...
sexta-feira ,16 janeiro 2026
Home / Mulher / Uso abusivo de álcool entre brasileiras cresce 4,25% em dez anos

Uso abusivo de álcool entre brasileiras cresce 4,25% em dez anos

Repro­dução: © Arquivo/Agência Brasil

Alerta marca Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo


Pub­li­ca­do em 18/02/2023 — 15:14 Por Heloisa Cristal­do e Alana Gan­dra — Repórteres da Agên­cia Brasil — Brasília e Rio de Janeiro

ouvir:

A cada hora cer­ca de duas mul­heres mor­reram em razão do uso noci­vo de álcool em 2020. Ao todo, 15.490 brasileiras perder­am a vida por motivos atribuí­dos ao álcool naque­le ano. A faixa etária mais afe­ta­da foi a das mul­heres de 55 anos e mais (70,9%), segui­da por 35 a 54 anos (19,3%), 18 a 34 anos (7,3%) e de 0 a 17 anos (2,5%). Os dados fazem parte de estu­do inédi­to, divul­ga­do nes­ta sem­ana pelo Cen­tro de Infor­mações sobre Saúde e Álcool (Cisa) para mar­car o Dia Nacional de Com­bate ao Alcoolis­mo, comem­o­ra­do hoje (18).

Segun­do o lev­an­ta­men­to, as prin­ci­pais causas dess­es óbitos foram doença cardía­ca hiperten­si­va (15,5%), cir­rose hep­áti­ca (10,4%), doenças res­pi­ratórias infe­ri­ores (8,7%) e câncer col­or­re­tal (7,3%).

O con­sumo abu­si­vo de álcool pelas brasileiras aumen­tou 4,25% de 2010 a 2020. A tendên­cia foi reg­istra­da em 12 cap­i­tais e no Dis­tri­to Fed­er­al. Os maiores aumen­tos no con­sumo foram ver­i­fi­ca­dos em Curiti­ba (8,03%), São Paulo (7,34%) e Goiâ­nia (6,72%). O lev­an­ta­men­to é real­iza­do pelo Cisa, com dados do Datusus 2021.

Por con­sumo abu­si­vo con­sid­era-se a ingestão de qua­tro ou mais dos­es, para mul­heres, ou de cin­co ou mais dos­es, para home­ns, em um mes­mo dia. O aumen­to mais sig­ni­fica­ti­vo foi obser­va­do entre mul­heres, pas­san­do de 7,8% em 2006 para 16% em 2020. O cen­tro con­sid­era que uma dose padrão cor­re­sponde a 14g de etanol puro no con­tex­to brasileiro. Isso cor­re­sponde a 350 ml de cerve­ja (5% de álcool), 150ml de vin­ho (12% de álcool) ou 45ml de des­ti­la­do (como vod­ca, cachaça e tequi­la, com aprox­i­mada­mente 40% de álcool).

De acor­do com a Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS), o con­sumo de álcool pode causar mais de 200 doenças e lesões. Está asso­ci­a­do ao risco de desen­volvi­men­to de prob­le­mas de saúde como dis­túr­bios men­tais e com­por­ta­men­tais, incluin­do dependên­cia ao álcool, doenças graves como cir­rose hep­áti­ca, alguns tipos de câncer e doenças car­dio­vas­cu­lares, bem como lesões resul­tantes de vio­lên­cia e aci­dentes de trân­si­to. Em todo o mun­do, 3 mil­hões de mortes por ano resul­tam do uso noci­vo do álcool, rep­re­sen­tan­do 5,3% de todas as mortes.

Consumo abusivo

Os peri­gos do con­sumo noci­vo de bebidas alcoóli­cas afe­tam, de for­mas difer­entes, home­ns e mul­heres. Segun­do a pres­i­dente da Asso­ci­ação Brasileira de Estu­dos do Álcool e Out­ras Dro­gas (Abead), Alessan­dra Diehl, as mul­heres têm pre­dis­posição a ter adoec­i­men­to clíni­co e psíquico mais rápi­do do que os home­ns.

“Uma das questões aí é a vul­ner­a­bil­i­dade biológ­i­ca”, disse, em entre­vista à Agên­cia Brasil. A psiquia­tra expli­cou que as mul­heres têm menor con­cen­tração de enz­i­mas que fazem a metab­o­liza­ção do álcool, o que faz com que ele seja mais tóx­i­co para o organ­is­mo fem­i­ni­no do que para o mas­culi­no. Segun­do Alessan­dra, as mul­heres, às vezes, com menos tem­po de uso crôni­co de álcool que os home­ns, já apre­sen­tam mais pre­juí­zos para a saúde, como hepatite, cir­rose e envel­hec­i­men­to.

De acor­do com o psiquia­tra e pres­i­dente do Cisa, Arthur Guer­ra, os efeitos do con­sumo de álcool entre as mul­heres tam­bém podem vari­ar con­forme o ciclo men­stru­al, a ges­tação e ama­men­tação. Além dis­so, elas sofrem impactos por fatores soci­ais, como a mater­nidade e par­tic­i­pação no mer­ca­do de tra­bal­ho.

“Out­ro pon­to é que as mul­heres acabam ten­do out­ras influên­cias hor­mon­ais, como ciclo men­stru­al por exem­p­lo, que acabam afe­tan­do o con­sumo de álcool tam­bém. Algu­mas delas, durante a fase pré-men­stru­al, a famosa TPM, ficam mais sen­síveis e vão usar o álcool como se fos­se um remé­dio para aliviar os sin­tomas”, expli­cou o médi­co.

Para a sociólo­ga Mar­i­ana Thibes, coor­de­nado­ra do Cisa, o aumen­to no con­sumo de bebi­da alcóoli­ca tem um com­po­nente cul­tur­al.

“As mul­heres estão beben­do mais e isso é uma mudança cul­tur­al impor­tante que foi acon­te­cen­do ao lon­go da últi­ma déca­da. Provavel­mente tem a ver com a maior pre­sença delas no mer­ca­do de tra­bal­ho, acho que esse é o fator mais impor­tante. A mul­her está nos mes­mos espaços que os home­ns, então ela sai para um hap­py hour com os cole­gas home­ns e por que ela vai con­sumir menos álcool?”, ques­tio­nou.

Segun­do Mar­i­ana, o acú­mu­lo das jor­nadas tam­bém é rel­e­vante para o aumen­to do con­sumo abu­si­vo de álcool entre as mul­heres.

“O acú­mu­lo de tra­bal­ho den­tro de casa, fora de casa, cuidar dos fil­hos, da profis­são, do tra­bal­ho domés­ti­co. Esse aumen­to das pressões aca­ba levan­do muitas mul­heres a procu­rar no álcool uma espé­cie de recur­so para relaxar. No perío­do da pan­demia, vimos a hastag #winemom viralizar, com muitas mães postan­do fotos com taça de vin­ho no fim do dia, como uma espé­cie de rec­om­pen­sa depois daque­le dia duro de acú­mu­lo de jor­na­da. Esse estresse que as mul­heres pas­saram a sofr­er nos últi­mos anos tam­bém pode aju­dar a explicar o aumen­to do con­sumo abu­si­vo de álcool”, afir­mou.

Menores

De acor­do com a Pesquisa Nacional de Saúde do Esco­lar (PeNSE), fei­ta pelo Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE) com estu­dantes de 13 a 17 anos, a exper­i­men­tação de bebi­da alcoóli­ca cresceu de 52,9% em 2012 para 63,2% em 2019. O aumen­to, no perío­do, foi mais inten­so entre as meni­nas (de 55% para 67,4%) do que entre os meni­nos (de 50,4% para 58,8%).

O con­sumo exces­si­vo de álcool tam­bém aumen­tou. Foi de 19% em 2009 para 26,2% em 2019 entre os estu­dantes do sexo mas­culi­no e de 20,6% para 25,5% entre as ado­les­centes. A exper­i­men­tação ou exposição ao uso de dro­gas cresceu em uma déca­da. Foi de 8,2% em 2009 para 12,1% em 2019.

A pres­i­dente da Abead, Alessan­dra Diehl, aler­ta que a ini­ci­ação no álcool ocorre cada vez mais cedo, em média aos 13 anos de idade, sendo que 34,6% dos estu­dantes tomaram a primeira dose de álcool com menos de 14 anos. “Há prevalên­cia de meni­nas jovens ini­cian­do o con­sumo de álcool”, disse.

Alcoolismo

Difer­ente­mente do abu­so de álcool, a dependên­cia é con­sid­er­a­da doença pela Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde. De acor­do com a sociólo­ga Mar­i­ana Thibes, “em ger­al, leva-se uma déca­da para pas­sar do está­gio de con­sumo abu­si­vo para a dependên­cia”.

Esse tipo de dependên­cia é con­sid­er­a­do crôni­ca e mul­tifa­to­ria. Isso sig­nifi­ca que diver­sos fatores con­tribuem para o seu desen­volvi­men­to, incluin­do a quan­ti­dade e fre­quên­cia de uso do álcool, a condição de saúde do indi­ví­duo e fatores genéti­cos, psi­cos­so­ci­ais e ambi­en­tais, tipi­ca­mente asso­ci­a­dos aos seguintes sin­tomas:

- Forte dese­jo de beber

- Difi­cul­dade de con­tro­lar o con­sumo (não con­seguir parar de beber depois de ter começa­do)

- Uso con­tin­u­a­do ape­sar das con­se­quên­cias neg­a­ti­vas, maior pri­or­i­dade dada ao uso da sub­stân­cia em detri­men­to de out­ras ativi­dades e obri­gações

- Aumen­to da tol­erân­cia (neces­si­dade de dos­es maiores de álcool para atin­gir o mes­mo efeito obti­do com dos­es ante­ri­or­mente infe­ri­ores ou efeito cada vez menor com uma mes­ma dose da sub­stân­cia)

- Por vezes, um esta­do de abstinên­cia físi­ca (sin­tomas como sudorese, tremores e ansiedade quan­do a pes­soa está sem o álcool).

Edição: Graça Adju­to

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Saúde pública no RJ registra aumento nos atendimentos ligados ao calor

Dor de cabeça, náusea e tontura estão entre os possíveis sinais Ana Cristi­na Cam­pos — …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d