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Mulheres no climatério estão entre as que mais abusam do álcool

Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

“Elas costumam beber isoladamente e com frequência”, diz especialista


Pub­li­ca­do em 18/02/2023 — 15:44 Por Alana Gan­dra e Heloisa Cristal­do — Repórteres da Agên­cia Brasilórtes — Rio de Janeiro e Brasília

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Um dos prin­ci­pais per­fis de mul­her que abusa do álcool são aque­las em fase de tran­sição do perío­do repro­du­ti­vo para o não repro­du­ti­vo, o chama­do cli­matério. O dado faz parte de pesquisa do Pro­gra­ma Saúde Men­tal da Mul­her (Pro­Mul­her), do Insti­tu­to de Psiquia­tria do Hos­pi­tal das Clíni­cas da Fac­ul­dade de Med­i­c­i­na da USP. Este sába­do (18) é mar­ca­do pelo Dia Nacional de Com­bate ao Alcoolis­mo.

“Elas cos­tu­mam beber iso­lada­mente e com fre­quên­cia, como for­ma de enfrenta­men­to das alter­ações hor­mon­ais, psi­cológ­i­cas e com­por­ta­men­tais”, expli­ca o gine­col­o­gista Car­los Moraes, espe­cial­ista em infer­til­i­dade e ultra­ssom em gine­colo­gia e obstetrí­cia pela Fed­er­ação Brasileira das Asso­ci­ações de Gine­colo­gia e Obstetrí­cia (Febras­go).

Para as mul­heres que já adoe­ce­r­am dev­i­do ao alcoolis­mo, a pres­i­dente da Asso­ci­ação Brasileira de Estu­dos do Álcool e out­ras Dro­gas (Abead), Alessan­dra Diehl, desta­cou a difi­cul­dade de aces­so a trata­men­tos. “Hoje, por exem­p­lo, se você pre­cis­ar de gru­pos especí­fi­cos para as mul­heres, nós vamos ter difi­cul­dade, quer seja no ambu­latório, quer seja em inter­nação exclu­si­va para mul­heres. São pouquís­si­mos os serviços no Brasil”.

Por essa razão, dois movi­men­tos cresce­r­am muito durante a pan­demia da covid-19, e con­tin­u­am a crescer. Um é o Colcha de Retal­hos, braço do Alcooli­cos Anôn­i­mos (AA), que envolve gru­pos temáti­cos exclu­sivos para mul­heres.

“E isso tem dado muito cer­to porque uma mul­her, jun­to com out­ras mul­heres, se sente muito mais à von­tade para poder par­til­har coisas que são da sua intim­i­dade, do uni­ver­so fem­i­ni­no, e que, em um grupo mis­to, seria mais difí­cil de falar”.

O out­ro movi­men­to é a Asso­ci­ação Alcoolis­mo Fem­i­ni­no (AAF), cri­a­do por uma alcoolista em recu­per­ação e que ini­ciou a ativi­dade na pan­demia orga­ni­zan­do gru­pos online para mul­heres que não con­seguiam aces­sar gru­pos pres­en­ci­ais. “Isso foi crescen­do e, hoje, se tornou uma asso­ci­ação que tem acol­hi­do mul­heres nas suas especi­fi­ci­dades: mul­heres bar­iátri­c­as, mul­heres lés­bi­cas, mul­heres com prob­le­mas com álcool e medica­men­tos”.

Pandemia

Segun­do o psiquia­tra e pres­i­dente do Cen­tro de Infor­mações sobre Saúde e Álcool (CISA), Arthur Guer­ra, algu­mas pes­soas mudaram o hábito de ingestão de álcool durante a pan­demia de covid-19.

“Pes­soas que só bebi­am no final de sem­ana, durante a pan­demia começaram a beber todos os dias à noite. A pan­demia trouxe ain­da uma sen­sação de que muitas pes­soas ficavam iso­ladas, depres­si­vas, angus­ti­adas, com medo de con­trair o vírus, de serem intubadas, de mor­rer. Por essa razão, algu­mas pes­soas que tin­ham ess­es medos começaram a beber mais para ten­tar diminuir o medo, a angús­tia. Isso [acon­te­ceu] de for­ma ger­al, mas foi mais acen­tu­a­do para as mul­heres porque ela con­tin­u­ou ten­do na pan­demia, as funções que tin­ham antes como cuidar da casa, da edu­cação dos fil­hos. A mul­her ficou sobre­car­rega­da durante a pan­demia e não tin­ha com o que extravasar”, afir­mou Guer­ra.

De acor­do com admin­istrador Fábio Quin­tas, colab­o­rador do Alcóoli­cos Anôn­i­mos (AA), o per­fil dos mem­bros do grupo mudou em vir­tude da pan­demia de covid-19.

“Na pan­demia, quan­do começamos o proces­so por video­con­fer­ên­cia, vimos que metade dos pedi­dos de aju­da vin­ha de mul­heres. Isso dis­son­a­va, era difer­ente do que tín­hamos antes da pan­demia. Ou seja, os con­tatos que eram feitos antes da pan­demia eram muito menores, de 5 a 13% de mul­heres que pedi­am aju­da. Já no primeiro ano da pan­demia, os con­tatos feitos por mul­heres chegaram a 45%”.

A vende­do­ra D.C.A., de 43 anos, con­ta que usou a bebi­da alcóoli­ca para aliviar o con­jun­to de sen­ti­men­tos neg­a­tivos, como ansiedade, medo e solidão durante o perío­do de pan­demia.

“O afas­ta­men­to social lim­i­tou muito o con­vívio com os ami­gos e famil­iares. O medo do futuro, a incerteza sobre tudo que está­va­mos viven­do, a morte de muitos ami­gos e par­entes, me levaram a uma grande tris­teza e acaba­va beben­do mais e por mais dias. O que era somente nos fins de sem­ana, pas­sou a ser durante a sem­ana tam­bém. O álcool era uma válvu­la de escape nesse perío­do som­brio que está­va­mos pas­san­do”, descreveu.

Complicações

A psiquia­tra Alessan­dra Diehl lem­bra que o alcoolis­mo tam­bém envolve dependên­cia quími­ca. De acor­do com a médi­ca, as mul­heres têm, primeiro, depressão ou transtorno ali­men­tar, e, depois, desen­volvem alcoolis­mo.

A médi­ca rela­ta que a asso­ci­ação entre bar­iátri­ca e alcoolis­mo tem sido muito vista na práti­ca clíni­ca em con­sultório. E que, na mul­her, o uso de sub­stân­cias em ger­al é pre­ce­di­do por um quadro psiquiátri­co de depressão ou transtorno ali­men­tar, ou uma bipo­lar­i­dade, transtorno de ansiedade ou de humor, ou, ain­da, por um trau­ma.

Fertilidade

Segun­do o estu­do Mul­ti­cên­tri­co, divul­ga­do pelo Nation­al Insti­tute on Alco­hol Abuse and Alco­holism (NIAAA), no perío­do ovu­latório o con­sumo ele­va­do de álcool está asso­ci­a­do a menores taxas de con­cepção. Nor­mal­mente, a chance de engravi­dar espon­tanea­mente em um ciclo é 25%. Caso a mul­her con­suma álcool mod­er­ada­mente, essa chance cai para 20%, mas se o con­sumo é alto, a redução é quase pela metade, atingin­do 11%.

O gine­col­o­gista e obste­tra Car­los Moraes esclare­ceu que “o álcool pode afe­tar a con­cen­tração de hor­mônios endógenos, prej­u­di­can­do a ovu­lação e a recep­tivi­dade do endométrio, o que diminui as chances de fix­ação do embrião e, por­tan­to, da gravidez”.

O álcool tam­bém pode aumen­tar o risco de a mul­her desen­volver câncer de mama. É o que apon­ta a Agên­cia Inter­na­cional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC). De acor­do com a agên­cia, o risco de desen­volver câncer de mama aumen­ta de 7% para 10% a cada dose de álcool con­sum­i­da diari­a­mente, levan­do em con­ta que uma dose padrão de álcool equiv­ale a 14 g de álcool puro, o que cor­re­sponde a uma lata de cerve­ja, uma taça de vin­ho ou uma dose peque­na de bebi­da con­cen­tra­da (shot) de des­ti­la­do.

Edição: Valéria Aguiar

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