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Agência Brasil explica: vacina da UFMG pode ser usada como reforço

Vaincação contra covid - Vacina Astrazeneca - Centro de Saúde n°13, 23/07/2021 Fotos: Myke Sena/MS
Repro­dução: © Myke Sena/MS

Pedido de testes do imunizante já foi protocolado na Anvisa


Pub­li­ca­do em 09/08/2021 — 07:00 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Será necessário se vaci­nar todo ano con­tra a covid-19? Quem tomou duas dos­es pre­cis­ará de um reforço? As vari­antes vão exi­gir novas vaci­nas? Essas per­gun­tas con­tin­u­am sem uma respos­ta defin­i­ti­va da comu­nidade cien­tí­fi­ca, mas pesquisadores brasileiros já tra­bal­ham em novos pro­je­tos de vaci­nas que poderão suprir pos­síveis deman­das futuras e dar maior inde­pendên­cia ao país para man­ter sua pop­u­lação imu­niza­da.

É o caso da vaci­na SpiN-Tec con­tra a covid-19, que teve seu pedi­do de testes em humanos pro­to­co­la­do na Agên­cia Nacional de Vig­ilân­cia San­itária (Anvisa) no fim de jul­ho, por pesquisadores da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG).

A vaci­na começou a ser desen­volvi­da em março do ano pas­sa­do pelo CTVaci­nas da UFMG, em parce­ria com a Fiocruz Minas, e rece­beu apoio do Min­istério de Ciên­cia, Tec­nolo­gia e Ino­vações. Como o Brasil já encomen­dou mais de 600 mil­hões dos­es de out­ras vaci­nas con­tra covid-19 para o ano de 2021, a con­clusão dos testes da SpiN­tec, em 2022, deve ocor­rer com a pop­u­lação já ampla­mente vaci­na­da. Mes­mo assim, a pesquisa segue com a per­spec­ti­va de que a vaci­na mineira pos­sa ser usa­da como reforço para pes­soas já imu­nizadas.

Dose de reforço

Um dos pesquisadores respon­sáveis pela SpiN-Tec, o pro­fes­sor Flávio da Fon­se­ca expli­cou, em entre­vista cole­ti­va no iní­cio deste mês, que os testes em humanos vão bus­car cal­i­brar um esque­ma de dos­es para que a vaci­na seja apli­ca­da em quem já se vaci­nou.

Nos testes em lab­o­ratório, em ani­mais, os pesquisadores usaram um esque­ma de duas dos­es, com inter­va­lo de 21 dias, mas, para os estu­dos clíni­cos, haverá a avali­ação se uma dose bas­ta para reforçar a imu­niza­ção.

Out­ra pre­ocu­pação dos pesquisadores ao plane­jar o desen­volvi­men­to da vaci­na foi com as mutações do novo coro­n­avírus. Des­de o iní­cio da pan­demia, já foram iden­ti­fi­cadas inúmeras novas cepas do SARS-CoV­‑2, entre elas as vari­antes de pre­ocu­pação Alfa, Beta, Gama e Delta, mais trans­mis­síveis e com pos­síveis impactos na efe­tivi­dade das vaci­nas.

Inte­grante da equipe de pesquisadores, San­tuza Teix­eira esclare­ceu que é impos­sív­el faz­er uma pre­visão de efe­tivi­dade con­tra as vari­antes. A cien­tista expli­cou que uma das estraté­gias para enfrentar esse prob­le­ma foi escol­her uma pro­teí­na viral que tem sofri­do menos mutações para com­por a com­bi­nação de pro­teí­nas con­ti­da na vaci­na.

Sem­pre que os vírus se mul­ti­pli­cam, eles podem sofr­er mudanças em sua estru­tu­ra. Quan­do essas alter­ações pas­sam a rep­re­sen­tar uma van­tagem na repli­cação, essa nova estru­tu­ra tende a se mul­ti­plicar mais que as out­ras, tor­nan­do-se dom­i­nante. Foi isso o que ocor­reu no Brasil com a dis­sem­i­nação da vari­ante Gama (P.1), no iní­cio de 2021, e nova­mente pode ocor­rer com a vari­ante Delta.

Como nos­sas célu­las de defe­sa são pro­duzi­das “sob medi­da” para atacar for­mas especí­fi­cas do vírus, essas mudanças, em alguns casos, tam­bém podem per­mi­tir que o microor­gan­is­mo escape. Por isso, a escol­ha de uma pro­teí­na mais estáv­el, como a pro­teí­na N, é uma estraté­gia para min­i­mizar esse risco.

Proteína recombinante

A platafor­ma tec­nológ­i­ca da SpiN-Tec é chama­da de pro­teí­na recom­bi­nante e difere das qua­tro vaci­nas con­tra covid-19 usadas no Brasil até o momen­to. Para pro­duzir a vaci­na da UFMG, os pesquisadores desen­volver­am um proces­so em que infor­mações genéti­cas do novo coro­n­avírus são inseri­das em uma bac­téria E.coli, e essa, por sua vez, pro­duz uma pro­teí­na fusion­a­da, uma mis­tu­ra com pedaços das pro­teí­nas S e N.

A pro­teí­na S tem sido o prin­ci­pal alvo das vaci­nas genéti­cas con­tra a covid-19, sejam elas de RNAm (Pfizer/BioNTec) ou vetor viral (AstraZeneca e Janssen), por des­per­tar uma forte respos­ta do cor­po humano. A pesquisa da SpiN-Tec aproveitou esse poten­cial e o com­bi­nou ao da pro­teí­na N, que é menos propen­sa a mutações e tam­bém estim­u­la a pro­dução de anti­cor­pos no organ­is­mo humano. Por isso, o ingre­di­ente far­ma­cêu­ti­co ati­vo (IFA) dessa vaci­na usa as duas pro­teí­nas na mis­tu­ra pro­te­ica chama­da pelos cien­tis­tas de pro­teí­na quiméri­ca ou “quimera”. O nome é uma refer­ên­cia ao mon­stro da mitolo­gia gre­ga que tin­ha o cor­po for­ma­do por partes de difer­entes ani­mais, como cabeça de leão e cau­da de ser­pente.

O pro­je­to com a tec­nolo­gia de pro­teí­na recom­bi­nante foi o escol­hi­do pelos pesquisadores, entre out­ras opções pen­sadas ao lon­go da pesquisa. Os motivos foram as razões citadas e tam­bém os resul­ta­dos pos­i­tivos ver­i­fi­ca­dos em testes com ani­mais. Além dis­so, os pesquisadores ressaltam que o cus­to dessa tec­nolo­gia é menor se com­para­do a platafor­mas como as de vetor viral ou RNA.

Testes

Quan­do hou­ver aprovação da Anvisa, os testes dos pesquisadores em humanos vão começar pelas fas­es 1 e 2, em que con­clusões impor­tantes sobre even­tos adver­sos e esque­ma de dose são avali­adas. Na fase 1, serão recru­ta­dos 40 vol­un­tários, e na 2, entre 150 e 300. Como a vaci­na deve ser uti­liza­da como dose de reforço, os par­tic­i­pantes do estu­do pre­cis­arão ter sido imu­niza­dos com as duas dos­es da Coro­n­aVac há, no mín­i­mo, seis meses.

As fas­es 1 e 2 de testes clíni­cos con­tam com recur­sos da prefeitu­ra de Belo Hor­i­zonte, que vai repas­sar R$ 30 mil­hões até o fim do ano, e de emen­das par­la­mentares, que via­bi­lizaram mais R$ 3 mil­hões.

Ape­sar de o pedi­do para a real­iza­ção dos testes já ter sido entregue à Anvisa no últi­mo dia 30, a agên­cia ain­da não havia rece­bido até sem­ana pas­sa­da o Dos­siê Especí­fi­co de Ensaio Clíni­co (DEEC), que é o pro­to­co­lo clíni­co do estu­do, pro­pri­a­mente dito. A Anvisa afir­ma que já começou a análise, mas pre­cisa desse doc­u­men­to para con­cluí-la.

Procu­ra­da pela Agên­cia Brasil, a UFMG infor­mou que todas as exigên­cias da Anvisa estão sendo cumpri­das. “Nesse proces­so, é nat­ur­al que alguns doc­u­men­tos não sejam entregues ao mes­mo tem­po e que sejam acresci­dos à solic­i­tação ini­cial ao lon­go de todo o pro­ced­i­men­to”, diz nota divul­ga­da à impren­sa.

O ingre­di­ente far­ma­cêu­ti­co ati­vo (IFA) para as dos­es que serão usadas nas duas primeiras fas­es de testes clíni­cos já está em pro­dução na Uni­ver­si­dade de Nebras­ka, nos Esta­dos Unidos. Segun­do a UFMG, não há empre­sa que desen­vol­va esse tipo de mate­r­i­al no Brasil. Os lotes-pilo­to do insumo, con­tendo as pro­teí­nas quiméri­c­as, devem chegar ao país em setem­bro, quan­do está pre­vis­to o iní­cio dos testes clíni­cos.

As fas­es 1 e 2 devem ter duração de três a qua­tro meses, com con­clusão pre­vista para os primeiros meses de 2022. Caso sejam bem-suce­di­das, um novo pedi­do de autor­iza­ção dev­erá ser feito à Anvisa para os testes de fase 3, em que é cal­cu­la­da a eficá­cia da vaci­na em um estu­do com número maior de vol­un­tários.

Mais ampla, essa eta­pa pode deman­dar inves­ti­men­to de R$ 300 mil­hões. Segun­do a uni­ver­si­dade mineira, no entan­to, a neces­si­dade de recur­sos ain­da está sendo dimen­sion­a­da, porque, como a vaci­na será usa­da como dose de reforço, a abrangên­cia da fase 3 ain­da está sendo exam­i­na­da pelos pesquisadores da UFMG e os téc­ni­cos da Anvisa.

Edição: Graça Adju­to

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