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Jovens de comunidade periférica do Recife tocarão para o Papa Leão

Orquestra Criança Cidadã criou novos acordes na comunidade do Coque

Luiz Cláu­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 27/09/2025 — 08:02

Brasília                                                                                                                                Ver­são em áudio

Recife (PE), 25/09/2025 - Integrantes da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: © Augus­to Cataldi/Ascom OCC

A vas­soura, como o cor­po do vio­lon­ce­lo. O lápis, como o arco que desliza sobre as cor­das. Na imag­i­nação da per­nam­bu­cana Callyan­dra San­tos, a músi­ca na cabeça obstruía até os sons dos tiros nas ruas do bair­ro do Coque, uma das regiões mais vio­len­tas — e estigma­ti­zadas — do Recife (PE). Na época, aos 9 anos, ela havia ingres­sa­do na Orques­tra Cri­ança Cidadã, um pro­je­to sem fins lucra­tivos pelo qual já pas­saram mais de mil cri­anças e ado­les­centes como ela. Novos acordes entraram pela janela da comu­nidade que, em 2006, tin­ha o menor IDH da cap­i­tal per­nam­bu­cana. 

Hoje, aos 17 ano, Callyan­dra foi uma das 11 sele­cionadas da orques­tra de jovens do Recife para tocar fora do país em uma turnê pela Ásia e Europa. Eles estarão acom­pan­hados de músi­cos de país­es em guer­ra, como palesti­nos e israe­lens­es, ucra­ni­anos e rus­sos, além de core­anos do Sul e do Norte.

A turnê do que está sendo chama­do de “Con­cer­to pela Paz” pre­vê apre­sen­tações em Seul (na Cor­eia do Sul, na terça, dia 30), em Hiroshi­ma e Osa­ka (Japão, nos dia 4 e 5 de out­ubro), em Roma (Itália, no dia 7) e no Vat­i­cano para o Papa (no dia 8).

“Nada foi em vão”

Recife (PE), 25/09/2025 - Callyandra Coutinho, integrante da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: Recife (PE) — Callyan­dra Coutin­ho, inte­grante da Orques­tra Cri­ança Cidadã. Foto: Augus­to Cataldi/Ascom OCC

Na história de Callyan­dra, como na de seus cole­gas, nada foi sim­ples. A mãe, Sara Coutin­ho, de 47 anos, tra­bal­ha todas as madru­gadas em uma fábri­ca de refrig­er­ante situ­a­da a mais de uma hora de casa. Ela tem dire­ito a ape­nas uma fol­ga por sem­ana e só con­segue ouvir a fil­ha ensa­iar na hora do almoço — enquan­to a meni­na treina com o vio­lon­ce­lo, a mãe con­segue des­cansar com esse novo som. “É uma opor­tu­nidade úni­ca na vida. Fico muito orgul­hosa”, diz a mãe.

Sara é mãe solo e soube da orques­tra pelo sobrin­ho, Davi Andrade, que começou no pro­je­to aos 7 anos de idade. Ele for­mou-se em músi­ca na Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Per­nam­bu­co (UFPE) e hoje, aos 26, é pro­fes­sor. Davi tam­bém fará a turnê. Os viz­in­hos dele já se acos­tu­maram com a tril­ha sono­ra na por­ta de casa.

“Na músi­ca, o meu pri­mo Davi foi quem mais me inspirou. Ele virou tam­bém meu pro­fes­sor”, garante Callyan­dra.

Ao teste­munhar a tra­jetória do rapaz, a meni­na tam­bém pre­tende seguir as lin­has de suas par­ti­turas: ir para a fac­ul­dade no ano que vem cur­sar músi­ca.

Na vida, a luta diária da mãe e a lem­brança da avó, que mor­reu durante a pan­demia de Covid, em 2020, inspi­ram a garo­ta e fazem com que ela respire fun­do na hora de tocar.

“Eu quero mostrar para elas que nada foi em vão”, diz Callyan­dra.

Bach de encher os olhos

 

Recife (PE), 25/09/2025 - Davi Andrade, integrante da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: Recife (PE) — Davi Andrade, inte­grante da Orques­tra Cri­ança Cidadã. Foto: Augus­to Cataldi/Ascom OCC

Entre tan­tas músi­cas que já pas­saram por suas jovens cor­das, a “Suíte para vio­lon­ce­lo Nº 1”, de Johann Sebas­t­ian Bach, faz a meni­na do Coque encher os olhos de lágri­mas, enquan­to faz o arco se mover entre o pre­sente, o pas­sa­do e o que quer para o futuro.

Davi, o pri­mo e inspi­ração da Callyan­dra, recor­da que apren­deu o vio­lon­ce­lo com o instru­men­to apoia­do, mes­mo ain­da sem con­seguir pis­ar no chão de tão pequeno que era em com­para­ção com o equipa­men­to.

“Com 13 anos de idade, eu vi que seria a min­ha profis­são porque mudou a min­ha história e da min­ha família”.

Era na sede da orques­tra que ele fazia as três refeições do dia, em um quar­tel do Exérci­to (7º Depósi­to de Supri­men­to), insti­tu­ição com o qual o pro­je­to de músi­ca tem parce­ria. Na ado­lescên­cia, o rapaz tocou diante do Papa Fran­cis­co.

Com ape­nas 19 anos de idade, virou pro­fes­sor no núcleo da orques­tra em uma área rur­al da cidade de Igaras­su (PE). Lá, ele ensi­na músi­ca para ado­les­centes que, durante o dia, tra­bal­ham na roça com os pais.

“Eu me iden­ti­fi­co com eles. Me vejo neles”. Além de Igaras­su e Recife, jovens em vul­ner­a­bil­i­dade na cidade de Ipo­ju­ca, no litoral sul, tam­bém têm chances de apren­der. Ao todo, são 400 alunos nas três unidades do pro­je­to. Para ele, tão impor­tante quan­to as notas musi­cais é a sol­i­dariedade que chega em sons e gestos, entre os mestres, os jovens e os músi­cos. Um impul­siona o out­ro a não desi­s­tir.

Música de paz

Enquan­to toca o con­cer­to para vio­lon­ce­lo do tcheco Antonín Dvorák (1841 — 1904) na por­ta de casa no Coque, Davi lamen­ta que perdeu ami­gos para a vio­lên­cia do bair­ro, antes toma­do por facções.

“A gente tin­ha na orques­tra fil­hos de pais de facções difer­entes. A músi­ca aju­dou a esta­b­ele­cer a paz muitas vezes”, afir­ma o músi­co.

Ele entende que a orques­tra ensi­na mais do que músi­ca. “A orques­tra lit­eral­mente tem um aspec­to social no Coque muito impor­tante que não cabe nos números. Ensi­na cidada­nia”.

O pro­je­to da orques­tra foi cri­a­do há 19 anos pelo juiz de dire­ito João Targino, do Tri­bunal de Justiça de Per­nam­bu­co (TJPE). Depois de inte­grar o Pro­gra­ma Cri­ança Cidadã, que atu­a­va em prol de pes­soas em situ­ação de rua, o mag­istra­do optou por cri­ar um coral. Das vozes aos instru­men­tos, foi uma nova ousa­dia.

“Nós escol­he­mos a comu­nidade do Coque porque tin­ha os piores índices de desen­volvi­men­to humano e o maior índice de vio­lên­cia”, recor­da.

O mae­stro José Rena­to Acci­oly, de 59 anos, diz que reunir jovens de cul­turas tão difer­entes é desafi­ador, mas mostra como a músi­ca tem lin­guagem uni­ver­sal. Ele expli­ca que o repertório vai con­tem­plar músi­cas das difer­entes nacional­i­dades. E, claro, inclui o fre­vo e med­ley de músi­cas brasileiras.

“São músi­cos de altís­si­mo nív­el. Inde­pen­den­te­mente se vão quer­er seguir na músi­ca, eles nun­ca esque­cerão dessa opor­tu­nidade que tiver­am de estar nes­sa orques­tra”.

Sotaque alemão

Um dos músi­cos expe­ri­entes que tocará na turnê é o con­tra­baix­ista Antoni­no Ter­tu­liano, de 32 anos. Ele tam­bém nasceu no Coque e ingres­sou na orques­tra quan­do tin­ha ape­nas 14 anos. Hoje, mora na Ale­man­ha e é inte­grante da Nieder­bay­erische Phil­har­monie Orch­ester (a orques­tra filar­môni­ca da Baixa Baviera). Ele é um entu­si­as­ta do pro­je­to e faz parte da orga­ni­za­ção dos even­tos inter­na­cionais. “O sig­nifi­ca­do que o Cri­ança Cidadã tem para mim é enorme. Eu ten­ho imen­sa gratidão”, disse, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Sem­pre que está no Brasil , visi­ta os anti­gos mestres e os novos alunos. “Apre­sen­to aos jovens a min­ha real­i­dade atu­al e digo que é pos­sív­el con­quis­tar o mun­do”.

Emo­ciona­do, recor­dou que, quan­do ingres­sou no pro­je­to, não tin­ha con­hec­i­men­to de músi­ca. Aluno de uma esco­la públi­ca local, se encan­tou depois que fez um teste de aptidão musi­cal.

“O pro­je­to remoldou o bair­ro e a comu­nidade. Esse pro­je­to social apre­sen­tou não só uma profis­são,  mas out­ra per­spec­ti­va de futuro”.

“Era difícil criar filho no Coque”

 

Recife (PE), 25/09/2025 - Cleybson Silva, integrante da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: Recife (PE) — Cleyb­son Sil­va, inte­grante da Orques­tra Cri­ança Cidadã. Foto: Augus­to Cataldi/Ascom OCC

Um dos jovens que chegou para o pro­je­to e depois virou vio­lon­celista foi Cleyb­son da Sil­va, de 21 anos. Chegou ao pro­je­to com 13 anos e, em 2020, perdeu a mãe para a Covid. “A músi­ca mudou total­mente o rumo da min­ha vida”, afir­ma Cleb­son, que hoje cur­sa licen­ciatu­ra em músi­ca na UFPE. O pai, Clay­ton Oliveira, de 44, tra­bal­ha com insta­lação de câmeras de segu­rança.

“Antiga­mente, era bem difí­cil cri­ar um fil­ho no Coque. Era muito perigoso mes­mo. A gente ouvia tiroteio sem­pre”, lem­bra Clay­ton.

Os barul­hos mudaram. Para ele a trans­for­mação do local tem dire­ta relação com a orques­tra. O pai está orgul­hoso porque o fil­ho mais novo, Bernar­do, de 7 anos, tam­bém já começou na orques­tra.

Recife (PE), 25/09/2025 - Ana Clara Gomes, integrante da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: Recife (PE) — Ana Clara Gomes, inte­grante da Orques­tra Cri­ança Cidadã. Foto: Augus­to Cataldi/Ascom OCC

Já Ana Clara Gomes, de 17 anos, se apaixo­nou pela vio­la quan­do esta­va na igre­ja evangéli­ca que fre­quen­ta. Foi amor ao primeiro som. Tan­to que pas­sou a desen­har até na parede as notas musi­cais des­de cri­ança. O cenário de sua vida tem a pais­agem do sub­úr­bio, dos tel­ha­dos com fal­has e fios embo­la­dos nos postes de luz.

Quan­do soube que teria a primeira opor­tu­nidade de via­jar para fora do Brasil, teve cin­co dias para ensa­iar músi­ca do com­pos­i­tor Camar­go Guarnieri (1907 — 1993).  “Eu fiquei estu­dan­do sem parar”. A primeira musicista da família foi cri­a­da pela mãe, que é téc­ni­ca de enfer­magem, e viu na músi­ca uma chance de feli­ci­dade depois que o pai mor­reu, há oito anos.

Há um ano, Ana con­seguiu com­prar, em prestações, o próprio instru­men­to. E pen­sar que no começo, o que fazia o papel da vio­la era a caixa de sabão em pó, a fim de sen­tir o peso do novo instru­men­to.

Sabão em pó

 

Recife (PE), 25/09/2025 - Pedro Martins, integrante da Orquestra Criança Cidadã. Foto: Augusto Cataldi/Ascom OCC
Repro­dução: Recife (PE) — Pedro Mar­tins, inte­grante da Orques­tra Cri­ança Cidadã. Foto: Augus­to Cataldi/Ascom OCC

O vio­lin­ista Pedro Mar­tins, de 21 anos, tam­bém uti­li­zou a caixa de sabão em pó, como se fos­se o instru­men­to, e o lápis, como se fos­se o arco. “Se não segu­rar o vio­li­no dire­ito, a músi­ca sai difer­ente”. Ele teve gos­to pela músi­ca ouvin­do o pai, que é motorista de aplica­ti­vo, tocan­do vio­lão na sala.

Para imag­i­nar a músi­ca, lev­a­va CD para casa para tocar no anti­go apar­el­ho de som. Quan­do começou, não tin­ha com­puta­dor em casa, nem celu­lar.

“Trans­for­ma­va a peque­na sala de casa no meu pal­co. Meus pais tin­ham que me ouvir”, lem­bra Pedro.

O pai, George Sil­va, de 41 anos, orgul­hoso, recor­da que muda­va os horários do tra­bal­ho para aplaudir o fil­hão, que cur­sa músi­ca na UFPE. “Ele não se envolveu com coisa erra­da. Ele não mex­ia no vio­lão da igre­ja. Quem diria que ago­ra vai via­jar o mun­do por aí. Eu nun­ca pas­sei nem per­to de um avião ou de fac­ul­dade”.

O pai lamen­ta que perdeu um irmão, cun­hado e ami­gos para “coisas erradas”, par­tic­u­lar­mente o envolvi­men­to com dro­gas. O fil­ho toca vio­li­no e ele vê o bair­ro de antes ficar cada vez mais dis­tante. O Coque, as difi­cul­dades de todos os dias, a esper­ança que bateu à por­ta dos viz­in­hos.

O mun­do virou out­ro e nem pre­cisou de avião. Começou com uma caixa de sabão em pó.

“Cada vez que eu toco, eu pen­so nos meus pais e o quan­to eles insi­s­ti­ram. Hoje nos­sa família se sente nas nuvens”, disse o vio­lin­ista antes do embar­que.

 

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