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Agricultura familiar ajuda a aumentar produção leiteira no Nordeste

Repro­dução: © Arqui­vo pes­soal

Clima mais favorável e alimentação do gado contribuem para aumento


Pub­li­ca­do em 09/05/2023 — 08:02 Por Lud­mil­la Souza — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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A pro­du­to­ra rur­al Rafaela da Sil­va Alves, de 36 anos, tem uma peque­na pro­priedade no povoa­do Maran­du­ba, em Poço Redon­do, semi­ári­do de Sergipe. “Temos umas 15 vacas leit­eiras, alguns bez­er­ros, algu­mas novil­has e um boi. Esse é o nos­so reban­ho hoje”, con­ta a ped­a­goga de for­mação. “Mas sou mes­mo é cam­pone­sa”, reforça. O pai dela era o dono da ter­ra. “Ele divid­iu para os qua­tro fil­hos, ten­ho um pouco menos de ter­ra porque fiquei com a sede da pro­priedade”, con­ta.

No sertão do Nordeste, a agri­cul­tura famil­iar e de pequenos pro­du­tores vem crescen­do, espe­cial­mente na pro­dução leit­eira. O pro­du­tor nes­sa região depende, em grande parte, da recei­ta men­sal do leite para sua sobre­vivên­cia.

Os desafios são muitos, afir­ma Rafaela. “Temos grandiosos desafios, con­sideran­do que esta­mos no sertão, no semi­ári­do. É o desafio de sem­pre pen­sar no inver­no pro­du­ti­vo, para ter comi­da sufi­ciente para os ani­mais, no aces­so ao abastec­i­men­to de água, que é por car­ro-pipa, por isso temos cis­ter­nas e poço. O taman­ho da ter­ra dos pequenos agricul­tores tam­bém é um dos prob­le­mas que enfrenta­mos para ir avançan­do com essa pro­dução de gado leit­eiro”.

A pro­du­to­ra, que tam­bém é inte­grante e por­ta-voz do Movi­men­to dos Pequenos Agricul­tores, diz que out­ro desafio é a ausên­cia de incen­tivos para a pro­dução avançar. “É uma carên­cia muito grande de pro­gra­mas e políti­cas públi­cas para os pequenos agricul­tores que têm vaca leit­eira. No últi­mo perío­do mes­mo, não tive­mos aces­so a nada”, lamen­ta.

Há carên­cia tam­bém de acom­pan­hamen­to téc­ni­co. “Ain­da colo­co no pata­mar dos desafios um acom­pan­hamen­to téc­ni­co mais con­tex­tu­al­iza­do para essa real­i­dade dos pequenos e médios pro­du­tores que não têm tan­ta estru­tu­ra, tan­ta ter­ra. Seria impor­tante um acom­pan­hamen­to para que haja mel­ho­ria genéti­ca do reban­ho e condições de trata­men­tos mais alter­na­tivos para os pequenos agricul­tores que sobre­vivem do leite”.

Mes­mo com tan­tos desafios, os dados mais recentes do IBGE mostram que o Nordeste teve cresci­men­to na pro­dução (12,8%) e alcançou a mar­ca de 5,5 bil­hões de litros. Os dados mais recentes são ref­er­entes a 2021 e fazem parte da Pesquisa da Pecuária Munic­i­pal (PPM), divul­ga­da pelo Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE). Inves­ti­men­tos no setor e condições climáti­cas mais favoráveis nos últi­mos anos fazem a região aumen­tar a pro­dução pelo quin­to ano segui­do, infor­mou o órgão.

São Paulo SP) - No sertão do nordeste brasileiro, a produtora rural Rafaela Alves conta os desafios com a produção do gado leiteiro. Rafaela e sua filha Ana Luiza, na pequena propriedade de gado leiteiro em Sergipe. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­dução: São Paulo SP) — No sertão do nordeste brasileiro, a pro­du­to­ra rur­al Rafaela Alves con­ta os desafios com a pro­dução do gado leit­eiro. Rafaela e sua fil­ha Ana Luiza, na peque­na pro­priedade de gado leit­eiro em Sergipe. Foto: Arqui­vo Pes­soal — Arqui­vo pes­soal

Rafaela Alves espera que o cli­ma favoráv­el se man­ten­ha no inver­no que está chegan­do. “Nós cam­pone­ses esper­amos um bom inver­no, mas ao mes­mo tem­po esta­mos em dúvi­da por causa dos sinais que o tem­po está dan­do. No ano pas­sa­do, tive­mos um inver­no bem mel­hor, talvez um dos mel­hores dos últi­mos 30 anos!” A expec­ta­ti­va de pro­dução depende do cli­ma, obser­va. “A expec­ta­ti­va que a gente faz com a pro­dução para o próx­i­mo perío­do depende muito do inver­no. É um grande desafio asse­gu­rar comi­da para o reban­ho e, sem chu­va, tudo isso fica muito mais com­plexo”, diz.

Os dados do IBGE, anal­isa­dos pela Embra­pa Gado de Leite, indicaram que­da da pro­dução no Brasil no primeiro trimestre de 2022, se com­para­do ao mes­mo perío­do de 2021, mas alguns esta­dos do Nordeste apre­sen­taram cresci­men­to, Sergipe está entre eles, sendo o segun­do esta­do com maior cresci­men­to na pro­dução leit­eira.

De acor­do com a Com­pan­hia Nacional de Abastec­i­men­to (Conab), a Região Nordeste é exceção na redução ger­al da pro­dução de leite, reg­is­tran­do aumen­to de 4,1% de 2021 para 2022, com destaque para o esta­do de Sergipe.

“Para a Conab, o aumen­to da pro­dução do Nordeste, em espe­cial Sergipe, inclui fatores como mel­ho­ra genéti­ca do reban­ho, desen­volvi­men­to da pro­dução da pal­ma for­rageira para suple­men­tação da ali­men­tação e cus­tos mais baixos, mas lem­bran­do que isso é para a pro­dução em ger­al, não especí­fi­ca da agri­cul­tura famil­iar”, detal­ha Ernesto Galin­do, dire­tor sub­sti­tu­to do Depar­ta­men­to de Avali­ação, Mon­i­tora­men­to, Estu­dos e Infor­mações Estratég­i­cas do Min­istério do Desen­volvi­men­to Agrário e Agri­cul­tura Famil­iar (MDA).

Fatores

O pres­i­dente da Coop­er­a­ti­va de Pro­du­tores de Leite de Alagoas (CPLA), Alde­mar Mon­teiro, expli­ca como a ali­men­tação do reban­ho com a pal­ma for­rageira favorece a pro­dução no Nordeste. “A pal­ma for­rageira é a base de ali­men­tação do gado leit­eiro no Nordeste, é plan­ta­da em regiões semi­ári­das e sobre­vive a grandes esti­a­gens. É um cac­to alta­mente saboroso para o gado, que se ali­men­ta dele mis­tu­ra­do com silagem de mil­ho, uma com­bi­nação muito boa para o reban­ho da região, cam­in­ho para o desen­volvi­men­to da área”, afir­mou Mon­teiro.

O pres­i­dente da CPLA infor­mou que em Alagoas há cer­ca de 39 mil pequenos agricul­tores famil­iares e 2 mil médios e grandes pro­du­tores. “Mes­mo numa região ter­ri­to­r­i­al peque­na, é uma con­cen­tração muito grande de pequenos pro­du­tores”. A mel­ho­ra das condições climáti­cas tam­bém tem sido um fator pos­i­ti­vo, acres­cen­ta Mon­teiro.

“Acred­i­to que o cresci­men­to no Nordeste se deve à vocação do pro­du­tor, ali­a­do às condições climáti­cas, boa para a pro­dução de leite, porque é uma região que durante o dia é quente, mas a noite é fres­ca, uma car­ac­terís­ti­ca que foi fun­da­men­tal para o desen­volvi­men­to da cadeia pro­du­ti­va de todo o Nordeste. Nos últi­mos três anos, saí­mos de uma condição de seca muito sev­era, então essa mel­ho­ra nas condições climáti­cas começou a traz­er novos negó­cios para Alagoas e, prin­ci­pal­mente, para Sergipe, que despon­tou muito, favore­ce­r­am a silagem de mil­ho e a pro­dução de pal­ma for­rageira”, com­ple­ta.

A pro­du­to­ra Rafaela, de Sergipe, con­ta que ali­men­ta seu reban­do com a pal­ma. “O reban­ho come pal­ma for­rageira, com rolão ou silo. Para as vacas de leite, acres­cen­to a ração con­cen­tra­da: mil­ho moí­do, soja, caroço e núcleo de leite”, detal­ha.

Fortalecimento

Mon­teiro expli­ca out­ros fatores que for­t­ale­cem a pro­dução leit­eira. “Alagoas con­seguiu des­oner­ar a cadeia pro­du­ti­va do leite, do Impos­to sobre Cir­cu­lação de Mer­cado­rias e Serviços (ICMS), um incen­ti­vo fis­cal muito grande para as indús­trias do esta­do. Isso fez com que con­seguis­sem escoar sua pro­dução. Ain­da temos novas fábri­c­as de Sergipe entran­do em Alagoas, um fator tam­bém impor­tante”.

Segun­do o pres­i­dente da CPLA, out­ra ini­cia­ti­va vai incen­ti­var a agri­cul­tura famil­iar do esta­do. “Esta­mos mon­tan­do a primeira secado­ra de leite em pó da agri­cul­tura famil­iar, para aten­der a ess­es 39 mil pequenos pro­du­tores do esta­do. A secado­ra vai ter capaci­dade para 400 mil litros de leite/dia, tudo isso cria uma condição boa para a região e facili­ta o escoa­men­to”.

“Há diver­sas causas para esse pre­domínio, uma delas é o padrão históri­co de ocu­pação fundiária com con­cen­tração de ter­ra e muitos minifún­dios”, afir­ma Ernesto Galin­do, do MDA. Segun­do ele, incen­tivos fed­erais foram reforça­dos em anos ante­ri­ores, “ape­sar do enfraque­c­i­men­to das políti­cas nos anos recentes, algo que está sendo retoma­do atual­mente”.

Quan­to aos incen­tivos, Galin­do diz que as políti­cas de refor­ma agrária exis­tem há décadas, reforçadas nos últi­mos 30 anos com políti­cas de crédi­to fundiário. “Políti­cas de crédi­to pro­du­ti­vo especí­fi­cas para o setor sur­gi­ram no fim da déca­da de 90, políti­cas de assistên­cia téc­ni­ca, acom­pan­hadas ou não de fomen­to, já alcançaram cen­te­nas de mil­hares de agricul­tores. Além dis­so, há tam­bém políti­cas de garan­tia de preço, garan­tia de safra, seguro pro­du­ti­vo agrí­co­la e mais recen­te­mente, a par­tir da déca­da de 2000, com­pras públi­cas. Muitas delas con­cen­tradas em número no Nordeste, mas com con­cen­tração históri­ca de val­ores na Região Sul do país”, detal­ha.

Característica regional

“A pre­dom­inân­cia da agri­cul­tura famil­iar e de pequenos pro­du­tores no sertão se deve ao fato de que o ser­tane­jo tem exper­iên­cia em con­viv­er com a seca e fixa raízes no cam­po para que pos­sa sobre­viv­er”, obser­va o pro­fes­sor João Batista Bar­bosa, do Insti­tu­to Fed­er­al de Sergipe Cam­pus Glória (IFS), na área de Laticínios/Alimentos.

No Nordeste, a pro­dução leit­eira é influ­en­ci­a­da pelas condições climáti­cas, econo­mia de cada esta­do, tipo de ali­men­tação disponív­el para os ani­mais, entre out­ros fatores, afir­ma Bar­bosa. “Vale ressaltar que nas regiões do Semi­ári­do Nordes­ti­no a pro­dução de leite é afe­ta­da pela seca. Nas estações pri­mav­era e verão, as tem­per­at­uras são altas e a fal­ta de chu­va difi­cul­ta a pro­dução de leite”, expli­ca.

De acor­do com dados da Pesquisa de Leite do 4º trimestre, do IBGE, a pro­dução de leite inspe­ciona­da no Nordeste se desta­ca nos esta­dos do Ceará, de Per­nam­bu­co, Sergipe e da Bahia. “Esse fato pode ser expli­ca­do pela implan­tação e mel­ho­ria das indús­trias pre­sentes em cada região”, afir­ma o pro­fes­sor.

Na visão do médi­co vet­er­inário George Pires Mar­tins, o cresci­men­to se deve ao aumen­to do ben­e­fi­ci­a­men­to do leite. “As indús­trias estão crescen­do e abrindo novas empre­sas, e a pro­dução de ali­men­tos, prin­ci­pal­mente na região de Sergipe, que despon­ta como forte pro­du­tor de grãos, aca­ba barate­an­do o leite”.

Para ele, o cresci­men­to tec­nológi­co tam­bém é fator de destaque. “É uma região que tem mui­ta cul­tura leit­eira, e ago­ra as tec­nolo­gias estão começan­do a chegar, alguns pro­du­tores já estão com sis­temas que pro­duzem vol­ume maior de leite e isso rentabi­liza mais”, afir­ma Pires, que tam­bém é con­sul­tor de lat­icínios com atu­ação téc­ni­ca no Nordeste e cri­ador do canal Leites e Deriva­dos, em que fala sobre a cadeia pro­du­ti­va do leite.

O con­sul­tor con­cor­da com a pro­du­to­ra Rafaela Alves em relação ao acom­pan­hamen­to téc­ni­co. “Não temos uma políti­ca de assistên­cia téc­ni­ca rur­al volta­da para o pequeno pro­du­tor. Acred­i­to que essa ativi­dade é muito mais forte  por causa da cul­tura da região do que por incen­tivos ou por resul­ta­do finan­ceiro como um todo. Então, vem muito mais da cul­tura da região, de quem está moran­do na zona rur­al, esse pequeno pro­du­tor aca­ba fazen­do a difer­ença no vol­ume ger­al pro­duzi­do aqui no Nordeste”, desta­ca Mar­tins.

Ele e out­ros espe­cial­is­tas do setor lácteo, como pro­du­tores de leite, coop­er­a­ti­vas e profis­sion­ais se reúnem nos próx­i­mos dias 11 e 12 de maio em Garan­huns, Per­nam­bu­co, para o Milk Expe­ri­ence, even­to para dis­cu­tir temas rela­ciona­dos ao setor lácteo e às práti­cas ino­vado­ras. Segun­do o Agri­cul­tur­al Out­look 2022–2031, relatório da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas para Ali­men­tação e Agri­cul­tura (FAO), os lat­icínios dev­erão ser o setor pecuário de mais rápi­do cresci­men­to na próx­i­ma déca­da, com a ofer­ta glob­al de leite pre­vista para aumen­tar em 23%.

Edição: Graça Adju­to

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