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Queima de fogos pode desencadear crise sensorial em autistas

Ruídos prolongados também afetam crianças pequenas e idosos

Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 31/12/2025 — 08:00
Rio de Janeiro
Queima de fogos na praia de Copacabana, Réveillon Rio 2019
Repro­dução: © Alexan­dre Macieira/SECOM

Tradição na vira­da do ano, a queima de fogos de artifí­cio traz pre­juí­zos a parte da pop­u­lação mais sen­sív­el aos ruí­dos cau­sa­dos pelo estouro dos artefatos. Entre elas, idosos, cri­anças e pes­soas com Transtorno do Espec­tro Autista (TEA). O neu­ro­pe­di­atra e pro­fes­sor da Esco­la de Med­i­c­i­na e Ciên­cias da Vida da Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca do Paraná (PUCPR), Ander­son Nitsche, expli­ca que os efeitos dos fogos nos autis­tas podem ir além da hora da vira­da.  

“As cri­anças e pes­soas autis­tas têm uma sen­si­bil­i­dade maior ao som e isso causa uma per­tur­bação momen­tânea, mas que pode até durar por mais tem­po, geran­do sofri­men­to de insô­nia durante alguns dias”, afir­ma o pro­fes­sor.

Diante do barul­ho inten­so, pes­soas no espec­tro autista podem entrar no que é chama­do de crise sen­so­r­i­al, em que o estí­mu­lo gera alter­ações de com­por­ta­men­to que vão des­de ansiedade e von­tade de fugir daque­le meio, até agres­sivi­dade con­tra si ou demais pes­soas que estão ao redor.

A neu­rol­o­gista e dire­to­ra clíni­ca do Hos­pi­tal INC (Insti­tu­to de Neu­rolo­gia de Curiti­ba), Vanes­sa Rize­lio, expli­ca que as pes­soas que têm TEA não con­seguem proces­sar que aque­le ruí­do alto, por um perío­do pro­lon­ga­do, é um momen­to de cel­e­bração — uma vez que, para eles, pro­move uma sen­sação desagradáv­el que não é bem proces­sa­da pelo cére­bro.

“O cére­bro deles entende como uma coisa neg­a­ti­va, algo que está geran­do um descon­for­to e a reação vai ser sair daque­la situ­ação. Muitas vezes, isso se vai man­i­fes­tar como ansiedade, irri­tabil­i­dade, fora o pre­juí­zo depois no sono que pode impactar até o dia seguinte”, desta­ca Vanes­sa.

Fun­dado­ra da Asso­ci­ação de Neu­rolo­gia do Esta­do do Rio de Janeiro (ANERJ), a neu­ro­pe­di­atra Solange Vian­na Dul­tra, apon­ta out­ros efeitos que a queima de fogos pode des­en­cadear no organ­is­mo dessas pes­soas.

“O coração dá uma descar­ga de adren­a­li­na, acel­era, a pressão sobe. Eles não con­seguem enten­der que é uma fes­ta. É como se estivessem no meio de um tiroteio. Algu­mas pes­soas se desreg­u­lam até na hora de recreio na esco­la por causa do barul­ho”, expli­cou a espe­cial­ista.

Alternativas

Algu­mas cidades brasileiras já começaram a rev­er a práti­ca da queima de fogos na vira­da do ano em cel­e­brações públi­cas e há leg­is­lações especí­fi­cas proibindo artefatos com barul­ho. A adoção de fogos sem estampi­do, espetácu­los de luzes e apre­sen­tações com drones são alter­na­ti­vas para preser­var o sim­bolis­mo das cel­e­brações, sem impor um cus­to sen­so­r­i­al a parte da pop­u­lação.

A psicólo­ga com espe­cial­iza­ções em neu­rop­si­colo­gia e em saúde men­tal, Ana Maria Nasci­men­to, acred­i­ta que essas alter­na­ti­vas man­têm o caráter cole­ti­vo da fes­ta e ampli­am o dire­ito à par­tic­i­pação. Em um con­tex­to em que já exis­tem soluções ao barul­ho, ela defende que insi­s­tir no uso de fogos rui­dosos “parece um gesto de indifer­ença”.

“Cel­e­brar pres­supõe con­vivên­cia. Quan­do a ale­gria de uns depende do sofri­men­to de out­ros, é legí­ti­mo ques­tionar se essa tradição ain­da faz sen­ti­do”.

A neu­ro­pe­di­atra Solange Vian­na desta­ca que o sofri­men­to cau­sa­do pelo ruí­do dos fogos não é só para a cri­ança autista, mas para toda a família. Ela ressalta que, no caso de fogos silen­ciosos, a lumi­nosi­dade não é um prob­le­ma, porque bas­ta a família man­ter a cri­ança com TEA longe de janelas.

O pro­fes­sor da PUC-PR tam­bém ressalta a neces­si­dade de a sociedade olhar para a questão com mais empa­tia, adap­tan­do tradições para pro­mover a inclusão dessas pes­soas nas fes­tivi­dades.

“Acol­her, enten­der e perce­ber que há pes­soas que sofrem com deter­mi­nadas tradições é tão impor­tante quan­to as próprias vivên­cias”, apon­ta Ander­son Nitsche.

De acor­do com Nitsche, o autismo tem uma prevalên­cia mundi­al em torno de 3% da pop­u­lação. Nem todos os autis­tas têm alter­ações sen­so­ri­ais, audi­ti­vas. Para o espe­cial­ista, empa­tia é a palavra-chave para a questão. “O proces­so de inclusão pas­sa pela ideia de enten­der que há pes­soas que são difer­entes da gente e que, muitas vezes, a min­ha liber­dade fere a liber­dade do out­ro e gera nelas um sofri­men­to desnecessário”.

Idosos e crianças

Os idosos são out­ro grupo que sofre o impacto dos ruí­dos inten­sos, espe­cial­mente aque­les com demên­cia, uma vez que têm difi­cul­dade no proces­sa­men­to das infor­mações. De acor­do com Vanes­sa, o idoso com demên­cia pode entrar em sur­to de delírios e alu­ci­nações diante da queima de fogos, prej­u­di­can­do tam­bém o sono, a memória e o raciocínio para o dia seguinte.

Os bebês tam­bém são afe­ta­dos de maneira neg­a­ti­va, uma vez que têm uma neces­si­dade de dormir por perío­dos mais lon­gos do que cri­anças mais vel­has e adul­tos.

“Se o bebê pas­sa a ser des­per­ta­do por esse ruí­do ou não con­segue adorme­cer,  isso traz pre­juí­zos. Porque os fogos começam a ser solta­dos muitas horas antes e o ruí­do vai grad­ual­mente aumen­tan­do até chegar ao ápice, à meia-noite”, lem­bra Vanes­sa.

Ness­es casos, o uso no ambi­ente de out­ros sons, como ruí­do bran­co, ou de abafadores, para cri­anças maiores, pode min­i­mizar esse impacto.

Vanes­sa Rize­lio crit­i­ca que, emb­o­ra em muitas cidades brasileiras este­ja proibi­da a ven­da de fogos de artifí­cio, não há uma fis­cal­iza­ção de fato.

“Em Curiti­ba, por exem­p­lo, essa lei já está em vigên­cia há mais de cin­co anos e nós con­tin­u­amos ouvin­do muitos fogos de artifí­cio com barul­hos inten­sos sendo soltos em comem­o­rações, prin­ci­pal­mente no ano novo”. Ela defende mais rig­or para  “min­i­mizar o impacto de um com­por­ta­men­to humano que já dev­e­ria ter sido muda­do há muito tem­po”, afir­ma.

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