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Mulheres defendem políticas públicas para demandas do pós-pandemia

Repro­dução: © Tânia Rêgo

Agência Brasil conversou com mulheres que lutam contra desigualdades


Pub­li­ca­do em 08/03/2022 — 07:12 Por Cami­la Maciel — Repórter da Agên­cia Brasil — São Paulo

Sem ren­da, com sobre­car­ga nos tra­bal­hos domés­ti­cos e mais vio­lên­cia em casa: essa é a real­i­dade de muitas mul­heres no con­tex­to da pan­demia de covid-19. Essas situ­ações sem­pre estiver­am pre­sentes, mas se inten­si­ficaram a par­tir de 2020. No Dia Inter­na­cional da Mul­her, comem­o­ra­do hoje (8), a Agên­cia Brasil con­ver­sou com mul­heres que atu­am no com­bate às desigual­dades e no apoio às suas comu­nidades. 

“Os seres humanos são depen­dentes desse tra­bal­ho de cuida­do. Ele é fun­da­men­tal para uma sociedade fun­cionar e essa ação está pri­or­i­tari­a­mente sobre respon­s­abil­i­dade das mul­heres. Isso é algo que a sociedade dev­e­ria recon­hecer e repen­sar”, propõe Sônia Coel­ho, da Sem­pre­vi­va Orga­ni­za­ção Fem­i­nista (SOF). Ela expli­ca que a sus­tentabil­i­dade da vida está nas mãos de um tra­bal­ho invisív­el e não remu­ner­a­do, feito por mul­heres.

Pesquisa da SOF, real­iza­da em 2020, mostrou que 50% das mul­heres brasileiras pas­saram a cuidar de alguém na pan­demia. O per­centu­al é maior entre as mul­heres negras, atingin­do 52%. Entre as mul­heres bran­cas, o índice é 46%. “Além de car­regar o peso do tra­bal­ho de cuidar, elas sofr­eram impacto pela per­da da ren­da, per­da do emprego, difi­cul­dade de aces­so aos pro­gra­mas de pro­teção social”, afir­ma Maitê Gau­to, ger­ente de Pro­gra­mas e Incidên­cia da Oxfam Brasil.

De acor­do com o Depar­ta­men­to Inter­sindi­cal de Estatís­ti­ca e Estu­dos Econômi­cos (Dieese), em bole­tim espe­cial para esta data, no ter­ceiro trimestre de 2021 a força de tra­bal­ho fem­i­ni­na era de 46,3 mil­hões, 1,1 mil­hão a menos do que no mes­mo trimestre de 2019, quan­do soma­va 47,5 mil­hões. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Con­tínua.

Para o Dieese, isso sig­nifi­ca que as tra­bal­hado­ras que deixaram o mer­ca­do de tra­bal­ho durante a pan­demia ain­da não havi­am retor­na­do no ano pas­sa­do. O número é maior pelo recorte de raça. A redução entre as negras na força de tra­bal­ho foi de 925 mil mul­heres no perío­do, enquan­to as mul­heres não negras cor­re­spon­der­am a 189 mil.

“Eu fiz algu­mas rodas de con­ver­sa com mul­heres em comu­nidades, e quan­do a gente dis­cu­tia o que mais afe­tou na pan­demia era una­n­im­i­dade a questão da ren­da. Ali­a­do a isso, esta­va a questão da fome, que afe­ta fun­da­men­tal­mente mul­heres e cri­anças. Afe­ta toda a pop­u­lação, mas quan­do você vê, de quem é cobra­da a respon­s­abil­i­dade de ter uma comi­da na pan­ela? Se a pan­ela estiv­er vazia, as cri­anças vão per­gun­tar para a mãe”, afir­ma.

Suporte

Essa é uma real­i­dade que a advo­ga­da Letí­cia Lefevre con­heceu de per­to. Ela é cofun­dado­ra da comu­nidade Cri­anças Espe­ci­ais, que reúne 3,5 mil­hões de pes­soas no Face­book. “A maio­r­ia é for­ma­da por mul­heres — que é quem cui­da. A maio­r­ia está em extrema vul­ner­a­bil­i­dade social”, diz. Durante a pan­demia, ela se divid­iu no cuida­do dos próprios fil­hos, no emprego como secretária exec­u­ti­va e na ori­en­tação às famílias do grupo. “Ali elas encon­tram acol­hi­men­to, infor­mações, apoio.”

Para a téc­ni­ca de enfer­magem Anna Fer­reira, o tra­bal­ho na lin­ha de frente da covid-19 trouxe desafios adi­cionais. “Tra­bal­ho em um serviço de atenção domi­cil­iar. Durante a pan­demia mudou muito, não tin­ha mais visi­ta de roti­na. Muitas vezes a gente ia, mas já tin­ha que chamar o Samu [Serviço de Atendi­men­to Móv­el de Urgên­cia]”, lem­bra. O medo da doença, a per­da de cole­gas, os dias longe da família. “A gente tin­ha muito a pre­ocu­pação de não levar o vírus para casa”, rela­ta.

Questão coletiva

Maitê Gau­to lem­bra que, ape­sar de muitos prob­le­mas estarem no ambi­ente domés­ti­co, as soluções estão nas políti­cas públi­cas. “Que as mul­heres ten­ham condições min­i­ma­mente ade­quadas de tra­bal­har e bus­car o próprio desen­volvi­men­to pes­soal”. E políti­cas públi­cas são parte de uma con­cer­tação nacional e cole­ti­va que entende que é dire­ito da mul­her poder sair para tra­bal­har, ter um lugar onde deixar os fil­hos em segu­rança e em condições de cuida­do”, defende.

Nesse sen­ti­do, Maitê desta­ca como fun­da­men­tais as políti­cas de trans­fer­ên­cia de ren­da. “A gente nun­ca pode esque­cer que quem tem fome tem pres­sa. A fome não espera, então essas políti­cas são fun­da­men­tais para garan­tir condições mín­i­mas de sobre­vivên­cia, dig­nidade, para aque­las famílias que estão em situ­ação de maior vul­ner­a­bil­i­dade”. Sônia con­cor­da que, entre as medi­das pri­or­itárias de com­bate às desigual­dade no con­tex­to pós-pan­demia, está a da ren­da bási­ca.

Out­ras políti­cas tam­bém são lem­bradas por elas, ten­do em vista que os pre­con­ceitos de gênero ger­am cobranças em diver­sos níveis para as mul­heres. Entre elas as de pro­teção social, assistên­cia social, edu­cação infan­til “que garan­tem condições para que as mul­heres pos­sam viv­er a sua vida, tra­bal­har, estar fora de casa e não ficar ape­nas nesse papel tradi­cional do cuida­do e, além de tudo, sendo cobra­da pelos dois lados”, desta­ca Maitê.

Edição: Graça Adju­to

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