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Coluna — Agente de trânsito, mesatenista quer medalha na Paralimpíada

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Repro­dução: © Daniel Zappe/EXEMPLUS/CPB

Com três ouros em Parapans, David Freitas quer ir além da Rio 2016


Pub­li­ca­do em 19/07/2021 — 09:40 Por Lin­coln Chaves — Repórter da TV Brasil e da Rádio Nacional — São Paulo

Bem antes da relação de rep­re­sen­tantes do Brasil na Par­alimpía­da de Tóquio (Japão) ser anun­ci­a­da, parte dos atle­tas sabia que o nome lá estaria, seja por terem cumpri­do req­ui­si­tos pré-definidos — como ser campeão mundi­al, nos casos de atletismo e natação — ou atingi­do a colo­cação necessária no rank­ing mundi­al das respec­ti­vas modal­i­dades. Out­ra parcela teve que aguardar os tradi­cionais con­vites das fed­er­ações inter­na­cionais para ocu­par vagas remanes­centes. É neste grupo que se encon­tra David Fre­itas, um dos 14 mesatenistas brasileiros que estarão nos Jogos.

A primeira for­ma de clas­si­fi­cação dire­ta à Par­alimpía­da seria con­quis­tar a medal­ha de ouro indi­vid­ual nos Jogos Para­pan-Amer­i­canos de Lima (Peru), em 2019. Na ocasião, o cearense de 43 anos — que perdeu os movi­men­tos dos mem­bros infe­ri­ores, após uma cirur­gia para reti­ra­da de um tumor benig­no da medu­la, em 2004 — foi super­a­do pelo norte-amer­i­cano Jen­son Van Eng­burg nas quar­tas de final da classe 3, uma das cin­co cat­e­go­rias voltadas a cadeirantes.

Out­ra pos­si­bil­i­dade era estar entre os dez primeiros da cat­e­go­ria no rank­ing de abril de 2020 na Fed­er­ação Inter­na­cional de Tênis de Mesa (ITTF, sigla em inglês). Como apare­cia na 37ª posição, restaria a David a sele­ti­va inter­na­cional, real­iza­da na Eslovê­nia no começo de jun­ho (ele não com­petiu), ou aguardar a aprovação de um con­vite pedi­do pela Con­fed­er­ação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). Na man­hã do últi­mo dia 26 veio, enfim, a notí­cia tão aguarda­da.

 

“Pas­sei a madru­ga­da acor­da­do. Fui dormir quase 1h, tomei um relax­ante, mas acordei às 3h. Esta­va con­tan­do as horas. Lá pelas 7h30, acabei não aguen­tan­do e apaguei. Quan­do acordei, foi com a lig­ação do Raphael [Mor­eira, téc­ni­co da seleção par­alímpi­ca de tênis de mesa]. Ele não lig­aria para me dar uma má notí­cia [risos]. Foi uma coisa sur­re­al. É o son­ho de qual­quer atle­ta par­tic­i­par de uma Par­alimpía­da. Será a min­ha segun­da”, con­tou David à Agên­cia Brasil.

Dono de três medal­has de ouro em Para­pans (duas por equipes e uma indi­vid­ual), David é nat­ur­al de For­t­aleza e viveu lá por 37 anos antes de se mudar para Eusébio, cidade da região met­ro­pol­i­tana da cap­i­tal, onde con­cil­ia os treinos com a profis­são de agente de trân­si­to no Depar­ta­men­to Estad­ual de Trân­si­to (Detran) local. Chefe do pos­to munic­i­pal, envolve-se tan­to na parte buro­cráti­ca como na fis­cal­iza­ção pro­pri­a­mente dita.

“Gos­to mais de tra­bal­har com fis­cal­iza­ção. Sem­pre preferi lidar com o públi­co, na blitz, onde sou bas­tante atu­ante. [Sobre equi­li­brar tra­bal­ho e com­petição] Graças a Deus, nun­ca hou­ve objeção. Pelo con­trário, tan­to Detran como o gov­er­no do esta­do sem­pre foram solíc­i­tos em me lib­er­ar para com­petições. Saber que tin­ham um atle­ta no quadro de fun­cionários era uma coisa impor­tante para eles”, afir­mou o mesatenista.

Durante boa parte da pan­demia do novo coro­n­avírus (covid-19), David pre­cisou se dedicar quase que inte­gral­mente ao tra­bal­ho como agente, com atu­ação nas bar­reiras san­itárias. Além dis­so, o fechamen­to de acad­e­mias em razão do lock­down pelo qual pas­sou o Ceará difi­cul­tou a preparação.

“Isso [ficar sem treinar] me trouxe alguns males. Fiquei com ansiedade, um pouco depres­si­vo, com temores. Coisas que o esporte [inib­ia] pela sero­ton­i­na. Quan­do retomei as ativi­dades, depois de vaci­na­do, foi só ale­gria e feli­ci­dade. A vaci­nação foi impor­tan­tís­si­ma. Man­ten­ho os cuida­dos necessários, mas aque­le medo que esta­va me fre­an­do diminuiu 90%. Sou um cara muito feliz com a modal­i­dade que prati­co. O esporte me rein­seriu na sociedade. [Depois da cirur­gia de 2004] Pas­sei muito tem­po retraí­do, por con­ta de pre­con­ceito, das pes­soas taxarem de coitad­in­ho. Eu era muito ati­vo, comu­nica­ti­vo. Tive depressão, ema­gre­ci muito. O esporte me deu pru­mo na vida”, desta­cou o cearense.

David estre­ou em Par­alimpíadas na edição pas­sa­da, no Rio de Janeiro. Em sim­ples, parou ain­da na fase de gru­pos. No torneio por equipes, ele e o paranaense Welder Knaf chegaram à dis­pu­ta do bronze, mas foram sur­preen­di­dos pelos tai­lan­deses Anu­rak Laowong e Yut­ta­jak Glin­banche­un (este últi­mo até então descon­heci­do no cir­cuito). Cin­co anos depois, a parce­ria Ceará/Paraná estará nova­mente lado a lado na mesa.

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Repro­dução: Par­alimpía­da 2016, Rio de Janeiro/Alexandre Urch/MPIX/CPB

“Ape­sar de morar­mos em extremos do país, temos uma afinidade grande em nos­so jogo. Temos mais êxi­tos jun­tos do que der­ro­tas. Às vezes, jog­amos duas, três vezes jun­tos no ano. A gente sabe que a logís­ti­ca difi­cul­ta, mas temos um bom entrosa­men­to. Por pouco não gan­hamos medal­ha no Rio, mas acred­i­to que, nes­ta ago­ra, não vamos deixar escapar”, disse o mesatenista nordes­ti­no, que con­fia em um rendi­men­to mel­hor em Tóquio do que teve no Brasil.

“Por incrív­el que pareça, pre­firo jog­ar fora de casa. Acabo jogan­do mais à von­tade. No indi­vid­ual, acho que o calor da emoção acabou afe­tan­do um pouco [no Rio]. Acred­i­to que, em Tóquio, chego mais expe­ri­ente, enten­den­do a mag­ni­tude da com­petição”, avaliou David.

Além do cearense, tam­bém con­quis­taram vagas por con­vite Mar­liane San­tos (classe 3) e Mil­lena França (7). Cin­co atle­tas da del­e­gação se clas­si­ficaram para os Jogos graças ao ouro no Para­pan de Lima: Joyce Oliveira (4), Paulo Salmin (7), Luiz Fil­ipe Man­ara (8), Danielle Rauen (9) e Car­los Carbinat­ti (10). Out­ros cin­co se cre­den­cia­ram via rank­ing mundi­al das respec­ti­vas class­es: Cátia Oliveira (2), Welder Knaf (3), Israel Stroh (7) e Lethí­cia Lac­er­da (8). Por fim, Jen­nyfer Pari­nos (9) foi campeã da sele­ti­va inter­na­cional da cat­e­go­ria.

O Brasil con­quis­tou cin­co medal­has no tênis de mesa na história da Par­alimpía­da. A primeira, de pra­ta, veio nos Jogos de Pequim (Chi­na), em 2008, com a dupla Welder e Luiz Algacir Sil­va na classe 3. Na Rio 2016, foram qua­tro pódios. No indi­vid­ual, Israel Stroh lev­ou a pra­ta na classe 7 e Bruna Alexan­dre obteve o bronze na classe 10. Na dis­pu­ta por equipes, mais dois bronzes: um com Iranil­do Espín­dola, Guil­herme Cos­ta e Aloí­sio Lima (class­es 1 e 2) e out­ro com Bruna Alexan­dre, Danielle Rauen e Jen­nyfer Pari­nos (class­es 6 a 10).

Em Tóquio, as dis­putas do tênis de mesa começam no dia 25 de agos­to, com as chaves indi­vid­u­ais, que seguem até dia 30. De 31 de agos­to a 3 de setem­bro, ocor­rem os torneios por equipes.

Edição: Mar­cio Par­ente

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