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Mulheres protestam no Rio e pedem maior presença do Estado

Agente de educação diz que ainda carrega marcas dos tiros que levou

Cristi­na Índio do Brasil — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 07/12/2025 — 18:30
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 07/12/2025 - ato contra feminicío em Copacabana 071225 Foto: Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil
Repro­dução: © Cristi­na Indio do Brasil/Agência Brasil

A ten­ta­ti­va de fem­i­nicí­dio que sofreu em 6 de fevereiro de 2017 ain­da provo­ca uma mis­tu­ra de sen­ti­men­tos e lágri­mas na agente de edu­cação infan­til do municí­pio do Rio de Janeiro Eve­lyn Lucy Alves da Luz, de 44 anos. Os tiros que lev­ou do ex-mari­do estão mar­ca­dos nela e na fil­ha, que na época tin­ha 6 anos e assis­tiu a tudo.

“Ele des­feriu os tiros na frente da cri­ança. Ela pres­en­ciou a mãe sendo quase mor­ta, tor­nan­do esse crime ain­da mais cru­el”, con­tou em entre­vista à Agên­cia Brasil, enquan­to par­tic­i­pa­va de man­i­fes­tação con­tra o fem­i­nicí­dio, na Pra­ia de Copaca­bana.

Eve­lyn disse que a fil­ha car­rega o trau­ma até hoje. “Infe­liz­mente, ela ain­da está muito trauma­ti­za­da, não fala sobre o assun­to. Até hoje, luto para que ten­ha uma vida saudáv­el e ple­na, mas é muito difí­cil ten­do viven­ci­a­do o que viven­ciou”, afir­mou.

Rio de Janeiro (RJ), 07/12/2025 - Evelyn Lucy Alves da Luz vitima de tentativa de feminicídio 071225 Ato para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil
Reprodução: Evelyn Lucy Alves da Luz, vitima de tentativa de feminicídio, denuncia violência de que foi vítima — Foto Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil

“Foi à luz do dia, em um sába­do de car­naval. Esse homem fez isso na frente de todos, algo que é comum. Eles não têm medo de serem vio­len­tos e agres­sivos”.

Os dis­paros foram em frente à casa dela, em Vila Isabel, na zona norte do Rio, depois de o ex-mari­do traz­er de vol­ta a fil­ha que tin­ha ido com ele para um encon­tro deter­mi­na­do pela Justiça. A meni­na, que não que­ria ir, voltou choran­do com o pai dez min­u­tos depois. “Ele retornou à min­ha residên­cia e des­feriu três tiros, dois foram no meu abdô­men, per­di o baço, um pedaço do fíga­do e o ovário esquer­do, e o out­ro foi no ros­to”, rev­el­ou, acres­cen­tan­do que ficou 21 dias inter­na­da no hos­pi­tal, sendo 11 no Cen­tro de Ter­apia Inten­si­va.

“Car­rego essas mar­cas até hoje. Tan­to físi­cas quan­to emo­cionais. Sei muito bem o que é”, con­tou em meio às man­i­fes­tantes que par­tic­i­param do ato Na Rua por Mul­heres Vivas!, no pos­to 5 da Pra­ia de Copaca­bana.

“Hoje estou aqui. Pode­ria ter vira­do uma estatís­ti­ca, mas estou aqui porque sou real­mente uma sobre­vivente de ten­ta­ti­va de fem­i­nicí­dio”.

Eve­lyn pôde con­tar com uma rede de apoio de mul­heres que foi se for­man­do ao seu redor como gru­pos e cole­tivos. “Fui receben­do muito amor e afe­to, inclu­sive uma das pes­soas de quem rece­bi esse afe­to, logo em segui­da, foi a Van­der­lea Aguiar, tam­bém mil­i­tante do Movi­men­to Eman­ci­pa. Uma das pes­soas que foi meu suporte para que eu chegasse até aqui”.

“Só de estar viva, acho que já é uma grande mil­itân­cia porque pas­sei por algo que nen­hu­ma mul­her merece pas­sar”.

Eve­lyn, no entan­to, recla­ma da fal­ta de apoio do Esta­do. “Rece­bi apoio de pes­soas e não de orga­ni­za­ções e nem do gov­er­no. Não rece­bi nen­hum tipo de aju­da, nen­hum tipo de lig­ação, não rece­bi apoio psi­cológi­co, finan­ceiro, nada. Tive que me reer­guer com meios próprios”, afir­mou.

“É um dos meus ques­tion­a­men­tos. A mul­her que sobre­vive a uma vio­lên­cia, seja pat­ri­mo­ni­al, emo­cional, ou a uma ten­ta­ti­va de fem­i­nicí­dio, não recebe apoio do gov­er­no para se resta­b­ele­cer”.

O agres­sor chegou a respon­der a proces­so na Justiça e foi pre­so, mas depois de uma pesquisa na inter­net, Eve­lyn se assus­tou ao saber que ele está solto. “Ele está solto des­de 2024 e ninguém me avi­sou”, con­tou, acres­cen­tan­do que esse foi mais um moti­vo para estar no ato em Copaca­bana.

“Estou aqui por mim, por todas as out­ras que se foram e por aque­las que querem ser livres”.

Tam­bém pre­sente à man­i­fes­tação de mul­heres na cap­i­tal flu­mi­nense, Van­der­lea Aguiar, 49 anos, con­ta que con­seguiu sair de um rela­ciona­men­to difí­cil por instin­to de sobre­vivên­cia.

“A gente está cansa­da de ver as mul­heres mor­ren­do sim­ples­mente pelo fato de serem mul­heres e porque os home­ns acham que são donos da nos­sa vida e do nos­so cor­po. Pode-se diz­er até da nos­sa alma”, disse à Agên­cia Brasil.

Rio de Janeiro (RJ), 07/12/2025 - Wanderlea Aguiar e Adriana Herz Domingues do coletivo Juntas 071225 Ato para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil
Reprodução: Wanderléa Aguiar e Adriana Domingues, no ato contra os feminicídios, no Rio de Janeiro — Foto Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil

“Apoiar a Eve­lyn e as mul­heres é diz­er que a gente está viva, sobre­viven­do e, mais do que isso, é diz­er chega e que a gente não aguen­ta mais. Que a gente é dona das nos­sa vida, sim”.

Adri­ana Herz Domingues, 31 anos, é uma das coor­de­nado­ras estad­u­ais do Cole­ti­vo Jun­tas, pre­sente ao ato deste domin­go (7). Segun­do a psicólo­ga, o aumen­to dos casos de fem­i­nicí­dio foi o estopim para a real­iza­ção da man­i­fes­tação. A fal­ta de inves­ti­men­tos para uma rede de acol­hi­men­to e da real­iza­ção de con­cur­sos públi­cos para ess­es espaços tam­bém estão na lista de reivin­di­cações.

“A gente está lutan­do por isso, mas em primeiro lugar que os casos de vio­lên­cia não acon­teçam. É muito impor­tante ter a Lei Maria da Pen­ha e debates nas esco­las sobre a vio­lên­cia con­tra mul­her. Dis­cu­tir por que o machis­mo existe e out­ras questões.”

O debate sobre o que é a vio­lên­cia, con­forme a psicólo­ga, é fun­da­men­tal, porque ain­da há mul­heres que não iden­ti­fi­cam o que sofrem. “Isso envolve esse debate nas esco­las, no Sis­tema Úni­co de Saúde, cam­pan­has do próprio gov­er­no e tam­bém ter os apar­el­hos de Esta­do para acol­hi­men­to”. Para Adri­ana, emb­o­ra as Casas das Mul­heres sejam uma con­quista do movi­men­to fem­i­ni­no e fun­cionem bem em alguns lugares, o equipa­men­to públi­co ain­da existe em número insu­fi­ciente.

“O atendi­men­to psi­cológi­co é impor­tante para a mul­her de for­ma que sin­ta que não está soz­in­ha, tem um amparo, muitas vezes em grupo para as que pas­sam pela situ­ação se for­t­ale­cerem cole­ti­va­mente”, disse.

Ela lem­brou que há casos em que a mul­her não deixa o rela­ciona­men­to vio­len­to por difi­cul­dades finan­ceiras.

“[É pre­ciso] a gente garan­tir emprego pleno, ter con­cur­sos públi­cos para que as mul­heres pos­sam ter empre­gos bons, bol­sas para mul­heres que estão em situ­ação de vio­lên­cia. São pro­postas para a gente com­bat­er isso”, obser­vou

Rio de Janeiro (RJ), 07/12/2025 - Deise Coutinho professora aposentada no ato contra feminicídio 071225 Ato para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil
Reprodução: A professora Deise Coutinho coloca girassóis ao lado de cruzes em Copacabana para protestar contra o feminicídio — Foto Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil

A pro­fes­so­ra aposen­ta­da Deise Coutin­ho, 68 anos, lev­ou girassóis e colo­cou ao lado de cruzes pre­tas espal­hadas na pista da orla de Copaca­bana rep­re­sen­tan­do as mortes por fem­i­nicí­dio. Rep­re­sen­tante do Sindi­ca­to dos Pro­fes­sores de Esco­las Par­tic­u­lares, ela reivin­di­ca do gov­er­no respostas às mortes de mul­heres por fem­i­nicí­dio. “Giras­sol é uma flor que se lev­an­ta, é o lema. Nós nos lev­an­ta­mos para lutar, para acabar com essa matança das mul­heres.”

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