...
sexta-feira ,16 janeiro 2026
Home / Noticias / Mulheres e pandemia: covid acentuou desigualdade no trabalho doméstico

Mulheres e pandemia: covid acentuou desigualdade no trabalho doméstico

Repro­dução: © Arquivo/Agência Brasil

Pesquisa mostra sobrecarga de quem cuidava de crianças e idosos


Pub­li­ca­do em 11/03/2023 — 10:00 Por Paula Labois­sière – Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília

ouvir:

banner_pandemia

Uma das primeiras mortes por covid-19 no Brasil foi con­fir­ma­da pela Sec­re­taria de Saúde do Rio de Janeiro em 12 de março de 2020. A víti­ma, uma mul­her de 63 anos, tra­bal­ha­va como empre­ga­da domés­ti­ca e pegou o vírus depois que a patroa retornou de uma viagem à Europa e testou pos­i­ti­vo para a doença.

No mes­mo dia, a Sec­re­taria de Saúde de São Paulo tam­bém con­fir­mou uma morte pela doença. A víti­ma, out­ra mul­her, de 57 anos, que tra­bal­ha­va como diarista e deixou um fil­ho com defi­ciên­cia. Os primeiros óbitos cau­sa­dos pelo vírus no país são emblemáti­cos e refletem a vul­ner­a­bil­i­dade das mul­heres frente à doença – sobre­tu­do as mais pobres e negras.

Pesquisa da Sem­pre­vi­va Orga­ni­za­ção Fem­i­nista, real­iza­da nos primeiros meses da pan­demia, mostra como a crise na saúde e o iso­la­men­to social acen­tu­aram as desigual­dades nas tare­fas domés­ti­cas. Segun­do a enti­dade, a sobre­car­ga de tra­bal­ho e de cuida­do foram questões que as mul­heres sen­ti­ram logo que as medi­das de iso­la­men­to social começaram.

Três de cada qua­tro mul­heres ouvi­das no lev­an­ta­men­to e respon­sáveis pelo cuida­do de cri­anças, idosos ou pes­soas com defi­ciên­cia, afir­maram que a neces­si­dade de mon­i­torar e faz­er com­pan­hia aumen­tou. Para a orga­ni­za­ção, essa é uma dimen­são do cuida­do que muitas vezes é invis­i­bi­liza­da. “Em casa, os tem­pos do cuida­do e do tra­bal­ho remu­ner­a­do se sobrepõem no cotid­i­ano das mul­heres: mes­mo enquan­to real­izam out­ras ativi­dades cotid­i­anas, elas seguem aten­tas”, indi­ca o relatório da Sem­pre­vi­va.

“As dinâmi­cas de vida e tra­bal­ho das mul­heres se con­trapõem ao dis­cur­so de que a econo­mia não pode parar, mobi­liza­do para se opor às recomen­dações de iso­la­men­to social. Os tra­bal­hos necessários para a sus­tentabil­i­dade da vida não pararam – não podem parar. Pelo con­trário, foram inten­si­fi­ca­dos na pan­demia”, desta­cou a enti­dade. Os números apon­tam que metade das mul­heres brasileiras pas­sou a cuidar de alguém durante a pan­demia.

Ain­da de acor­do com o lev­an­ta­men­to, 40% das mul­heres ouvi­das afir­maram que a pan­demia e a situ­ação de iso­la­men­to social colo­caram o sus­ten­to da casa em risco. A maior parte das que têm essa per­cepção são mul­heres negras (55%) que, no momen­to em que respon­der­am à pesquisa, tin­ham como difi­cul­dades prin­ci­pais o paga­men­to de con­tas bási­cas ou do aluguel. O aces­so a ali­men­tos tam­bém foi uma pre­ocu­pação.

»> Clique aqui e con­fi­ra todas as matérias da Agên­cia Brasil sobre os três anos da pan­demia de covid-19

Violência

Sobre a per­cepção de vio­lên­cia, 91% das mul­heres acred­i­tam que a vio­lên­cia domés­ti­ca aumen­tou em meio ao iso­la­men­to social. Quan­do per­gun­tadas sobre exper­iên­cias pes­soais, no entan­to, menos de 10% afir­maram ter sofri­do algu­ma for­ma de vio­lên­cia nesse perío­do.

O per­centu­al aumen­ta entre mul­heres nas faixas de ren­da mais baixa. Entre mul­heres com ren­da famil­iar de até um salário mín­i­mo, 12% afir­mam ter sofri­do vio­lên­cia; e entre mul­heres que vivem em áreas rurais e estão na mes­ma faixa de ren­da, 11,7% relataram vio­lên­cia.

“O cuida­do está no cen­tro da sus­tentabil­i­dade da vida. Não há a pos­si­bil­i­dade de dis­cu­tir o mun­do pós-pan­demia sem levar em con­sid­er­ação o quan­to isso se tornou evi­dente nesse momen­to de crise glob­al, que nos fala sobre uma ‘crise do cuida­do’. Não se tra­ta de um prob­le­ma a ser resolvi­do, nem de uma deman­da a ser absorvi­da pelo mer­ca­do. Tra­ta-se de uma dimen­são da vida que não pode ser regi­da pelas dinâmi­cas soci­ais pau­tadas no acú­mu­lo de ren­da e de priv­ilé­gios.”

Homenagem

Nas redes soci­ais, a fil­ha da diarista que mor­reu por covid-19 há três anos con­ta que pas­sou a cuidar do irmão com defi­ciên­cia, além de três cri­anças que já estavam sob sua respon­s­abil­i­dade. Em hom­e­nagem à mãe, pos­tou:

“Ah, se eu soubesse que era a últi­ma vez que eu iria te ver. Ah, se eu soubesse que aque­le ‘até logo’ não iria acon­te­cer. Eu tin­ha te abraça­do tão aper­ta­do. Não deixaria você par­tir. Ficaria do meu lado. Ficaria aqui. Ah, se eu pudesse acor­dar hoje e fos­se só um pesade­lo. Ah, se eu pudesse mudar o des­ti­no. Faria um ape­lo: pra Deus não deixar você par­tir”.

Edição: Denise Griesinger

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Toffoli envia material apreendido no caso Master para análise da PGR

Decisão ocorre após pedido do procurador-geral da República Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agên­cia …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d