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Lava Jato destruiu 4,44 milhões de empregos, aponta estudo

Repro­dução: © Petrobras/Divulgação

Principais empreiteiras perderam 85% das receitas em 4 anos


Publicado em 17/03/2024 — 10:30 Por Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil — Brasília

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A oper­ação que prome­tia com­bat­er a cor­rupção no setor de petróleo e gás cus­tou caro à econo­mia e deixa o desafio da recon­strução de setores . A Lava Jato resul­tou na destru­ição de 4,44 mil­hões de empre­gos entre 2014 e 2017 e reduz­iu o Pro­du­to Inter­no Bru­to (PIB) em 3,6% no mes­mo perío­do. De 2015 a 2018, as maiores con­stru­toras brasileiras perder­am 85% da recei­ta.

As con­clusões con­stam de dois estu­dos que anal­is­aram o impacto econômi­co da Lava Jato, que com­ple­ta 10 anos. O primeiro, do Depar­ta­men­to Inter­sindi­cal de Estatís­ti­ca e Estu­dos Socioe­conômi­cos (Dieese), ras­tre­ou os efeitos de 2014 a 2017 dos setores afe­ta­dos dire­ta­mente e indi­re­ta­mente pela oper­ação. O segun­do, das uni­ver­si­dades Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ) e Estad­ual do Rio de Janeiro (Uerj), men­su­rou as con­se­quên­cias sobre as con­stru­toras e a indús­tria pesa­da.

O estu­do da UFRJ e da Uerj esti­mou em R$ 142 bil­hões as per­das nos setores de con­strução civ­il, indús­tria naval, engen­haria pesa­da e indús­tria metalmecâni­ca. Os efeitos, no entan­to, vão além dos seg­men­tos dire­ta­mente inves­ti­ga­dos pela oper­ação e que tiver­am de fechar delações pre­mi­adas e acor­dos de leniên­cia.

Segun­do o Dieese, dos 4,44 mil­hões de pos­tos de tra­bal­ho per­di­dos, 2,05 mil­hões ocor­reram nos setores e nas cadeias pro­du­ti­vas dire­ta­mente afe­tadas pela Lava Jato. Os 2,39 mil­hões de empre­gos restantes foram destruí­dos em setores prej­u­di­ca­dos pela que­da da ren­da e do con­sumo, como comér­cio, trans­porte e ali­men­tação.

Menos emprego e ren­da se traduzem em inves­ti­men­tos menores. O estu­do do Dieese esti­ma que a Lava Jato reduz­iu os inves­ti­men­tos públi­cos e pri­va­dos em R$ 172,2 mil­hões entre 2014 e 2017. O seg­men­to mais atingi­do foi a con­strução civ­il, com per­da de R$ 35,9 bil­hões, segui­do por comér­cio (R$ 30,9 bil­hões); extração de petróleo e gás, inclu­sive setores de apoio (R$ 29,2 bil­hões); ativi­dades imo­bil­iárias (R$ 22 bil­hões); e inter­me­di­ação finan­ceira, seguros e pre­v­idên­cia com­ple­men­tar (R$ 17,5 bil­hões).

“Nos­so estu­do abor­dou o impacto em cadeia, porque os setores da econo­mia são interli­ga­dos e per­das em um seg­men­to podem trans­bor­dar para toda a econo­mia”, expli­ca o dire­tor téc­ni­co do Dieese, Faus­to Augus­to Junior. A enti­dade usou a téc­ni­ca de matriz insumo-pro­dução, que reg­is­tra os flux­os de bens e serviços e demon­stra as relações inter­se­to­ri­ais den­tro do sis­tema econômi­co de um país.

Impostos

Com a destru­ição de pos­tos de tra­bal­ho, a mas­sa salar­i­al caiu R$ 85,4 bil­hões de 2014 a 2017. Uma econo­mia que empre­ga, investe e pro­duz menos paga menos impos­tos. No perío­do anal­isa­do, o gov­er­no deixou de arrecadar R$ 47,4 bil­hões em trib­u­tos e R$ 20,3 bil­hões em con­tribuições para a Pre­v­idên­cia Social e o Fun­do de Garan­tia do Tem­po de Serviço (FGTS).

O dire­tor do Dieese acres­cen­ta que os efeitos da Lava Jato não se man­i­fes­taram ape­nas no encadea­men­to dos setores, mas com a deses­tru­tu­ração de tec­nolo­gias na cadeia pro­du­ti­va de petróleo e gás e na con­strução civ­il que fari­am a econo­mia brasileira evoluir no médio e no lon­go pra­zo.

“No meio de tudo isso, a gente perdeu tam­bém o que chamamos de inteligên­cia de engen­haria. Os engen­heiros não desa­pare­ce­r­am, estão aí, mas as grandes equipes foram desmon­tadas. Mes­mo com o inves­ti­men­to chegan­do, levará um tem­po para recon­sti­tuir essas equipes. Talvez algu­mas nem sequer con­sigam ser remon­tadas porque a Lava Jato deixou um lega­do de des­or­ga­ni­za­ção da nos­sa indús­tria de infraestru­tu­ra”, diz.

arte operação lava jato

Reconstrução

No déci­mo aniver­sário da Lava Jato, a reestru­tu­ração dos seg­men­tos afe­ta­dos pela oper­ação rep­re­sen­ta o maior desafio. Mes­mo com a recu­per­ação da econo­mia brasileira e com as promes­sas de inves­ti­men­to e de diver­si­fi­cação de ativi­dades na Petro­bras, a fal­ta de inves­ti­men­tos nos últi­mos anos prej­u­di­cou a estatal.

“Por causa da Lava Jato, a Petro­bras, a par­tir do gov­er­no [do ex-pres­i­dente] Michel Temer, con­cen­trou-se na ativi­dade primária, a extração de petróleo e gás, deixan­do de lado inves­ti­men­tos no refi­no e em tec­nolo­gia para priv­i­le­giar a max­i­miza­ção de lucro por acionista. A empre­sa pas­sou a se ori­en­tar por uma per­spec­ti­va de ger­ar lucros no cur­to  pra­zo e dis­tribuir para os acionistas”, expli­ca o pro­fes­sor Luiz Fer­nan­do de Paula.

Segun­do o pro­fes­sor da UFRJ e da Uerj, a Petro­bras ain­da tem chances de recu­per­ar o plane­ja­men­to de lon­go pra­zo, ao inve­stir na tran­sição ecológ­i­ca enquan­to bus­ca retomar a con­strução da Refi­nar­ia Abreu e Lima, em Per­nam­bu­co, cujas obras foram inter­romp­i­das em 2015 por causa da Lava Jato.

“Uma coisa não impede a out­ra. A Petro­bras pode mod­ern­izar o refi­no de com­bustív­el fós­sil e pen­sar na tran­sição para a ener­gia limpa. A Petro­bras está numa mudança, na for­ma de gestão, não acred­i­to que vai haver um retorno ao mod­e­lo do primeiro gov­er­no Dil­ma [Rouss­eff], que nacional­i­zou as com­pras. Mas acho que dá para a empre­sa bus­car um pro­tag­o­nis­mo maior den­tro de uma per­spec­ti­va admin­is­tra­ti­va, na diver­si­fi­cação das suas ativi­dades. Aí, tem um fator novo, impor­tante”, diz.

Em relação à con­strução civ­il, o dire­tor do Dieese diz que o des­man­te­la­men­to das maiores empre­it­eiras do país provo­cou danos per­ma­nentes para o setor. “É impor­tante lem­brar que os pre­juí­zos para as empre­it­eiras não decor­reram ape­nas de acor­dos de leniên­cia e de blo­queios de bens, mas hou­ve dano de imagem para todo um setor. A Ode­brecht, por exem­p­lo, quase fal­iu e mudou de nome”, ressalta.

A recente sus­pen­são de acor­dos de leniên­cia da Ode­brecht, deter­mi­na­da pelo Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al (STF), abre brecha para um proces­so de reer­gui­men­to da con­strução civ­il pesa­da, mas Faus­to adverte que a recon­strução do setor levará décadas. “Ess­es acor­dos de leniên­cia, em alguns casos, rep­re­sen­taram uma pá de cal sobre várias dessas empre­sas. A sus­pen­são de parte dess­es pos­si­bili­ta ago­ra um proces­so de recon­strução, mas não é uma recon­strução sim­ples”, avalia.

Os dois espe­cial­is­tas con­cor­dam que o grande prob­le­ma da Lava Jato con­sis­tiu em não sep­a­rar a punição de exec­u­tivos das ativi­dades das empre­sas inves­ti­gadas. “A grande lição da Lava Jato é que não se pode expor pes­soas e empre­sas midi­ati­ca­mente da for­ma como acon­te­ceu. Esta­mos falan­do de um proces­so jurídi­co, em que se devem guardar as dev­i­das pro­porções porque as empre­sas foram muito mais punidas que as pes­soas físi­cas, com as com­pan­hias ten­do os nomes e as mar­cas jogadas no lixo”, crit­i­ca Faus­to.

“Na época da oper­ação, não se dava a dev­i­da atenção para os efeitos econômi­cos, mas ess­es dados hoje estão bas­tante con­sol­i­da­dos. As pes­soas não se aten­tavam para os efeitos econômi­cos e soci­ais da Oper­ação Lava Jato. A gente que tem de achar um jeito de punir os exec­u­tivos, as pes­soas, mas não cas­ti­gar as empre­sas nem destru­ir empre­gos”, avalia Luiz Fer­nan­do, da UFRJ e da Uerj.

Edição: Fer­nan­do Fra­ga

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