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Bordadeiras querem proteger tradição e conquistar novos mercados

Repro­dução: © Cam­in­hos da Reportagem TV Brasil

Bordado filé é considerado patrimônio imaterial de Alagoas


Pub­li­ca­do em 03/12/2022 — 09:33 Por Agên­cia Brasil — Brasília

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A ven­da para os tur­is­tas é uma das prin­ci­pais fontes de ren­da para as artesãs que fazem o bor­da­do filé na Região das Lagoas Mundaú e Man­gua­ba, em Alagoas. Mas para terem mais vis­i­bil­i­dade e recur­sos, elas querem alcançar novos mer­ca­dos e maior val­oriza­ção das peças.

O bor­da­do filé é uma téc­ni­ca de bor­da­do de origem europeia difun­di­da de ger­ação a ger­ação na região. O bor­da­do é con­struí­do a par­tir de uma rede denom­i­na­da mal­ha, com espaça­men­to pequeno, que serve de suporte. A var­iedade de pon­tos e com­plex­i­dade de exe­cução dos pon­tos entre si, além do inten­so col­ori­do, con­fer­em ao bor­da­do desse ter­ritório car­ac­terís­ti­cas sin­gu­lares de out­ros exe­cu­ta­dos com a mes­ma téc­ni­ca.

Caminhos da Reportagem Bordado filé, nas cores de Alagoas
Repro­dução: Cam­in­hos da Reportagem Bor­da­do filé, nas cores de Alagoas — Cam­in­hos da Reportagem TV Brasil

Quan­do viram seus pro­du­tos ameaça­dos pela con­cor­rên­cia do bor­da­do filé que chega­va de out­ros esta­dos às feiras de arte­sana­to, feito com mate­r­i­al mais bara­to e menos duráv­el, as bor­dadeiras alagoanas enten­der­am que pre­cisavam se unir, con­ta a artesã Petrú­cia Lopes. “Elas estavam deixan­do de faz­er nos­so filé orig­i­nal com pon­tos vari­a­dos, como as avós fazi­am, para faz­er esse filé que vin­ha de fora e vender para o tur­ista”, expli­ca.

Com a asses­so­ria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Peque­nas Empre­sas (Sebrae), difer­entes asso­ci­ações de filezeiras que atu­am em Maceió, Marechal Deodoro, Pilar, Sat­u­ba, San­ta Luzia do Norte e Coqueiro Seco se reuni­ram para cri­ar o Insti­tu­to do Bor­da­do Filé da Região das Lagoas Mundaú e Man­gua­ba, o Inbor­dal.

Orga­ni­zadas, elas con­seguiram o reg­istro do bor­da­do filé como Patrimônio Cul­tur­al e Ima­te­r­i­al de Alagoas em 2014. Dois anos depois comem­o­raram o recon­hec­i­men­to da região como Indi­cação Geográ­fi­ca (IG) pelo Insti­tu­to Nacional da Pro­priedade Indus­tri­al (INPI) na modal­i­dade Indi­cação de Pro­cedên­cia do bor­da­do filé.

O Inbor­dal é o órgão reg­u­lador do bor­da­do filé. As artesãs que vivem na região e dese­jam uti­lizar o selo da IG nas suas peças devem recor­rer à enti­dade. Para obter o selo, é pre­ciso faz­er o pro­du­to de acor­do com o Cader­no de Instrução do Bor­da­do Filé, que foi elab­o­ra­do pelas bor­dadeiras.

A mal­ha deve ter espaça­men­to de no máx­i­mo 1,5 cen­tímetro, a lin­ha tem que ser de algo­dão e uma var­iedade de pon­tos tradi­cionais pre­cisa ser usa­da no tra­bal­ho, emb­o­ra pon­tos novos tam­bém sejam aceitos. “O pro­du­to pas­sa por um Con­sel­ho Reg­u­lador com­pos­to por três artesãs do próprio insti­tu­to eleitas pelas asso­ci­adas”, expli­ca Petrú­cia, que é vice-pres­i­dente do Inbor­dal.

Caminhos da Reportagem Bordado filé, nas cores de Alagoas
Repro­dução: Cam­in­hos da Reportagem Bor­da­do filé, nas cores de Alagoas — Cam­in­hos da Reportagem TV Brasil

Pelo site do Inbor­dal, o com­prador pode ras­trear o bor­da­do filé dig­i­tan­do o códi­go pre­sente na eti­que­ta.

Segun­do Mayl­da Cristi­na Soares da Sil­va, pres­i­dente do insti­tu­to, antes da Indi­cação Geográ­fi­ca, cada grupo tra­bal­ha­va de um jeito. “A gente não tin­ha noção de preço nem de val­or, só sabia que bor­da­va, ven­dia e gan­ha­va um tro­ca­do. Com a con­sul­to­ria do Sebrae, nós apren­demos tudo: aten­der o públi­co, tabela de preço e a gente apren­deu a val­orizar o nos­so tra­bal­ho”, con­clui.

O Inbor­dal recebe encomen­das e reparte a deman­da entre as asso­ci­adas. Quan­do uma mul­her leva o bor­da­do pra casa, divide a tare­fa com as bor­dadeiras da família e todas gan­ham.  “Nós fize­mos todo um tra­bal­ho para traz­er novos clientes, o que fez com que a gente tivesse deman­da de vários esta­dos: São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso. Peg­amos tam­bém encomen­da para os Esta­dos Unidos,” con­ta Petrú­cia.

A arquite­ta e con­sul­to­ra do Sebrae Mar­ta Melo afir­ma que o mer­ca­do do arte­sana­to ain­da é incip­i­ente no Brasil. Para ela, fal­ta recon­hec­i­men­to ao val­or artís­ti­co do tra­bal­ho man­u­al. “Como o con­sum­i­dor brasileiro não está ain­da acos­tu­ma­do com a Indi­cação Geográ­fi­ca no arte­sana­to e como a ofer­ta é muito grande, elas [as artesãs] têm difi­cul­dade de posi­ciona­men­to de mer­ca­do. Então fomos procu­rar mer­ca­dos mais exclu­sivos, como algu­mas grifes, para faz­er parce­rias,” com­ple­ta Mar­ta.

Lojas em Tran­coso, na Bahia, e São Miguel dos Mila­gres, em Alagoas, têm dado vis­i­bil­i­dade ao bor­da­do filé, assim como a parce­ria com a mar­ca de bol­sas Mog, cri­a­da pelas ami­gas baianas Lívia Novaes e Ana Paula Maciel Rocha, com o propósi­to de pres­ti­giar a arte brasileira fei­ta à mão.

As sócias mapear­am as artes alagoanas e se iden­ti­ficaram com a qual­i­dade e a segu­rança pas­sa­da pelas artesãs do Inbor­dal. Elas apli­cam o bor­da­do filé na dec­o­ração das bol­sas “com o con­ceito de clás­si­co, ele­gante e atem­po­ral”, afir­ma Lívia.

A empre­sa pro­duz­iu 200 peças para expor­tação e no momen­to foca no mer­ca­do inter­no por meio de con­tatos dire­tos e ven­das nas redes soci­ais. Out­ro exem­p­lo de suces­so apon­ta­do pelo Inbor­dal foi a coleção de verão da Can­tão em 2014 que usou o bor­da­do filé nas roupas, acessórios e calça­dos.

Caminhos da Reportagem Bordado filé, nas cores de Alagoas
Cam­in­hos da Reportagem Bor­da­do filé, nas cores de Alagoas — Cam­in­hos da Reportagem TV Brasil

O esforço das artesãs tem dado resul­ta­dos. Três filezeiras foram sele­cionadas no 5º Prêmio Top 100 de arte­sana­to do Sebrae, que é a prin­ci­pal ação de recon­hec­i­men­to de quem faz pro­du­tos arte­sanais do país. Os jura­dos avaliam qual­i­dade téc­ni­ca, estéti­ca, sim­bóli­ca, ino­vação, condições de tra­bal­ho, orga­ni­za­ção da pro­dução, com­pro­mis­so socioam­bi­en­tal, exper­iên­cia com­er­cial e estraté­gias de adap­tação. A pro­pos­ta é estim­u­lar o apri­mora­men­to do arte­sana­to brasileiro.

Rota turística

Para dar mais noto­riedade ao tra­bal­ho, elas propõem a cri­ação da Rota Turís­ti­ca do Bor­da­do Filé da Região das Lagoas Mundaú e Man­gua­ba, a exem­p­lo da Rota do vin­ho, no Vale dos Vin­he­dos, no Rio Grande do Sul, e da Rota do Quei­jo, na Ser­ra da Canas­tra, em Minas Gerais.  A rota incluiria atra­tivos nat­u­rais, gas­tronômi­cos e históri­cos do ambi­ente no qual está inseri­da a tradição do filé.

Na pro­pos­ta apre­sen­ta­da pelo Inbor­dal ao gov­er­no do esta­do e às prefeituras de Maceió, Marechal Deodoro e Coqueiro Seco, as artesãs defen­d­em a cri­ação de um museu do filé e a real­iza­ção ofic­i­nas de bor­da­do, assim como pas­seios pelas ilhas de mangue, ban­ho de bica e de mar.  Visi­ta a igre­jas, san­tuários e casario que remete ao tem­po da col­o­niza­ção seri­am parte das atrações cul­tur­ais. Esportes náu­ti­cos, como pesca arte­sanal, canoagem, campe­ona­to de vela podem ter ape­lo para os tur­is­tas mais aven­tureiros. E a gas­trono­mia, com degus­tação de camarão, peix­adas e pratos à base de mariscos, com­ple­ta a exper­iên­cia.

Os tur­is­tas gan­hari­am um pas­s­aporte expe­di­do pelo Inbor­dal. “Seria o recon­hec­i­men­to do nos­so tra­bal­ho”, defende Mayl­da. “A nos­sa meta é expandir o bor­da­do da região das lagoas para todo o Brasil e para o mun­do”, pro­je­ta a pres­i­dente.

Edição: Lílian Beral­do

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