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Brasília 63 anos: patrimônio cultural da era modernista

Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

Professor traz história da construção e peculiaridades da capital


Pub­li­ca­do em 20/04/2023 — 22:24 Por Daniel­la Longuin­ho — Repórter da Rádio Nacional — Brasília

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Em hom­e­nagem ao aniver­sário de 63 anos de Brasília, comem­o­ra­do neste 21 de abril, a Rádio Nacional traz um pouco da história da con­strução da cap­i­tal fed­er­al, rev­e­la­da em con­ver­sa com Fred­eri­co Flós­cu­lo, pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Arquite­tu­ra e Urban­is­mo da Uni­ver­si­dade de Brasília.

Rádio Nacional: A con­strução muito pecu­liar da cap­i­tal fed­er­al no Planal­to Cen­tral con­feriu a cidade car­ac­terís­ti­cas que vão des­de aspec­tos mon­u­men­tais à arquite­tu­ra ino­vado­ra, o que con­feriu a cidade em 1987, o recon­hec­i­men­to da UNESCO como Patrimônio da Humanidade. O que tor­na o con­jun­to urbanís­ti­co arquitetôni­co de Brasília tão espe­cial?

Fred­eri­co Flós­cu­lo: Brasília é um episó­dio extra­ordinário da história brasileira, porque sobre­tu­do foi a real­iza­ção do son­ho repub­li­cano de trans­fer­ên­cia da cap­i­tal da Repúbli­ca para o inte­ri­or do Brasil. Isso era um son­ho até ante­ri­or à Repúbli­ca. Foi um son­ho expres­sa­do por José Bonifá­cio, por líderes brasileiros que viam a neces­si­dade de bem defend­er a cap­i­tal brasileira, mas bem admin­is­trar um país gigan­tesco. Então, final­mente, Jusceli­no Kubitschek con­seguiu faz­er isso e a história desse suces­so é uma história muito par­tic­u­lar, porque se deveu muito, tan­to aos tra­bal­hos do próprio [Getúlio] Var­gas, porque Var­gas quase cria Brasília, ele criou comis­sões de estu­dos e mon­tou todo o grupo prati­ca­mente que depois foi usa­do pelo próprio Jusceli­no, mas tam­bém por Jusceli­no Kubitschek que foi assim o grande herói de Brasília porque ele enfren­tou uma oposição políti­ca, extra­or­di­nar­i­a­mente, agres­si­va con­tra a real­iza­ção da cidade.

Mas Jusceli­no teve a seu favor a con­tribuição de um extra­ordinário arquite­to. Oscar Niemey­er. que ele já con­hecia des­de os tem­pos de prefeitu­ra de Belo Hor­i­zonte, des­de a déca­da de 30. Oscar Niemey­er e Jusceli­no tin­ham uma amizade, uma sól­i­da con­fi­ança mútua e Jusceli­no con­fiou ao Oscar o pro­je­to de Brasília. Só que Oscar Niemey­er, cuida­dosa­mente, sabi­a­mente, recu­sou. Oscar Niemey­er era lig­a­do a OAB, propôs a real­iza­ção de um con­cur­so públi­co nacional e nesse con­cur­so nacional, em 1957, foi vence­dor out­ro extra­ordinário urban­ista car­i­o­ca, Lúcio Cos­ta. Emb­o­ra nasci­do na França, Lúcio Cos­ta era mestre de Oscar Niemey­er, um grande refor­mador do ensi­no brasileiro, cri­ador do Iphan. Na ver­dade, o Serviço Nacional depois se tornou o Insti­tu­to Nacional do Patrimônio Públi­co, Históri­co e Artís­ti­co Nacional. E aí, é a pro­pos­ta de Lúcio Cos­ta, extra­ordinária, que vai começar real­mente a con­cretizar Brasília. Então Lúcio Cos­ta propõe uma cidade muito sim­ples o traça­do, dois eixos que se cruzam, um eixo descen­do assim na direção do lago que já esta­va definido e out­ro eixo, fazen­do o abraço do grande mor­ro do Cruzeiro. E é ao lon­go desse eixo que faz o abraço que estão dis­tribuí­das as superquadras res­i­den­ci­ais. E no eixo que desce o mor­ro na direção do lago ele se tornou o eixo mon­u­men­tal onde são colo­cadas as prin­ci­pais zonas, setores tan­to da cap­i­tal da Repúbli­ca, quan­to de apoio e atração as funções fun­da­men­tais da cidade.

Brasília 60 Anos
Repro­dução: Hor­i­zonte de Brasília — Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

Rádio Nacional: O sen­hor men­cio­nou a história do con­cur­so do plano pilo­to e eu gostaria de saber quais os prin­ci­pais destaques do pro­je­to de Lúcio Cos­ta e como ele foi colo­ca­do em práti­ca.

Fred­eri­co Flós­cu­lo: E aí é uma história, extra­ordinária, do próprio con­cur­so. Lúcio Cos­ta quan­do propôs, ele propôs real­mente de todos os planos que tin­ham sido apre­sen­ta­dos, o mais ele­gante, ele propôs uma cidade par­que que foi escol­hi­da pelo júri que tin­ha mem­bros inter­na­cionais ‚eles escol­her­am por causa da sim­pli­ci­dade e via­bil­i­dade e extrema beleza do plano. O Jusceli­no que­ria que o Oscar fizesse os pré­dios, os edifí­cios, o pro­je­to de arquite­tu­ra. E teve um urban­ista vence­dor do con­cur­so que eles dois teri­am que tra­bal­har jun­tos. E o Jusceli­no con­hecia muito bem arquite­to e urban­ista. Sabe como é essa tur­ma que não se con­cil­ia, que não é mui­ta ami­ga, você vai ter um infer­no na ter­ra. Aí gan­hou esse pre­sente aí. Real­mente a escol­ha foi isen­ta e um grande mestre e com­pan­heiro de Oscar foi o vence­dor. Os dois, então, fiz­er­am a cidade que é tan­to do Lúcio quan­to do Oscar.

produção de fotos para matéria de aniversário de Brasília
Repro­dução: Con­gres­so Nacional vis­to da Rodoviária do Plano Pilo­to– Fabio Rodrigues-Pozze­bom/ Agên­cia Brasil

Há vários episó­dios em Brasília, no Con­gres­so Nacional em que se você ficaria espan­ta­da em ver como por exem­p­lo aque­le jogo belís­si­mo de for­mas das duas cúpu­las, uma vira­da pra cima, os dois edifí­cios gêmeos, tudo aqui­lo foi con­ce­bido simul­tane­a­mente por Lúcio Cos­ta e Oscar Niemey­er. A gente atribui só ao Oscar, mas quem começou a desen­har, fez a primeira pro­pos­ta do Con­gres­so Nacional, foi Lúcio Cos­ta. E Oscar dupli­cou e aí começa uma sucessão de real­iza­ções extra­ordinárias em pouco mais de dois anos de tra­bal­ho, de pro­je­to de exe­cução, graças tam­bém a um grande engen­heiro chama­do Israel Pin­heiro. Então é algo que emo­ciona a brasil­i­dade, se você pen­sar que, em cer­ca de mil dias, essa equipe hero­ica con­seguiu entre­gar para o Brasil no dia 21 de abril de 1960, a cap­i­tal com o pres­i­dente insta­l­a­do, com os poderes insta­l­a­dos em condição de começar a faz­er com que o gov­er­no brasileiro se man­i­fes­tasse e fizesse a gestão do Brasil des­de o Planal­to Cen­tral. Um momen­to de imen­sa emoção. E a par­tir daí, o Brasil começou a con­hecer Brasília. Porque ninguém sabia que coisa era aque­la, que eles con­heci­am por algu­mas fotografias da obra, por alguns desen­hos da obra. A brasil­i­dade ao lon­go daque­les anos 60, 70, veio, desceu, veio de todo o plan­e­ta Brasil para tra­bal­har em Brasília, nas suas embaix­adas, nos seus min­istérios. Virou um cen­tro de brasil­i­dade, assim, que nos orgul­ha. Não há cidade, cap­i­tal, no mun­do, que ten­ha a beleza, a inte­gri­dade, a ele­vação de Brasília. É por isso que no final dos anos 80, acabamos sendo dis­tigu­i­dos pela UNESCO com o títu­lo de Patrimônio Cul­tur­al da Humanidade. O úni­co Patrimônio Cul­tur­al da Humanidade que é mod­ernista, que é do sécu­lo 20.

Brasília 60 anos - Palácio do Planalto
Repro­dução: Palá­cio do Planal­to — Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

Rádio Nacional: Pro­fes­sor Flós­cu­lo, pelos aspec­tos urbanís­ti­cos, como a cidade se trans­for­mou ao lon­go dess­es 63 anos de existên­cia?

Construção de prédios residenciais e comerciais no Setor Noroeste em Brasília
Repro­dução: Con­strução de pré­dios res­i­den­ci­ais e com­er­ci­ais no Setor Noroeste. em Brasília — Mar­cel­lo Casal JrAgên­cia Brasil

Fred­eri­co Flós­cu­lo: Esta­mos num proces­so ago­ra de preser­vação desse núcleo porque con­tra, dig­amos, a inte­gri­dade daque­la Brasília de JK, de Oscar Niemey­er, de Lúcio Cos­ta, de Israel Pin­heiro, há muitos inimi­gos, eu colo­co meio que entre aspas, rep­re­sen­ta­dos pelos espec­u­ladores imo­bil­iários. Pelos opor­tunistas, pelos grileiros, por várias ondas de pes­soas que pen­sam poder impor à Brasília o mes­mo tipo de der­ro­ta urbana que foi impos­ta, em espe­cial, ao Rio de Janeiro. Então nós temos esse estig­ma tam­bém. De não per­mi­tir­mos que aqui­lo que acon­te­ceu no Rio, que ain­da con­tin­ua a ater­rorizar a anti­ga cap­i­tal, isso acon­teça em Brasília, mas infe­liz­mente já está acon­te­cen­do. Nós temos des­de aque­le momen­to de inau­gu­ração em 21 de abril de 60, até hoje, ess­es 63 anos que se pas­saram, várias descon­tinuidades que foram quase fatais pra Brasília. Con­tinuidades  cruéis como da ditadu­ra mil­i­tar. E quase mata Brasília. Quase que os mil­itares con­seguiram arreben­tar com todo aque­le impul­so de cri­ação da cidade, de repub­li­can­is­mo. Isso foi muito impor­tante porque com a retoma­da da democ­ra­cia em mea­d­os da déca­da de 80, nós tín­hamos uma democ­ra­cia inter­romp­i­da. E nós tive­mos a seguir uma sucessão de gov­er­nadores, fran­ca­mente, desas­trosa. Brasília não teve sorte, até hoje, com sua democ­ra­cia porque os gov­er­nadores não tem mostra­do, dig­amos assim, iden­ti­dade e con­sciên­cia da grandeza do pro­je­to da cidade, ao con­trário, Brasília se tornou cada vez mais obje­to fácil de pro­je­tos pes­soais, de pro­je­tos menores, de espec­u­lação e, até mes­mo, de cor­rupção do uso do seu ter­ritório.

Rádio Nacional: Para encer­rar, o sen­hor pode comen­tar sobre o que avançou em ter­mos de ocu­pação da cidade, a exem­p­lo de políti­cas como planos de preser­vação do con­jun­to urbanís­ti­co de Brasília, que espera há dez anos por final­iza­ção.

Fred­eri­co Flós­cu­lo: Nós cheg­amos no ano de 1993, quan­do Brasília já tin­ha autono­mia políti­ca des­de 88, nom­i­nal­mente, pela Con­sti­tu­ição Fed­er­al e des­de 90, pela eleição do primeiro gov­er­nador. E é aí que, em 93, nós temos a Lei Orgâni­ca do Dis­tri­to Fed­er­al, definin­do a neces­si­dade de um PPCUB, e um plano de preser­vação do con­jun­to urbanís­ti­co de Brasília. Des­de 93 até hoje, 2023, nós temos aí um lap­so de 30 anos. 30 anos de lap­so, em que Brasília não con­seguiu faz­er o seu PPCUB. Quer diz­er, era um dos primeiros planos a terem sido feitos em 93, nun­ca foi feito. Por quê? A razão é: gov­er­nadores em sucessão, até os dias de hoje, não que­ri­am faz­er com que a preser­vação travasse seus negó­cios. Quer diz­er, é quan­do o plane­ja­men­to faz mal a políti­ca. E isso, infe­liz­mente, acon­tece no nos­so país. Não ter­mos um PPCUB é algo escan­daloso e é indí­cio de pés­si­ma gestão públi­ca. Nós temos aí, às vésperas de ter um PPCUB pés­si­mo, na min­ha avali­ação, o PPCUB, o primeiro PPCUB já vai ser cheio de maus movi­men­tos do gov­er­no. Com coisas ina­cred­itáveis, lotea­men­to do eixo mon­u­men­tal, de lotes gigan­tescos des­ti­na­dos a restau­rantes, a shop­pings, a um monte de coisas que seri­am muito bem-vin­das nas cidades, nos bair­ros, nas admin­is­trações e não no eixo mon­u­men­tal.

Brasília 60 Anos - Tesourinhas
Repro­dução: Tesour­in­has — Mar­cel­lo Casal JrAgên­cia Brasil

Ouça na Radioagên­cia Nacional:

Edição: Sheily Nole­to / Alessan­dra Esteves/Aline Leal

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