha a teólo­ga.

“Aqui no Brasil, por ter­mos uma tradição lati­na, a gente é muito pas­sion­al. Mui­ta gente bei­ja a cruz, se ajoel­ha diante dela. Na Europa, por exem­p­lo, as pes­soas se aprox­i­mam da cruz e fazem uma reverên­cia com a cabeça. Em alguns lugares, fazem uma gen­u­flexão [dobram os joel­hos], mas não tem essa coisa de tocar e bei­jar. Cada povo vai ter um cos­tume”, afir­ma.

Tam­bém é na Sex­ta-feira San­ta que tradi­cional­mente algu­mas cidades ence­nam a Via Sacra, para relem­brar a tra­jetória de Jesus até a morte e o sig­nifi­ca­do da Paixão de Cristo, que se pôs em sac­ri­fí­cio pela humanidade.

“O tom que pela tradição da igre­ja se pede é de aus­teri­dade, silên­cio, con­tem­plação e luto. É real­mente um momen­to de se lem­brar que uma pes­soa mor­reu, que é o líder máx­i­mo do cris­tian­is­mo”, enfa­ti­za.

Feriado

No Brasil, des­de a chega­da dos por­tugue­ses, o cris­tian­is­mo foi ado­ta­do como religião ofi­cial do Império e a tradição foi man­ti­da após a Inde­pendên­cia em relação a Por­tu­gal. Como um país com grande pop­u­lação cristã, a Sex­ta-Feira San­ta é con­sid­er­a­da um feri­ado reli­gioso pela Lei 9.093/1995.

“Ape­sar do Brasil ser um esta­do laico, acabou sendo con­ven­ciona­do que se man­te­ria esse cal­endário como feri­ado, porque se faz parte da cul­tura do povo, da tradição e dos cos­tumes. Se isso faz sen­ti­do para o povo, não tem por que reti­rar do cal­endário”, reforça.

Sincretismo

Além das religiões cristãs, muitas out­ras cel­e­bram a Pás­coa com litur­gias que trazem um sim­bolis­mo próprio.

“A umban­da e o can­domblé, que são algu­mas das maiores reli­giosi­dades de matriz africana no país, a Quim­ban­da e o Batuque vão cel­e­brar a Pás­coa como uma fes­ta de renasci­men­to espir­i­tu­al. Vão faz­er fes­tas para Oxalá, que seria o orixá asso­ci­a­do à figu­ra de Jesus Cristo, porque a gente tem um sin­cretismo muito grande entre as matrizes africanas e o catoli­cis­mo”, salien­ta Ana Beat­riz.

No próprio cris­tian­is­mo, as práti­cas e inter­pre­tações tam­bém vari­am, afir­ma a teólo­ga. “Na dout­ri­na espíri­ta, a ressur­reição de Jesus é vista como uma evolução, uma sobre­vivên­cia do espíri­to. Eles não vão ter rit­u­ais, mas eles respeitam como um sím­bo­lo de ren­o­vação inte­ri­or. E eles, evi­den­te­mente, têm tam­bém a figu­ra de Jesus Cristo como um pro­fe­ta, como alguém muito evoluí­do.”

Para a pesquisado­ra, a Sem­ana San­ta é um perío­do para reflexões inde­pen­dentes de uma religião e que pode moti­var até mudanças soci­ais.

“Hoje, a gente pode rein­ter­pre­tar tam­bém o sen­ti­do da Pás­coa como uma opor­tu­nidade de a gente olhar para nós mes­mos, para a nos­sa real­i­dade social, para a nos­sa real­i­dade econômi­ca, políti­ca e pen­sar, a par­tir daí, o que a gente quer para a nos­sa sociedade?”, con­clui.

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