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Show no Rio marca 90 anos do cantor e compositor Monarco

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Sambas de sua autoria contam parte da história da Portela


Pub­li­ca­do em 17/08/2023 — 07:44 Por Cristi­na Indio do Brasil — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

ouvir:

“Dedi­co esse DVD a você, min­ha com­pan­heira, que me lev­an­ta para eu can­tar por aí, porque tive época em que esta­va desan­i­ma­do e essa mul­her dizia: você vai can­tar, você pre­cisa can­tar, pre­cisa sair, não fica deita­do nes­sa cama, vai com­por. Quan­do faço um sam­ba novo, ela é a primeira a ouvir. Diz: vai em frente meu fil­ho, vai pro­duzir. Obri­ga­do, meu amor, por tudo, min­ha com­pan­heira!”.

A ded­i­catória de Hilde­mar Diniz para Olin­da da Sil­va Diniz foi fei­ta em 2011, na gravação de um DVD, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, zona sul do Rio. E não foi a úni­ca nos 27 anos de rela­ciona­men­to do casal. Hilde­mar é o grande com­pos­i­tor e can­tor Monar­co, balu­arte e ex-pres­i­dente de hon­ra da Portela, que se fos­se vivo com­ple­taria 90 anos nes­ta quin­ta-feira (17). Nos anos em que viver­am jun­tos tam­bém não fal­taram com­posições em hom­e­nagem a ela. “Nós vive­mos um grande amor. Nós vive­mos uma vida lin­da”, disse Olin­da em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Em out­ra ded­i­catória, numa foto que deu para a mul­her, escreveu: “Lin­da eter­na­mente, Olin­da. Son­ho que se real­i­zou em min­ha vida. Você é o grande amor que Deus me deu. Bei­jos do seu queri­do amor. Monar­co. 17/12/96”.

“Eu guar­do essa foto que ele me deu de pre­sente. Fora os bil­het­inhos muito amorosos que guar­do com muito car­in­ho”, con­tou Olin­da, para quem Monar­co esta­va muito “lind­in­ho, pare­cia um menin­in­ho” na foto.

O iní­cio do namoro demor­ou uns dois anos porque Olin­da resis­tia, achan­do que não daria cer­to. Afi­nal, já tin­ha três fil­has e um casa­men­to des­feito. A per­sistên­cia de Monar­co acabou mostran­do que esta­va erra­da. “Nós começamos a namorar no Jacarez­in­ho [comu­nidade da zona norte do Rio], na Rua San­ta Lau­ra. Me lem­bro bem que ele me roubou um bei­jo”, disse, acres­cen­tan­do que uma ami­ga deu força para ela aceitar o namoro, anteven­do que seria muito feliz com Monar­co.

Matéria 90 anos de Monarco. O texto faz referência a esta foto e à dedicatória. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­dução: Matéria 90 anos de Monar­co. O tex­to faz refer­ên­cia a esta foto e à ded­i­catória. Foto: Arqui­vo Pes­soal — Arqui­vo pes­soal

Casamento

Ain­da assim, namoraram durante dez anos, até que se casaram na quadra da Portela, com dire­ito a par­tic­i­pações do can­tor e com­pos­i­tor Paulin­ho da Vio­la, da can­to­ra Beth Car­val­ho, do car­tunista Lan e do com­pos­i­tor Guil­herme de Brito. “Ele me disse: você é a mul­her da min­ha vida. Vamos casar? Eu falei: ago­ra, só se for ago­ra”, comen­tou, sor­rindo, sobre o pedi­do feito pelo com­pan­heiro.

Monar­co mor­reu no dia 11 de dezem­bro de 2021, em con­se­quên­cia de com­pli­cações após uma cirur­gia de intesti­no. “Eu me emo­ciono a cada vez que falo nele. Um ano e oito meses fez ago­ra, dia 11, que a gente se des­pediu com lágri­mas nos olhos e eu dizen­do para ele o quan­to o ama­va e o quan­to era impor­tante na min­ha vida. Era não, é”, afir­mou.

“Ele dizia toda man­hã: pret­inha eu já te disse hoje o quan­to te amo? Como sin­to saudade de ouvir isso todos os dias. E eu dizia para ele: meu fil­ho, eu sou a mul­her mais feliz, porque amo você tam­bém. Eu pude dar a ele a ale­gria de ser ama­do”.

Compositor

A car­reira começou cedo. Aos 8 anos, com­pôs o primeiro sam­ba. Numa entre­vista em janeiro de 2016 à Agên­cia Brasil, Monar­co con­tou que tin­ha 12 anos quan­do se mudou de Nova Iguaçu, na Baix­a­da Flu­mi­nense, para Oswal­do Cruz, na zona norte do Rio. A casa fica­va bem per­to da quadra da esco­la, con­heci­da atual­mente como Portelão. “Era só descer, e em cin­co min­u­tos esta­va den­tro da Portela”, lem­brou, na época.

Antes de se mudar para Oswal­do Cruz, mora­va em Nova Iguaçu onde já ouvia, pelo rádio, músi­cas que se refe­ri­am à esco­la e que des­per­taram o seu amor pela azul e bran­co. “Quan­do cheguei a Oswal­do Cruz, disse aos meus irmãos que ali era a Portela. Fui com a min­ha família. Eu era o menor”.

Compositor da Velha Guarda da Portela, Monarco está na escola de Madureira desde os 12 anos
Repro­dução: Com­pos­i­tor da Vel­ha Guar­da da Portela, Monar­co está na esco­la de Madureira des­de os 12 anos — Divulgação/Arquivo pes­soal

Parte da história da Portela pode ser con­ta­da tam­bém pelos sam­bas de Monar­co, que enal­te­cem a esco­la e o bair­ro de Oswal­do Cruz. O primeiro foi em 1952. O com­pos­i­tor fazia questão de destacar que emb­o­ra se fale da azul e bran­co como esco­la de Madureira, a origem é out­ra. “Oswal­do Cruz foi onde ela nasceu. Queira ou não queira, não se pode rene­gar o lugar em que nasceu. Eu gos­to muito de Madureira, mas ela tem as raízes fin­cadas em Oswal­do Cruz”, afir­mou, acres­cen­tan­do que os dois bair­ros cresce­r­am muito e se mis­tu­raram.

Surpresa

Quan­do se con­hece­r­am, Olin­da não sabia que ele era um com­pos­i­tor de destaque no mun­do do sam­ba. Ficou sur­pre­sa ao saber que a músi­ca Fim de Sofri­men­to, da qual gosta­va muito e pen­sa­va ser de Beth Car­val­ho, tin­ha sido com­pos­ta por ele. “Eu quase caí dura e fiquei com a cara ver­mel­ha”, comen­tou, desta­can­do que na gravação do DVD ele a sur­preen­deu can­tan­do a músi­ca e ain­da ded­i­can­do a ela.

Homenagens

A lista de definições de Monar­co mostra o quan­to o artista é rev­er­en­ci­a­do. “Esse homem é de um caráter imen­su­ráv­el, de dig­nidade, car­in­ho, amor, respeito. Eu não ten­ho mais adje­tivos para qual­i­ficar essa pes­soa lin­da chama­da Hilde­mar Diniz, o Monar­co da Portela, o meu grande amor”, disse Olin­da.

“Monar­co é matéria obri­gatória para quem tra­bal­ha com sam­ba, na qual­i­dade musi­cal e de letras fan­tás­ti­cas. Era uma pes­soa extra­ordinária, fan­tás­ti­ca e muito gen­erosa. Além de tudo era um grande can­tor, com uma exten­são vocal muito mar­cante. Era com­ple­to. Real­mente dá saudade. Estou feliz de ir lá para hom­e­nageá-lo”, disse a can­to­ra Nilze Car­val­ho à reportagem, desta­can­do que as letras tin­ham sim­pli­ci­dade porque falavam dire­to ao coração, mas as melo­dias tin­ham cer­ta com­plex­i­dade.

“Pes­soa de um tal­en­to incrív­el”, disse a pesquisado­ra da Músi­ca Pop­u­lar Brasileira, com­pos­i­to­ra e escrito­ra Marília Trindade Bar­boza.

“O lega­do que ele deixou mar­ca não só pela questão musi­cal, mas de con­du­ta pes­soal. A humil­dade, a per­son­al­i­dade dele, não se fazia humilde, era humilde. As pes­soas dizem que a una­n­im­i­dade é bur­rice, mas ele era unân­ime. Todos gostavam dele”, disse o com­pos­i­tor e pro­du­tor musi­cal Mau­ro Diniz, fil­ho de Monar­co.

A pesquisado­ra con­tou ain­da que quan­do se prepar­a­va para faz­er a biografia de Paulo Ben­jamin de Oliveira, o Paulo da Portela, fun­dador da azul e bran­co, foi à quadra da esco­la e con­heceu a Vel­ha Guar­da, que tin­ha Monar­co como líder. “Ele me aju­dou a con­duzir o tra­bal­ho, me apre­sen­tou às pes­soas cer­tas e, de lá pra cá, tive­mos uma tro­ca muito grande”, afir­mou, lem­bran­do que Monar­co tin­ha em Paulo da Portela um ído­lo.

A importân­cia das obras deix­adas por Monar­co é tam­bém una­n­im­i­dade. “E fico feliz de as pes­soas não deixarem esse lega­do mor­rer. Aque­la voz mar­avil­hosa, aque­le tim­bre, aque­le grave na voz que ninguém tem”, obser­vou Olin­da.

90 anos

Para mar­car os 90 anos de Monar­co, ami­gos, par­entes e admi­radores se reúnem nes­ta quin­ta-feira (17) em um show. O espetácu­lo, mar­ca­do para começar às 18h30, será no auditório do 9º andar da sede da Asso­ci­ação Brasileira de Impren­sa (ABI), no cen­tro do Rio. A orga­ni­za­ção é do ex-pres­i­dente da Portela e dire­tor cul­tur­al da Liga das Esco­las de Sam­ba do Rio (Liesa) e da Fed­er­ação Nacional das Esco­las de Sam­ba (Fenasam­ba), Luiz Car­los Mag­a­l­hães, da pesquisado­ra Marília Trindade Bar­boza, de Olin­da e de um grupo de ami­gos do com­pos­i­tor porte­lense.

Rio de Janeiro (RJ), 25/07/2023 - Esculturas de Cartola e Monarco no Museu do Samba, na Mangueira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Museu do Sam­ba, na Mangueira, por Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A direção musi­cal é do pro­du­tor e com­pos­i­tor Mau­ro Diniz e do músi­co Paulão 7 Cor­das. “A gente tem uma expec­ta­ti­va muito boa de que seja uma hom­e­nagem por tudo aqui­lo que ele plan­tou e deixou pra gente”, disse o fil­ho.

Ele con­tou que se tornou músi­co por influên­cia do pai, ape­sar de preferir que o fil­ho “fos­se doutor”. “Quan­do viu, eu já esta­va tocan­do um pouco, esta­va escreven­do uma cois­in­ha e depois nos tor­namos par­ceiros. Uma coisa muito boni­ta. Temos vários sam­bas inédi­tos”, rela­tou.

Marília Bar­boza lem­brou que, coin­ci­den­te­mente, a ABI foi o primeiro emprego de carteira assi­na­da de Monar­co, quan­do tin­ha 15 anos. “Ele teve lá um dos momen­tos mais felizes, porque era cri­ança, tin­ha 15 anos e ali teve chances mar­avil­hosas. A ABI era uma coisa efer­ves­cente naque­le tem­po, os jor­nal­is­tas e int­elec­tu­ais iam para lá e ele arru­ma­va a mesa para [Heitor] Vil­la-Lobos jog­ar bil­har. Ele con­heceu os grandes ícones do jor­nal­is­mo, o pes­soal da Acad­e­mia Brasileira de Letras”, comen­tou a pesquisado­ra.

Já estão con­fir­madas as apre­sen­tações da Vel­ha Guar­da da Portela, de Nilze Car­val­ho, Dori­na, Ton­in­ho Ger­aes, Tânia Macha­do, Didu Nogueira, Mar­quin­hos Diniz, Eliane Farias, Irace­ma Mon­teiro, Léo Rus­so e Pedro Paulo Mal­ta, entre out­ros. O encer­ra­men­to será com a esco­la de sam­ba mir­im da Portela, Fil­hos da Águia. “A ideia é man­dar a músi­ca do Monar­co para o futuro”, afir­mou Marília.

“Estou cul­ti­van­do a memória dele. Isso está me fazen­do feliz. Não quero que esse lega­do, que ele deixou para nós e para o uni­ver­so, se apague. O son­ho de Monar­co era ver um jovem can­tan­do um sam­ba dele”, disse Olin­da.

A entra­da é fran­ca e quem não for ao local, poderá assi­s­tir o show ao vivo pelo canal ABITV no YouTube.

Edição: Graça Adju­to

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