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Cacique Raoni recebe honraria de Macron e pede demarcações a Lula

Repro­dução: © Ricar­do Stuck­ert

Lula e Macron visitaram floresta e se reuniram com indígenas em Belém


Publicado em 26/03/2024 — 21:38 Por Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agência Brasil — Brasília

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O cacique Raoni Metuk­tire, líder do povo kayapó e um dos rep­re­sen­tantes indí­ge­nas mais recon­heci­dos inter­na­cional­mente, foi con­dec­o­ra­do, nes­ta terça-feira (26), em Belém, com a ordem do cav­aleiro da Legião de Hon­ra da França. Entregue pelo pres­i­dente francês, Emmanuel Macron, a medal­ha é a maior hon­raria con­ce­di­da pela França aos seus cidadãos e a estrangeiros que se desta­cam por suas ativi­dades no cenário glob­al.

A Legião de Hon­ra foi cri­a­da por Napoleão Bona­parte em 1802 para pre­mi­ar méri­tos mil­itares e civis recon­heci­dos pela Repúbli­ca France­sa. O even­to, que ocor­reu na Ilha do Com­bu, uma das maiores da cap­i­tal paraense, mar­cou o primeiro dia da visi­ta ofi­cial de Macron ao Brasil, que segue até a próx­i­ma quin­ta-feira (28), em uma exten­sa agen­da de com­pro­mis­sos em difer­entes cidades brasileiras.

26.03.2024 - O presidente da França, Emmanuel Macron, durante encontro com lideranças indígenas e cerimônia de condecoração do líder indígena Raoni, na Ilha do Combu. Belém - PA. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Repro­dução: O pres­i­dente da França, Emmanuel Macron, con­dec­o­ra o líder indí­ge­na Raoni, na Ilha do Com­bu, em Belém (PA). Foto: Ricar­do Stuck­ert / PR

“Caro Raoni, esse momen­to é ded­i­ca­do a você. Várias vezes você foi à França e eu me com­pro­meti a vir aqui na sua flo­res­ta, estar jun­to com os seus. Essa flo­res­ta, que é tão cobiça­da, mas que você sem­pre lutou para defendê-la durante décadas. O pres­i­dente Lula e eu, hoje, faze­mos causa comum com um de nos­sos ami­gos”, disse Macron em dis­cur­so antes de entre­gar a medal­ha ao cacique.

Em seu pro­nun­ci­a­men­to, fal­a­do no idioma kayapó e traduzi­do por um par­ente, Raoni cobrou ações do gov­er­no brasileiro para evi­tar ameaças ao des­mata­men­to, e pediu que o gov­er­no blo­queie o pro­je­to de con­strução da Fer­ro­grão. Com 933 quilômet­ros (km) de exten­são, o pro­je­to, ao cus­to de R$ 12 bil­hões, pre­vê uma fer­rovia que lig­ará Sinop, em Mato Grosso, ao por­to paraense de Mir­i­ti­tu­ba. A obra cruzaria áreas de preser­vação per­ma­nente e ter­ras indí­ge­nas, onde vivem aprox­i­mada­mente 2,6 mil pes­soas.

Projeto de ferrovia

“Pres­i­dente Lula, me escu­ta, eu subi com você na posse, na ram­pa [do Palá­cio do Planal­to], e eu quero pedir que vocês não aprovem o pro­je­to de con­strução da fer­rovia de Sinop a Mir­i­ti­tu­ba, mais con­heci­do como Fer­ro­grão”, afir­mou. “Sem­pre defen­di que não pode ter des­mata­men­to, não con­si­go aceitar garim­po. Então, pres­i­dente, quero pedir nova­mente que você tra­bal­he para que não haja mais des­mata­men­to e tam­bém que você pre­cisa demar­car as ter­ras indí­ge­nas”, con­tin­u­ou o cacique, que ain­da pediu que o gov­er­no amplie o orça­men­to da Fun­dação Nacional dos Povos Indí­ge­nas (Funai), órgão fed­er­al respon­sáv­el pela demar­cação de ter­ras das pop­u­lações orig­inárias.

Raoni falou sobre os inter­ess­es econômi­cos na extração dos recur­sos nat­u­rais, que pode invi­a­bi­lizar a vida no plan­e­ta. “Eu nun­ca con­cordei com des­mata­men­to, com extração de madeira, de minério e de ouro, e fico pre­ocu­pa­do que o homem bran­co con­tin­ue fazen­do esse tipo de ativi­dade. Fico pre­ocu­pa­do que se esse tra­bal­ho con­tin­uar, podemos ter prob­le­mas sérios no mun­do”.

Já o pres­i­dente Lula afir­mou, em dis­cur­so, que o Brasil é um país em con­strução e que a luta pelo dire­ito dos povos indí­ge­nas, quilom­bo­las e tra­bal­hadores rurais ain­da não foi resolvi­da. O pres­i­dente criti­cou os setores con­trários às demar­cações de ter­ras indí­ge­nas no país e afir­mou que seus gov­er­nos foram os que mais ampli­aram a des­ti­nação de ter­ras aos povos orig­inários.

“É impor­tante lem­brar que os con­ser­vadores brasileiros, os lat­i­fundiários brasileiros, aque­les que são con­tra a par­tic­i­pação do povo, cos­tu­mam diz­er que o povo indí­ge­na já tem mui­ta ter­ra no Brasil, que tem 14% do ter­ritório nacional. Todos os dias eles falam isso. O que eles não percebem é que os indí­ge­nas têm 14% demar­ca­da hoje, mas quan­do os por­tugue­ses chegaram aqui, em 1500, eles tin­ham 8,5 mil­hões de quilômet­ros quadra­dos, era tudo deles. Então, o fato de terem 14% legal­iza­dos é pouco diante do que eles pre­cisam ter para viv­er, man­ter a sua cul­tura e o seu jeito de viv­er. Eu ten­ho certeza abso­lu­ta que o nos­so gov­er­no é o que mais demar­cou ter­ra indí­ge­na e vai con­tin­uar demar­can­do ter­ras indí­ge­nas e par­ques nacionais, para evi­tar­mos o des­mata­men­to”.

Tam­bém estiver­am pre­sentes na comi­ti­va as min­is­tras dos Povos Indí­ge­nas, Sonia Gua­ja­jara, e do Meio Ambi­ente, Mari­na Sil­va, além da pres­i­dente da Funai, Joê­nia Wapichana, do gov­er­nador do Pará, Helder Bar­balho, e diver­sas lid­er­anças indí­ge­nas, incluin­do Davi Kope­nawa, xamã e líder dos yanomamis.

“Todo o tra­bal­ho que os povos indí­ge­nas fazem não é uma agen­da local­iza­da, é uma agen­da glob­al, uma agen­da climáti­ca, em defe­sa das flo­restas trop­i­cais e do bem-viv­er no plan­e­ta. É um pacto pelo futuro, um pacto pela vida”, desta­cou a min­is­tra Sônia Gua­ja­jara.

Unidade de conservação binacional

O pres­i­dente Emmanuel Macron desta­cou, em uma fala ao final do encon­tro, que os dois gov­er­nos têm planos de con­stru­ir uma unidade de con­ser­vação bina­cional que se esten­de­ria entre o Brasil e a Guiana France­sa (ter­ritório ultra­mari­no francês que faz fron­teira com o Amapá), tor­nan­do-se um cen­tro de refer­ên­cia em pesquisas cien­tí­fi­cas com vis­tas ao desen­volvi­men­to sus­ten­táv­el. De acor­do com o francês, serão investi­dos US$ 2 bil­hões por ambos os país­es.

Por meio de uma declar­ação inti­t­u­la­da “Chama­do Brasil-França à ambição climáti­ca de Paris a Belém e além, os país­es man­i­fes­taram o com­pro­mis­so con­jun­to de com­bate ao des­mata­men­to, pro­teção da Amazô­nia, restau­ração e gestão sus­ten­táv­el de flo­restas trop­i­cais, e desen­volvi­men­to da bioe­cono­mia, incluin­do “mecan­is­mos ino­vadores de finan­cia­men­to”.

Na chega­da a Belém, Lula e Macron foram, em um bar­co da Mar­in­ha, para a Ilha do Com­bu, na margem sul do Rio Guamá. O tra­je­to incluiu a trav­es­sia do rio e a nave­g­ação por uma área de igara­pés, onde os dois líderes pud­er­am ter con­ta­to com a Flo­res­ta Amazôni­ca preser­va­da.

Antes da reunião com indí­ge­nas, eles ain­da acom­pan­haram um exem­p­lo de pro­dução arte­sanal de cacau e choco­late na região. A ideia, segun­do o Palá­cio do Ita­ma­raty, foi mostrar ao pres­i­dente francês a com­plex­i­dade da questão amazôni­ca e as alter­na­ti­vas de desen­volvi­men­to econômi­co sus­ten­táv­el que exis­tem.

Na próx­i­ma eta­pa da viagem, Lula e Macron inau­gu­ram, na man­hã des­ta quar­ta-feira (27), o novo sub­mari­no brasileiro con­struí­do no Com­plexo Naval de Itaguaí, por meio de um acor­do de coop­er­ação tec­nológ­i­ca com a França.

Edição: Car­oli­na Pimentel

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