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Festa Literária Internacional movimenta Paraty a partir desta quarta

Homenageado nesta edição é o escritor Paulo Barreto, o João do Rio

Elaine Patrí­cia Cruz — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 08/10/2024 — 08:02
São Paulo
Movimentação na cidade durante a 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Com hom­e­nagem ao escritor, jor­nal­ista e dra­matur­go Paulo Bar­reto (1881–1921), que usa­va como pseudôn­i­mo literário João do Rio, a 22ª edição da Fes­ta Literária Inter­na­cional de Paraty (Flip) será real­iza­da de 9 a 13 de out­ubro. Assim como seu hom­e­nagea­do, que reg­istrou os con­fli­tos, temores e dile­mas de seu tem­po, refletindo sobre o pro­gres­so, a veloci­dade e a for­mação urbana, a Flip neste ano tam­bém pre­tende traz­er para o cen­tro dos debates a plu­ral­i­dade de visões e de sen­si­bil­i­dades do mun­do con­tem­porâ­neo.

Durante cin­co dias, a maior fes­ta literária do Brasil vai pro­mover dis­cussões sobre temas atu­ais como o impacto das queimadas. Com Pablo Casel­la e Txai Surui, duas vozes que vêm de den­tro da flo­res­ta, a mesa Ces­sar o Fogo está mar­ca­do para sába­do (12), a par­tir das 21h30.

Mas as queimadas não serão o úni­co tema em dis­cussão. Haverá tam­bém mesas sobre o racis­mo e a dor das mul­heres que se movi­men­tam nes­sa vio­lên­cia, sobre as emergên­cias climáti­cas, a inteligên­cia arti­fi­cial e a vio­lên­cia con­tra os povos indí­ge­nas.

“Nes­sa curado­ria tive­mos a pre­ocu­pação de dis­cu­tir temas atu­ais como as mudanças climáti­cas, as queimadas e as guer­ras em Gaza e no Líbano, a cen­sura, a inteligên­cia arti­fi­cial e a desin­for­mação. Acho, par­tic­u­lar­mente, que a lit­er­atu­ra e essas for­mas de artes ver­bais são essen­ci­ais para aju­dar a gente a orga­ni­zar o mun­do. Ao mes­mo tem­po em que nos sen­ti­mos muito provo­ca­dos por obras literárias muito con­tun­dentes, sen­ti­mos tam­bém cer­to alívio quan­do a obra nos ofer­ece um recorte para com­preen­der o caos no mun­do”, disse Ana Lima Cecilio, curado­ra des­ta edição da Flip, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Out­ro tema que vai per­me­ar a fes­ta neste ano é o enfrenta­men­to ao ódio nas redes soci­ais, mesa que acon­tece sex­ta-feira (11). “O ódio nas redes é uma dis­cussão muito con­tem­porânea. Esta­mos em ple­na eleição e há duas ou três eleições a gente entende o poder de mobi­liza­ção da inter­net, dos gru­pos de ódio e da polar­iza­ção”, disse Ana.

Na sex­ta-feira (11), a mesa Não Existe mais Lá vai tratar sobre os diários escritos por Atef Abu Saif, que esta­va em Gaza quan­do começaram os bom­bardeios, e por Julia Dan­tas, que viu sua casa e seu bair­ro serem inva­di­dos pelas águas na enchente que atingiu Por­to Ale­gre este ano. “Quan­do jun­ta­mos ess­es dois, esta­mos falan­do de ações humanas que pode­ri­am ser evi­tadas, mas que estão destru­in­do cidades e pop­u­lações inteiras. Faz­er essa conexão entre temas urgentes é impor­tante para ten­tar orga­ni­zar o mun­do. Não é um con­gres­so que sairá com soluções, mas é um bom cam­in­ho pra gente apren­der a se posi­cionar, ler as coisas e enten­der como o mun­do se dá”, reforçou a curado­ra.

Além da atu­al­i­dade de temas, uma das novi­dades da Flip neste ano será a real­iza­ção de um pod­cast ao vivo. “Já temos essa con­sagração das mesas de con­ver­sa, mas esta­mos pen­san­do em novos for­matos que pos­sam usar vídeo, sons e músi­cas. Isso é algo que inter­es­sa para a Flip como trans­for­mação através dos tem­pos. Esta­mos fazen­do esse exper­i­men­to e felizes com essa parce­ria com a Radio Nov­elo. Vamos faz­er um pod­cast inspi­ra­do no João do Rio – e no calor da hora”, disse Ana Lima Cecilio.

Cri­a­da em 2003, a Flip é recon­heci­da como Patrimônio Históri­co Cul­tur­al e Ima­te­r­i­al do esta­do do Rio de Janeiro. A fes­ta literária não ape­nas reúne per­son­al­i­dades do mun­do da cul­tura e da lit­er­atu­ra para con­ver­sas, palestras e lança­men­tos de livros: ela tam­bém é uma grande man­i­fes­tação cul­tur­al, que pro­move ain­da ações de incen­ti­vo à leitu­ra e de for­mação de novos leitores.

João do Rio

O grande hom­e­nagea­do da Flip neste ano foi um dos autores mais impor­tantes do iní­cio do sécu­lo 20 no Rio de Janeiro. Além de críti­co de arte e escritor de romances e peças de teatro, João do Rio foi um repórter difer­ente, nar­ran­do os acon­tec­i­men­tos do dia a dia de for­ma literária, unin­do a reportagem e a lit­er­atu­ra.

Foi tam­bém o primeiro jor­nal­ista a subir o mor­ro, ouvin­do com atenção e afe­to a voz das ruas, tor­nan­do-se uma espé­cie de por­ta-voz de um povo que não encon­tra­va espaço na impren­sa. E quan­do começou a subir vielas e acom­pan­har man­i­fes­tações cul­tur­ais, obser­van­do de per­to os hábitos de uma cidade que se trans­for­ma­va ver­tig­i­nosa­mente, João do Rio fun­dou um novo modo de faz­er jor­nal­is­mo.

“O jor­nal, no final do sécu­lo 19, era basi­ca­mente um lugar de opiniões das pes­soas mais poderosas, como dep­uta­dos ou vereadores e empresários mais proem­i­nentes. Os jor­nais eram muito mar­ca­dos ide­o­logi­ca­mente. Muito pelo que ouvia na França, João do Rio começa a faz­er no Brasil um jor­nal­is­mo com­ple­ta­mente difer­ente. Ele é o primeiro cara que faz entre­vista, que chama­va de inquéri­to. Além dis­so, começa a sair do local onde os jor­nais eram feitos e vai para as ruas, ver o que esta­va acon­te­cen­do. Ele vai subir os mor­ros das fave­las, enten­der como são as fes­tas pop­u­lares, ver as peque­nas profis­sões. Ele tem um olhar para a cidade que é uma coisa impres­sio­n­an­te­mente sen­sív­el e esper­ta, mas tem tam­bém a saca­da de con­tar isso para as pes­soas que estavam lendo o jor­nal. Então, ele inven­tou a crôni­ca mod­er­na”, afir­mou a curado­ra.

Out­ra car­ac­terís­ti­ca de João do Rio era ter um olhar muito volta­do ao pro­gres­so. “O que me inter­es­sa muito no João do Rio é que ele era um cara muito cul­to, que sem­pre tin­ha um olho para o pro­gres­so, para as grandes cidades e para o avanço civ­i­liza­tório. Ele tin­ha essa von­tade de pro­gres­so. Ao mes­mo tem­po, tin­ha pés muito fin­ca­dos no pas­sa­do da cidade, desse pas­sa­do escrav­ocra­ta e de maus-tratos a imi­grantes”, disse Ana. “Esse olhar para o futuro, com os pés no pas­sa­do, recon­hecen­do a história da for­mação, faz dele um por­ta-voz impres­sio­n­ante do que é o Rio de Janeiro e tam­bém do país, que foi fun­da­do nes­sa con­tradição”, acres­cen­tou.

Com prob­le­ma de obesi­dade, mestiço e homos­sex­u­al, João do Rio foi víti­ma de um ataque cardía­co, que o impediu de com­ple­tar 40 anos. Ele deixou 25 livros e mais de 2.500 tex­tos pub­li­ca­dos em jor­nais e revis­tas.

Como parte dessas hom­e­na­gens ao escritor e jor­nal­ista, a Flip vai pro­mover uma con­fer­ên­cia de aber­tu­ra chama­da As ruas têm alma: João do Rio, o con­vi­da­do do sereno. Ela será apre­sen­ta­da por Luiz Antônio Simas e pre­tende ser uma breve aula sobre João do Rio, atu­al­izan­do seu lega­do.

“O cam­in­ho da Flip vai sem­pre se trans­for­man­do. Nes­ta edição, por exem­p­lo, esta­mos retoman­do o mod­e­lo de con­fer­ên­cia de aber­tu­ra, que ago­ra vai ser com o Luiz Antônio Simas. Nos últi­mos anos, a gente fazia mesas de con­ver­sa. Além de ser um his­to­ri­ador, o Simas é um rep­re­sen­tante muito legí­ti­mo do que é o João do Rio. E além de his­to­ri­ador, ele é tam­bém pro­fes­sor, então tem o dom de ani­mar as plateias”, disse a curado­ra.

Além da hom­e­nagem na pro­gra­mação ofi­cial da Flip, João do Rio será destaque den­tro da Casa CCR. Com pro­gra­mação toda gra­tui­ta, esse espaço vai pro­mover nove mesas de dis­cussão reunin­do escritores, jor­nal­is­tas, tradu­tores e pesquisadores acadêmi­cos. Os debates vão abor­dar temas como tec­nolo­gia, mobil­i­dade urbana, com­bate às mudanças climáti­cas e jor­nal­is­mo literário [com uma mesa sobre João do Rio].

O Insti­tu­to CCR, respon­sáv­el pela Casa CCR, tam­bém vai ofer­e­cer duas ofic­i­nas de grafis­mo no local, onde o públi­co pre­sente poderá deixar um reg­istro literário em madeiras prove­nientes dos ban­cos das praças de Paraty, que serão rein­sta­l­a­dos pos­te­ri­or­mente. Cada ofic­i­na terá duas horas e meia de duração, com par­tic­i­pação de até dez pes­soas por ativi­dade.

Mais infor­mações sobre a Flip e sua pro­gra­mação com­ple­ta podem ser obti­das no site do fes­ti­val.

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