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Presidenta da Funai toma posse prometendo reconstrução

Repro­dução: © Joed­son Alves/Agência Brasil

Deputada Joenia Wapichana é primeira indígena a comandar órgão


Pub­li­ca­do em 03/02/2023 — 21:46 Por Well­ton Máx­i­mo – Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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Numa cer­imô­nia mar­ca­da pela emoção e por dis­cur­sos fortes, a dep­uta­da fed­er­al Joe­nia Wapichana tomou posse como a pres­i­den­ta da Fun­dação Nacional dos Povos Indí­ge­nas (Funai). No dis­cur­so de posse, ela prom­e­teu recon­stru­ir o órgão e elo­giou o fato de a Funai estar pela primeira vez sob o coman­do de indí­ge­nas.

“Esse é o primeiro pas­so que a gente tem de dar. Reor­ga­ni­zar a Funai. For­t­ale­cer a Funai. Bus­car orça­men­to para a Funai”, desta­cou Joe­nia ao assumir o car­go. Além das restrições orça­men­tárias, ela citou a fal­ta de servi­dores públi­cos e o estoque de ações judi­ci­ais acu­mu­ladas nos últi­mos anos como desafios para o órgão.

“Todo esse cam­in­ho que per­cor­re­mos para chegar aqui até hoje foi lon­go e muito sofri­do. Muitas vidas se perder­am no cam­in­ho e ain­da estão se per­den­do. Pas­samos anos de desmonte, de sucatea­men­to, de desval­oriza­ção dos servi­dores públi­cos”, declar­ou a nova pres­i­den­ta.

A presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígena, Joenia Wapichana, com o líder indígena Raoní
Repro­dução: Pres­i­dente da Fun­dação Nacional dos Povos Indí­ge­na, Joe­nia Wapichana, com o líder indí­ge­na Raoní — Joed­son Alves/Agência Brasil

Em relação aos servi­dores públi­cos, ela prom­e­teu a real­iza­ção de um con­cur­so, a elab­o­ração de um plano de car­reira e disse que tra­bal­hará para con­ced­er poder de polí­cia para os fun­cionários da Funai. “Os servi­dores [da Funai] não têm condições de tra­bal­har, de não ter um salário dig­no, de não ter poder de polí­cia. São envi­a­dos para uma área como o Vale do Javari, onde acon­te­ceu a tragé­dia do [indi­genista] Bruno Pereira e do [jor­nal­ista] Dom Phillips”, declar­ou.

Joe­nia tam­bém disse que bus­cará ori­en­tação do Min­istério Públi­co Fed­er­al para lidar com o estoque de proces­sos por omis­são e neg­ligên­cia acu­mu­la­dos na Funai. “Ago­ra vamos revert­er esse papel. Em vez de perseguir servi­dor, de fechar a por­ta para os povos indí­ge­nas, a Funai tem de estar ao lado dos povos indí­ge­nas. Tem que ir no proces­so não para acusar, mas para pro­te­ger. E ess­es são os novos tem­pos necessários para o país”, desta­cou

Logo após assi­nar o ter­mo de posse, a nova pres­i­den­ta da Funai assi­nou nove atos. Desse total, sete con­stituem gru­pos de tra­bal­ho para a iden­ti­fi­cação e delim­i­tação de ter­ras indí­ge­nas em seis esta­dos: Rio Grande do Sul, San­ta Cata­ri­na, Mato Grosso do Sul, Rondô­nia, Pará, São Paulo e Minas Gerais. Ela tam­bém assi­nou duas restrições de uso de ter­ras indí­ge­nas (proibições de ativi­dades não indí­ge­nas), no Mato Grosso do Sul e no Ama­zonas, e uma por­taria que cria grupo de tra­bal­ho para apoiar as ações do gov­er­no fed­er­al na Ter­ra Indí­ge­na Yanoma­mi.

Convidados

Com quase duas horas de duração, a cer­imô­nia de posse, que ocor­reu no Memo­r­i­al dos Povos Indí­ge­nas teve vários con­vi­da­dos. Com­pare­ce­r­am as min­is­tras dos Povos Indí­ge­nas, Sonia Gua­ja­jara, e do Meio Ambi­ente e Mudança do Cli­ma, Mari­na Sil­va; a vice-gov­er­nado­ra do Dis­tri­to Fed­er­al, Celi­na Leão; diver­sos dep­uta­dos e líderes indí­ge­nas. O indi­genista Syd­ney Pos­sue­lo, ex-pres­i­dente da Funai, tam­bém com­pare­ceu.

Em seu dis­cur­so Sonia Gua­ja­jara ressaltou o aumen­to da par­tic­i­pação políti­ca da pop­u­lação indí­ge­na, que cada vez mais assume espaços de poder. “A ban­ca­da do cocar está espal­ha­da pelo Con­gres­so Nacional e pelos órgãos do Exec­u­ti­vo. Isso mar­ca de fato o novo momen­to, da luta. Porque a gente hoje vê o resul­ta­do do que foram ess­es anos todos de mobi­liza­ção, de luta, de resistên­cia de nos­sos povos”, disse.

Sonia Gua­ja­jara clas­si­fi­cou como históri­ca a posse da primeira mul­her indí­ge­na no coman­do da Funai. “Esta­mos con­stru­in­do uma nova história, onde nós mar­camos o começo da políti­ca indí­ge­na do Brasil. Até então, era uma políti­ca indi­genista, onde out­ras pes­soas, não indí­ge­nas, dis­cu­ti­am, con­struíam, rep­re­sen­tavam. Hoje é a políti­ca indí­ge­na, onde nós esta­mos ocu­pan­do o lugar de pen­sar, de con­stru­ir e de exe­cu­tar”, desta­cou.

A min­is­tra Mari­na Sil­va disse que o Min­istério do Meio Ambi­ente tra­bal­hará em coop­er­ação com a Funai. “Graças a Deus, ao povo brasileiro, à respon­s­abil­i­dade com a democ­ra­cia, com os dire­itos humanos, com os povos indí­ge­nas, com o com­bate à desigual­dade, com a pro­teção da Amazô­nia, a justiça social, um mun­do de luta e de paz, eu e o pres­i­dente Lula esta­mos unidos para tra­bal­har em paz pelo Brasil que a gente quer. De home­ns que se respeitam, mes­mo na difer­ença. Con­tem comi­go e a min­ha equipe”, dis­cur­sou.

Líderes indígenas

Um dos líderes indí­ge­nas de maior prestí­gio inter­na­cional, o Cacique Raoni Metyk­tire, dis­tribuiu o colete da Funai à nova pres­i­den­ta e defend­eu a con­cil­i­ação entre indí­ge­nas e não indí­ge­nas, dizen­do tra­bal­har pela paz e pelo con­vívio. “Quero pedir para que a gente fale uma lín­gua só e estar­mos unidos pelo bem de todos nós. Repu­dio a vio­lên­cia, o ódio e a ini­mizade. Nós, brasileiros, pre­cisamos con­viv­er em paz e de for­ma har­môni­ca neste ter­ritório”, declar­ou.

Raoni tam­bém pediu que indí­ge­nas jovens assumam car­gos na Funai para con­tin­uar a luta de seus ances­trais. “Nos­sos indí­ge­nas, prin­ci­pal­mente os mais jovens, têm que assumir este órgão e tra­bal­har para nos­sos povos indí­ge­nas”, ressaltou.

Coor­de­nador ger­al do Con­sel­ho Indí­ge­na de Roraima (CIR), Enock Tau­repang fez um dis­cur­so duro, em que pediu o alin­hamen­to dos movi­men­tos indí­ge­nas para evi­tar crises human­itárias, como a do povo yanoma­mi. “Não nos cur­va­mos diante do Esta­do. Não nos tor­namos cor­rup­tos e ven­di­dos como muitos. Esta­mos numa con­jun­tu­ra favoráv­el a nós, porém isso me pre­ocu­pa. Porque é na facil­i­dade que fica mais fácil de a ini­mizade entrar. É na facil­i­dade que fica mais fácil de a inve­ja entrar”, disse.

Tau­repang criti­cou influ­en­ci­adores dig­i­tais indí­ge­nas que se alin­haram com o gov­er­no pas­sa­do. “Pre­cisamos falar a ver­dade um para o out­ro porque só assim a gente vai defend­er de fato quem pre­cisa. Falo em nome dos par­entes yanoma­mi que estão mor­ren­do. Nós esta­mos em um mun­do tec­nológi­co em que o par­ente [indí­ge­na] se pre­ocu­pa mais com like do que com a ver­dade. Não pre­ciso de like. Pre­ciso de par­ceiros e ami­gos que vão para a luta jun­tos com os povos indí­ge­nas”, con­cluiu.

Rituais

Posse da presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, Joenia Wapichana
Repro­dução: Cer­imô­nia começou com um rit­u­al de defu­mação real­iza­do pela pajé Mar­i­ana Macuxi,- Joed­son Alves/Agência Brasil

A cer­imô­nia começou com um rit­u­al de defu­mação real­iza­do pela pajé Mar­i­ana Macuxi, que tam­bém fez pin­turas indí­ge­nas no ros­to da nova pres­i­den­ta da Funai. Em segui­da, hou­ve a exe­cução do Hino Nacional, can­ta­do na lín­gua Macuxi, etnia do norte de Roraima. Duas cri­anças, das etnias kayapó e xavante, entre­garam uma ban­deira do Brasil e uma da Funai a Joe­nia.

Antes de começar a dis­cur­sar, Joe­nia rece­beu uma faixa que sim­boliza a união de todos os povos indí­ge­nas do Brasil. Ela foi entregue pelo líder indí­ge­na Jacir Macuxi, um dos maiores defen­sores do recon­hec­i­men­to da Ter­ra Indí­ge­na Raposa Ser­ra do Sol, em Roraima. A cer­imô­nia ter­mi­nou com a apre­sen­tação da dança par­ixara por indí­ge­nas de Roraima.

Edição: Aline Leal

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