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Em Atalaia do Norte, população convive com desemprego e violência

Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Apenas 7% da população de 15 mil habitantes estava ocupada em 2020


Pub­li­ca­do em 02/03/2023 — 06:30 Por Lety­cia Bond – Envi­a­da Espe­cial — Ata­la­ia do Norte (AM)

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Para ingres­sar no Vale do Javari, o vis­i­tante pre­cisa per­cor­rer algu­mas cidades do Ama­zonas. Depois de chegar a Tabatin­ga, onde fica o aero­por­to mais próx­i­mo, é pre­ciso pegar uma embar­cação para Ben­jamin Con­stant e, de lá, um car­ro para Ata­la­ia do Norte. Tudo isso em meio à imen­sid­ão da maior flo­res­ta trop­i­cal do mun­do e próx­i­mo à Trí­plice Fron­teira Amazôni­ca, região de inten­sos con­fli­tos por con­ta do trá­fi­co de dro­gas e de inter­ess­es fundiários.

A dis­tân­cia entre os municí­pios de Ben­jamin Con­stant e Ata­la­ia do Norte, onde fica a sede da União dos Povos Indí­ge­nas do Vale do Javari (Uni­va­ja), é de cer­ca de meia hora de car­ro, quan­do não há chu­va para atrasar a viagem.

Nos arredores e na estra­da que liga as duas cidades o que não fal­tam são sím­bo­los de quem detém o poder: loja maçôni­ca, unidade da Igre­ja Uni­ver­sal do Reino de Deus, da Assem­bleia de Deus e de out­ras con­gre­gações reli­giosas estão sem­pre pre­sentes na pais­agem.

Ain­da na estra­da, um tuk-tuk, espé­cie de tri­ci­clo motor­iza­do, esma­ga lat­in­has de refrig­er­ante e cerve­ja, na pista de sen­ti­do con­trário. Uma escav­adeira revolve lixo joga­do sobre a gra­ma, a céu aber­to, em meio a urubus. No extremo Norte do país, é pos­sív­el con­statar que Ata­la­ia divide alguns dos prob­le­mas vis­tos em grandes cen­tros urbanos.

A pais­agem muda pouco, na com­para­ção com Tabatin­ga, aonde chegam e de onde partem catra­ias, peque­nas embar­cações que pare­cem lan­chas, ras­gan­do o rio. Em Ata­la­ia, a maio­r­ia de casas é de madeira. Algu­mas são de palafi­ta, que ficam sobre uma água escu­ra. Per­to do por­to, quan­do o comér­cio vai dan­do as caras, há mais imóveis com vidros nas janelas, o que, depois de uma cam­in­ha­da para o inte­ri­or da cidade, mostra-se uma rari­dade. Não há bueiros por onde se pode escoar a água das chu­vas. E é grande o número de imóveis com con­strução pela metade.

Atalaia do Norte (AM), 29/02/2023 - Rua do centro da Atalaia do Norte, no Vale do Javari. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Ata­la­ia do Norte (AM), 29/02/2023 — Rua do cen­tro da Ata­la­ia do Norte, no Vale do Javari. Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil — Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Ata­la­ia do Norte é a cidade natal das irmãs Kar­la* e Patrí­cia*, que vivem na pele alguns dos dra­mas que atingem o municí­pio. Kar­la é víti­ma de vio­lên­cia domés­ti­ca e con­ta que, quan­do con­vivia com o mari­do, era agre­di­da de for­ma con­stante e impe­di­da de tra­bal­har por ciúmes exces­sivos.

Depois de diver­sos episó­dios, ela decid­iu denun­ciar o com­pan­heiro, que foi lev­a­do pela polí­cia à del­e­ga­cia. Na unidade, ele come­teu suicí­dio. Kar­la con­ta que tem difi­cul­dade de aceitar o fato e que sen­tiu um jul­ga­men­to, por parte da sociedade local, pela morte do mari­do.

“No dia em que acon­te­ceu, ele esta­va que­bran­do tudo den­tro de casa, e as min­has duas cri­anças pres­en­cian­do tudo. Foi quan­do eu falei que ia lig­ar para a polí­cia, porque ele não esta­va nem ouvin­do a mãe dele, que ten­tou acalmá-lo. Foi quan­do vier­am, ele esta­va deti­do”, relem­bra.

“Quan­do voltaram, me der­am a notí­cia de que ele tin­ha se sui­ci­da­do, sendo que ninguém viu. A gente saiu daqui [da cidade de Ata­la­ia]. É como se eu tivesse mata­do ele. À noite, os poli­ci­ais me levaram pra Ben­jamin, pelo rio, porque falaram que algu­mas famílias estavam atrás de mim, para me matar. Quan­do cheguei, min­ha tia me escon­deu, como se eu real­mente tivesse feito aqui­lo. Já iam me man­dar para o Peru. Eu vi pou­ca coisa do velório dele”, rela­ta.

Kar­la comen­ta que tin­ha intenções de se sep­a­rar do mari­do, quan­do fez a denún­cia, e que as agressões tiver­am iní­cio durante a gravidez do primeiro fil­ho, que tem 8 anos de idade, qua­tro de difer­ença do mais novo. Ela afir­ma tam­bém que, na época, não tin­ha noção da dimen­são da vio­lên­cia a que o mari­do a sujeita­va.

“Min­ha mãe sabia, mas eu lig­a­va e ela fala­va que isso só ia aumen­tan­do. A gente se sep­a­r­a­va, eu acaba­va voltan­do. Ela fala­va que aqui­lo ali, uma hora, ia dar em tragé­dia”, acres­cen­ta. “Aqui ain­da acon­tece muito esse tipo de vio­lên­cia, por mais que seja ina­cred­itáv­el.”

Atalaia do Norte (AM), 28/02/2023 - Movimentação no porto de Atalaia do Norte, que recebe indígenas de comunidades do Vale do Javari. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Ata­la­ia do Norte (AM), 28/02/2023 — Movi­men­tação no por­to de Ata­la­ia do Norte, que recebe indí­ge­nas de comu­nidades do Vale do Javari. Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil — Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Depois da morte do mari­do, que com­ple­tou 3 anos, Kar­la decid­iu faz­er um cur­so téc­ni­co de enfer­magem. Con­tu­do, ain­da enfrenta obstácu­los para con­seguir um emprego – que ela atribui, em parte, ao imag­inário da sociedade local de que ela seria a cul­pa­da pela trág­i­ca morte do com­pan­heiro. Pesam tam­bém fatores como o índice de desem­prego da região e a ocu­pação de vagas por indi­cações políti­cas.

No cur­rícu­lo de Kar­la, con­stam ape­nas bicos, nada de carteira assi­na­da. Um retra­to que tam­bém é vis­to nos dados ofi­ci­ais do país. Em 2022, o número de pes­soas sem carteira de tra­bal­ho assi­na­da aumen­tou 14,9% em relação a 2021 e chegou a 12,9 mil­hões, segun­do dados do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE). Em Ata­la­ia do Norte, ape­nas 7% da pop­u­lação de 15 mil habi­tantes esta­va ocu­pa­da em 2020, segun­do o IBGE.

Para garan­tir comi­da na mesa aos dois fil­hos, ela recebe auxílio estad­ual. “Von­tade de sair daqui, já tive”, desabafa. “Aqui é muito sobre políti­ca.”

Violência sexual

Atalaia do Norte (AM), 28/02/2023 - Movimentação no porto de Atalaia do Norte, que recebe indígenas de comunidades do Vale do Javari. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Ata­la­ia do Norte (AM), 28/02/2023 — Movi­men­tação no por­to de Ata­la­ia do Norte, que recebe indí­ge­nas de comu­nidades do Vale do Javari. Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil — Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Enquan­to aguar­da um emprego para garan­tir autono­mia finan­ceira, Kar­la con­ta com o apoio da família. Sua irmã, um ano mais nova, é uma das pes­soas que garan­tem esse suporte, mas que tam­bém enfrenta difi­cul­dades para con­seguir no mer­ca­do for­mal de tra­bal­ho.

Patrí­cia foi para o Peru duas vezes em bus­ca de opor­tu­nidades de emprego.

A primeira vez, em 2014, durou pouco, por fal­ta de uma rede de con­tatos no país viz­in­ho. Na segun­da ten­ta­ti­va, em 2019, ela con­heceu o atu­al mari­do. Jun­tos, abri­ram uma con­fecção de roupas que foi à falên­cia. Para ten­tar sal­var o negó­cio, pegaram din­heiro empresta­do de um agio­ta, mas não con­seguiram ter suces­so.

Hoje, Patrí­cia tem como fonte de ren­da o din­heiro que jun­ta com a ven­da de bolos. “É difí­cil ele [o mari­do] con­seguir emprego aqui, ele não fala o idioma”, con­ta.

Além da semel­hança com relação à fal­ta de per­spec­ti­va profis­sion­al, as irmãs divi­dem um triste históri­co: são víti­mas de vio­lên­cia de gênero. Patrí­cia con­ta que começou a sofr­er abu­so sex­u­al, por parte de um viz­in­ho, aos 8 anos. Mas não con­segue se lem­brar de quan­do as agressões ter­mi­naram. Seu úni­co fil­ho, de 11 anos, é fru­to de estupro.

Atalaia do Norte (AM), 29/02/2023 - Movimentação no porto de Atalaia do Norte, que recebe indígenas de comunidades do Vale do Javari. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução:  Ata­la­ia do Norte (AM), 29/02/2023 — Movi­men­tação no por­to de Ata­la­ia do Norte, que recebe indí­ge­nas de comu­nidades do Vale do Javari. Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil — Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Hoje, Patrí­cia faz acom­pan­hamen­to psi­cológi­co. “Eu pro­curei aju­da porque chegou um tem­po em que eu pen­sei em tirar a min­ha vida, por con­ta desse assun­to, porque as pes­soas sem­pre me fazem sen­tir cul­pa­da por isso.”

Para ela, políti­cas públi­cas de pro­teção a cri­anças e ado­les­centes são fun­da­men­tais para evi­tar que casos como o seu se repi­tam. “Às vezes, a pes­soa não é pre­sa, por fal­ta de provas. Mas que provas? A pes­soa está ali con­tan­do a história dela. Ninguém vai inven­tar isso”, acres­cen­ta.

Ao lon­go da últi­ma déca­da (2012 a 2021), 583,1 mil pes­soas foram víti­mas de estupro e estupro de vul­neráv­el no Brasil, segun­do os reg­istros das polí­cias. De acor­do com o Anuário Brasileiro de Segu­rança Públi­ca, ape­nas em 2021, 66.020 boletins de ocor­rên­cia de estupro e estupro de vul­neráv­el foram reg­istra­dos no Brasil, taxa de 30,9 por 100 mil e cresci­men­to de 4,2% em relação ao ano ante­ri­or.

A vio­lên­cia sex­u­al no Brasil é, na maio­r­ia das vezes, um crime per­pe­tra­do por algum con­heci­do da víti­ma, par­ente, cole­ga ou mes­mo o par­ceiro ínti­mo: 8 em cada 10 casos reg­istra­dos no ano pas­sa­do foram de auto­ria de um con­heci­do, segun­do o Anuário. O fato de o autor ser con­heci­do da víti­ma tor­na o crime ain­da mais com­plexo e a denún­cia, um desafio para as víti­mas.

No Brasil, 9 em cada 10 víti­mas de estupro tin­ham no máx­i­mo 29 anos quan­do sofr­eram a vio­lên­cia sex­u­al. Há ain­da forte con­cen­tração desse crime na infân­cia: 61,3% de todas as víti­mas eram cri­anças e ado­les­centes entre 0 e 13 anos.

Agên­cia Brasil pediu um posi­ciona­men­to à prefeitu­ra de Ata­la­ia do Norte sobre as medi­das de ger­ação de emprego e de com­bate à vio­lên­cia de gênero. Tam­bém pediu respos­ta sobre as políti­cas voltadas a cri­anças e ado­les­centes e aguar­da retorno.

 

 

*Nomes tro­ca­dos para preser­var a iden­ti­dade das entre­vis­tadas.

Edição: Lílian Beral­do

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