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Em Brasília, mulheres denunciam feminicídios e a omissão do Estado

Atos foram convocados em pelo menos nove capitais

Lucas Pordeus León — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 07/12/2025 — 15:56
Brasília
Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

“Estupros cor­re­tivos, tapas e facadas. Querem nos man­ter de bocas fechadas, mas nem a morte irá nos calar. Mul­heres vivas!”, com essas palavras a assis­tente social Elisan­dra “Lis” Mar­tins encer­rou sua fala na Batal­ha de Rimas, no cen­tro de Brasília, no ato Lev­ante Mul­heres Vivas, real­iza­do em diver­sas cap­i­tais do país neste domin­go (7).

Sob fortes pan­cadas de chu­va, mil­hares de pes­soas par­tic­i­param do protesto no Dis­tri­to Fed­er­al (DF) para denun­ciar a vio­lên­cia con­tra a mul­her, o fem­i­nicí­dio e a omis­são do Esta­do na pro­teção e pre­venção à vio­lên­cia de gênero.

O “Lev­ante” foi con­vo­ca­do por dezenas de orga­ni­za­ções de mul­heres, após suces­sivos casos emblemáti­cos de fem­i­nicí­dios que chocaram o Brasil nos últi­mos dias. Em Brasília, falas de lid­er­anças e apre­sen­tações cul­tur­ais movi­men­ta­ram a Torre de TV, no cen­tro da cap­i­tal.

A rimado­ra Elisan­dra “Lis” Mar­tins, de 31 anos, faz parte do cole­ti­vo Batal­ha das Gurias, da Frente Nacional de Mul­heres no Hip-Hop, e com­pare­ceu ao ato para denun­ciar a vio­lên­cia de gênero na esper­ança de provo­car uma reação do Esta­do. 

“É vio­lên­cia de gênero, é vio­lên­cia de raça, por ess­es motivos temos as nos­sas vidas escas­sas, é como viv­er no sub­mun­do dos empre­gos, per­ife­rias e até do próprio mun­do. Da não aceitação até a depressão que nos mata, man­ten­do viva a res­pi­ração”, rimou a morado­ra do Itapoã, região admin­is­tra­ti­va do DF a cer­ca de 10 quilômet­ros da Esplana­da dos Min­istérios.

A man­i­fes­tação con­tou com a pre­sença de rep­re­sen­tantes do gov­er­no fed­er­al, entre eles, seis min­is­tras, além de dep­utadas fed­erais, da primeira-dama Jan­ja Lula da Sil­va e diver­sas lid­er­anças pop­u­lares.

Durante o domin­go tam­bém foram real­iza­dos protestos de mul­heres em out­ras cap­i­tais como Rio de Janeiro, onde cen­te­nas se reuni­ram na Pra­ia de Copaca­bana, e São Paulo, onde a con­cen­tração foi real­iza­da na Aveni­da Paulista.

Violência do Estado

Na cap­i­tal fed­er­al, foram recor­rentes as falas con­tra o Esta­do e a omis­são e inca­paci­dade das insti­tu­ições de pro­te­gerem as mul­heres víti­mas de vio­lên­cia, assim como de pre­venir ess­es crimes.

A douto­ra em ciên­cia soci­ais Vanes­sa Hacon é ativista do Cole­ti­vo Mães na Luta, que asses­so­ra mul­heres víti­mas de vio­lên­cia. Ela afir­ma que o sis­tema de Justiça é neg­li­gente no atendi­men­to às mul­heres e, na maio­r­ia dos casos, cul­pa a própria víti­ma.

“As mul­heres saem de casa para se livrar da vio­lên­cia domés­ti­ca e vão parar den­tro do sis­tema de Justiça, onde a vio­lên­cia proces­su­al é inten­sa e absur­da e os juízes não fazem nada”, disse Vanes­sa.

Brasília (DF), 07/12/2025 - Carla Michelli e Vanessa Hacon durante ato do Levante Mulheres Vivas, na área central de Brasília, para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Car­la Michel­li e Vanes­sa Hacon no Lev­ante Mul­heres Vivas, em Brasília, con­tra o fem­i­nicí­dio — Foto Marce­lo Camargo/Agência Brasil

A ativista recla­ma que as insti­tu­ições do sis­tema de Justiça não con­ce­dem as medi­das pro­te­ti­vas às mul­heres quan­to necessário.

“Existe uma ide­olo­gia machista nos tri­bunais que desle­git­i­ma denún­cias com base em estereóti­pos de gênero vul­gares, do tipo ‘essa mul­her é uma ressen­ti­da’, ‘não acei­ta o fim do rela­ciona­men­to’, ‘vinga­ti­va’. Essas denún­cias pre­cisam ser lev­adas a sério e, de fato, proces­sadas cor­re­ta­mente, ao invés de arquiv­adas sob argu­men­tos vagos”, criti­cou.

Patriarcado

Com gri­tos como “Fem­i­nis­mo é rev­olução” e “Mul­heres Vivas”, as man­i­fes­tantes destacaram que a for­ma “patri­ar­cal” como a sociedade foi estru­tu­ra­da ao lon­go dos sécu­los con­tribui para uma espé­cie de “epi­demia” de fem­i­nicí­dios no Brasil.

“O patri­ar­ca­do é quan­do a sociedade se estru­tu­ra a par­tir da lóg­i­ca de que o homem, de que o gênero mas­culi­no, tem o poder, e o poder é cen­tral­iza­do neles, a par­tir deles, e é a par­tir deles que as coisas acon­te­cem”, afir­mou a mil­i­tante do Movi­men­to Negro Unifi­ca­do (MNU), Leonor Cos­ta.

Ela desta­cou à Agên­cia Brasil que os casos “absur­dos” de fem­i­nicí­dios nos últi­mos dias acen­der­am a revol­ta das mul­heres pelo país.

Brasília (DF), 07/12/2025 - Leonor Costa durante ato do Levante Mulheres Vivas, na área central de Brasília, para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Mil­i­tante do Movi­men­to Negro, Leonor Cos­ta diz que edu­cação é fun­da­men­tal para mudar vio­lên­cia con­tra mul­heres — Foto Marce­lo Camargo/Agência Brasil

“Espero que ess­es atos sen­si­bi­lizem a sociedade e mostrem o peri­go que as mul­heres vivem no seu cotid­i­ano e, mais do que isso, que sen­si­bi­lize o Esta­do. É fun­da­men­tal que haja políti­cas públi­cas que sejam capazes de frear esse nív­el de vio­lên­cia”, afir­mou.

Para a rep­re­sen­tante do MNU, a edu­cação é fun­da­men­tal para mudar essa cul­tura. “São necessárias políti­cas de edu­cação que con­sigam con­sci­en­ti­zar a sociedade como um todo para enten­der que esse é um prob­le­ma do país. Esse não é só um prob­le­ma meu, que sou mul­her”, com­ple­tou.

Papel dos homens e do orçamento público

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reprodução: O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A maio­r­ia da man­i­fes­tação foi for­ma­da por mul­heres, mas muitos home­ns acom­pan­haram o ato e as lid­er­anças pre­sentes destacaram o papel deles na luta con­tra a vio­lên­cia de gênero, como expli­cou a escrito­ra, cineas­ta e pro­fes­so­ra aposen­ta­da Rena­ta Par­reira.  

“É pre­ciso con­vo­car os home­ns a dis­cu­tir, a refle­tir sobre sua mas­culin­idade tóx­i­ca. Trazê-los como ali­a­dos para essa luta, porque é uma luta de todas e todos para que pos­samos mudar o pro­je­to de sociedade”, desta­cou.

Para Rena­ta, que inte­gra o Lev­ante Fem­i­nista con­tra o Fem­i­nicí­dio, Les­bocí­dio e Trans­fem­i­nicí­dio, é pre­ciso ain­da reforçar o orça­men­to públi­co para com­bat­er a vio­lên­cia de gênero.

“Sem orça­men­to públi­co, sem equipe qual­i­fi­ca­da, sem indi­cadores econômi­cos e soci­ais de pesquisa não há como elab­o­rar políti­cas públi­cas efe­ti­vas para a pre­venção da vio­lên­cia de mul­heres. Nós pre­cisamos, por meio da edu­cação, trans­for­mar a real­i­dade porque a cul­tura não é fixa, ela é dinâmi­ca e pode ser muda­da”, com­ple­tou.

Brasília (DF), 07/12/2025 - Renata Parreira durante ato do Levante Mulheres Vivas, na área central de Brasília, para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reprodução: Para a escritora Renata Parreira, é preciso orçamento público para combater violência de gênero — Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

Questão econômica

A situ­ação econômi­ca das mul­heres foi out­ro ele­men­to lem­bra­do no ato como fator que ali­men­ta a vio­lên­cia de gênero.

A empreende­do­ra Aline Kari­na Dias, de 36 anos, avalia que a questão finan­ceira é a arma para eman­ci­par muitas mul­heres dos cic­los de vio­lên­cia e exclusão.

“Com­preen­demos o empreende­doris­mo, a questão finan­ceira, como uma fer­ra­men­ta de eman­ci­pação e de existên­cia das mul­heres. Muitas que sofrem fem­i­nicí­dio são dev­i­do a questões soci­ais, por fal­ta de mora­dia e de emprego”, disse.

Aline Kari­na lid­era o Sebas Turís­ti­ca, pro­je­to de afro­tur­is­mo de base comu­nitária que visa pro­mover o tur­is­mo cidadão em São Sebastião, região admin­is­tra­ti­va do DF a cer­ca de 17 km do cen­tro de Brasília.

Entenda

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reprodução: O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A mobi­liza­ção nacional foi con­vo­ca­da após uma onda de fem­i­nicí­dios recentes que abalaram o país.

No final de novem­bro, Tainara Souza San­tos teve as per­nas muti­ladas após ser atro­pela­da e arras­ta­da por cer­ca de um quilômetro, enquan­to ain­da esta­va pre­sa embaixo do veícu­lo. O motorista, Dou­glas Alves da Sil­va, foi pre­so acu­sa­do do crime.

Na mes­ma sem­ana, duas fun­cionárias do Cen­tro Fed­er­al de Edu­cação Tec­nológ­i­ca (Cefet-RJ), no Rio de Janeiro, foram mor­tas a tiros por um fun­cionário da insti­tu­ição que se matou em segui­da.

Na sex­ta-feira (5), foi encon­tra­do, em Brasília, o cor­po car­boniza­do da cabo do Exérci­to Maria de Lour­des Freire Matos, 25 anos. O crime está sendo inves­ti­ga­da como fem­i­nicí­dio, após o sol­da­do Kelvin Bar­ros da Sil­va, de 21 anos, ter con­fes­sa­do a auto­ria do assas­si­na­to.

Cer­ca de 3,7 mil­hões de mul­heres brasileiras viver­am um ou mais episó­dios de vio­lên­cia domés­ti­ca nos últi­mos 12 meses, segun­do o Mapa Nacional da Vio­lên­cia de Gênero.

Em 2024, 1.459 mul­heres foram víti­mas de fem­i­nicí­dios. Em média, cer­ca de qua­tro mul­heres foram assas­si­nadas por dia em 2024 em razão do gênero. Em 2025, o Brasil já reg­istrou mais de 1.180 fem­i­nicí­dios.

Veja galeria de fotos da manifestação em Brasília:

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