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Agência Brasil Explica: O que é bullying?

Repro­dução: © Marce­lo Camargo/Agência Brasil

Especialistas alertam sobre os impactos às vítimas


Pub­li­ca­do em 07/04/2023 — 07:10 Por Elaine Patri­cia Cruz – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

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Dias após mais um ataque a esco­las, com a morte de qua­tro cri­anças em Blu­me­nau, San­ta Cata­ri­na, espe­cial­is­tas ouvi­dos pela Agên­cia Brasil falam sobre os impactos do bul­ly­ing entre os estu­dantes. Nes­ta sex­ta-feira (7), Dia Nacional de Com­bate ao Bul­ly­ing e à Vio­lên­cia nas Esco­las, o assun­to está ain­da mais em evidên­cia no país.

“O tipo de vio­lên­cia mais fre­quente na infân­cia e no iní­cio da ado­lescên­cia é o bul­ly­ing”, disse Maria Fer­nan­da Tour­in­ho Peres, pro­fes­so­ra do Depar­ta­men­to de Med­i­c­i­na Pre­ven­ti­va da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) e coor­de­nado­ra do Lab­o­ratório Inter­dis­ci­pli­nar de Estu­dos sobre Vio­lên­cia e Saúde (Lieves).

Cri­a­da em 2016 para aler­tar para neces­si­dade de se pre­venir o bul­ly­ing e out­ros tipos de vio­lên­cia nas esco­las, a data relem­bra a tragé­dia ocor­ri­da em 2011, quan­do um jovem de 24 anos inva­diu uma esco­la em Realen­go, no Rio de Janeiro, e assas­si­nou 12 cri­anças.

“O bul­ly­ing é um tipo de vio­lên­cia per­sis­tente. Não é uma situ­ação de vio­lên­cia que acon­tece uma vez e se esgo­ta. É um tipo de vio­lên­cia que tende a ser per­sis­tente no tem­po e tende a ser recor­rente. Geral­mente é aque­la situ­ação em que, por exem­p­lo, um aluno ou um ado­les­cente na esco­la fica sis­tem­ati­ca­mente e fre­quente­mente sendo alvo desse tipo de vio­lên­cia”, ressaltou a pro­fes­so­ra.

Violência

Para ser con­sid­er­a­do bul­ly­ing, pre­cisa haver um dese­qui­líbrio de poder entre as partes envolvi­das. “O bul­ly­ing é um tipo de vio­lên­cia que se estru­tu­ra, que surge e que se sus­ten­ta em torno de dese­qui­líbrio de poder. Então há um polo mais empoder­a­do — ou que sim­boli­ca­mente ou social­mente ocu­pa uma posição de poder mais forte — e um polo que ocu­pa uma posição de poder mais frag­iliza­do”, expli­cou Maria Fer­nan­da.

“A palavra bul­ly­ing deri­va do ter­mo inglês bul­ly, que tem um sen­ti­do como sub­stan­ti­vo que sig­nifi­ca agres­sor e em ter­mos ver­bais sig­nifi­ca intim­i­dar. Bul­ly­ing, como deriva­do, é definido como um com­por­ta­men­to agres­si­vo. No Brasil o ter­mo surgiu no final dos anos 90”, expli­cou Araceli Albi­no, pres­i­dente do Sindi­ca­to dos Psi­canal­is­tas do Esta­do de São Paulo.

Segun­do Zeyne Alves Pires Scher­er, pro­fes­so­ra asso­ci­a­da da Esco­la de Enfer­magem de Ribeirão Pre­to da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP), essa palavra é uti­liza­da em diver­sos país­es no mun­do “para definir o com­por­ta­men­to agres­si­vo com ‘o dese­jo con­sciente e delib­er­a­do de mal­tratar out­ra pes­soa e colocá-la sob ten­são’”.

A lei que insti­tu­iu o Pro­gra­ma de Com­bate à Intim­i­dação Sis­temáti­ca define que o bul­ly­ing é todo ato de vio­lên­cia físi­ca ou psi­cológ­i­ca que ocorre de for­ma inten­cional e repet­i­ti­va, mas sem moti­vação evi­dente, com o obje­ti­vo de intim­i­dar, agredir ou provo­car dor ou angús­tia em uma ou mais pes­soas.

Perfis

As prin­ci­pais víti­mas de bul­ly­ing, segun­do Araceli, são as pes­soas que apre­sen­tam uma cer­ta frag­ili­dade seja ela físi­ca, int­elec­tu­al, social ou finan­ceira. De acor­do com Zeyne, a pes­soa que é víti­ma de bul­ly­ing cos­tu­ma ficar iso­la­da ou é excluí­da do con­vívio dos cole­gas. Ela tam­bém pas­sa a man­i­fes­tar sen­ti­men­tos como ansiedade, ten­são, medo, rai­va reprim­i­da, angús­tia, tris­teza, des­gos­to, impotên­cia e rejeição, mágoa, dese­jo de vin­gança e até pen­sa­men­tos sui­ci­das.

“Tudo que é exces­si­vo é moti­vo para se pre­ocu­par: quan­do o sujeito está muito agres­si­vo, ou muito iso­la­do, quan­do perde o inter­esse na esco­la, em sair de casa, ou apre­sen­ta sin­tomas físi­cos de adoec­i­men­to, é impor­tante os famil­iares, edu­cadores e ami­gos prestarem atenção porque algu­ma coisa está erra­da. O mel­hor é prestar atenção, con­ver­sar e, em caso grave, procu­rar um profis­sion­al espe­cial­iza­do, seja o psi­canal­ista, psicól­o­go, médi­co e até um psiquia­tra em deter­mi­na­dos casos graves”, expli­cou Araceli.

Já o per­fil do agres­sor é geral­mente asso­ci­a­do a uma pes­soa que tem mais autori­dade. “Ele pre­cisa afir­mar o seu poder pelos atos vio­len­tos, ele pre­cisa se afir­mar por meio de ações vio­len­tas”, disse ela.

Além de ser um fenô­meno psi­cos­so­cial, Zeyne desta­ca ain­da que o bul­ly­ing apre­sen­ta tam­bém um caráter epi­demi­ológi­co e que, por isso, “pre­cisa ser com­bat­i­do como as out­ras for­mas de vio­lên­cia”.

Características do bullying

bul­ly­ing é car­ac­ter­i­za­do por diver­sas for­mas de agressão ou desre­speito sejam eles ver­bais ou físi­cos.

“Esse bul­ly­ing pode ser ver­bal, como colo­car apeli­dos que machu­cam ou que um ado­les­cente não goste; pode ser um bul­ly­ing físi­co; pode ser sex­u­al; pode ser aque­le que exclui social­mente um ado­les­cente das brin­cadeiras e dos encon­tros; e pode ser tam­bém pat­ri­mo­ni­al, quan­do se pega esto­jos e cader­nos ou ras­ga obje­tos [de out­ros]”, desta­cou Maria Fer­nan­da.

“O bul­ly­ing é man­i­fes­ta­do por inúmeras ações como ofend­er, zoar, sacanear, humil­har, intim­i­dar, con­stranger, dis­crim­i­nar, ater­rorizar, ame­drontar, tiranizar, excluir, iso­lar, igno­rar, perseguir, chan­tagear, asse­di­ar, ameaçar, difamar, insin­uar, agredir, bater, chutar, der­rubar, ferir, escon­der, que­brar, fur­tar e roubar per­tences. A prin­ci­pal difer­ença das out­ras for­mas de vio­lên­cias é o poten­cial do bul­lyingem causar trau­mas irreparáveis ao psiquis­mo das víti­mas, com­pro­m­e­tendo sua saúde físi­ca e men­tal e seu desen­volvi­men­to socioe­d­u­ca­cional”, expli­cou Zeyne.

Uma pesquisa con­duzi­da por Maria Fer­nan­da com 2,7 mil ado­les­centes do nono ano do ensi­no fun­da­men­tal de 119 esco­las públi­cas e pri­vadas da cidade de São Paulo apon­tou que três em cada dez estu­dantes já pas­sou por situ­ações de bul­ly­ing nas esco­las.

Os dados indicaram que o bul­ly­ing psi­cológi­co ou ver­bal (“ofen­sas, sar­ros e risos”) foi mais fre­quente (17,5%) do que aque­le que envolve agressão físi­ca (3,7%). Do total de ado­les­centes, 6% dis­ser­am ain­da ter sofri­do bul­ly­ing de cono­tação sex­u­al. Além dis­so, 15% dos jovens admi­ti­ram já ter prat­i­ca­do bul­ly­ing com cole­gas, enquan­to 19% dis­ser­am ter prat­i­ca­do algum tipo de agressão físi­ca.

O combate ao bullying

O com­bate ao bul­ly­ing deve ser ini­ci­a­do pelo entendi­men­to de que ele não é uma brin­cadeira, mas uma for­ma de vio­lên­cia. “O bul­ly­ing é um prob­le­ma, ele não é uma brin­cadeira. A existên­cia do bul­ly­ing para mim sig­nifi­ca a existên­cia de vio­lên­cia na relação entre os ado­les­centes”, apon­tou Maria Fer­nan­da.

De acor­do com a pro­fes­so­ra, por se tratar de uma man­i­fes­tação vio­len­ta, ele pre­cisa ser com­bat­i­do de for­ma con­jun­ta pela sociedade.

“Qual­quer estraté­gia de pre­venção à vio­lên­cia nas esco­las pede uma sen­si­bi­liza­ção, uma mobi­liza­ção e uma par­tic­i­pação de toda a comu­nidade esco­lar, não só dos envolvi­dos. E não é tão efi­caz que as inter­venções sejam sep­a­radas das dinâmi­cas ger­al da esco­la”, afir­mou Maria Fer­nan­da.

A pro­fes­so­ra ressalta ain­da que a questão da vio­lên­cia não será resolvi­da ape­nas om a esco­la. Para ela, é “injus­to exi­gir ou esper­ar que a esco­la dê con­ta de um prob­le­ma tão com­plexo soz­in­ha”.

“A esco­la gan­ha relevân­cia porque os ado­les­centes e as cri­anças pas­sam grande parte dos seus dias nas esco­las. Mas isso não sig­nifi­ca — e não é efi­caz pen­sar – que ape­nas a esco­la é respon­sáv­el por pre­venir essas questões ou inter­ferir nes­sas situ­ações”, declar­ou. “Quan­do falam­os em pre­venção da vio­lên­cia — e bul­ly­ing é um tipo de vio­lên­cia — a gente recon­hece e recomen­da a con­strução de ações que sejam inter­se­to­ri­ais. Há que ter a par­tic­i­pação da esco­la, do setor da saúde, da assistên­cia social e dos con­sel­hos tute­lares”, acres­cen­tou.

Para a pres­i­dente do sindi­ca­to dos psi­canal­is­tas, o assun­to causa sofri­men­to à víti­ma e tam­bém demon­stra uma doença psíquica do agres­sor, “que pode até a come­ter atos irreparáveis às víti­mas e a ele mes­mo”.

“O bul­ly­ing não é uma fase ou uma parte nor­mal da vida, não é um com­por­ta­men­to saudáv­el e nem social­mente aceito. Não é um prob­le­ma esco­lar que os pro­fes­sores têm que resolver: é uma questão do núcleo famil­iar — e estes pre­cisam encar­ar o prob­le­ma de frente”, disse Araceli.

Na avali­ação de Maria Fer­nan­da, o com­bate ao bul­ly­ing pas­sa tam­bém pelo apro­fun­da­men­to do diag­nós­ti­co e do con­hec­i­men­to. Essas infor­mações servirão de base para medias públi­cas.

“Pre­cisamos qual­i­ficar as infor­mações de cen­sos esco­lares, de noti­fi­cações de bul­ly­ing e de vio­lên­cias e de difer­entes setores que com­põem o sis­tema de garan­tia de dire­itos de cri­anças e ado­les­centes e deixar essas infor­mações disponíveis para que se pro­duza con­hec­i­men­to. Com esse con­hec­i­men­to, podemos ger­ar políti­cas efe­ti­vas e pro­gra­mas que serão imple­men­ta­dos nas esco­las, em parce­ria com unidades de saúde e com capac­i­tação do con­sel­ho tute­lar”, disse.

Para Araceli, o enfrenta­men­to a esse tipo de vio­lên­cia deve envolver tam­bém o afe­to. “Com­bat­er o bul­ly­ing e qual­quer out­ro tipo de vio­lên­cia é fun­da­men­tal para o proces­so de human­iza­ção. É necessário que ten­hamos respon­s­abil­i­dade com o proces­so civ­i­liza­tório: e este só pode acon­te­cer com con­hec­i­men­to, com cul­tura e amorosi­dade. É necessário e urgente que se ten­ha maturi­dade políti­co-social para que as pes­soas pos­sam se reconec­tar com os bons afe­tos e se dis­tan­ciar da vio­lên­cia. Só os bons sen­ti­men­tos e o con­hec­i­men­to pode nos per­mi­tir lidar com as frus­trações e com a dor inevitáv­el, sem adoec­i­men­to”, acres­cen­tou.

Edição: Heloisa Cristal­do

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