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Sociólogo defende ações emergenciais para conter violência nas escolas

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Confira entrevista com o pesquisador Rudá Ricci


Pub­li­ca­do em 13/04/2023 — 07:42 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

ouvir:

Ataques a esco­las, gravações com boatos, desin­for­mação e ameaças, que “antes pare­ci­am ati­tudes desco­or­de­nadas, têm se mostra­do uma onda perigosa”, diz o sociól­o­go Rudá Ric­ci, pesquisador dos temas edu­cação e cidada­nia.

Nes­sa quar­ta-feira (12), ele par­ticipou e foi um dos artic­u­ladores de encon­tro com enti­dades lig­adas ao setor para encon­trar cam­in­hos con­tra a situ­ação que tem ger­a­do temor no Brasil. O cien­tista social defende a neces­si­dade de três medi­das emer­gen­ci­ais, que incluem “des­baratar e pren­der os núcleos propa­gadores das ameaças”, o que, para as insti­tu­ições, já está sendo trata­do pelo Min­istério da Justiça.

As out­ras são “cri­ar pro­to­co­los de ori­en­tação para pais e pro­fes­sores sobre como agir em casos de ameaça,  vio­lên­cia,  agres­sivi­dade e incivil­i­dade” e “cri­ar serviço de apoio e escu­ta de psicól­o­gos e assis­tentes soci­ais” para pais e profis­sion­ais da edu­cação.

Con­fi­ra abaixo os prin­ci­pais tre­chos da entre­vista do sociól­o­go:

Agên­cia Brasil: Essas ameaças são coor­de­nadas?
Rudá Ric­ci: Não podemos negar que há uma inteligên­cia por trás dis­so. Há men­sagens, por exem­p­lo, sobre even­tu­ais ataques em uni­ver­si­dades. Ouvi áudios de uma jovem que diz ter rece­bido uma notí­cia e uma alusão aos ataques em Columbine (Esta­dos Unidos, em 20 de abril de 1999). Essas men­sagens se alas­traram como ameaça a uni­ver­si­dades brasileiras. Essas orga­ni­za­ções extrem­is­tas no país estão queren­do con­stru­ir um novo 8 de janeiro de 2023 (dia de atos ter­ror­is­tas con­tra os Três Poderes). Ago­ra, envol­ven­do a edu­cação.

Agên­cia Brasil: Quais são os prin­ci­pais pon­tos de cuida­do?
Rudá Ric­ci: Nós temos que ter cuida­do com três questões pelo menos. Em primeiro lugar, com o ambi­ente cri­a­do no Brasil. Temos que debe­lar essa ideia de que a gente resolve os prob­le­mas com as próprias mãos e que temos que ser intol­er­an­tea com quem é difer­ente. É pre­ciso debe­lar esse cli­ma de vio­lên­cia e intol­erân­cia. É a primeira medi­da que eu sugiro, ou seja, deve­mos ter uma inteligên­cia poli­cial e da sociedade civ­il artic­u­la­da para iden­ti­ficar a origem dessas ameaças e colo­car todos na cadeia.

Agên­cia Brasil: O Esta­do tem agi­do nesse cam­po, cer­to?
Rudá Ric­ci: Essa é uma primeira ação urgen­tís­si­ma. O Min­istério da Justiça ini­ciou o proces­so com o disque-denún­cia. Temos que mer­gul­har na Deep Web (parte da inter­net não encon­tra­da pelos mecan­is­mos de bus­cas). É aí que eles estão se artic­u­lan­do. Temos que iden­ti­ficar as ram­i­fi­cações e redes que se for­maram. Temos ain­da que deixar claro, inclu­sive para ess­es ado­les­centes que estão ameaçan­do, que eles vão respon­der por isso. Nós temos que coibir. E isso não se faz com guar­da arma­do na frente da esco­la. Essa é a out­ra coisa que é pre­ciso deixar claro e que nos pre­ocu­pa. Temos a exper­iên­cia dos Esta­dos Unidos, onde há guar­da arma­da no seu inte­ri­or e não debe­laram a vio­lên­cia.

Agên­cia Brasil: Por quê?
Rudá Ric­ci: Porque há uma inter­pre­tação equiv­o­ca­da de achar que ado­les­centes que estão propen­sos a atacar se intim­i­dam com guar­da, com poli­ci­a­men­to. É o con­trário. O que sabe­mos hoje é que há ado­les­centes que estão imbuí­dos dessa intenção de apare­cer pela vio­lên­cia. Eles veem a pre­sença do guar­da como desafio e, então, bus­cam out­ros tipos de estrat­a­ge­mas como colo­car bom­ba em ban­heiro e, assim, ten­tar desmor­alizar a segu­rança.

Nos Esta­dos Unidos, as guardas armadas den­tro das esco­las aumen­taram e até estim­u­la­ram atos de vio­lên­cia. Nós quer­e­mos out­ro tipo de abor­dagem, que seja por meio da inteligên­cia e não dos atos de retenção. Assim a gente pode des­baratar essa rede de ameaças nas esco­las que ago­ra, parece, está sendo obje­to da extrema dire­i­ta no Brasil.

Agên­cia Brasil: Como apoiar pais e pro­fes­sores assus­ta­dos com a situ­ação?
Rudá Ric­ci: O segun­do pon­to é que nós temos que dar suporte aos pais e pro­fes­sores. Para isso, é pre­ciso elab­o­rar pro­to­co­los.

Agên­cia Brasil: O que que sig­nifi­ca o pro­to­co­lo?
Rudá Ric­ci: Sig­nifi­ca o seguinte: diante de um boa­to de ameaça a uma esco­la, é necessária uma ori­en­tação nacional. Não pode ser um vol­un­taris­mo de um dire­tor de esco­la. Isso não resolve a onda que está se for­man­do no Brasil ou que está se ten­tan­do for­mar. É pre­ciso ter pro­to­co­lo, se hou­ver ameaça de vio­lên­cia, ou mes­mo vio­lên­cia, atos de agres­sivi­dade ou de incivil­i­dade. Definir quan­do é moti­vo para fechar a esco­la ou sus­pender aula, ou quan­do não é.

Agên­cia Brasil: Pro­fes­sor, os pro­to­co­los seri­am for­mu­la­dos pelo Esta­do?
Rudá Ric­ci: Eu acho que quem tem que for­mu­lar é a sociedade civ­il. E não em dis­pu­ta entre políti­cos nas mais vari­adas cidades. O con­hec­i­men­to para enfrentar prob­le­mas edu­ca­cionais e vio­lên­cia envol­ven­do a edu­cação está na sociedade civ­il.

Agên­cia Brasil: Qual o obje­ti­vo dessas reuniões entre as enti­dades? É a for­mu­lação de sug­estões?
Rudá Ric­ci: Fize­mos a primeira reunião com 20 enti­dades e pesquisadores nacionais, de todos os esta­dos do país. A gente pre­cisa mapear essas ameaças, que é um dos obje­tivos.

Agên­cia Brasil: O ter­ceiro pon­to é apoio psi­cológi­co, cer­to?
Rudá Ric­ci: É o seguinte: nós temos alguns país­es como a França que já tem, há muito tem­po, serviço de apoio psi­cológi­co e assis­ten­cial, até pedagógi­co, tam­bém a pro­fes­sores. Estou sug­erindo que a gente crie um serviço nacional de apoio envol­ven­do, por exem­p­lo, os mais de 2,5 mil Caps (cen­tros de Atenção Psi­cos­so­cial), os Cras (cen­tros de Refer­ên­cia de Assistên­cia Social) e tam­bém as uni­ver­si­dades, orga­ni­za­ções não gov­er­na­men­tais (ONG), para que pais e profis­sion­ais da edu­cação pos­sam ser aten­di­dos.

É o que inter­na­cional­mente se chama políti­ca do cuida­do. Há um con­tex­to rel­e­vante a ser con­sid­er­a­do. Ou seja, a gente cuidar de quem cui­da. A Cul­ti­va (ONG lig­a­da à edu­cação e cidada­nia que o pesquisador coor­de­na) mostra, por exem­p­lo, que 40% dos pro­fes­sores dessas redes reg­is­traram aumen­to de con­fli­to intrafa­mil­iar durante a pan­demia.

Quan­do temos uma sociedade desso­cial­iza­da, aumen­ta­mos a vio­lên­cia. Isso envolve angús­tia e a solidão. Espera-se que as esco­las mudem o cenário. Quan­do volta­mos da pan­demia, pen­sou-se que seria necessário cor­rer atrás dos con­teú­dos per­di­dos. Mas era muito impor­tante que nos voltásse­mos mais para a human­iza­ção.

Denúncias

Infor­mações sobre ameaças de ataques podem ser comu­ni­cadas ao canal Esco­la Segu­ra, cri­a­do pelo Min­istério da Justiça e Segu­rança Públi­ca, em parce­ria com Safer­Net Brasil. As infor­mações envi­adas ao canal serão man­ti­das sob sig­i­lo e não há iden­ti­fi­cação do denun­ciante.

Acesse o site para faz­er uma denún­cia.

Em caso de emergên­cia, a ori­en­tação é lig­ar para o 190 ou para a del­e­ga­cia de polí­cia mais próx­i­ma.

Edição: Graça Adju­to

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