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Mulheres com doutorado crescem, mas são sub-representadas na docência

Repro­dução: © Joéd­son Alves/Agência Brasil

Estudo é da Uerj, com o apoio do Instituto Serrapilheira


Pub­li­ca­do em 11/05/2023 — 07:02 Por Ana Cristi­na Cam­pos – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Lev­an­ta­men­to do Grupo de Estu­dos Mul­ti­dis­ci­pli­nares da Ação Afir­ma­ti­va (Gemaa), do Insti­tu­to de Estu­dos Soci­ais e Políti­cos (Iesp) da Uni­ver­si­dade do Esta­do do Rio de Janeiro (Uerj), apoia­do pelo Insti­tu­to Ser­rapil­heira, mostra que o cresci­men­to do número de mul­heres com doutora­do não tem sido acom­pan­hado pelo mes­mo aumen­to de mul­heres na docên­cia.

O estu­do clas­si­fi­ca essa difer­ença de “efeito tesoura”, expressão que bus­ca des­ig­nar um mecan­is­mo de corte da pre­sença das mul­heres na ciên­cia: mes­mo ten­do estoque de doutoras disponív­el, elas são sub-rep­re­sen­tadas em deter­mi­nadas funções, como por exem­p­lo, a docên­cia.

Um exem­p­lo se dá na área de ciên­cias agrárias, onde a pari­dade de gênero no últi­mo está­gio da pós-grad­u­ação já foi alcança­da, com 51% de doutoras. Mas ape­nas 25% dos docentes per­ma­nentes nas uni­ver­si­dades do país são mul­heres. Em zootec­nia e recur­sos pesqueiros, o fenô­meno se repete: 52% dos doutores tit­u­la­dos são do sexo fem­i­ni­no, mas ape­nas 36% do cor­po docente é de pro­fes­so­ras. Para os pesquisadores, isso sig­nifi­ca que as mul­heres for­madas nes­sas áreas não estão chegan­do ao topo da car­reira.

“É impor­tante enten­der o que chamamos de ‘efeito-tesoura’ na ciên­cia para localizar exata­mente em que eta­pas da car­reira acadêmi­ca as desigual­dades de gênero se insta­lam: se na for­mação de doutoras ou no recru­ta­men­to de pro­fes­so­ras — ou em ambas”, disse, em nota, Luiz Augus­to Cam­pos, coor­de­nador do Gemaa e pesquisador apoia­do pelo Insti­tu­to Ser­rapil­heira.

Por out­ro lado, a área de ciên­cia da com­putação tem uma das menores pro­porções de mul­heres tan­to no cor­po docente (cer­ca de 20%) quan­to entre os doutores (ape­nas 18%). Segun­do o pesquisador, aqui não há, por­tan­to, que se falar em “efeito tesoura”, já que a pro­porção de pro­fes­so­ras é próx­i­ma à de doutoras. O prob­le­ma é out­ro — a baixa pre­sença de mul­heres em ger­al — e indi­ca, por exem­p­lo, que as políti­cas para a diver­si­fi­cação dessa área devem inve­stir tan­to na con­tratação de pro­fes­so­ras mul­heres quan­to na for­mação de mais doutoras.

“O desen­ho e a imple­men­tação de políti­cas públi­cas para garan­tir a igual­dade de gênero na ciên­cia pre­cisam de dados robus­tos que rev­e­lam as dis­crepân­cias entre as diver­sas áreas do con­hec­i­men­to e sinal­izam os pon­tos críti­cos a serem trata­dos”, afir­mou Cristi­na Cal­das, dire­to­ra de Ciên­cia do Insti­tu­to Ser­rapil­heira, em nota. “Por isso, é fun­da­men­tal realizar estu­dos e repeti-los sis­tem­ati­ca­mente para avaliar o impacto de políti­cas ao lon­go do tem­po.”

Há ain­da casos como o da área de ciên­cias biológ­i­cas, que apre­sen­ta pari­dade de gênero entre os docentes, com quase 50% de mul­heres pro­fes­so­ras em pro­gra­mas de pós-grad­u­ação. Mas esse per­centu­al é bem infe­ri­or à pre­sença de doutoras for­madas, que é próx­i­ma de 70%. Tra­ta-se, por­tan­to, de um cenário de maior equi­líbrio entre os gêneros, mas com algum efeito tesoura.

Out­ras áreas alcançaram a pari­dade de gênero tan­to na docên­cia quan­to no nív­el de doutora­do, sem efeito tesoura. É o caso de arquite­tu­ra e urban­is­mo (53% de doutoras e 51% de pro­fes­so­ras per­ma­nentes), história (47% de doutoras e 45% de pro­fes­so­ras per­ma­nentes) e artes (48% de doutoras e 51% de pro­fes­so­ras per­ma­nentes).

“O fato de uma área não sofr­er efeito tesoura não quer diz­er que ela ten­ha um cenário de equidade. Ao con­trário, áreas com sub-rep­re­sen­ta­tivi­dade fem­i­ni­na sim­i­lar na dis­cên­cia e na docên­cia são as que mais pre­cisam de atenção. O que essa análise aju­da a enten­der é sobre quais gru­pos as políti­cas de equidade devem atu­ar”, disse Cam­pos.

Metodologia

O estu­do se baseou em dados da Coor­de­nação de Aper­feiçoa­men­to de Pes­soal de Nív­el Supe­ri­or (Capes). O Gemaa agrupou infor­mações de docentes com vín­cu­lo per­ma­nente na pós-grad­u­ação e dis­centes tit­u­la­dos como mestres ou doutores entre os anos de 2004 e 2020, o que total­i­zou 3.904.422 casos durante o perío­do. Depois, foi atribuí­do gênero a 3.761.970 casos (96% da base), que per­mite extrair o sexo pre­sum­i­do do indi­ví­duo a par­tir de um nome. Os 4% restantes cor­re­spon­dem a nomes raros.

Segun­do o Gemaa, é impor­tante destacar que essa clas­si­fi­cação tem a lim­i­tação de ser binária. O grupo de estu­dos ressalta que ain­da não há recur­sos para alcançar esse grande mon­tante de acadêmi­cos por out­ros meios.

Edição: Graça Adju­to

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