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Familiares de vítimas da violência policial cobram justiça

Repro­dução: @Agência Brasil / EBC

Coletivos de mães de jovens negros participaram de debate na Câmara


Pub­li­ca­do em 28/03/2023 — 23:22 Por Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

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Na sem­ana que mar­ca os 59 anos do golpe de Esta­do de 1964, a Coal­izão Brasil por Memória, Ver­dade, Justiça, Reparação e Democ­ra­cia reuniu mães e famil­iares de víti­mas da vio­lên­cia poli­cial ao lon­go dos últi­mos anos em um debate na Câmara dos Dep­uta­dos, em Brasília, na tarde des­ta terça-feira (28). O even­to foi mar­ca­do pela comoção das pes­soas que seguem sofren­do na pele a ação bru­tal das forças de segu­rança do Esta­do, mes­mo décadas após o fim do regime autoritário no país.

É o caso de Bruna Sil­va, mãe de Mar­cos Vini­cius Sil­va, que mor­reu aos 14 anos durante uma oper­ação poli­cial o Com­plexo de Fave­las da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, há quase cin­co anos. Na época, o caso gan­hou grande reper­cussão nacional, mas até hoje não hou­ve justiça. Naque­le momen­to, em 2018, o Rio de Janeiro sofria uma inter­venção fed­er­al na área de segu­rança públi­ca, com par­tic­i­pação das Forças Armadas.

“Meu fil­ho foi mor­to aos 14 anos e [antes de mor­rer] me fez uma per­gun­ta: ‘Mãe, pelo amor de Deus, o que eu fiz? Eles não me viram com roupa e mate­r­i­al de esco­la?’ Mes­mo que não tivesse com roupa e mate­r­i­al de esco­la, qual é o prob­le­ma? O papel do Esta­do não é entrar para matar. A gente pre­cisa de sanea­men­to bási­co, de uma luz, de um reló­gio [de água]”, protes­ta Sil­va, que é uma das fun­dado­ras do Cole­ti­vo Mães da Maré, que atua em defe­sa dos dire­itos humanos na favela e por memória, justiça e reparação. “O Esta­do mata uma família inteira porque adoece, as mães vêm mor­ren­do. A gente se joga na luta não é por estrelis­mo, mas para não mor­rer mes­mo”, acres­cen­ta.

“Todos os fil­hos assas­si­na­dos pelo Esta­do estão pre­sentes na nos­sa voz, que não se cala, e vamos lutar por justiça”, bradou Ana Paula Oliveira, fun­dado­ra do Cole­ti­vo Mães de Man­guin­hos. Ela tam­bém é mãe de uma víti­ma, o jovem Jonathan Oliveira, mor­to em Man­guin­hos, favela do Rio de Janeiro, em 2014, por um poli­cial da Unidade de Polí­cia Paci­fi­cado­ra (UPP). Na época, ele tin­ha 19 anos.

Luta atualizada

Um dos pon­tos do debate des­ta terça, no con­tex­to de memória sobre as vio­lações durante a ditadu­ra mil­i­tar, é jus­ta­mente trans­por essa luta para as víti­mas atu­ais de vio­lên­cia do Esta­do, mar­cada­mente pop­u­lações per­iféri­c­as das grandes cidades, espe­cial­mente a juven­tude negra que vive nes­sas áreas.

“O tema da ditadu­ra é algo de pen­e­tração muito difí­cil na sociedade brasileira. His­tori­ca­mente, as pes­soas do pre­sente têm difi­cul­dade de se conec­tar. É por isso que prin­ci­pal gan­ho para essa luta por memória, ver­dade e justiça e reparação é quan­do incor­po­ramos os novos agentes dessa luta, que são essas víti­mas da vio­lên­cia poli­cial”, argu­men­ta Gabrielle Abreu, coor­de­nado­ra da área de memória, ver­dade e justiça do Insti­tu­to Vladimir Her­zog e inte­grante da direção exec­u­ti­va da Coal­izão.

Para Abreu, a fal­ta de uma ver­dadeira justiça de tran­sição no país, após o fim do regime mil­i­tar, é um dos fatores que mais con­tribuem para a reit­er­ação dessa vio­lên­cia. “A fal­ta de cuida­do, naque­le momen­to, aca­ba refletindo hoje num cer­to aper­feiçoa­men­to da maneira como, por exem­p­lo, as polí­cias agem nas per­ife­rias e fave­las brasileiras, uma cul­tura de impunidade que a ditadu­ra não inau­gu­ra, mas aca­ba con­sol­i­dan­do”.

Estado que mata

Há qua­tro meses, Gabriel Vilar, de ape­nas 18 anos tam­bém foi mor­to em uma oper­ação poli­cial na comu­nidade Nova Holan­da, que tam­bém faz parte da Maré, no Rio de Janeiro. “Os son­hos do meu irmão foram inter­rompi­dos por um Esta­do geno­ci­da”, desabafa Rafael­la Vilar, de 28 anos, irmã mais vel­ha de Gabriel. Segun­do ela, seu irmão foi alvo de cin­co tiros e out­ros cin­co golpes de faca. Seu cor­po teria fica­do por várias horas em poder de poli­ci­ais até ser entregue para a família. “Os poli­ci­ais arras­taram o cor­po do meu irmão como se ele fos­se um bicho, de uma rua para out­ra. A pele dele saiu toda, ficou em carne viva. Quan­do acon­te­ceu [o crime] eram 11h30 da man­hã, meu irmão foi encon­tra­do às 5h da tarde”, rela­ta.

Bruna Moz­er de Souza con­ta que seu fil­ho, Bruno Luciano Moz­er, foi exe­cu­ta­do aos 18 anos, na comu­nidade do Muquiço, em 2018. “Tomou um tiro no ombro, se ren­deu e foi mor­to em segui­da com um tiro na cabeça”. O enter­ro foi no dia do aniver­sário da víti­ma e ela teve que pro­mover uma “vaquin­ha” na favela para arrecadar os R$ 2,8 mil usa­dos nas despe­sas do enter­ro. Na época, o Esta­do reg­istrou Bruno como fil­ho de pais descon­heci­dos e com residên­cia igno­ra­da. Esse desca­so do Esta­do faz com que Bruna andasse sem­pre com o ates­ta­do de óbito do próprio fil­ho na bol­sa, uma for­ma de dar dig­nidade à sua memória, como alguém que tem família.

Após mais de 14 anos do assas­si­na­to do irmão, Luciano Nor­ber­to dos San­tos ain­da aguar­da o jul­ga­men­to dos agentes poli­ci­ais envolvi­dos o caso. “Exe­cu­taram meu irmão com um tiro na nuca. O per­i­to chegou à con­clusão que meu irmão pode­ria estar com o braço lev­an­ta­do [quan­do foi alve­ja­do]”, con­ta. “Ele esta­va subindo do tra­bal­ho para casa quan­do os poli­ci­ais pegaram ele e subi­ram com ele até o alto do mor­ro”, acres­cen­ta. O júri pop­u­lar do caso está pre­vis­to para os próx­i­mos meses. “Não é vin­gança, quer­e­mos justiça”.

Para Gabrielle Abreu, do Insti­tu­to Vladimir Her­zog, as práti­cas vio­len­tas dos Anos de Chum­bo servi­ram de her­ança para o que vemos hoje. “A ditadu­ra criou dis­pos­i­tivos ide­ológi­cos e práti­cos de vio­lên­cia que acabaram se per­pet­uan­do ao lon­go de décadas, mes­mo depois do fim do regime mil­i­tar, porque não hou­ve essa justiça de tran­sição”.

Edição: Marce­lo Brandão

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