...
quinta-feira ,15 janeiro 2026
Home / Saúde / Lapsos de memória podem não significar doença mental, diz psiquiatra

Lapsos de memória podem não significar doença mental, diz psiquiatra

Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Situações de estresse aumentam chances de “efeito porta”


Pub­li­ca­do em 18/06/2022 — 10:55 Por Alana Gan­dra — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

Quem nun­ca pas­sou pela situ­ação de ao entrar em out­ro ambi­ente esque­cer o que ia faz­er ali? Esse lap­so de memória é chama­do de “efeito por­ta”, ter­mo cri­a­do pelo pro­fes­sor de psi­colo­gia e ciên­cias cog­ni­ti­vas da Uni­ver­si­dade de Sheffield, na Grã-Bre­tan­ha, Tom Stafford. Ele con­sid­era que a memória fal­ha, lit­eral­mente, ao se cruzar uma por­ta.

De acor­do com a psiquia­tra Danielle H. Admoni, a memória recente está lig­a­da à atenção. “Se a gente está foca­do em muitas coisas, a nos­sa atenção diminui e, con­se­quente­mente, a nos­sa memória recente tam­bém”, expli­ca a pro­fes­so­ra da Esco­la Paulista de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Paulo (EPM/Unifesp).

Segun­do Danielle, o sim­ples fato de a pes­soa sair de um ambi­ente e pen­sar em out­ros assun­tos vai fazen­do com que ela ten­ha vários focos de atenção. Com isso, aca­ba esque­cen­do o foco de atenção primária. Para ter ess­es lap­sos de memória, não é necessário que a pes­soa este­ja em um esta­do cog­ni­ti­vo vul­neráv­el, com a mente muito sobre­car­rega­da, mas que haja uma inter­posição de focos de atenção.

Situ­ações de estresse ou quan­do a pes­soa está com muitos prob­le­mas na cabeça para resolver, entre­tan­to, aumen­tam as chances do “efeito por­ta”. “A gente está com a cabeça em mil out­ras coisas, tiran­do a nos­sa ener­gia, e aqui­lo diminui a atenção para o que a gente está fazen­do, com mil prob­le­mas, e não con­segue focar no que está fazen­do ali, naque­le momen­to”.

Estu­dos feitos na Uni­ver­si­dade de Notre Dame, nos Esta­dos Unidos, e na Bond Uni­ver­si­ty, na Aus­trália, com­pro­varam que quan­do pas­samos por uma por­ta, podemos ter lap­sos de memória em relação a obje­tos, a coisas mate­ri­ais. Um exem­p­lo típi­co é aque­le em que a pes­soa está na coz­in­ha lavan­do louça e pen­sa em ir ao quar­to pegar um fone para ouvir músi­ca. Ao chegar no quar­to, con­tu­do, ela esquece por com­ple­to o que ia pegar naque­le ambi­ente. Desiste e vol­ta para a coz­in­ha, onde con­tin­ua a lavar a louça, sem ouvir a músi­ca que dese­ja­va.

“O sim­ples ato de entrar ou sair por uma por­ta rep­re­sen­ta uma espé­cie de lim­ite de even­to na mente. Quan­do você muda de ambi­ente, muda tam­bém o foco de atenção, com­par­ti­men­ta a memória e a lem­brança se tor­na mais difí­cil”, expli­ca  o psiquia­tria pela Unife­sp, Adiel Rios, pesquisador no Insti­tu­to de Psiquia­tria da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP).

Mantendo o foco

Segun­do a psiquia­tra e pro­fes­so­ra da Unife­sp, há maneiras indi­re­tas de se man­ter a atenção naqui­lo que era primário.

“Um bom jeito é ano­tar, seja em uma agen­da vir­tu­al ou de papel, colo­car um alarme, por lem­bretes de cores difer­entes para os com­pro­mis­sos. Porque, ao bater o olho, a gente lem­bra que tem que pagar a con­ta xis, levar o fil­ho a tal hora na esco­la. A nos­sa cabeça já não dá mais con­ta de guardar tan­ta infor­mação. Então, a gente tem que ter um recur­so exter­no para isso, para jus­ta­mente lem­brar. Na hora que você olha aqui­lo, você lem­bra de algu­ma coisa que esque­ceu, porque teve out­ros focos de atenção”.

De maneira ger­al, para man­ter a saúde men­tal em dia, é pre­ciso procu­rar diminuir o estresse e ter tem­po para coisas praze­rosas. “Quan­do a gente está só pen­san­do em tra­bal­ho, prob­le­mas que não con­segue resolver, isso vai tiran­do a nos­sa ener­gia. A gente tem que ter focos de dis­tração tam­bém, como hob­bies”, enfa­ti­zou Danielle.

A mel­ho­ra da atenção e da memória tam­bém está forte­mente lig­a­da à ativi­dade físi­ca e a uma boa noite de sono. “Ter um esti­lo de vida saudáv­el, ten­tar não se sobre­car­regar e recor­rer a recur­sos exter­nos. Tudo isso aca­ba aju­dan­do a gente a não esque­cer as coisas no dia a dia”.

Ain­da segun­do Danielle, a for­ma de ver o mun­do e de respon­der aos con­fli­tos tem grande influên­cia na saúde men­tal. Quan­to mais foco a pes­soa dá a um deter­mi­na­do prob­le­ma, mais o cor­po responde com sin­tomas de estresse. Por­tan­to, uma maneira de amenizar os prob­le­mas é desen­volver for­mas saudáveis de lidar com as próprias emoções. “Nesse sen­ti­do, a psi­coter­apia surge como uma ali­a­da para o auto­con­hec­i­men­to, o auto­con­t­role e a inteligên­cia emo­cional”, desta­cou.

Técnicas

Para tra­bal­har tan­to a atenção como a memória recente, espe­cial­is­tas indicam várias téc­ni­cas para evi­tar os lap­sos de memória. Faz­er uma lista do que dese­ja lem­brar ou ain­da agru­par infor­mações impor­tantes em uma sequên­cia tem­po­ral, com começo, meio e fim. É impor­tante evi­tar que out­ro pen­sa­men­to ocupe sua mente enquan­to você estiv­er real­izan­do uma tare­fa. Jogos como xadrez, que­bra-cabeça e ativi­dades como palavras-cruzadas pro­por­cionam uma mel­ho­ra per­cep­tív­el à memória.

Out­ra téc­ni­ca inter­es­sante é assi­s­tir a um episó­dio de uma série ou um filme e ano­tar em segui­da o maior número de detal­h­es que lem­brar ou ouvir uma história e con­tar a alguém da for­ma mais fiel pos­sív­el.

Ler tam­bém é uma ativi­dade impor­tante, já que a leitu­ra pro­por­ciona exerci­tar a imag­i­nação, o raciocínio e a mem­o­riza­ção. Tam­bém é pos­sív­el resumir em tex­to o que foi lido ou estu­da­do.

“A med­i­tação tam­bém desem­pen­ha um papel impor­tante no equi­líbrio pes­soal e con­tribui para o relax­am­en­to e o des­can­so em um nív­el mais pro­fun­do, poden­do ser prat­i­ca­da em casa, inclu­sive numa pausa do tra­bal­ho”, afir­mou Adiel Rios.

Doença mental

Para a pro­fes­so­ra da Unife­sp, os lap­sos de memória, ou “efeito por­ta”, não sig­nifi­cam que a pes­soa ten­ha uma doença men­tal. “Mas é algo para ficar de olho, porque é incô­mo­do quan­do você não con­segue lem­brar as coisas. Isso traz ansiedade e angús­tia”, com­ple­ta.

No dia a dia, as pes­soas cos­tu­mam ficar expostas a uma grande quan­ti­dade de estí­mu­los, o que leva a realizar várias tare­fas simul­tane­a­mente. Entre­tan­to, segun­do Danielle, o cére­bro não está acos­tu­ma­do a rece­ber tan­tos estí­mu­los e a proces­sar inúmeras infor­mações de uma vez só.

“O resul­ta­do é o esgo­ta­men­to men­tal, poden­do sat­u­rar o cór­tex cere­bral, geran­do uma mente hiper pen­sante, agi­ta­da, impa­ciente, com blo­queio cria­ti­vo, baixo nív­el de tol­erân­cia e, claro, pre­juí­zos na memória”.

Quan­do se tem uma situ­ação de sobre­car­ga recor­rente, é pre­ciso pen­sar em novas estraté­gias e procu­rar um profis­sion­al de saúde men­tal. Ter­apeu­tas e psicól­o­gos podem aju­dar em casos mais bran­dos. Em casos mais graves, como o de pes­soas com idade avança­da, isso pode ser um sinal ini­cial de demên­cia, e é necessário o auxílio de um psiquia­tra.

Edição: Lílian Beral­do

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Saúde pública no RJ registra aumento nos atendimentos ligados ao calor

Dor de cabeça, náusea e tontura estão entre os possíveis sinais Ana Cristi­na Cam­pos — …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d