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Reparação e bem-viver: por que marcham as mulheres negras

Caravanas estão rumo a Brasília; marcha acontece nesta terça

Isabela Vieira — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 24/11/2025 — 09:46
Rio de Janeiro
Brasilia 23/11/2025 - Marcha de Mulheres Negras 2025. Foto: Abayomi/Divulgação
Repro­dução: © Abayomi/Divulgação

Des­de o princí­pio, teimosar, na Paraí­ba, é ver­bo. Ele nomeia a obsti­nação de um con­tin­gente de mul­heres negras que estão a cam­in­ho da 2ª Mar­cha das Mul­heres Negras por Reparação e Bem-viv­er, em Brasília. A del­e­gação via­jará quase dois dias para se jun­tar a 1 mil­hão de mul­heres no dia 25 de novem­bro.

Elas vão mar­char em defe­sa do bem-viv­er, que pas­sa pelo aces­so a dire­itos bási­cos — como mora­dia, emprego, segu­rança -, mas tam­bém por uma vida digna, livre de vio­lên­cia e por ações de reparação.

Esta agen­da inclui medi­das para pro­mover mobil­i­dade social, con­sideran­do os danos deix­a­dos pela escravidão e a expro­pri­ação da pop­u­lação negra através de sécu­los.

Na Paraí­ba, a expressão “teimosan­do” foi adap­ta­da pelo movi­men­to de mul­heres negras a par­tir de um dis­cur­so da líder quilom­bo­la e enfer­meira Elza Ursuli­no. A declar­ação canal­i­zou as aspi­rações para a mar­cha de 2025, expli­cou Dur­vali­na Rodrigues, ativista e coor­de­nado­ra da orga­ni­za­ção paraibana Abay­o­mi.

“Durante uma hom­e­nagem, em 2024, Elza, do quilom­bo Caiana dos Criou­los, no inte­ri­or do esta­do, con­tou como ela era reprim­i­da pelo pai por provo­car dis­cussões na comu­nidade, né?, [Por provo­car] Reflexões sobre a situ­ação do quilom­bo e que ela, na ‘teimozeira’, insis­tia em mel­ho­rar”.

A orga­ni­za­ção, cujo nome sig­nifi­ca “encon­tro pre­cioso”, em iorubá, que reúne e atende mul­heres negras de diver­sos per­fis, nasceu da primeira mar­cha de mul­heres negras, em 2015.

“Naque­la época, sabíamos que a mar­cha ia ser algo grande, mas nós não tín­hamos a ideia de que seria históri­co”, lem­brou Dur­vali­na.

No retorno para casa, ao faz­er um bal­anço, as ativis­tas decidi­ram fun­dar a Abay­o­mi e ampli­ar as dis­cussões que a mar­cha tin­ha pro­pos­to, com foco no enfrenta­men­to ao racis­mo e às vio­lên­cias.

Brasília - Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Repro­dução: Brasília — Mar­cha das Mul­heres Negras Con­tra o Racis­mo, a Vio­lên­cia e pelo Bem Viv­er em Brasília, de 2015. Foto: Mar­cel­lo Casal jr/Agência Brasil

Jornada

Jun­to com out­ras orga­ni­za­ções de mul­heres negras paraibanas e nordes­ti­nas, a insti­tu­ição orga­ni­zou uma série de ativi­dades ao lon­go de 2025, com o intu­ito de dis­cu­tir o bem-viv­er e a reparação, temas da mar­cha em Brasília, esse ano.

O primeiro foi abor­da­do pela per­spec­ti­va do autocuida­do como um ato políti­co, de resistên­cia, mas de impacto cole­ti­vo, e, o segun­do, como for­ma de com­pen­sar os quase 400 anos de escravidão e o lega­do racista que, até hoje, deter­mi­na as condições de vida de pes­soas negras.

Sob a óti­ca do bem-viv­er, o auto-cuida­do, que vai além de rit­u­ais indi­vid­u­ais, vol­ta a ser um tema da mar­cha, dez anos depois.

“O estresse no tra­bal­ho, no lar e na comu­nidade, geral­mente, deixa pouco tem­po para o autocuida­do, um cam­in­ho que provo­ca doenças crôni­cas, sofri­men­to psi­cológi­co e solidão” com impactos cole­tivos, expli­cou a psicólo­ga Hidelvâ­nia Mace­do, da Abay­o­mi. Por out­ra óti­ca, quan­do exer­ci­do, o auto-cuida­do impacta pos­i­ti­va­mente na autoes­ti­ma e na autode­ter­mi­nação, desta­cou.

Nes­ta segun­da edição, o bem-viv­er é trata­do ao lado da bus­ca por reparação, ou seja, de medi­das que per­mi­tam a cor­reção de dis­torções reflexo do racis­mo estru­tur­al, que é o trata­men­to desigual dados às pes­soas negras dev­i­do à estru­tu­ra da sociedade.

Ao con­trário de con­tin­gentes de imi­grantes, as pes­soas negras escrav­izadas no Brasil não tiver­am dire­ito a ind­eniza­ção após a abolição, tam­pouco aces­so à ter­ra e à edu­cação. Fre­quen­tar esco­las, por anos, era proibido.

Essas questões estão na base das desigual­dades que chegaram até os dias atu­ais. Na região Nordeste, por exem­p­lo, onde a taxa de anal­fa­betismo é o dobro da nacional (14%) e há uma maior pro­porção de pes­soas na extrema pobreza e na pobreza, vivem mais pes­soas pre­tas e par­das*.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 — Dezenas de cor­pos são trazi­dos por moradores para a Praça São Lucas, na Pen­ha, zona norte do Rio de Janeiro. Oper­ação Con­tenção. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Necropolítica

Segun­do Dur­vali­na, da Abay­o­mi, nas con­ver­sas mobi­lizadas pela insti­tu­ição, a dis­cussão por reparação ante­cede a do bem-viv­er. “Ela remete às expli­cações históri­c­as, ao colo­nial­is­mo, quan­do nos tiraram tudo, até a per­spec­ti­va exi­s­tir”, expli­cou.

Dessas ativi­dades preparatórias, Dur­vali­na rev­el­ou que emergem dis­cussões sobre políti­ca que deter­mi­nam quem tem ou não dire­ito à vida, como as de saúde e segu­rança. Para ela, essas reflexões são parte do grande lega­do da mar­cha de 2025.

“Quan­do as mul­heres começam a perce­ber que a políti­ca de morte, a necrop­olíti­ca, tem um viés históri­co, com base no racis­mo, percebe­mos um des­per­tar”, acres­cen­tou.

A necrop­olíti­ca é um con­ceito filosó­fi­co que expli­ca como algu­mas pes­soas têm mais chances de serem aban­don­adas e mor­tas por omis­são ou ação do Esta­do, sendo a própria escravidão um exem­p­lo de necrop­olíti­ca, por ter sub­meti­do pes­soas negras sis­tem­ati­ca­mente e per­ma­nen­te­mente à vio­lên­cia e à morte.

Rio de Janeiro (RJ), 27/07/2025 – XI Marcha das Mulheres Negras, em Copacabana, mobilização contra o racismo, por justiça e bem viver. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 27/07/2025 – XI Mar­cha das Mul­heres Negras, em Copaca­bana, mobi­liza­ção con­tra o racis­mo, por justiça e bem viv­er. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Manifesto

Para tratar do tema da reparação, a Mar­cha de Mul­heres Negras lançou o Man­i­festo Econômi­co e Insti­tu­cional, com pro­postas em sete eixos, incluin­do a cri­ação de um fun­do econômi­co, a tax­ação de grandes for­tu­nas e her­anças, políti­cas para redução da taxa de juros, blindagem do orça­men­to social, refor­mas agrária e urbana, além de lin­has de crédi­to e ações afir­ma­ti­vas em empre­sas que aten­dem à admin­is­tração públi­ca.

Teimosan­do como a quilom­bo­la Elza, de Caianas, Dur­vali­na, acred­i­ta que, por mais uma edição, a mar­cha estim­u­la reflexões e for­t­alece orga­ni­za­ções de mul­heres capazes de lid­er­ar e acel­er­ar trans­for­mações na sociedade brasileira.

* Os gru­pos pop­u­la­cionais pre­to e par­do, soma­dos, são os chama­dos negros, con­forme con­ven­cio­nou o Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE) e orga­ni­za­ções negras.

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