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Fênix negra da música, Cátia França é exaltada pela nova geração

Redescoberta pelo público jovem, cantora faz shows em todo o Brasil

Cibele Tenório — Jor­nal­ista da Rádio Nacional
Pub­li­ca­do em 27/04/2025 — 12:03
Brasília
Brasília (DF) 24/04/2025 - Cantora e compositora Cátia de França em entrevista à Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Repro­dução: © Fabio Rodrigues-Pozze­bom/ Agên­cia Brasil

Em novem­bro de 2024, a can­to­ra e com­pos­i­to­ra paraibana Cátia de França era pura ansiedade ao embar­car em um voo para os Esta­dos Unidos. Seu álbum, No ras­tro de Cata­ri­na, lança­do naque­le mes­mo ano, fora indi­ca­do ao Prêmio de Mel­hor Álbum de Rock ou Músi­ca Alter­na­ti­va em Lín­gua Por­tugue­sa no Gram­my Lati­no. A cer­imô­nia de pre­mi­ação ocor­re­ria em Mia­mi no dia 14 daque­le mês, e ela seguia para lá.

Ao pas­sar pela fis­cal­iza­ção da alfân­de­ga estadunidense, um ofi­cial que­ria saber o que a sen­ho­ra de cor­po franzi­no e cabeleira bran­ca como algo­dão iria faz­er nos Esta­dos Unidos. Sem fluên­cia em inglês, Cátia con­tou com a aju­da de sua pro­dução para explicar que era uma artista e, mais que isso, fora indi­ca­da a um dos prêmios mais respeita­dos da indús­tria da músi­ca. O poli­cial ficou impres­sion­a­do.

“Ele já olhou para mim como quem diz: por que ela ain­da não está qui­eta, numa cadeir­in­ha, se lem­bran­do do pas­sa­do? Ele vibrou! Imag­i­na um poli­cial amer­i­cano que é tido como ‘bru­ta­montes’! E ali, o ros­to dele acen­deu uma luz. Isso já me fez um bem medonho”, relem­brou.

Brasília (DF) 24/04/2025 - Cantora e compositora Cátia de França em entrevista à Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Repro­dução: “Com­pon­ho até com bula de remé­dio”, afir­ma a can­to­ra e instru­men­tista paraibana. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/ Agên­cia Brasil

A sur­pre­sa do poli­cial talvez ten­ha se dev­i­do à aparên­cia de Cátia, uma sen­ho­ra de 78 anos, de magreza del­i­ca­da e cabe­los bran­cos osten­ta­dos com orgul­ho. A suposição de frag­ili­dade sobre ela não pode­ria estar mais equiv­o­ca­da. Mul­ti-instru­men­tista com mais de meio sécu­lo de músi­ca, Cátia de França, que no doc­u­men­to é Cata­ri­na Maria de França Carneiro, é uma força da natureza com uma mente inqui­eta e pul­são cria­ti­va irrefreáv­el.

A inven­tivi­dade e a sen­si­bil­i­dade que embasaram seu álbum de estreia, o acla­ma­do “20 palavras ao redor do sol”, lança­do em 1979, ain­da seguem firmes com ela. “Com­pon­ho até com bula de remé­dio”, diz a paraibana. Após viv­er uma espé­cie de renasci­men­to artís­ti­co ao ser descober­ta pelo públi­co jovem, ela tem hoje uma agen­da aper­ta­da com apre­sen­tações em todo o Brasil.

Cátia se apre­sen­tou na últi­ma quin­ta-feira (24), no Fes­ti­val Agô em Brasília. E parte do públi­co que a vê nos pal­cos atual­mente não sabe quan­tas voltas ao redor do sol esta mul­her negra nordes­ti­na teve que dar para viv­er hoje sob os aplau­sos que recon­hecem seu tal­en­to.

Berço musical

Cátia ain­da era Cata­ri­na quan­do a mãe, a pro­fes­so­ra Adélia Maria de França, recon­heci­da como a primeira edu­cado­ra negra da Paraí­ba, lhe apre­sen­tou aos livros. Seus preferi­dos eram os de José Lins do Rêgo, Gra­cil­iano Ramos e João Cabral de Melo Neto, que tin­ham tre­chos de suas obras musi­ca­dos pela meni­na.

“Eu nasci num berço musi­cal. Meu pai ado­ra­va ‘sofrên­cia’, que naque­la época não tin­ha esse nome, era tan­go. E eu toco san­fona por causa dis­so. E mamãe era muito musi­cal, o rádio lá em casa era lig­a­do full time”, expli­ca. A paraibana teve uma for­mação musi­cal eru­di­ta na juven­tude, até con­stru­ir sua própria poe­sia, que bebe da cul­tura pop­u­lar, da tradição region­al e tam­bém do rock e sua psi­codelia. Sua obra aju­dou a for­matar o que se entende por músi­ca do Nordeste, que nada mais é do que músi­ca pop­u­lar brasileira.

Na vida adul­ta, ela se mudou para o Rio de Janeiro. Cátia – que gan­hou esse apeli­do da mãe – acom­pan­hou o movi­men­to de muitos can­tores e com­pos­i­tores nordes­ti­nos que migraram para o Sul Mar­avil­ha para impul­sion­arem sua arte. O ano era 1972. Can­tou em barz­in­hos e tra­bal­hou como datiló­grafa até encon­trar sua “fada madrin­ha”, a con­ter­rânea Elba Ramal­ho. Já con­sagra­da, Elba pas­sou a indicá-la para tra­bal­hos na músi­ca e no teatro alter­na­ti­vo.

À medi­da que ia ao encon­tro de sua arte, Cátia lida­va com os estig­mas e pre­con­ceitos de ser uma mul­her negra, lés­bi­ca e migrante nordes­ti­na naque­les anos de chum­bo da ditadu­ra mil­i­tar no Brasil. “Era uma impli­cação, a polí­cia, né? Que­ri­am ver se pega­va a gente com algu­ma coisa, com erva, sem doc­u­men­to. O prob­le­ma maior era a gente ser nordes­ti­no.”

Disco de estreia

Nes­sa época, Cátia for­mou uma tur­ma com os con­ter­râ­neos Vital Farias, Pedro Osmar e Zé Ramal­ho. Esse últi­mo, impres­sion­a­do com suas com­posições, pro­duz­iu 20 palavras ao redor do sol, o primeiro álbum de Cátia.

O dis­co con­ta com a par­tic­i­pação de músi­cos do quilate de Domin­guin­hos, Sivu­ca, Lucin­ha Turn­bull, Chico Bat­era, Bez­er­ra da Sil­va, Lulu San­tos, além de Amelin­ha e Elba Ramal­ho nos vocais. O 20 palavras ao redor do sol seria, anos depois, con­sid­er­a­do um clás­si­co cult e que tem seus exem­plares orig­i­nais em vinil ven­di­dos a preços altís­si­mos. O álbum traz canções como Kukua­iaCoito das Araras e Quem vai quem vem, atual­mente can­tadas em unís­sono nos shows por gente com um terço de sua idade.

Brasília (DF) 24/04/2025 - Cantora e compositora Cátia de França em entrevista à Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Repro­dução: Mes­mo cel­e­bra­da, o primeiro dis­co de Cátia não obteve recon­hec­i­men­to ime­di­a­to. Hoje é can­ta­do pelas novas ger­ações. Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/ Agên­cia Brasil

Tudo indi­ca­va que a estreia promis­so­ra de Cátia a colo­caria no mes­mo pata­mar de Elba Ramal­ho ou Amelin­ha, artis­tas que já des­fru­tavam de recon­hec­i­men­to e pop­u­lar­i­dade à época. Isso, porém, não acon­te­ceu. Mes­mo cel­e­bra­da como uma instru­men­tista bril­hante e com a boa reper­cussão do primeiro dis­co, Cátia não gan­hou tan­to destaque na indús­tria musi­cal. Além da ausên­cia de um empresário que investisse em sua car­reira, sen­tiu que ser uma mul­her negra tam­bém pesou.

“Era fácil se você fos­se loira, nórdi­ca, uma Vera Fis­ch­er ou Xuxa. Eu não era, enten­deu? Eu não tin­ha o atrib­u­to físi­co. A min­ha história era out­ra”. Chegou a lançar Estil­haços no ano seguinte, 1980, mas sem tan­to suces­so. Viu-se obri­ga­da a empun­har o vio­lão e voltar a tocar na noite. “Eu tin­ha aluguel e comi­da para pagar, voltei a tocar nos barz­in­hos em Per­nam­bu­co”. E assim se deu.

Renascimento

Mes­mo longe dos holo­fotes, nun­ca parou de com­por. “Eu disse, se eu paro eu caio. Eu com­pon­ho pra me man­ter viva”, afir­ma. A artista ampliou sua discografia e, graças à inter­net, viu nos últi­mos anos mui­ta gente redesco­brir seus álbuns. Artis­tas da nova ger­ação da músi­ca brasileira como Josyara, Juliana Lin­hares, Mar­tins e Chico Chico são fãs declar­a­dos de Cátia, que cos­tu­ma dividir o pal­co com seus jovens admi­radores.

Para o músi­co, pro­du­tor e pro­fes­sor Daniel Pitan­ga, mestre em Músi­ca pela Uni­ver­si­dade de Brasília (UnB), Cátia faz parte de uma ger­ação de artis­tas que con­tribuíram dire­ta­mente para a con­strução de uma sonori­dade da músi­ca brasileira.

“A obra da Cátia é imen­sa e vai muito além das suas com­posições, que por sinal, são muito espe­ci­ais e rep­re­sen­tam a sua for­ma de exi­s­tir e inter­pre­tar o mun­do. Como com­pos­i­to­ra, can­to­ra e mul­ti-instru­men­tista, acred­i­to que essa artista atem­po­ral con­tribuiu, e muito, com o que hoje enten­demos como músi­ca brasileira, e, sobre­tu­do, ultra­pas­sa essa rígi­da bar­reira do que é com­preen­di­do como músi­ca ‘region­al’”.

Pitan­ga tam­bém afir­ma que se mais pes­soas tivessem tido aces­so ao tra­bal­ho de Catia, é prováv­el que ela fos­se mais rev­er­en­ci­a­da den­tro do nos­so pan­teão de grandes artis­tas. “Mas para pen­sar de uma for­ma mais pos­i­ti­va, acho que é impor­tante ressaltar que a Cátia, ain­da que não fos­se a artista prin­ci­pal, esteve pre­sente e colaborou nas gravações de dis­cos mem­o­ráveis do acer­vo da MPB e mais, mes­mo que tar­dia­mente, ela hoje pode des­fru­tar, ain­da em vida, de um momen­to de vis­i­bil­i­dade e agen­da cheia, real­izan­do shows e turnês”.

Ape­sar de não ter con­quis­ta­do o Gram­my Lati­no, o álbum No ras­tro de Cata­ri­na foi acla­ma­do pela críti­ca e inte­grou as lis­tas dos mel­hores lança­men­tos de 2024. A cer­imô­nia do Gram­my tam­bém mar­cou um encon­tro entre a artista e Lulu San­tos, mais de qua­tro décadas depois da colab­o­ração do então jovem gui­tar­rista em 20 Palavras ao Redor do Sol.

Brasília (DF) 24/04/2025 - Cantora e compositora Cátia de França em entrevista à Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Repro­dução: Artis­tas da nova ger­ação da músi­ca brasileira são fãs declar­a­dos de Cátia, Foto: Fabio Rodrigues-Pozze­bom/ Agên­cIA Brasil

Sobre os anos à som­bra, Cátia não guar­da ressen­ti­men­tos. “Eu vejo tudo que eu vivi como uma ressur­reição, porque naque­le tem­po você, para tocar, tin­ha que dar o tal do jabá. A plateia, cada vez que eu can­to em qual­quer parte do Brasil, pre­dom­i­na de jovens que can­tam comi­go. É um recon­hec­i­men­to que chega num momen­to cer­to, é uma emoção que não exis­tia em 1979”.

Pro­va do suces­so é que os ingres­sos que esgo­taram mais rap­i­da­mente para o Fes­ti­val Agô, em Brasília, foram para a noite de sua apre­sen­tação. Antes do show na cap­i­tal fed­er­al, jun­to com os músi­cos Gean Ramos Pankararu e Cris­tiano Oliveira, a artista bei­jou seu vio­lão, um afa­go no insep­a­ráv­el com­pan­heiro de estra­da.

Em uma das canções de No ras­tro de Cata­ri­na, Cátia de França can­ta: “Ago­ra sei porque o vel­ho soz­in­ho fala / Sua alma tra­bal­ha / Sua exper­iên­cia não cala/ Ago­ra sei por que o cabe­lo bran­co é condecoração/ Sabedo­ria em pro­fusão”. Para ale­gria dos amantes da boa músi­ca e para a sur­pre­sa dos agentes da alfân­de­ga, a fênix paraibana ain­da é uma potên­cia cria­ti­va com muito a com­par­til­har.

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