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Em centenário, especialistas rediscutem legados da Semana de 22

Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

Modernistas tinham utopia de transformação que não foi alcançada


Pub­li­ca­do em 15/02/2022 — 06:40 Por Elaine Patri­cia Cruz* – Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

“Eu creio que [nós], os mod­ernistas da Sem­ana de Arte Mod­er­na, não deve­mos servir de exem­p­lo a ninguém. Mas podemos servir de lição”. Vinte anos após a sem­ana ter sido real­iza­da e pouco tem­po antes de mor­rer, o escritor Mário de Andrade ofer­e­ceu, durante uma palestra, uma visão mais críti­ca sobre o even­to de 1922, que é con­sid­er­a­do o mar­co do mod­ernismo no Brasil e de rup­tura com as cor­rentes estéti­cas vigentes até então.

Alguns anos depois dessa declar­ação de Mário, ao ser ques­tion­a­do por um repórter sobre o aniver­sário de 30 anos do even­to, o poeta Manuel Ban­deira tam­bém fez suas reflexões: “Acho per­feita­mente dis­pen­sáv­el comem­o­rar o trigési­mo aniver­sário da Sem­ana. Que esperem o cen­tenário. Se no ano de 2022 ain­da se lem­brarem dis­so, então sim”.

Pas­sa­dos 100 anos, a Sem­ana de Arte Mod­er­na é lem­bra­da e cel­e­bra­da em diver­sos even­tos pro­gra­ma­dos em todo o Brasil, mas sua importân­cia vem sendo revisa­da e seus lega­dos, redis­cu­ti­dos.

“A Sem­ana de 22 teve um impacto em 1922, no momen­to em que ela acon­te­ceu. E isso não é uma metá­fo­ra, foi lit­eral­mente nesse momen­to”, disse Luiz Arman­do Bagolin, pro­fes­sor do Insti­tu­to de Estu­dos Brasileiros (IEB) da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) e curador da exposição Era Uma Vez o Mod­er­no, em car­taz no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, na cap­i­tal paulista.

“Todo mun­do me per­gun­ta qual é o lega­do dos mod­ernistas para nós hoje. Mas eles não deixaram lega­do nen­hum”, enfa­ti­zou o espe­cial­ista.

“O que existe são apro­pri­ações que faze­mos, à nos­sa época, das obras, do pen­sa­men­to e do que foi pro­duzi­do por essa tur­ma. E den­tro dessas apro­pri­ações que têm sido feitas des­de os anos 60, existe tam­bém uma revisão críti­ca dessas posições — o que é abso­lu­ta­mente nor­mal, salu­tar, bem-vin­do, acho que faz parte do que chamamos de recepção históri­ca. Eles viver­am a história deles. Nós vive­mos nos­sa história”, avaliou.

“O que podemos faz­er é recep­cionar o que eles fiz­er­am. E a nos­sa recepção não pode ser ape­nas pas­si­va, ela tem que ser críti­ca. A gente tem que pen­sar para o bem ou para o mal no que eles pro­duzi­ram. E, prin­ci­pal­mente: o que vamos faz­er 100 anos depois? Essa é a per­gun­ta”, desta­cou Bagolin.

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Segun­do o pro­fes­sor do IEB, o mod­ernismo brasileiro envolveu uma utopia de trans­for­mação, que não se con­cretizou para aque­les artis­tas e int­elec­tu­ais da Sem­ana de 22.

“O mod­ernismo, em toda parte do mun­do, sem­pre envolveu uma dimen­são utópi­ca, que é a per­spec­ti­va de con­vert­er a real­i­dade social, políti­ca e humana em que vive­mos para uma real­i­dade maior, por inter­mé­dio da arte. E eles não con­seguiram”, expli­cou.

“Lá, no iní­cio dos anos 40, do pon­to de vista do Mário de Andrade, não é pos­sív­el você ser mod­er­no diante de um país que con­tin­ua ten­do tan­tas desigual­dades.”

Em uma car­ta escri­ta em 1944, mas nun­ca envi­a­da a Manuel Ban­deira, e que está sendo exibi­da na exposição Era Uma Vez o Mod­er­no, o escritor Mário de Andrade fala sobre esse des­en­can­to.

“É uma car­ta que, se você lê na ínte­gra, é muito tocante. Ela rev­ela um pro­fun­do amor do Mário de Andrade pelo Brasil, mas tam­bém um pro­fun­do des­en­can­to pela situ­ação que o país pas­sa­va naque­le momen­to. E ele não vê saí­das porque antes fazia parte do pro­je­to utópi­co do mod­er­no: a arte pode­ria ser uma saí­da. Ago­ra, nem isso. Nem mais a arte o põe num hor­i­zonte pos­sív­el de saí­da”, anal­isou Bagolin.

Cartas e obras de Mário de Andrade na exposição Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], com curadoria do pesquisador Luiz Armando Bagolin e do historiador Fabrício Reiner, no Centro Cultural Fiesp, Avenida Paulista.
Repro­dução: Car­tas e obras de Mário de Andrade na exposição Era Uma Vez o Mod­er­no [1910–1944], com curado­ria do pesquisador Luiz Arman­do Bagolin e do his­to­ri­ador Fab­rí­cio Rein­er, no Cen­tro Cul­tur­al Fiesp, Aveni­da Paulista. — Rove­na Rosa/Agência Brasil
“Naque­le momen­to, especi­fi­ca­mente, que já era o ápice do Esta­do Novo de [Getúlio] Var­gas, o Mário de Andrade acha que, além de ter desigual­dades, ain­da esta­mos sob um Esta­do que é bru­tal, ultra­con­ser­vador, que fica alarde­an­do os val­ores da família, da pátria e de Deus, mas persegue seus cidadãos. Os que dis­cor­davam ou tin­ham out­ro pon­to de vista no iní­cio da déca­da de 30 eram persegui­dos politi­ca­mente. No final do Esta­do Novo, na fase mais bru­tal do regime de Getúlio Var­gas, as pes­soas eram pre­sas. Como é que você pode ser mod­er­no em um lugar assim, em um país assim, em um país que não resolve as neces­si­dades bási­cas do seu cidadão?”, desta­cou.

Literatura

A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos principais escritores e intelectuais do Modernismo, integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.
Repro­dução: A Casa Mário de Andrade, onde viveu um dos prin­ci­pais escritores e int­elec­tu­ais do Mod­ernismo, inte­gra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo. — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Em ter­mos literários, pen­san­do na apro­pri­ação e recepção críti­ca do tra­bal­ho dos mod­ernistas, é pos­sív­el diz­er que essa influên­cia extrapolou fron­teiras. Um exem­p­lo é o impacto sobre a pro­dução literária africana, expli­ca a pro­fes­so­ra de estu­dos com­para­dos de lit­er­at­uras de lín­gua por­tugue­sa da Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP) Vima Lia de Rossi Mar­tin.

“Na ver­dade, o que acho que vai impactar a pro­dução africana não é exata­mente a Sem­ana, mas essa pro­dução poéti­ca mais ger­al”, disse.

Entre os escritores que inspi­raram a lit­er­atu­ra africana estão Manuel Ban­deira, Mário de Andrade e, prin­ci­pal­mente, os escritores region­al­is­tas como Jorge Ama­do, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

“O impacto tem a ver com a escri­ta dos tex­tos, com os temas e com o modo. E aqui pen­so muito na chama­da lit­er­atu­ra region­al­ista mes­mo, no impacto da leitu­ra de Vidas Secas [de Gra­cil­iano Ramos] por alguns escritores de Cabo Verde que vão, inclu­sive, iden­ti­ficar uma sim­i­lar­i­dade climáti­ca entre o inte­ri­or do Nordeste brasileiro e a própria condição das ilhas vul­câni­cas”, disse.

“Esse exem­p­lo dos tex­tos sobre a seca é bem rev­e­lador desse encon­tro de aspi­rações de alguns africanos com esse movi­men­to de autores brasileiros que, nos seus pro­je­tos literários, optam por dis­cu­tir aspec­tos da real­i­dade brasileira, de olhar para pop­u­lações mar­gin­al­izadas, de olhar para os reti­rantes nordes­ti­nos”, com­ple­tou.

O mod­ernismo brasileiro, diz Vima, é fonte de inspi­ração para a pro­dução literária africana, prin­ci­pal­mente a par­tir da déca­da de 40.

“[O mod­ernismo brasileiro] tem um impacto enorme para os int­elec­tu­ais e escritores africanos de lín­gua por­tugue­sa — e estou con­sideran­do sobre­tu­do Ango­la, Moçam­bique e Cabo Verde. No momen­to de con­sol­i­dação daque­las lit­er­at­uras e de afir­mação nacional­ista dess­es país­es, em que as lutas armadas estavam se con­sti­tuin­do e muitos int­elec­tu­ais estavam tra­van­do uma batal­ha no cam­po da cul­tura e da lit­er­atu­ra e ten­tan­do insti­tuir uma lit­er­atu­ra nacional­ista, o Brasil foi uma fonte de inspi­ração enorme para ess­es int­elec­tu­ais”, acres­cen­tou.

A pro­fes­so­ra da USP cita como exem­p­lo um poe­ma escrito pelo poeta Oví­dio Mar­tins, de Cabo Verde, no qual ele esta­b­elece um diál­o­go inter­tex­tu­al com um dos poe­mas mais con­heci­dos de Manuel Ban­deira, Vou-Me Emb­o­ra pra Pasár­ga­da.

“O Ban­deira pub­li­ca esse poe­ma em 1930, no livro Lib­erti­nagem, e o Oví­dio Mar­tins, em 1974, às vésperas da con­quista da Inde­pendên­cia por Cabo Verde, vai escr­ev­er um tex­to chama­do Anti-evasão. Um tema forte do poe­ma do Ban­deira é o eva­sion­is­mo, a ideia de poder ir pra Pasá­gar­da, que é esse espaço idíli­co, de pos­si­bil­i­dade de sat­is­fação dos dese­jos e tal. De poder estar em out­ro tem­po e out­ro lugar de sat­is­fação, de plen­i­tude”, anal­isou.

“O Oví­dio Mar­tins, num con­tex­to cabo-ver­diano de luta pela inde­pendên­cia, vai escr­ev­er seu Anti-evasão em que, de algum modo, nega essa ideia de sair do espaço — e o espaço con­sid­er­a­do é Cabo Verde — e vai reivin­dicar a pos­si­bil­i­dade e o dire­ito de ficar em Cabo Verde para poder lutar pela inde­pendên­cia”, expli­cou.

“Esse é um exem­p­lo muito claro desse diál­o­go inter­tex­tu­al em que a lit­er­atu­ra e a poe­sia brasileira vão inspi­rar a pro­dução poéti­ca africana de lín­gua por­tugue­sa.”

Para Vima, é pos­sív­el faz­er um para­le­lo dessa influên­cia do mod­ernismo brasileiro na lit­er­atu­ra africana com a Antropofa­gia, man­i­festo escrito pelo escritor mod­ernista Oswald de Andrade e que pre­tendia repen­sar a questão da dependên­cia cul­tur­al do país.

“Acho que, se de um lado os escritores brasileiros foram inspi­ração para os escritores africanos, a apro­pri­ação que os africanos fazem da lit­er­atu­ra brasileira não é uma apro­pri­ação pací­fi­ca. É um gesto cria­ti­vo, tem a ver sim com a deg­lu­tição, com a antropofa­gia. Então é uma lit­er­atu­ra angolana, moçam­bi­cana, cabo-ver­diana, são-tomense que se dá em diál­o­go com a lit­er­atu­ra brasileira, mas em um diál­o­go críti­co”, afir­mou.

“Acho impor­tante enfa­ti­zar essa dimen­são cria­ti­va que se dá por parte de alguns escritores africanos. Não tem nada a ver com assim­i­lação pas­si­va, mas podemos pen­sar em uma antropofa­gia, oper­a­da em ter­ritórios africanos”, anal­isou a pro­fes­so­ra.

Con­fi­ra todas as matérias da série que a Agên­cia Brasil tem pub­li­ca­do sobre o cen­tenário da Sem­ana de Arte Mod­er­na.

 

*Colaborou Eliane Gonçalves, repórter da Rádio Nacional

Edição: Lílian Beral­do

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